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27.3.08

DITADURA DE 1964/85: FRACASSO E IGNOMÍNIA

Celso Lungaretti (*)

Ao completarem-se 44 anos da quebra da normalidade institucional no Brasil, mergulhando o País nas trevas e na barbárie durante duas décadas, é oportuno evocarmos o que realmente foi essa ditadura, defendida hoje com tamanha desfaçatez pelos culpados inúteis e com tanta ingenuidade pelos inocentes úteis.

Como frisou a bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, cabe a nós, sobreviventes do pesadelo, o papel de sentinelas do corpo e do sacrifício dos nossos irmãos que já se foram, assegurando-nos de que a memória não morra – mas, pelo contrário, sirva de vacina contra novos surtos da infestação virulenta do totalitarismo.

Nessa efeméride negativa, o primeiro ponto a destacar é que a quartelada de 1964 foi o coroamento de uma longa série de articulações e tentativas golpistas, nada tendo de espontâneo nem sendo decorrente de situações conjunturais; estas foram apenas pretextos, não causa.

Há controvérsias sobre se a articulação da UDN com setores das Forças Armadas para derrubar o presidente Getúlio em 1954 desembocaria numa ditadura, caso o suicídio e a carta de Vargas não tivessem virado o jogo. Mas, é incontestável que a ultra-direita vinha há muito tempo tentando usurpar o poder.

Em novembro/1955, uma conspiração de políticos udenistas e militares extremistas tentou contestar o triunfo eleitoral de Juscelino Kubitscheck, mas foi derrotada graças, principalmente, à posição legalista que Teixeira Lott, o ministro da Guerra, assumiu. Um dos golpistas presos: o então tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, que viria a ser o formulador da doutrina de Segurança Nacional e eminência parda do ditador Geisel.

Em fevereiro de 1956, duas semanas após a posse de JK, os militares já se insubordinavam contra o governo constitucional, na revolta de Jacareacanga.

Os oficiais da FAB repetiram a dose em outubro de 1959, com a também fracassada revolta de Aragarças.

E, em agosto de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, as Forças Armadas vetaram a posse do vice-presidente João Goulart e iniciaram, juntamente com os conspiradores civis, a constituição de um governo ilegítimo, só voltando atrás diante da resistência do governador Leonel Brizola (RS) e do apoio por ele recebido do comandante do III Exército, gerando a ameaça de uma guerra civil.

Apesar das bravatas de Luiz Carlos Prestes e dos chamados grupos dos 11 brizolistas, inexistia em 1964 uma possibilidade real de revolução socialista. Não houve o alegado "contragolpe preventivo", mas, pura e simplesmente, um golpe para usurpação do poder, meticulosamente tramado e executado com apoio dos EUA. Derrubou-se um governo democraticamente constituído, fechou-se o Congresso Nacional, cassaram-se mandatos legítimos, extinguiram-se entidades da sociedade civil, prenderam-se e barbarizaram-se cidadãos.

A esquerda só voltou para valer às ruas em 1968, mas as manifestações de massa foram respondidas com o uso cada vez mais brutal da força, por parte de instâncias da ditadura e dos efetivos paramilitares que atuavam sem freios de nenhuma espécie, promovendo atentados e intimidações.

Até que, com a edição do dantesco AI-5 (que fez do Legislativo e o Judiciário Poderes-fantoches do Executivo, suprimindo os mais elementares direitos dos cidadãos), em dezembro de 1968, a resistência pacífica se tornou inviável. Foi quando a vanguarda armada, insignificante até então, ascendeu ao primeiro plano, acolhendo os militantes que antes se dedicavam aos movimentos de massa.

As organizações guerrilheiras conseguiram surpreender a ditadura no 1º semestre de 1969, mas já no 2º semestre as Forças Armadas começaram a levar vantagem no plano militar, introduzindo novos métodos repressivos e maximizando a prática da tortura, a partir de lições recebidas de oficiais estadunidenses.

Em 1970 os militares assumiram a dianteira também no plano político, aproveitando o boom econômico e a euforia da conquista do tricampeonato mundial de futebol, que lhes trouxeram o apoio da classe média.

Nos anos seguintes, com a guerrilha nos estertores, as Forças Armadas partiram para o extermínio sistemático dos militantes, que, mesmo quando capturados com vida, eram friamente executados.

A Casa da Morte de Petrópolis (RJ) e o assassinato sistemáticos dos combatentes do Araguaia estão entre as páginas mais vergonhosas da História brasileira – daí a obstinação dos carrascos envergonhados em darem sumiço nos restos mortais de suas vítimas, acrescentando ao genocídio a ocultação de cadáveres.

