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27.8.10

SOLTARAM OS HUMORISTAS!

Desde os tempos de Aparício Torelly (o mui digno Barão de Itararé), a sátira política é um respiradouro para cidadãos sem meios mais efetivos para confrontarem os poderosos.

"Manda quem pode e obedece quem tem juízo", diziam os antigos. Mas, submeter-se ao mandonismo ofende e amargura homens livres. O desabafo na forma de humor é o paliativo que desopila seu fígado e lhes permite conservar o amor próprio.

Vai daí que, depois de um longo e tenebroso inverno, posso finalmente elogiar uma decisão de ministro do Supremo Tribunal Federal: a de Carlos Ayres Britto, concedendo liminar contra o dispositivo casmurro da Justiça Eleitoral, tentando impedir que as emissoras de rádio e TV ridicularizem os sumamente ridículos candidatos ao próximo pleito.

O único erro dos humoristas é a redundância: os integrantes dessa inacreditável legião de feios, sujos e malvados tudo fazem para desmoralizar a si próprios, na caça sôfrega aos votos.

As imagens do programa eleitoral gratuito superam as mais grotescas aberrações concebidas pela genialidade delirante de Federico Fellini.

E, como as ervas daninhas crescem com mais vigor e os maus exemplos sempre frutificam nestes tristes trópicos, sabe-se lá até onde uma escalada censória poderia chegar. Melhor esmagarmos o quanto antes o ovo da serpente.

Preservemos o que ainda resta de cordialidade no brasileiro!

E prestemos tributo a heróis esquecidos como Alvarenga e Ranchinho que, por volta de 1940, depois de exporem em suas apresentações a nudez do ditador Getúlio Vargas, fugiam antes da chegada da Polícia.

[Cheguei a assisti-los, já idosos, detonando o  homem da vassoura  com uma paródia da clássica "Menino de Braçanã", de Luiz Vieira. Em vez de "quem anda com Deus não tem medo de assombração", cantavam "quem já viu o Jânio Quadros não tem medo de assombração"...]


Glória eterna ao grande Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta, cuja série Febeapá (Festival de Besteiras Que Assola o País) disse tudo que havia a dizer-se sobre a ditadura militar, no tempo em que ela se caracterizava mais pelo besteirol -- a bestialidade só passou a dar a tônica depois da morte do Lalau.

À extraordinária equipe de humoristas de O Pasquim, com destaque para o benjamim que acabou se tornando o melhor da turma: Henfil.

E, claro, também ao menestrel Juca Chaves, autor de sátiras inspiradíssimas como Dona Maria Tereza (conselhos à esposa do então presidente), que bem merece encerrar esta digressão:

Dona Maria Tereza,
diga a seu Jango Goulart
que a vida está uma tristeza,
que a fome está de amargar.

E o povo necessitado
precisa um salário novo,
mais baixo pro deputado,
mais alto pro nosso povo.

Dona Maria Tereza,
assim o Brasil vai pra trás,
quem deve falar, fala pouco,
Lacerda já fala demais.

Enquanto feijão dá sumiço,
e o dólar se perde de vista,
o Globo diz que tudo isso
é culpa de comunista.

Dona Maria Tereza,
diga a seu Jango porque
o povo vê quase tudo,
só o Parlamento não vê.

Dona Maria Tereza,
diga a seu Jango Goulart,
lugar de feijão é na mesa,
Lacerda é noutro lugar.

25.8.10

CASOY x LUNGARETTI: O XIS DA QUESTÃO

Agradeço as manifestações de apoio a esta causa, que vai além das pessoas de Celso Lungaretti e Boris Casoy.

O que está em jogo é a liberdade de informação e opinião, pois o sucesso do querelante restringiria drasticamente os limites de atuação de jornalistas e blogueiros.

Os primeiros não poderiam mais adotar como verdadeiras as afirmações de fontes pertinentes e consistentes, nem aquilo que tenha sido publicado em veículos de circulação nacional.

