10.2.10

ATAQUE DO GEN. MAYNARD À COMISSÃO DA VERDADE FOI TRANSGRESSÃO DISCIPLINAR

Figurinha carimbada da extrema-direita militar, o chefe do Departamento Geral do Pessoal do Exército, general Maynard Marques, lançou uma catalinária contra a Comissão da Verdade que o Governo Federal está instituindo para, principalmente, apurar as atrocidades perpetradas pela ditadura de 1964/85.

Sua nota A Comissão da "Verdade"? está amplamente disponibilizado nos sites fascistóides e demais espaços virtuais das viúvas da ditadura, como o Coturno Noturno.

Depois de manifestar sua convicção autoritária na prevalência de uma verdade "absoluta, [que] transcende opiniões e consensos, e não admite incertezas", desanda a atirar na fogueira os que ousam expressar o outro lado, cujo direito a existir e manifestar-se é a própria essência da democracia.

Segundo ele, "a 'Comissão da Verdade' (...), certamente, será composta dos mesmos fanáticos que, no passado recente, adotaram o terrorismo, o seqüestro de inocentes e o assalto a bancos, como meio de combate ao regime, para alcançar o poder".

No seu entender, seriam fanáticos os que combateram o regime, exercendo seu legítimo direito de resistência à tirania, mas nenhuma restrição faz àqueles que conspiravam há mais de uma década para usurpar o poder e, aprimorando seus métodos de tentativa em tentativa, acabaram por obter êxito, o que foi ponto de partida para assassinatos, torturas, estupros, detenções ao arrepio da Lei (sequestros, portanto), ocultação de restos mortais, cassação de mandatos legítimos, extinção arbitrária de entidades e partidos políticos, demissão ilícita de funcionários, censura aos meios de comunicação e, enfim, de todo tipo de perseguições, intimidações e pressões truculentas.

Incidindo em humor involuntário, o gen. Maynard Marques finge não perceber que, ao barbarizar dezenas de milhares de brasileiros em seus famigerados porões, a ditadura militar se definiu como legítima sucessora da Santa Inquisição. Ele tenta penosamente enfiar na cabeça dos adversários a carapuça que Deus e o mundo sabem repousar melhor sobre quepes:
"A História da inquisição espanhola espelha o perigo do poder concedido a fanáticos. Quando os sicários de Tomás de Torquemada viram-se livres para investigar a vida alheia, a sanha persecutória conseguiu flagelar trinta mil vítimas por ano no reino da Espanha".
Que palpite infeliz! Não escapará a nenhum cidadão civilizado que as realizações de Torquemada e seus sicários têm tudo a ver com as de Médici e seus Ustras...

Com sua nota insubmissa -- em que chega a qualificar a Comissão da Verdade de "excêntrica", comparando-a a uma "Comissão da Calúnia" --, o gen. Maynard Marques desrespeitou pelo menos duas proibições do Regulamento Disciplinar do Exército:
  • "manifestar-se, publicamente, sem que seja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária"; e
  • "censurar ato de superior hierárquico ou procurar desconsiderá-lo, seja entre militares, seja entre civis".
Devemos, portanto, EXIGIR do general Enzo Martins Peri (comandante do Exército) e de Nelson Jobim (ministro da Defesa) que façam cumprir o Regulamento Disciplinar, aplicando as punições cabíveis ao general boquirroto.

Quanto aos seis integrantes da Comissão da Verdade, designados pela ministra Dilma Rousseff, têm motivos de sobra para levar aos tribunais quem os qualificou de fanáticos, terroristas, sequestradores e assaltantes, antes mesmo de conhecer os nomes dos indicados para a função.

ATAQUE DO GEN. MAYNARD À COMISSÃO DA VERDADE FOI TRANSGRESSÃO DISCIPLINAR

Figurinha carimbada da extrema-direita militar, o chefe do Departamento Geral do Pessoal do Exército, general Maynard Marques, lançou uma catalinária contra a Comissão da Verdade que o Governo Federal está instituindo para, principalmente, apurar as atrocidades perpetradas pela ditadura de 1964/85.

Sua nota A Comissão da "Verdade"? está amplamente disponibilizado nos sites fascistóides e demais espaços virtuais das viúvas da ditadura, como o Coturno Noturno.

Depois de manifestar sua convicção autoritária na prevalência de uma verdade "absoluta, [que] transcende opiniões e consensos, e não admite incertezas", desanda a atirar na fogueira os que ousam expressar o outro lado, cujo direito a existir e manifestar-se é a própria essência da democracia.

Segundo ele, "a 'Comissão da Verdade' (...), certamente, será composta dos mesmos fanáticos que, no passado recente, adotaram o terrorismo, o seqüestro de inocentes e o assalto a bancos, como meio de combate ao regime, para alcançar o poder".

No seu entender, seriam fanáticos os que combateram o regime, exercendo seu legítimo direito de resistência à tirania, mas nenhuma crítica faz àqueles que conspiravam há mais de uma década para usurpar o poder e, aprimorando seus métodos de tentativa em tentativa, acabaram por obter êxito, o que foi ponto de partida para assassinatos, torturas, estupros, detenções ao arrepio da Lei (sequestros, portanto), ocultação de restos mortais, cassação de mandatos legítimos, extinção arbitrária de entidades e partidos políticos, demissão ilícita de funcionários, censura aos meios de comunicação e, enfim, de todo tipo de perseguições, intimidações e pressões truculentas.

Incidindo em humor involuntário, o gen. Maynard Marques finge não perceber que, ao barbarizar dezenas de milhares de brasileiros em seus famigerados porões, a ditadura militar se definiu como legítima sucessora da Santa Inquisição. Ele tenta penosamente enfiar na cabeça dos adversários a carapuça que Deus e o mundo sabem repousar melhor sobre quepes:
"A História da inquisição espanhola espelha o perigo do poder concedido a fanáticos. Quando os sicários de Tomás de Torquemada viram-se livres para investigar a vida alheia, a sanha persecutória conseguiu flagelar trinta mil vítimas por ano no reino da Espanha".
Que palpite infeliz! Não escapará a nenhum cidadão civilizado que as realizações de Torquemada e seus sicários têm tudo a ver com as de Médici e seus Ustras...

Com sua nota insubmissa -- em que chega a qualificar a Comissão da Verdade de "excêntrica", comparando-a a uma "Comissão da Calúnia" --, o gen. Maynard Marques desrespeitou pelo menos duas proibições do Regulamento Disciplinar do Exército:
  • "manifestar-se, publicamente, sem que seja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária"; e
  • "censurar ato de superior hierárquico ou procurar desconsiderá-lo, seja entre militares, seja entre civis".
Devemos, portanto, EXIGIR do general Enzo Martins Peri (comandante do Exército) e de Nelson Jobim (ministro da Defesa) que façam cumprir o Regulamento Disciplinar, aplicando as punições cabíveis ao general boquirroto.

Quanto aos seis integrantes da Comissão da Verdade, designados pela ministra Dilma Rousseff, têm motivos de sobra para levar aos tribunais quem os qualificou de fanáticos, terroristas, sequestradores e assaltantes, antes mesmo de conhecer os nomes indicados para a função.

8.2.10

LINCHADOR FRUSTRADO, MINO CARTA VOMITA SUA BILE NA ESQUERDA E EM LULA

"Eu assisti de camarote
O teu fracasso,

Palhaço, palhaço


(...) No livro de registro desta vida
Numa página perdida o teu nome há de ficar

Registram-se os fracassos, esquecem-se os palhaços

E o mundo continua a gargalhar"

(Benedito Lacerda/Herivelto Martins)
Nos círculos do poder, não há a mais remota dúvida de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmará a decisão que o Governo brasileiro tomou há 13 meses, de garantir ao perseguido político italiano Cesare Battisti o direito de residir e trabalhar em paz no nosso país.