O milagre brasileiro, fruto da reorganização econômica empreendida pelos ministros Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões, bem como de uma enxurrada de investimentos estadunidenses em 1970 (quando aqui entraram tantos dólares quanto nos 10 anos anteriores somados), teve vida curta e em 1974 a maré já virou, ficando muitas contas para as gerações seguintes pagarem.

As ciências, as artes e o pensamento eram cerceados por meio de censura, perseguições policiais e administrativas, pressões políticas e econômicas, bem como dos atentados e espancamentos praticados pelos grupos paramilitares consentidos pela ditadura.

Corrupção, havia tanta quanto agora, mas a imprensa era impedida de noticiar o que acontecia, p. ex., nos projetos faraônicos como a Transamazônica, Ferrovia do Aço, Itaipu e Paulipetro (muitos dos quais malograram).

A arrogância e impunidade com que agiam as forças de segurança causou muitas vítimas inocentes, como o motorista baleado em 1969 apenas por estar passando em alta velocidade diante de um quartel, na madrugada paulistana (o comandante da unidade ainda elogiou o recruta assassino, por ter cumprido fielmente as ordens recebidas!).

Longe de garantirem a segurança da população, os integrantes dos efetivos policiais chegavam até a acumpliciar-se com traficantes, executando seus rivais a pretexto de justiçar bandidos (Esquadrões da Morte).

O aparato repressivo criado para combater a guerrilha propiciava a seus integrantes uma situação privilegiadíssima. Não só recebiam dos empresários extremistas vultosas recompensas por cada "subversivo" preso ou morto, como se apossavam de tudo que encontravam de valor com os militantes. Acostumaram-se a um padrão de vida muito superior ao que sua remuneração normal lhes proporcionaria.

Daí terem resistido encarniçadamente à disposição do ditador Geisel, de desmontar essa engrenagem de terrorismo de estado, no momento em que ela se tornou desnecessária. Mataram pessoas inofensivas como Vladimir Herzog, promoveram atentados contra pessoas e instituições (inclusive o do Riocentro, que, se não tivesse falhado, provocaria um morticínio em larga escala) e chegaram a conspirar contra o próprio Geisel, que foi obrigado a destituir sucessivamente o comandante do II Exército e o ministro do Exército.

A ditadura terminou melancolicamente em 1985, com a economia marcando passo e os cidadãos cada vez mais avessos ao autoritarismo sufocante. Seu último espasmo foi frustrar a vontade popular, negando aos brasileiros o direito de elegerem livremente o presidente da República, ao conseguir evitar a aprovação da emenda das diretas-já.

· Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista, escritor e ex-preso político. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

4 comentários:

Anônimo disse...

Prezado Celso,
O seu artigo "Ditadura de 1964/1985: uma síntese do fracasso e da ignomínia" é um lúcido documento histórico, no que tange ao propósito de revivescer a memória do que foi a brutal ditadura militar, que perdurou formalmente de 1964 a 1985, embora suas seqüelas na nossa vida política e institucional, bem como na consciência política de nossos cidadãos perdure até hoje e parece ainda longe de acabar: alienação política e ideológica, traduzida, entre outros parâmetros, pela indiscriminação na hora de votar, e a maioria do povo, insistentemente tem sufragado para os poderes legislativo e executivo federal, estadual e municipal, majoritariamente, bandidos e lúmpens. Tão grave quanto isso é que uma pseudo-esquerda, com oportunistas e aproveitadores, tem iludido eleitores (PT, PC do B, PDT, e vários outros) vendendo a ilusão de que têm um viés socialista que não possuem. Alguns desses, são meramente populistas.
Como você, eu também participei do sonho (ou delírio) de produzir no Brasil uma revolução proletária, nos anos 70 e 80, dentro de um desses movimentos revolucionários, onde fui ser médico de associação de moradores de favela para promover a conscientização das massas e cooptar os melhores filhos da classe operária para o movimento, produzindo também melhoras pontuais nas condições de vida dos moradores pela pressão política: eu tinha também codinome, e era subordinado a uma supervisora, também com codinome, da Organização. Enfrentei a ditadura e a polícia, esta, várias vezes.
Na época, achava, com meus companheiros de Organização, que o Partidão era "a reforma", a "direita", os "revisionistas", porque o PCB sempre se opôs à Luta Armada. Pois bem, deu no que deu, e não foi somente por causa da fúria assassina da ditadura, mas porque não havia ressonância popular, operária e camponesa para a idéia delirante do "grupo de vanguarda". O PCB (e não o grupo de Prestes) sempre esteve com a razão, e muitos da genuína esquerda ainda não reconhecem isso.
Hoje temos o que sobrou de lúcido do PCB, em seu desdobramento pós-moderno, o PPS, embora ainda carente de depuramento e de uma versão mais bem acabada sobre como reedificar a ideologia socialista. Além deste, temos comunistas dispersos por vários partidos da pseudo-esquerda e outros com certo viés de esquerda, completamente desorientados ideologicamente: há um constructo muito grande, teórico, de que ainda carecemos. Talvez esta seja a primeira contribuição (reparo) que tenho a fazer a seu artigo.
Outra ponderação é sobre um necessário aprofundamento do entendimento do que foi Leonel Brizola: se ele teve certo valor, na resistência contra o golpe de 1964, como governador do Rio Grande do Sul, o que provocou seu prestígio, foi uma figura deletéria no Estado do Rio de Janeiro: todas estas porcarias que infestaram os governos estaduais fluminenses e as prefeituras cariocas passaram pela apresentação de Brizola, inclusive o Sr. Cesar Maia. Há muito mais coisas sobre Brizola, nada edificantes, que a História ainda precisa levantar.
E, mais confuso ainda, é o levantamento de conveniências e inconveniências trazido pelo Sr. Getúlio Vargas. Este, apesar de seu suicídio genial, que evitou por dez anos o golpe da UDN, e de algumas concessões trabalhistas em seu governo democraticamente eleito, foi um ditador brutal no pretérito, cujas práticas de agressão às liberdades democráticas, tortura, assassinatos e outras ignomínias não podem ser separadas de sua biografia política e do legado que nos deixou.
Atenciosamente,
www.quantovaleomedico.com.br