Teriam, talvez, de escrever seus textos baseados unicamente no que presenciassem com seus olhos e escutassem com seus ouvidos...

Já os blogueiros se veriam obrigados a consultar figuras públicas cada vez que quisessem postar qualquer texto passível de lhes cair no desagrado.

A grande maioria, que não tem o blogue como atividade rentável nem pode contratar auxiliares, perderia pessoalmente um tempo precioso correndo atrás de celebridades/personalidades que tudo fazem para dificultar o acesso à  plebe ignara.

Mesmo superando tais obstáculos, em 99% dos casos esperariam em vão pela resposta, olimpicamente ignorados, enquanto os assuntos fossem caducando.

E os poderosos, quando se sentissem incomodados, não se contentariam sequer com direitos de resposta, o meio mais adequado para a parte que se julga atingida apresentar sua versão na blogosfera.

Imporiam, com o chicote judicial, a obrigação de o blogueiro se retratar humilhantemente, como alternativa à possível prisão.

É isto que realmente está em jogo, não as reminiscências de um passado que teima em voltar à tona exatamente porque, naquela época, imperava o arbítrio e não foi feita Justiça.

Se a organização criminosa, nazistóide, homicida, terrorista e racista conhecida como CCC tivesse respondido judicialmente por seus muitos e hediondos crimes, hoje se saberia quem a integrou... ou não.

Quando o regime militar acobertou os grupos paramilitares que complementavam a repressão política oficial, não só livrou os culpados do merecido castigo, como pode ter propiciado a estigmatização de inocentes. Quem sabe?

O certo é que essas pessoas devem apresentar suas versões a historiadores, jornalistas e à opinião pública, com as provas e testemunhos cabíveis, ao invés de simplesmente tentarem proibir que se toque no assunto. Censura nunca mais!

E, se têm alguma queixa a fazer, que escolham o alvo certo: a ditadura militar, responsável por todas as atrocidades, injustiças e aberrações daquele período tenebroso de nossa História.

23.8.10

CASOY ME MOVE AÇÃO CRIMINAL POR ARTIGO SOBRE O EPISÓDIO DOS GARIS

Desde o último dia 17, estou sendo processado por Boris Casoy no Juizado Especial Criminal da Barra Funda (SP), por calúnia ou injúria, em razão do meu artigo de resposta aos gracejos  com que ele depreciou os garis. Quem me defende é o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, sempre coerente com suas gloriosas tradições.

Mais do que calar um articulista virtual e blogueiro, Casoy ameaça restringir a própria liberdade de opinião na internet, já que uma sentença a ele favorável abriria precedente para uma enxurrada de questionamentos judiciais a quem ousasse criticar figuras públicas.

Carecendo a ação de substância, eu tinha a esperança de que ele desistisse na audiência de conciliação; ou que juiz e promotor lhe fizessem ver quão descabida era sua pretensão.

Como nada disso ocorreu, serei obrigado a enfrentar mais um desafio, algo patético, pois estamos ambos na idade em que guerreiros costumam repousar.

Enfim, mesmo com os anos começando a me pesar, ainda não me resignei a travar minhas lutas através de terceiros, nos tribunais. Estes são e sempre serão palcos secundários para mim.

Como militante humanitário e como jornalista, é ao julgamento da cidadania que me submeto, em primeiro lugar;  e nunca tomo a iniciativa de procurar outros.

OS DOIS EXTREMOS DA ESCALA DO TRABALHO

Tudo começou quando, no dia 04/01/2010, assumi a defesa dos garis que, "do alto de suas vassouras", haviam ousado enviar suas saudações de Ano Novo aos brasileiros, esquecidos de que seus votos partiam de quem estava no "ponto mais baixo da escala de trabalho" e sempre haveria alguém situado no topo dessa escala para devolvê-los à sua insignificância. Lancei este artigo.

Não foi a primeira, nem será a última vez em que me coloco ao lado dos fracos, quando espezinhados pelos poderosos; faço isto sistematicamente desde que, aos 16 anos, dei meus primeiros passos no movimento estudantil, indignado com o arbítrio ditatorial. A solidariedade para com os humildes e os excluídos inspirou minhas atitudes ao longo de toda a existência adulta.