Eliane Cantanhêde já revelou que as gestões italianas atualmente são apenas no sentido de que Lula doure a pílula, alegando razões humanitárias para sua decisão; e que o desfecho do caso não ocorra nos períodos imediatamente anterior e posterior à visita do premiê Silvio Berlusconi ao Brasil, para poupar-lhe constrangimentos.

Este quadro motivou nova diatribe de Mino Carta, Onde está a esquerda?: trata-se de mera retaliação pela derrota humilhante que está em vias de sofrer, como o principal linchador de Battisti na imprensa brasileira.

Mino escreveu dezenas de artigos para pressionar nossas autoridades a passarem por cima das tradições humanitárias brasileiras e das consistentes dúvidas a respeito da lisura do processo em que Battisti foi condenado sem ter podido exercer seu direito de defesa, graças a uma fraude hoje totalmente desmascarada, envolvendo falsificação de procurações, conluio de defensores com acusadores e conivência da Justiça italiana.

Para que servem agora esses artigos, editoriais e notícias editorializadas?

Só para uma coisa: são a pior nódoa nas muitas décadas de carreira de Mino Carta. Ele vai ser sempre lembrado como o jornalista que tentou impor aos brasileiros a capitulação diante das mais descabidas pressões e dos mais arrogantes ultimatos italianos.

Afora os textos que assinou, outros atribuídos à Redação da CartaCapital têm conteúdo e forma idênticos aos seus. E o ex-juiz Walter Maierovitch, colunista fixo que faz as vezes de fiel escudeiro do Mino Carta, também contribuiu assiduamente com o lobby para o linchamento de Battisti, produzindo dezenas de peças tendenciosas e rancorosas.

No início de 2009, a CartaCapital certamente bateu um duvidoso recorde na imprensa brasileira, como a revista de circulação nacional que por mais semanas consecutivas abordou um único assunto, e sempre com o mesmo viés (linchador).

O outro lado e o direito de resposta simplesmente deixaram de existir para esse veículo, que se comportou como mero house organ da Fabbrica Italiana di Buffonatas.

Nem os leitores aguentavam mais este samba de uma nota só, tanto que passaram a contestar veementemente não só a fixação obsessiva de Mino no tema, quanto a posição por ele adotada.

Pateticamente, ele reagiu retirando-se do seu próprio blogue, o que não impediu o público da revista de continuar manifestando sua discordância nos comentários das notícias e editoriais sobre o Caso Battisti, os quais continuaram sendo sistematicamente expelidos (é o termo apropriado...).

Agora, confrontado com a inutilidade de sua caça à bruxa, o grande inquisidor se vinga retoricamente dos que impediram-no de acender a fogueira:
"...José Eduardo Cardozo, fervoroso defensor da permanência de Battisti no Brasil e titular de um currículo em que figuram contatos importantes, quem sabe decisivos, com Daniel Dantas, o banqueiro do Opportunity. Dele Cardozo foi advogado, soldado a mais de um exército infindo, antes de se eleger em 2002..." [Ser advogado de alguém nunca constituiu crime ou opróbrio. Mino semeia suspeitas porque não tem acusações para apresentar.]

"A revista Veja acabava de publicar um dossiê que dizia ter-lhe sido entregue por Dantas, a revelar contas de um pessoal graúdo, a começar pelo presidente Lula, em paraísos fiscais. Mais um episódio para enrubescer o arco-da-velha e que em outro país provocaria, no mínimo, investigações profundas e algumas prisões." [Depois de tanto criticar a revista que já dirigiu, Mino Carta recorre a suas antigas acusações para atingir Lula, o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos e o deputado Cardozo.]

"Um ministro de Estado soletrou nos ouvidos de CartaCapital: 'É que o PT tem medo de Dantas'." [É simplesmente grotesco Mino lastrear acusação tão grave numa fonte incógnita. O despeito o faz esquecer o bê-a-bá do jornalismo.]

"Ah, sim, a famosa esquerda... Sempre pergunto aos meus perplexos botões qual teria sido a razão que moveu o ministro Genro ao decidir-se pelo refúgio a Battisti. Há quem diga, nos próprios corredores de diversos ministérios, que foi para agradar à esquerda na perspectiva da eleição gaúcha. [Novamente insinua o que não tem evidências nem coragem para afirmar, evitando assumir responsabilidades legais.]

"...de que esquerda se trata? Daquela que descobriu os prazeres da vida e decidiu apostar no poder pelo poder? Ou daquela que virou tucana, ou seja, herdeira do udenismo velho de guerra?" [Noves fora, resta nada. Já que Battisti vai ser libertado, ninguém mais presta, todos chafurdam na podridão. O linchador está à beira de um ataque de nervos.]

"Resta o fato de que esta tal de esquerda parece não ter entendido a diferença entre quem luta contra a ditadura e quem contra um Estado Democrático de Direito. Atingimos, assim, a encruzilhada: de um lado a ignorância, do outro a hipocrisia. De um lado o QI baixo, do outro a desfaçatez. De um lado a parvoíce, do outro a cega, granítica, eterna confiança na credulidade alheia." [Retórica embolorada e oportunística à parte, Mino parece esquecer a desmoralização que Berlusconi granjeou para o tal "Estado Democrático de Direito", começando pelas leis casuísticas que Executivo e Legislativo têm introduzido/tentam introduzir para evitar que o premiê receba a justa punição por seus numerosos delitos.]

7.2.10

DISSECANDO A ALGARAVIA DO LAERTE BRAGA (final)

Um problema das polêmicas virtuais é que são intermináveis.

A imprensa, mesmo nos tempos em que não estava tão desvirtuada, sempre permitiu que seguissem até os contendores não terem trunfos novos a apresentar, ou até a derrota de um deles se tornar inequívoca. Afinal, nela o espaço tem preço, que não é desperdiçado com meros exercícios do direito de espernear.

Já na Web, alguém pode ter sua argumentação destruída por completo e continuar nela insistindo, indefinidamente.

É como se um enxadrista, após levar xeque-mate, seguisse movimentando as peças no tabuleiro.

Então, só resta ao vencedor anotar as jogadas na papeleta e levantar-se da mesa, deixando o patético vencido a encenar a farsa de que o jogo continua.

É o que farei agora.

Na linha grosseira e falaciosa que adotou quando acabaram seus argumentos, Laerte escreveu DO A DE ALGARAVIA AO T DE TRAIDOR - OU O "O" DE OPORTUNISTA, assim mesmo, como um foquinha que ignora o bê-a-bá do jornalismo (se colocou o "o" entre aspas, deveria tê-lo feito também com o "a" e o "t").

Para quem atuou um dia na profissão, isto evidencia que está transtornado a ponto de esquecer o que há de mais elementar -- será que ainda se lembra de vestir as calças antes de sair na rua?

E o texto todo é um tijolaço caótico e errático, sem parágrafos nem nexo, pulando de assunto a assunto (Obama, o Mossad, o aquífero guarani, Ortega, a sucessão brasileira, o Jornal Nacional, a Amazônia, o Haiti, o MST, Mirian Leitão, José Serra -- panfletariamente comparado a Fernando Collor, quando poderia sê-lo, p. ex., com Carlos Lacerda, que começou na esquerda e depois endireitou -- etc., etc.), sem nada aprofundar nem nada provar.