Ednei José Dutra de Freitas
Rio de Janeiro RJ

Thiago Oshiro disse...

Olá Celso, tudo bem?
Gostaria de manter contato com o senhor. O livro chegou, mas ainda não comecei a le-lo, estou terminando "Dias e Noites de Amor e de Guerra" de Eduardo Galeano, aí começo a ler o seu livro. Gosto de manter contato com pessoas cmo vc, acho que vcs têm muito a nos ensinar, para que as gerações futuras possam valorizar suas lutas, conquistas e sofrimentos e valorizar ainda mais a liberdade que possuem hoje, e lutar para a edificação de uma sociedade verdadeiramente democrática e justa. Assim, os resquicios da ditadura, que antes controlava de maneira forte e hoje continua controlando de maneira sutil, através da apologia ao modo de vida capitalista, ao individualismo, a manipulação da informação, que aliena a maior parte do povo, poderão ser extintos da sociedade, através de um povo mais educado, crítico, de um povo composto por mais cidadãos.
Meu email é: tposhiro@yahoo.com.br
Obrigado e uma boa semana pro senhor,
Abraços!

Thiago

Celso Lungaretti disse...

Prezado Doutor Ednei,

senti-me honrado com sua visita a meu blog e comentário que deixou.

O PCB pode até ter estado certo quanto à inviabilidade da luta armada, mas foi sua derrota vexatória em 1964 que colocou em nossas costas essa obrigação de provarmos ao povo que a esquerda era capaz de sangrar por seus ideais. Minha geração pagou o preço dessa rendição sem luta e todo o mal-estar decorrente, tão bem expresso nos filmes O DESAFIO (um mergulho doloroso na prostração da derrota) e TERRA EM TRANSE (em que os progressistas estão sempre com metralhadoras na mão, mas nunca as disparam), bem como na peça ARENA CONTA TIRADENTES (sobre os conspiradores palacianos que fraquejam na hora da decisão).

O Brizola é uma figura histórica muito controversa. Prefiro lembrar-me dele como o líder da resistência ao golpe de 1961 e criador da Rede da Legalidade. E também como o grande opositor do pagamento integral da dívida externa, que defendeu à exaustão a tese de uma auditoria desses débitos altamente suspeitos. Deu nojo ver um governo dito de esquerda exultar por haver-se submetido caninamente aos banqueiros e outros rapinantes.

Quanto a Getúlio Vargas, acabo de emitir opinião semelhante à sua no artigo A AMEAÇA DO QUEREMISMO.

Com respeito e admiração,

Celso Lungaretti

Celso Lungaretti disse...

Thiago,

a Humanidade não consegue viver indefinidamente sem ideais nem compaixão.

Esse pesadelo vem desde o final da década de 1980, já está durando demais.

Tenho a esperança de ainda ver a retomada dos sonhos e das lutas da minha geração. Você, com certeza, verá.

Um forte abraço!

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