Ocorre que esse meu texto inicial motivou um site a desencavar, fotografar e espalhar por toda a web uma reportagem da revista O Cruzeiro, de novembro/1968, no qual Casoy era citado; e um respeitado articulista da internet postou, como comentário no meu blogue, um relato sobre ocorrências por ele presenciadas no clube A Hebraica.

Como esses dois desdobramentos haviam sido suscitados por meu artigo, resolvi nele incorporá-los, mantendo o título e a redação originais, salvo num trecho: o parágrafo 12 foi substituído por seis outros (do 12º ao 17º). Além disto, acrescentei um intertítulo, no espírito das novas informações trazidas.

E atualizei, logo na abertura, o número de vezes em que os vídeos com as afirmações do Casoy sobre os garis haviam sido vistos no Youtube: o número crescera de cerca de 850 mil hits para 2,5 milhões de hits.

Lancei a 2ª versão, revista e ampliada, na noite do dia seguinte. Em alguns espaços virtuais simplesmente a 1ª versão foi tirada do ar, substituída pela 2ª. Outros, que não tinham dado a 1ª, publicaram só a 2ª.

E houve até um jornal eletrônico do interior paulista que, por já haver publicado o artigo da 1ª vez, deixou de fora os trechos repetidos e aproveitou só o que havia sido alterado, usando o intertítulo como se fosse título.

É POR ESTA VERSÃO INCOMPLETA DO ARTIGO QUE CASOY ME ACIONA, DE PREFERÊNCIA ÀS DEZENAS DE VERSÕES COMPLETAS AINDA ENCONTRADAS NA WEB!

No entanto, em plena audiência ele se queixou de que eu evocara toda sua carreira jornalística de forma negativa, candidamente revelando que conhecia, sim, a versão integral...

SAMBA DO CRIOULO DOIDO

O ridículo chega a ponto de a queixa omitir que a edição do texto que embasa a acusação foi tão confusa a ponto de constarem, no final, vários RECADOS PESSOAIS que eu mandei ao editor do jornal (!!!). Vide aqui.

Em função desse verdadeiro  samba do crioulo doido, Casoy me quer ver preso!

Mais: não aceita que eu haja citado e extraído conclusões do que me relataram duas fontes e do que saiu em reportagem de uma das principais revistas de circulação nacional à época.

E me cobrou o fato de não tê-lo procurado para ouvir o outro lado, como se isto fosse viável em artigos de blogueiros, muitos dos quais (meu caso) não recebem um centavo por sua atividade, nem têm como manter equipes a seu serviço.

Se tivermos de consultar, a cada texto escrito, figuras públicas que quase nunca respondem, nossa atuação será extremamente prejudicada, quiçá inviabilizada.

Afora o fato de que se trata da transposição mecânica para a internet de regras do jornalismo -- o qual, aliás, foi  desregulamentado  pela decisão de 2009 do Supremo Tribunal Federal.

Daí ser muito perigoso o precedente que esse caso tenta abrir: o da obrigação de blogueiros a submeterem-se a regras jornalísticas, num momento em que até mesmo as regras jornalísticas estão confusas.

Direito de resposta, p. ex., ainda está por ser restabelecido. No entanto, ofereci-o a Casoy, pois respeito as boas práticas jornalísticas, independentemente de ameaças judiciais.

Ele exigiu  retratação, como se eu fosse obrigado a lhe dar um atestado de boa conduta sobre o que dele afirmaram/publicaram seus contemporâneos e eu só repeti.

Negativo, é aos historiadores e à opinião pública que ele deve apresentar sua defesa, como eu mesmo fiz, quando injustiçado a um ponto que ele jamais será.

E, como parece ser ao símbolo que ele tenta atingir, acionando um dentre milhares que o acusaram (até com grosserias e baixo calão, o que não foi meu caso), é como símbolo que travarei esta batalha: sem acordos, sem recuo de nenhuma espécie e percorrendo todas as instâncias necessárias para que a Justiça prevaleça.