Mais um motivo para lamentarmos a perda irreparável do grande Sérgio Porto, o Stasnislaw Ponte Preta: se estivesse vivo, encontraria nesse texto a matéria-prima para criar uma versão várias vezes aprimorada do seu "Samba do Crioulo Doido".

Tão irritado o Laerte Braga ficou quando constatei que seus textos não passam de algaravias que acaba de cometer sua pior algaravia dos últimos anos...

Ataca a Anistia Internacional como se não tivesse sido ela a exigir providências de Porfirio Lobo para a punição dos crimes praticados pela quadrilha de Roberto Micheletti, enquanto o presidente deposto Manuel Zelaya, com a boca dava declaração elogiosa à "reconciliação nacional"; e com a mão, apanhava o salvo-conduto que barganhou com Lobo.

Juntamente com um comitê hondurenho de vítimas, Laerte Braga profetiza que a Comissão da Verdade instituída por Lobo só servirá para salvar as aparências.

Não parece ocorrer ao Nostradamus de Juiz de Fora que isto significa apenas desperdiçar uma tribuna em que as mortes, torturas, estupros e intimidações do pós-golpe poderão ser veementemente denunciados, ganhando destaque na imprensa mundial.

Se, no final, a montanha parir um rato, aí sim caberão as denúncias contundentes de que Lobo, no fundo, é um continuador de Micheletti.

Fazê-las desde já só serve para desqualificar-se aos olhos dos neutros. É falar para os já convertidos (que foram insuficientes para conseguir que esta crise tivesse o desfecho correto) e esquecer a necessidade de ampliar fileiras, para obter a vitória no(s) confronto(s) seguintes(s).

Em suma, trata-se da miopia política habitual dos colecionadores de derrotas, que parecem importar-se mais com a manutenção de sua imagem junto ao próprio público do que com o resultado concreto das lutas que travam.

Quanto a depreciar o papel da Anistia Internacional com a afirmação de que ela só atua após a porta arrombada, é mais uma falácia dentre tantas. Em situações como os bombardeios israelenses na Faixa de Gaza, sua resposta foi imediata e dramática.

O que ela não faz é posicionar-se a partir de relatos não comprovados, como aquele em que o Laerte Braga acreditou, ao trombetear por aqui que, num único domingo, os capangas de Micheletti teriam assassinado "pelo menos" 50 manifestantes contrários ao golpe.

A AI não tem tropas para impor sua vontade a governos, seu único trunfo é a autoridade moral, INDISCUTÍVEL AOS OLHOS DOS CIVILIZADOS, que ela perderá se encampar versões exageradas de militantes.

Já o Laerte Braga não tem escrúpulo nenhum em repassar essas versões o tempo todo, como se fossem a tábua dos 10 mandamentos.

É um mero propagandista, que se norteia antes por Joseph Goebbels do que por Rosa Luxemburgo: para ele, a verdade não é revolucionária, longe disto, daí preferir martelar ad nauseam as versões convenientes, na esperança de que acabem passando por verdadeiras.

É o que continuará fazendo em relação a mim, com a equação "Celso Lungaretti = traidor". Escreverá isto a torto e a direito, doravante.

Prosseguirá citando o documentário Tempo de Resistência como "prova", indiferente ao fato de que nem mesmo o Darcy Rodrigues, que aparece no filmeco fazendo tal afirmação, ainda a sustenta. Hoje ele reconhece que eu nem sequer conhecia a localização da segunda área de treinamento guerrilheiro, onde estava Carlos Lamarca.

Fingirá ignorar que, mesmo antes de eu desmistificar as versões convenientes sobre a quase destruição da VPR em abril/1970, provando que responsabilidades alheias estavam sendo atiradas nas minhas costas para que outros posassem de heróis impolutos, nunca se cogitou traição da minha parte, mas sim que não houvesse resistido às torturas que me causaram uma lesão permanente.

Tanto isto é verdade que, já em 1974, a esquerda organizada se dispôs a me reabilitar, desde que eu me apresentasse apenas como massacrado pela repressão, omitindo que fora igualmente injustiçado e jogado às feras pela VPR. E não é afirmação sem comprovação, como os blefes ridículos do Laerte Braga; o companheiro Luiz Aparecido está aí, firme e forte, para confirmar.

E seguirá espalhando calúnias, como fez com o Raymundo Araujo, a quem acusou -- igualmente sem provas -- de ser um infiltrado, deixando depois o dito por não dito.

É como sempre reagem os stalinistas contra quem os contesta -- vide as falácias que utilizaram para justificar o massacre de trotskistas, anarquistas, mencheviques, sociais-revolucionários e até mesmo da Velha Guarda bolchevique.

Embora lhe caiba apenas o papel de repetir a História como farsa, já que não tem estatura para protagonizar tragédias, Laerte Braga mostra ser exatamente da mesma estirpe daqueles que obrigavam revolucionários de uma vida inteira a comparecerem balbuciantes aos julgamentos de Moscou, para confessarem que, a serviço dos EUA ou da Inglaterra, haviam tentado envenenar os reservatórios de água do estado socialista.

Para ele o que importa é satanizar o adversário, fazendo dele um espantalho, como se fosse o pior dos inimigos.

Mas, nem desta vez seguirei o conselho de amigos e companheiros, que me exortam a recorrer à Justiça burguesa. Sigo meus princípios, sempre.

Minha força para sobreviver a terríveis injustiças e vencer batalhas desiguais sempre adveio de manter-me coerente com minhas convicções. Sabendo que sustento a posição correta, não me importa ter o mundo circunstancialmente contra mim.

Não será o liliputiano Laerte Braga que vai me fazer mudar a postura. Mesmo porque o julgamento dele já ocorreu, tendo como jurados os internautas.

E as atas permanecerão disponíveis na Web, de forma que, ao colocar "Laerte Braga" na busca, toda e qualquer pessoa ficará sabendo quão baixo ele desceu um dia.

Para mim, é o que basta.

6.2.10

LAERTE BRAGA, CALUNIADOR STALINISTA, PERDE DE VEZ AS ESTRIBEIRAS

Quanto mais se desmoraliza na guerra dos argumentos, mais Laerte Braga parte para as agressões mentirosas, delirantes e destrambelhadas, como remanescente emblemático do stalinismo que ele é.

Não vou acompanhá-lo nessa guerra de lama. Apenas, transcreverei seu comentário de ontem (05/02) no blogue Apesar de Vc... 1964/1985 e o artigo em que relatei o episódio do documentário Tempo de Resistência, ao qual ele se refere.

É o suficiente para os leitores chegarem a uma conclusão sobre quem é quem.

Tudo que eu tinha para dizer sobre os eventos de 1970, já disse no meu livro Náufrago da Utopia. Não vou passar a vida inteira restabelecendo a verdade, cada vez que algum caluniador vier me atacar, aludindo a acordos que jamais foram firmados e dos quais não pode apresentar prova nenhuma, porque inexistem.

Nem recorrerei à Justiça burguesa pois, como afirmei no artigo abaixo, não é assim que resolvo minhas pendências com a esquerda (mesmo com essa excrescência autoritária e putrefata a que se filia o Laerte).

Prefiro sempre o jogo franco, expondo aos cidadãos civilizados a mediocridade intelectual e a pequenez moral de quem encabeça campanhas de satanização de adversários políticos em pleno século XXI.

A FALÁCIA

"Eu não vou perder tempo com Celso Lungaretti. Poderia transcrever aqui um mail que atestaria o seu mau caratismo e sua pusilanimidade.

"Vou só relatar um fato - há uns meses atrás cheguei à minha casa e resolvi ver o que estava passando em alguns canais de tevê.

"Num deles, Canal Brasil, estava sendo exibido um documentário sobre o período da repressão.

"Num dado momento, ao falar sobre o grupo de Lamarca, um dos integrantes do mesmo, gente séria, referiu-se à queda do grupo por conta de um "TRAIDOR". O nome? Celso Lungaretti.

"A diferença entre "ex-jornalista" que ele me rotula, mau caráter, é traidor e que TRAIDOR não existe ex é sempre traidor.

"Além de ter entregue os companheiros, fez um acordo com os militares e ele aceitava, como parte do acordo, aplicar choques em companheiros presos além de ter ido à tevê dizer-se arrependido.

"Só isso."

Laerte Braga

A VERDADE

Há um mês recebi esta mensagem do valoroso companheiro Luiz Aparecido ("ex-preso politico e até hoje militante do glorioso PCdoB", como faz questão de ressaltar):
"Acabei de assistir hoje, domingo, dia 21 de junho de 2009, no Canal Brasil da SKY e repetido por outros canais de assinatura, o documentario, 'Tempo de Resistencia', onde inumeros revolucionarios dão seu depoimento sobre a resistencia dos combatentes brasileiros à Ditadura. Entre os depoimentos sinceros e emocionantes (...) há tambem o de Darci Rodrigues. Este ultimo me chocou ao repetir a cantilena mentirosa e falsa, de que o campo de treinamento da guerrilha da VPR, no Vale do Ribeira no inicio dos anos 70, no interior de São Paulo, foi entregue pelo quem ele chama de traidor, Celso Lungaretti.

"É mais que a hora, de exigir dos produtores e diretores do documentario que façam, em nome da verdade histórica, o esclarecimento que historiadores como Jacob Gorender e a própria vida ja fizeram: Celso Lungaretti não foi o delator que entregou o local do treinamento para a repressão. Como esta informação se tornou publica e abrange, atraves do documentario exibido no 'Canal Brasil' e outros veiculos, fórum de seriedade histórica, é necessário mais uma vez isentar o Lungaretti desta perfidia e se for o caso, até entrevistarem o Celso e outros companheiros da época, para apontar o verdadeiro delator daquele fato.

"As torturas barbaras e humilhantes que nós revolucionarios fomos submetidos nos porões da ditadura, devem ser denunciadas sempre, assim como a verdade dos fatos que elas originaram. Se alguns e não foram poucos, fraquejaram e abriram companheiros e ações, os fatos devem ser esclarecidos. Mas uma mentira não pode destruir a reputação, a honra, a vida e a coragem de quem teve a audacia e o desprendimento humano de enfrentar, armados ou não, o aparato selvagem da ditadura.

"Dou meu depoimento publico da honestidade e coragem histórica de Celso Lungaretti...".
Passei exato um mês esperando que os responsáveis pela acusação, a partir dos e-mails que lhes enviei, dessem uma solução digna ao episódio. Como nada fizeram, só me resta tornar público o que houve, deixando aos leitores as conclusões.

Preso em instalações militares e impossibilitado de me defender, fui em 1970 acusado pela Vanguarda Popular Revolucionária de haver delatado a área na região de Registro (SP) em que Carlos Lamarca e outros militantes treinavam guerrilha. A repressão deslocou milhares de soldados para lá, mas alguns companheiros escaparam como civis, outros embrenhando-se nas matas. A fuga destes últimos, comandada por Lamarca, foi, indiscutivelmente, uma das maiores proezas militares da História brasileira.

Quando fui libertado, nada havia mais a fazer. A falsidade passava por verdade e eu não tinha como conseguir provas para sustentar minha versão, nem tribunas para apresentá-la, em meio à censura e à intimidação reinantes.

Quando a engrenagem de terrorismo de estado começava a ser desmontada, fui entrevistado por veículos como a revista IstoÉ e o jornal Zero Hora (RS), relatando, então, as torturas sofridas durante os dois meses e meio que passei incomunicável nos cárceres da ditadura e que me causaram uma lesão permanente.

Mas, o foco dessas reportagens não era o episódio de Registro e, como eu ainda não conseguira nenhuma prova de minha inocência, não insisti para que delas constasse minha refutação.

Em 1994, no entanto, Marcelo Paiva fez-me tal acusação nas páginas da Folha de S. Paulo e eu não poderia deixar de exigir direito de resposta. Travamos polêmica e eu expus pormenorizadamente o que eu realmente fizera e os fatos de que tinha conhecimento.

Ainda sem provas, era minha versão bem sincera do que se passara:
  • participei da equipe precursora que foi implantar uma escola de guerrilhas à altura do km. 254 da BR-116;
  • a área foi considerada inadequada e abandonada em dezembro/1969;
  • voltei para o trabalho urbano exatamente por desconhecer a localização da área seguinte, na qual o trabalho prosseguiu (caso contrário, por motivos de segurança, não poderia ter saído de lá);
  • ao contrário do que o Lamarca me fez crer, a área 2 não se localizava a centenas de quilômetros de distância, mas apenas a 16;
  • em abril/1970, ao ser preso e muito torturado, revelei a localização da área 1, por avaliar que seria informação inútil para a repressão, mas serviria para eu me recompor e ganhar tempo, enquanto preserva informações realmente importantes;
  • talvez, como Marcelo Paiva sustentou, a partir dessa área 1 tivessem descoberto alguma ligação com a área 2, mas a responsabilidade, aí, seria de erro cometido pela própria VPR na instalação dos campos.
Em 2004, a prova que tanto me fazia falta finalmente caiu nas minhas mãos, quando Ivan Seixas, em seu site Resgate Histórico, publicou um relatório secreto de operações do II Exército, cuja existência eu desconhecia.

Dele constava, explicitamente, a informação de que duas equipes do DOI-Codi foram deslocadas para Registro a fim de apurar minha informação sobre a área 1 e voltaram relatando que não havia mais atividades no local; enquanto isso, novas informações, decorrentes de prisões posteriores, forneceram à repressão a localização exata da área 2.

Estava tudo lá, preto no branco. Meu próprio temor de haver contribuído indiretamente para a descoberta da área 2 era infundado. A coisa se passara de outra maneira, felizmente para mim.

Enviei os textos de minha polêmica com Marcelo Paiva e a cópia desse relatório para alguns historiadores. Jacob Gorender, com sua dignidade exemplar, assumiu a responsabilidade de esclarecer o episódio, a partir desse material e de outros documentos sigilosos que informou possuir.