De antemão, agradeço quaisquer apoios solidários. Há sempre riscos para um adversário do sistema quando enfrenta um favorito do sistema, por mais que a verdade e a razão estejam ao seu lado.

Então, é com os cidadãos dotados de espírito de justiça que conto para equilibrar os pratos da balança.

17.8.10

EM COMUNICADO INSOLENTE, IRÃ REPELE OFERTA DE LULA

É inaceitável o comunicado do Irã em resposta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ofereceu asilo a Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento em função de mero adultério.

Supondo que sejamos perfeitos otários, as autoridades iranianas insistem na invencionice posterior de que a pena capital se deveu a cumplicidade em assassinato, embora a sentença reze o contrário. Não cola.

Mahmoud Ahmadinejad se nega a transferir um "problema" para Lula, como se nosso presidente fosse um incapaz necessitado de tutela externa ao tomar suas decisões.

Pior ainda foi o comunicado oficial, no qual o Irã simplesmente nos insultou, ao fazer indagações ofensivas e acintosas:
"Em relação à presença ou ao exílio de Sakineh Mohamadi no Brasil, é necessário considerar alguns pontos e questões significativas. Quais são as consequências desse tipo de tratamento aos criminosos e assassinos?

"Esse ato não promoverá e não incitará criminosos a praticar crimes?

"Será que a sociedade brasileira e o Brasil precisarão ter, no futuro, um lugar para os criminosos de outros países em seu território?"
Mereciam receber uma resposta sincera: oferecemos asilo a Sakineh porque temos certeza de que não se trata de nenhuma criminosa, mas sim do alvo da vez de psicopatas que utilizam a religião para acobertar seus impulsos sádicos e homicidas.

Não consigo imaginar seres humanos tão vis e covardes a ponto de apedrejarem uma mulher até a morte. Estão mais para bestas-feras.

Quanto ao  lugar para os criminosos de outros países em território brasileiro, prometo lutar até o fim para que nele não sejam admitidos os responsáveis por atos tão hediondos, quando o povo iraniano finalmente os escorraçar como merecem.

Infelizmente, estavam certos os que criticaram Lula por tentar introduzir um pouco de racionalidade na discussão sobre sanções ao Irã.

Nosso presidente tinha ótimas intenções, mas se desgastou inutilmente tentando ajudar fanáticos delirantes, ingratos ao extremo. Perda total.

A mesma boa vontade ele mostrou ao se dispor a receber Sakineh, não só pela compaixão  que seu caso naturalmente inspira, mas também para oferecer ao Irã uma saída honrosa de um episódio que está deixando sua imagem em cacos.

Os mandatários iranianos, se utilizassem a desculpa de estarem atendendo o pedido de um governante amigo, salvariam as aparências.

Mas, preferiram insistir em sua intransigência obtusa.

Agora, ou assassinam Sakineh e serão vistos pelo mundo inteiro como trogloditas.

Ou poupam Sakineh e darão apenas demonstração de fraqueza, pois parecerá que se vergaram a pressões, embora continuassem errados nas convicções.

Em qualquer das hipóteses, o mal está feito: haverá bem menos solidariedade ao Irã, se os EUA desfecharem um ataque para que os israelenses possam dormir sem pesadelos com bombas atômicas (já os vizinhos perderem o sono por causa dos petardos judeus faz parte da ordem natural das coisas...).

E a imprensa informa que as pressões por uma intervenção militar estão aumentando nos EUA.

Ahmadinejad e sua trupe sinistra mostram um talento todo especial... para marcarem gols contra.

De quebra, trataram a pontapés o único presidente de uma grande nação que lhes estendeu a mão.

REAÇÃO BRASILEIRA
 
O ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, respondeu à altura, afirmando que o Brasil continuará empenhando-se para que o caso de Sakineh tenha uma solução humanitária e se referindo a Mahmoud Ahmadinejad como o que ele realmente é: um  ditador. Bravo!