Duas semanas depois, enviou carta à Folha de S. Paulo e a O Estado de S. Paulo, comunicando:
"Na primeira edição do meu livro 'Combate nas Trevas' (...) escrevi (...) que Celso Lungaretti forneceu ao Exército a primeira informação sobre um campo de treinamento de guerrilheiros da VPR em Jacupiranga, no vale do Ribeira. (...) Não obstante, no mês corrente, Celso Lungaretti contatou-me, por via telefônica, para chamar a minha atenção para o fato de que dera a aludida informação sob tortura e sabendo que o campo de treinamento onde estivera se encontrava desativado havia dois meses. O relatório do comandante do 2º Exército na época, general José Canavarro Pereira, co-assinado pelo general Ernani Ayrosa da Silva, sobre a Operação Registro (localidade do vale do Ribeira), confirma que, efetivamente, aquele campo de treinamento fora desativado. Sucede, no entanto, que, quase simultaneamente, chegaram ao 2º Exército informações procedentes do 1º Exército, com sede no Rio de Janeiro, de que um novo campo de treinamento de guerrilheiros, adjacente ao anterior, se encontrava em atividade. (...) A respeito dessa segunda área, nenhuma responsabilidade cabe a Celso Lungaretti, que ignorava a sua existência. Sua vinculação com o episódio restringiu-se, por conseguinte, à informação sobre a área que sabia desativada, fornecida, segundo afirma, sob tortura irresistível."
A publicação desta carta do Gorender na Folha de S. Paulo (ver aqui) abriu caminho para o lançamento do meu livro Náufrago da Utopia (ver aqui). Eu considerei acertadas minhas contas com a História e passei priorizar as lutas presentes, ao invés de ficar remoendo o passado.

Aí foi lançado o documentário Tempo de Resistência, com a insólita acusação do ex-companheiro Darcy Rodrigues. Em meados da década atual, ninguém sequer cogitava traição da minha parte. Torturado com relatórios médicos e lesão para apresentar não pode ser confundido com os cabos Anselmos da vida.

Mandei mensagem ao autor do livro que serviu de base para o filme, Leopoldo Paulino ( leopoldo@leopoldopaulino.com.br ), esclarecendo não só que a acusação era infundada, como que Darcy Rodrigues tinha um motivo pessoal, não político, para fazê-la, sendo que a desavença entre nós dois era conhecida e constava até de livro de um jornalista sobre o período.

Leopoldo Paulino nada respondeu. E, como o documentário teve pouca repercussão nos cinemas, acabei deixando pra lá.

Sua exibição na TV a cabo, entretanto, está atingindo público mais amplo. Então, voltei a protestar, pedindo-lhe que fizesse algum tipo de retificação ou esclarecimento.

Também contatei o cineasta André Ristum ( andreristum@yahoo.com ), diretor do filme, que respondeu:
"Para a realização deste documentário eu e minha empresa fomos contratados pelo Leopoldo Paulino, para executar a obra baseada em seu livro.

"Assim, conforme contrato assinado entre nós, o responsável pelo conteúdo, seja do ponto de vista das informações passadas seja do ponto de vista legal, é o próprio Leopoldo Paulino.

"Eu, até pela minha pouca idade, não poderia jamais me responsabilizar por informações a respeito de uma época que não vivi e pouco conheço.

"Peço então que se comunique diretamente com o Leopoldo, ou com o Darcy...".
Mas, em entrevista posterior à que concedeu para o filme (ver aqui), o próprio Darcy deixou de sustentar a antiga acusação:
"[Darcy] Discorre também sobre o erro de haver levado para o campo pessoas, que não estavam totalmente convencidas dessa necessidade e de outras, que não tinham conhecimento completo da organização. Cita um caso: 'Celso Lungaretti foi para a primeira área, não se deu bem, voltou para a cidade e nem conheceu a segunda' [grifo meu]."
Em respeito à trajetória de luta do Darcy, optei por considerar suficiente este seu reconhecimento da minha inocência. Melhor passarmos uma borracha em acontecimentos tão distantes quanto deprimentes.

Quanto a Paulino, falhou como revolucionário, pois foi duas vezes alertado de que cometia uma injustiça contra outro revolucionário e em ambas se omitiu: nem corrigiu seu erro, nem sustentou sua posição. Apenas calou.

E falhou como escritor que pretende historiar a resistência, já que não teve a mínima preocupação prévia de ouvir quem sofria grave acusação, nem se dispôs a apresentar o outro lado quando isto lhe foi depois formalmente solicitado.

Segundo um jurista que me-é solidário, caberiam três providências legais neste caso, que poderiam até ser tomadas simultaneamente:
  1. "a formalização de um pedido de direito de resposta ao Canal Brasil, que foi o veículo pelo qual esta afronta à sua imagem foi desferida";
  2. "o pedido judicial para que este documentário seja editado, sob pena de sua execução em território nacional ser proibida, com cominação de multa caso a ordem venha a ser descumprida";
  3. "o pedido de reparação por danos morais, contra os produtores do documentário e o próprio difamador, já que tal veiculação já está lhe causando problemas e constrangimentos".
Mas, depois de haver lutado tanto por uma noção mais elevada de Justiça, estaria faltando com meus princípios se recorresse a uma instância do Estado que execro, contra outro ex-militante da resistência.

É no tribunal das consciências que tais atitudes devem ser julgadas. Então, preferi apenas expor os fatos, para que cada leitor tire suas conclusões e, se quiser, tome alguma atitude.

5.2.10

DISSECANDO A ALGARAVIA DO LAERTE BRAGA

Está no Houaiss:
algaravia
2 Derivação: sentido figurado.
linguagem muito confusa, incompreensível; charabiá
3 Derivação: por extensão de sentido.
coisa difícil de entender
É como se podem qualificar todos os textos de Laerte Braga.

Diz que foi jornalista. Eu jamais o acusaria disto, face à sua estarrecedora falta de rigor na informação, clareza na expressão, perspicácia na interpretação e consistência na opinião; mistura o tempo todo alhos com bugalhos, sem a mínima noção de pertinência nem o comezinho cuidado de fornecer provas do que afirma.

Nada de links, de testemunhos, de fontes comprováveis. Apenas palavras desconexas ao vento e gracejos que beiram a puerilidade.

Chega ao cúmulo de atribuir a Rosa Luxemburgo o "não passarão!" de Dolores Ibarruri, A Pasionária. Eis o parágrafo na íntegra, mescla perfeita de ignorância política com paralelismos descabidos:
"Que Rosa de Luxemburgo tenha dito 'não passarão' é uma coisa. Na afirmação de Lungaretti é uma heresia. Aquele negócio de Tarzã sair de galho em galho através de cipós e com Chita nos ombros, enquanto Jane esperava para o jantar, só em cinema" (vide aqui).
Não, Laerte. Rosa de Luxemburgo afirmou que a verdade é revolucionária. Freud provavelmente avaliaria que, ao trocar as bolas, você cometeu um ato falho: sua ojeriza à verdade é tamanha que nem consegue repetir a frase que consagra seu primado sobre as versões convenientes.

Pois, nisto também você se diferencia dos verdadeiros jornalistas: ao invés de resgatar a verdade para disponibilizá-la aos leitores, você apenas a manipula e maquila para parecer corroborar a lição que desde o início queria ministrar aos devotos.

Como no domingo seguinte ao golpe contra Manuel Zelaya, quando você trombeteou que a repressão hondurenha assasinara 50 manifestantes de uma tacada só.

Depois nem lhe passou pela cabeça pedir desculpas por esse chute mirabolante, pois o exagero é a alma da propaganda... e propaganda é o que você faz.

Se não está comprometido com a verdade como (ex) jornalista, você também não o está como revolucionário (não colocarei aqui um "ex" insultuoso porque jamais pagarei insinuações ignóbeis com a mesma moeda).

Politicamente, você é expressão fiel daquela degeneração burocrática da revolução soviética que Rosa Luxemburgo captou no nascedouro e lhe inspirou a máxima imortal. Pertence à estirpe dos homens do aparelho, daqueles que acreditam em mudar a sociedade a partir dos gabinetes do poder, em cuja órbita sempre oscilam.

Antes defendia o Governo Lula até no que ele tinha de indefensável para um homem de esquerda, com obediência canina. Depois trocou de amo e senhor, repudiando Lula e erigindo Hugo Chávez em guia genial dos povos.

Não estão excluídos novos ziguezagues, mas posso apostar que você continuará sempre caudatário de algum governo.

Sua revolução cheira a mofo palaciano, Laerte. Nela não entra o ar puro da praça, que é do povo como o céu é do condor.

De resto, por mais jogo sujo e provocações que façam você e aqueles que o escalaram para atacar-me, continuarei cumprindo a missão que assumi: contribuir para a afirmação de uma esquerda libertária no Brasil.

E só o que eu tinha a lhe dizer, Laerte. Sua algaravia não justifica mais do que isto.

4.2.10

BERLUSCONI VEM AÍ

Três notícias da semana sobre o premiê italiano Silvio Berlusconi, que estará chegando ao Brasil ainda neste mês de fevereiro:
  • em visita oficial a Israel, qualificou de "injusto" o Relatório Goldstone, já aprovado pela ONU, segundo o qual o estado judeu "cometeu crimes de guerra e, possivelmente, contra a humanidade", no início do ano passado, quando de seus ataques devastadores na faixa de Gaza. Para Berlusconi, Israel tinha "direito de se defender dos foguetes lançados contra seu país";
  • também somou sua voz à dos que pregam uma intervenção estrangeira no Irã, além de cometer o exagero de comparar Ahmadinejad a Hitler ("O problema de segurança é fundamental para Israel. Agora ainda mais, porque há um Estado que prepara uma bomba atômica para usá-la contra alguém. Um Estado com um líder que nos recorda personagens nefastos do passado");
  • enquanto isto, na Itália, sua bancada na Câmara dos Deputados conseguiu fazer aprovar um projeto de lei que, caso obtenha a anuência também do Senado, lhe permitirá driblar eternamente a Justiça, pois bastará alegar compromissos oficiais para não ser obrigado a atender as convocações judiciais.
É chocante que num país do 1º mundo, em pleno século 21, sejam sequer tentados tais casuísmos descarados.

Berlusconi, que já escapou pela tangente de ser punido pela cobertura política que dava à Máfia siciliana nos anos 90, aspira à impunidade sem inocência também nos processos de fraude fiscal e suborno dos quais é reu.

Abusando vergonhosamente de sua condição de primeiro-ministro, tenta escapar da Justiça mudando as regras do jogo, ao impulsionar a introdução de leis que o beneficiam.

Caso do projeto para que seja reduzido o prazo de prescrição de processos judiciais cujas penas totalizem menos de dez anos, à espera de votação na Câmara. Se transformado em lei, por coincidência, fará com que os processos contra Berlusconi prescrevam imediatamente.

A primeira tentativa que o Executivo e o Legislativo italianos fizeram para atar as mãos do Judiciário foi a promulgação de uma lei conferindo imunidade penal aos ocupantes dos quatro cargos mais altos da administração pública do país.

Isto mantinha Berlusconi a salvo dos processos judiciais até 2013, quando findará seu patético mandato. Mas, o Tribunal Constitucional, instância suprema do Judiciário do país, varreu essa imundície -- que, entretanto, também estão tentando retirar da lixeira...

P.S.: antecipando-me às críticas de quem se posiciona politicamente com o primarismo das torcidas organizadas de futebol, esclareço que, em nome do direito de autodeterminação dos povos, repudiarei qualquer invasão do Irã, assim como minha oposição intransigente à pena de morte me leva a repudiar as execuções em curso no Irã. Eu sempre defendo princípios, não governos.

3.2.10

VERDADEIROS REVOLUCIONÁRIOS SÓ PODEM REPUDIAR AS EXECUÇÕES NO IRÃ

O Governo do Irã já executou dois cidadãos envolvidos com as manifestações de protesto contra fraude eleitoral na reeleição do ultraconservador presidente Mamhoud Ahmadinejad e promete mais nove execuções para os próximos dias.

É cruel. É bárbaro. É grotesco. É inconcebível. É inaceitável. É infame. É repulsivo.

Uma das primeiras noções de justiça a que os homens chegaram, em tempos imemoriais, foi a do olho por olho, dente por dente.

E, ao longo dos séculos, consagrou-se o entendimento de que só crimes capitais devem ser punidos com a pena capital.

Mais recentemente, os cidadãos de países realmente civilizados abandonaram até mesmo este pretexto para assassinarem legalmente seus semelhantes.

Alguém perguntará: a Justiça dos EUA não é civilizada?

Respondo: quanto a isto, não. De jeito nenhum!

Permanece ancorada na mentalidade vingativa e autoritária, bem ao estilo de uma nação moldada por fanáticos religiosos que a Inglaterra expeliu por não suportar mais sua intolerância.

Marx estava certo, a trajetória da humanidade é uma marcha para a civilização, à qual vamos penosamente ascendendo degrau por degrau, a despeito dos retrocessos transitórios.

Regimes fundamentalistas não passam de excrescências medievais num mundo que se tornou capitalista e, hoje, enfrenta o desafio de trocar a primazia do lucro pela do atendimento das necessidades humanas ou perecer.

Encaram governos como expressão de desígnios superiores, daí punirem com a morte quem os tenta derrubar, porque ofenderam a divindade.

O crime imputado aos 11 foi exatamente este: o de "inimigos de Deus".

É um problema de cultura? Devemos respeitar o primitivismo, deixar que os povos atrasados se trucidem à vontade? Se os indigenas ainda praticassem o canibalismo, o certo seria cruzarmos os braços enquanto eles se banqueteassem com os inimigos derrotados?

O pior é que nem de longe existe unanimidade no Irã. Muitos resistem -- e nos fazem lembrar os estudantes responsáveis pelas passeatas do 1968 brasileiro! As execuções estão servindo para os intimidar.

Israel e os EUA municiam a oposição a Ahmadinejad? Provavelmente, sim.

Mas, daí a concluirmos que o governo por ela formado seria subserviente a ambos vai uma grande distância.

Os franceses também apoiaram os estadunidenses na luta pela independência (para atingir os interesses de seus inimigos ingleses), mas, nem por isso, o governo resultante foi capacho da França.

Salta aos olhos que quem está nas ruas do Irã encarando a morte de peito aberto, o faz por idealismo. São esses os nossos iguais, não os déspotas e os carrascos.

Revolucionários não podem compactuar com essas execuções, crimes hediondos, pois estarão atirando no próprio pé: quem corre mais risco do que nós, de ser executado por tentar derrubar governos?

A rua é sempre de duas mãos. O que Ahmadinejad faz hoje inspirará os Pinochets de amanhã.

2.2.10

OS SECTÁRIOS NÃO PASSARÃO

Uma campanha de satanização ocupa alguns espaços da esquerda virtual. Explicitamente, contra a Anistia Internacional e instituições que defendem os direitos humanos. Implicitamente, contra mim e contra Carlos Lungarzo, articulistas sintonizados tanto com os ideais revolucionários quanto com os DH.

Tudo começou quando, na véspera da posse de Porfirio Lobo, a Anistia Internacional se posicionou contra a intenção do novo presidente hondurenho, de passar uma borracha sobre os acontecimentos recentes.

A AI conclamou Lobo a não relevar os assassinatos, torturas, estupros e intimidações praticados pelo governo golpista de Micheletti, mas sim apurá-los e levar aos tribunais seus autores, para que a impunidade não servisse como estímulo para outros trogloditas atentarem contra resistentes no futuro.

Apoiei tal posição, claro, porque é simplesmente a única cabível para um um homem civilizado - e, ainda mais, para um revolucionário.

Os crimes da repressão não devem ser anistiados, mas sim punidos. É como sempre nos posicionamos em relação à anistia brasileira de 1979, que igualou as vítimas a seus carrascos.

No entanto, passaram a surgir contestações delirantes, na linha de que, ao apelar para Lobo, a AI estaria reconhecendo seu governo ilegítimo.

Ora, o que importa, afinal, esse pseudo-reconhecimento por parte da AI, quando foi o presidente ilegalmente deposto o primeiro a reforçar a autoridade de Lobo?!

Manuel Zelaya não só negociou com Lobo para obter um salvo-conduto que lhe permitisse deixar o país, como expressou sua disposição de contribuir para a "reconciliação nacional".

E não se posicionou, que eu saiba, contra a anistia de Lobo, que o beneficiará tanto quanto àqueles que derramaram o sangue dos hondurenhos.

Para quem vive no mundo real, já não existe a mais remota dúvida de que a crise hondurenha foi superada.

Teve um péssimo desfecho, claro, mas não adianta brigarmos com fatos consumados. A comunidade internacional acabará reconhecendo Lobo, como o próprio Brasil se prepara para o fazer. É tudo questão de tempo.

Por quê? Porque a resistência a um golpe de Estado em nome do presidente deposto só se mantém enquanto tal presidente permanece firme.

Ao abandonar o Brasil em 1964, João Goulart deixou de ser a bandeira dos que resistiam à quartelada. A luta contra o arbítrio ainda mobilizava muita gente. A restituição de Goulart, não. Ao priorizar a salvação da própria pele, ele se descredenciara para o exercício do poder.

Da mesma forma, a pá de cal na resistência hondurenha ao golpe de 2009 foi o acordo selado por Zelaya com Lobo. O resto é desconversa e/ou sonho de uma noite de verão.

A luta pela justiça social em Honduras passou para outra etapa; quem insistir em olhar para trás não responderá adequadamente aos novos desafios, nem enxergará as possibilidades que surgirão doravante.

A História é dinâmica... e implacável com quem não consegue acompanhar tal dinâmica.

Quanto à Anistia Internacional, ela só pode conclamar os governantes a respeitarem os valores civilizados. Não tem tropas para impor sua vontade a mandatários, nem para derrubar governos ilegais e/ou injustos.

Sua autoridade é moral - e, enquanto tal, indiscutível.

Só pessoas com poucas informações ou muita má fé são capazes de a questionar, com suas obtusas teorias conspiratórias que remontam à guerra fria (e, como ressaltou o Lungarzo, são edificadas no vácuo, já que não citam fontes confiáveis nem oferecem provas de nada).

De resto, não há explicação plausível para essa grita histérica e essa argumentação estapafúrdia que tantos lançaram repentina e simultaneamente contra a AI, a não ser a de uma orquestração política.

Seu objetivo será o de solapar a credibilidade das instituições defensoras dos DH, para diminuir o impacto de seus relatórios contra governos "amigos" que atropelam os valores civilizados?

Ou se trata de uma reação ao prestígio que o Lungarzo e eu conquistamos ao travarmos a luta, extremamente desigual, contra os linchadores de Cesare Battisti?

Poderá, ainda, ter sido inspirada pelo temor de que finalmente frutifique minha pregação de anos, no sentido de que os ideais revolucionários não servem como desculpa para violações dos DH e de que a revolução só voltará a ser internacional caso conquiste também a adesão dos cidadãos das nações mais desenvolvidas (que são muito ciosos de sua liberdade).

Provavelmente, de tudo um pouco.

O certo é que pregações rancorosas e negativas jamais ampliarão nossas fileiras.

Continuarei cumprindo a missão que assumi, de abrir mentes e sensibilizar corações para a possibilidade de se proporcionar a todos os habitantes do planeta uma existência digna, a partir de uma nova organização da sociedade, que contemple o atendimento das necessidades humanas e não a realização do lucro.

E meu lema continuará sendo o de que quem não está contra mim, poderá ser meu aliado.

É assim que agem os empenhados em mudar o mundo: somando apoios, ao invés de hostilizar e afugentar quem não reza exatamente pela mesma cartilha.

Há uma grande diferença entre revolucionários e fanáticos religiosos. Uns constroem o futuro, outros querem recriar o passado.

Não passarão.

ANÁLISE DE UMA CRÍTICA À ANISTIA INTERNACIONAL

Carlos Alberto Lungarzo
Anistia Internacional (USA)

Neste último domingo (31/01), o blogue Juntos Somos Fortes publicou texto de um articulista conhecido na esquerda latino-americana, Laerte Braga, no qual se refere em termos nada cordiais à Anistia Internacional (AI).

Quando li o artigo, entendi que o direito do autor a se expressar em quaisquer termos sobre nós fazia parte da liberdade de opinião que nossa organização tanto preza, e que talvez mesmo uma moderada e amigável crítica da matéria pudesse parecer patrulhamento.

Entretanto, lembrei que, nos dias anteriores, houve uma polêmica diversificada, incluindo várias pessoas, cujo eixo era a denuncia de que AI era uma arma do imperialismo, o golpismo e o sionismo, e que as pessoas que elogiam sua atividade (p. ex., Celso Lungaretti) seriam, no mínimo, “inocentes úteis”.

Decidi então fazer uma breve análise do estudo de Braga, tendo em conta que, depois que a AI do Brasil foi desativada em 2001, os que ainda pertencemos à organização no País (porém, em outras áreas) somos poucos e estamos obrigados a dar explicações. Eis o motivo, então, desta análise.

No §3, junto a algumas brincadeiras que não provocariam a aposentadoria de Woody Allen (p. ex., que “AI” pode querer dizer “Anistia Internacional”, mas também “Ato Institucional”), o autor diz que AI é fachada para encobrir “negócios” do império dos EUA.

Críticas como esta foram feitas muitas vezes, desde a que a ONG apareceu no começo dos anos 60, e ninguém nunca cobrou explicações por considerá-las demasiado absurdas, mas acredito que não se deva descartar uma opinião sem prévia análise.

Primeiramente, a relação de AI com Estados Unidos não é muito forte. Temos muitos membros, porque (como em meu caso), aqueles que ficaram em seu país sem uma seção de AI, ou que nunca tiveram uma, se tornam membros “internacionais” e escolhem especialmente os Estados Unidos por sua maior infra-estrutura.

Membros Internacionais são os que agem no país onde moram, mas dependem de uma seção externa, e portanto ficam reduzidos, como em meu caso, a membros quase independentes, que tomam iniciativas próprias, porém sempre de acordo com os princípios da organização.

A AI surgiu na Grã Bretanha e, apesar da subserviência do governo britânico em relação com Estados Unidos, existe, como todo o mundo sabe, uma grande repulsa dos intelectuais, ativistas e outras figuras do UK contra os norte-americanos, aos quais consideram rudimentares, fanáticos religiosos, incivilizados, etc.

Pode até ser verdade (eu não possuo informação nenhuma neste sentido, mesmo porque a AI tem um total de 2,43 milhões de membros) que alguns de nossos colegas recebam dinheiro do Pentágono, da Cia, do KKK, ou de qualquer outro agente imperialista, fascista, do crime organizado, etc.

Entretanto, é bem sabido que nossa organização, tanto o secretariado Central em Londres, como sua seção norte-americana, tem estado em permanente conflito com os governos dos Estados Unidos.

Já mencionei numa matéria anterior que, em 2004 e 2005, o governo Bush ficou furioso contra nossos relatórios sobre tortura. Aliás, nem mesmo com democratas como Clinton nossa relação foi pacífica. Como indicou Lungaretti com uma longa lista de críticas de AI ao presidente Obama, também temos graves diferenças com este governo.

Por sinal, me surpreende (porque é algo que acreditava não existir mais no mundo atual) o desprezo absoluto de nossos detratores por coisas tais como fontes bibliográficas, páginas de internet confiáveis, informações jornalísticas, etc. Parece que, para eles, tudo isso é lixo juntado pelo imperialismo.

Ainda mais curioso é que estes críticos entendam que devamos acreditar neles, cujas fontes nunca são indicadas, mas parecem nutrir-se em veículos tão sérios como as emissoras bolivarianas, os comunicados iranianos (aliás, quem lê farsi por aqui?) e os fatwa do Talibã.

Vejamos este caso: o autor desta matéria reconhece que AI condena a barbárie de Israel, e o depois acrescenta “e daí?”, incluindo uma comparação desvairada com Ermírio de Moraes: “O que isto quer dizer? Que AI ‘simula’ atacar Israel, assim como Moraes simula fazer obras altruístas, e que ela depreda o povo palestino como os capitalistas brasileiros depredam a ecologia brasileira e assassinam camponeses e índios”.

Sugiro ao autor uma reflexão de dois segundos. Como faríamos isso? Como tiramos proveito de Israel, e o que fazemos com nossos proventos? Onde estão as "baixas’" produzidas por nossa ação homicida?

Por acaso, alguém provou alguma vez uma conexão mínima entre o terrorismo de estado desse país e nossa organização? Por outro lado, talvez por falta de informação, ou por dificuldade para entendê-la, os debatedores nesta diatribe parecem não entender que DH, como qualquer outra coisa, podem ser deturpados e é necessário diferenciar bem entre os que deturpam e os que mantêm uma linha positiva.

P. ex., as secretarias e ministérios de DH, tal como aconteceu na Argentina o e no Brasil, são órgãos oficiais criados, justamente, para manter sob controle a indignação das vítimas das ditaduras.

O PNDH-3, embora deva ser apoiado porque não há nada melhor, já traz consigo uma estratégia que facilita as negociações, recuos e manobras para não "ofender’"os militares. Em poucos dias, passou-se de um projeto digno de um país como Holanda, a um recuo em todos os aspectos, para não desagradar aos antigos algozes, para não ofender a Igreja Católica, para não ferir a moral medieval pela qual nos guiamos, etc.

Na Argentina foi muito pior. A Secretaria de DH fundada em 1984 pelo presidente Alfonsín visava evitar que quase um 8% da população, cujos parentes tinham morrido na repressão, tomassem conta das investigações sobre DH e deflagrassem uma avalanche social de denúncias e investigações. A Secretaria de DH serviu como “amortecedor” ás exigências de justiça das vítimas da insanidade assassina dos fardados.

O aparelho estatal de DH argentino conseguiu atrasar a punição dos militares em nada menos que 21 anos: o inquérito começou em 1984, foi abortado em seguida com manobras jurídico-parlamentares e só retomado em 2005. Esse atraso nunca poderá descontar-se e os principais criminosos de guerra estão morrendo de velhos antes de poder prestar contas por suas atrocidades.

Entendo, obviamente, que haja muita farsa sobre os DH, como foi a campanha de Jimmy Carter, como são as de alguns dos órgãos internacionais, etc., como foram os planos de alguns dos PNDH anteriores (pelo menos parcialmente), mas não é possível atacar a todos da mesma maneira.

A AI tem, em todo o planeta, um único ponto negativo de grande porte (talvez haja outros menores que eu desconheço). Essa mácula surgiu no Brasil, não sei se por acaso ou porque o país oferecia melhores condições para isso.

Em 1985, Rodolfo Konder, uma pessoa com o perfil típico de militante de DH, fundou a seção Brasileira de AI, e começou a implementar os primeiros planos de proteção a esses Direitos que houve no país.

Se sua obra tivesse continuado, nestes 25 anos teríamos avançado significativamente. Mas, no Brasil a verdadeira lei é o lucro das empresas, e a AI, como qualquer outra instituição da região (privada ou pública) acabou dominada pelos abutres empresariais.

Konder foi perdendo controle e um grupo de empresário ganhou umas eleições muito obscuras. P. ex., embora eu estivesse rigorosamente em dia com todas minhas obrigações e fosse um membro histórico da AI (tinha fundado, junto com outras duas pessoas, a seção argentina em 1984), nunca me comunicaram a data das eleições.

As novas autoridades, formada por administradores de empresas e empresários (especialmente os da área de brinquedos, que, pelo forte apelo emocional das crianças, eram os mais próximos aos DH), transformaram a seção brasileira de AI numa ONG comercial, promovendo o merchandising de seus “patrocinadores”.

Isto nunca tinha acontecido. A AI de Londres agiu imediatamente, e deflagrou um processo para dissolver definitivamente essa seção. (Até hoje, não existe uma seção Brasileira de AI, e não pensamos em reativá-la. Talvez passem décadas ou séculos até que isso aconteça. O senhor Braga pode dormir tranqüilo: não haverá uma AI no Brasil.)

Se demorarmos tanto na dissolução de seção de SP, foi por causa da famosa “justiça de colarinho branco”. Os que se tinham apoderado da seção, entraram com dúzias de recursos na justiça, que obviamente apoiou a parte mais influente e a menos ética.

Só foi possível a dissolução total da seção BR de AI em 2001, apesar de ser um direito líquido e certo dissolver qualquer agência que esteja atuando contra sua matriz, em qualquer lugar do mundo.

Ora, instituições são grupos de pessoas, e só podem ser “culpadas” quando as pessoas que estabelecem suas políticas (seus “líderes”) o são. Não pode culpar-se uma ONG, nem um governo, nem uma empresa, por ter alguns membros corruptos, mas apenas quando compactua com tais corruptos. E isto não aconteceu: a AI de Londres dissolveu a seção brasileira e proibiu o uso de seu nome. A demora foi por culpa da cumplicidade judicial com os corruptos.

Voltando ao golpismo da AI. Dizer que não se pode matar na rua a pessoas que protestam não é golpismo. A AI nunca disse nem sugeriu que o governo venezuelano tenha ordenado à polícia que executasse o massacre. Apenas instou o governo a fazer uma investigação (o que, obviamente, é responsabilidade do poder público).

Para terminar. Esta campanha contra os DH não me surpreende, pois vi coisas piores na Argentina durante minha juventude (sou da mesma geração que a maioria dos contendores neste espaço). Num grau muito maior (tanto em intensidade como em quantidade de pessoas), o esquema é o mesmo que vemos agora no Brasil.

Antes do lulismo e do chavismo, já existiu na Argentina o peronismo, que foi muito mais “atuante”. No começo dos 70, quando Perón voltou à Argentina, pessoas desiludidas da esquerda e jovens impacientes que queriam a revolução imediata, passaram a integrar algo parecido ao que hoje seria o bolivarianismo.

O grande inimigo era o imperialismo; e o grande objetivo, o “socialismo nacional”. Democracia era coisa estrangeira e direitos humanos (como dizia uma canção dos montoneros) não passavam de “frescura de veados e maconheiros”.

Da AI ninguém falava. A idéia de criar comissões nacionais de DH foi resistida, inclusive a tiros... enfim, uma história para ser esquecida.

Detesto os chavões, mas Marx parece ter razão. O bolivarianismo repete, como comédia, o que o peronismo já representou como tragédia.