Vocês já viram esses pobres tolos enterrando-se cada vez mais nos caça-níqueis, sem ânimo para ir embora porque já perderam durante horas a fio e querem acreditar que a sorte acabará virando?

Pois é, nunca vira e eles despencam até o fundo do poço.

A situação é a mesma. O Brasil já perdeu muito apostando no Irã e perderá mais ainda  insistindo. É hora de respeitar a si próprio e de se fazer respeitar por estrangeiros insolentes.

Então, espero que o Itamaraty não atrapalhe: Vannuchi  está falando pelo Brasil.

14.8.10

"ÉPOCA" DESTACA TRAJETÓRIA DE DILMA NA RESISTÊNCIA À DITADURA

A revista Época chega às bancas neste sábado (14) com uma matéria de capa sobre a participação da presidenciável Dilma Rousseff na luta armada.

Eumano Silva, um dos autores (ao lado de Leandro Loyola e Leonel Rocha), é meu velho conhecido e colega de editora: em parceria com Taís Morais, escreveu Operação Araguaia.

A reportagem em si é reconstituição histórica, a mais objetiva e neutra possível se considerarmos as limitações da grande imprensa. A Veja, tratando do mesmo assunto, decerto produziria um aberrante panfleto ultradireitista.

Cheguei a dar depoimento um tanto inconclusivo, já que conheci brevemente a Dilma durante o Congresso de Teresópolis da VAR-Palmares (outubro/1969) e nossos caminhos jamais se cruzaram de novo. Não acrescentaria mesmo nada e Eumano fez bem em deixá-lo de lado.

Mas, independentemente da integridade ou não do trabalho jornalístico, o tema é espinhoso para Dilma e para o PT, daí ela ter se recusado a atender aos pedidos de entrevista da Época e a deplorável nota que sua assessoria de imprensa emitiu:
".Dilma não participou [de ações armadas], não foi interrogada sobre o assunto e sequer denunciada por participação em qualquer ação armada, não sendo nem julgada nem condenada por isso.

"Dilma foi presa, torturada e condenada a dois anos e um mês de prisão pela Lei de Segurança Nacional, por 'subversão', numa época em que fazer oposição aos governos militares era ser 'subversivo'".
Quantas ressalvas! Na minha humilde opinião, de tudo que li na reportagem, o trecho mais nocivo à imagem de Dilma é este, pois, em contraste com sua verdadeira trajetória, nem de longe mostrada de forma negativa, soa terrivelmente falso.

Ambos, Dilma e o PT, têm preferido deixar o passado no limbo, como um estorvo, do que explicar francamente às novas gerações que o Brasil de Médici chegava a lembrar, em muitos aspectos, a Alemanha de Hitler, a Espanha de Franco ou o Chile de Pinochet: um festival de horrores e atrocidades.

Para não indisporem-se com velhos gorilas e novos autoritários, eles não dão, salvo quando a imprensa e os adversários políticos os encostam na parede, o merecido destaque às bestialidades que os tiranos cometeram, nem à bravura dos que os combateram.

Então, quando as viúvas da ditadura acusam falsamente Dilma Rousseff de assaltar bancos, sequestrar diplomatas e outras ações armadas, as novas gerações, desinformadas, tendem a vê-la e julgá-la a partir dos parâmetros atuais, como se tivesse sido uma criminosa do PCC.

Se soubessem que enfrentávamos algo próximo a  uma Gestapo, em condições de extrema inferioridade de forças, poderiam nos olhar como os franceses olham sua Resistência, dela orgulhosos  por haver salvado a honra do país.

Fugir do dever, entrentanto,  nunca é resposta para nada.

O dever de quem enfrentou a tirania é manter viva a lembrança dos  anos de chumbo, até para criar, nos que vieram depois, anticorpos contra o totalitarismo.

Esquivando-se do assunto em circunstâncias mais amenas, os petistas serão obrigados a defrontarem-se com ele no auge da campanha eleitoral.

Então, é o momento de abandonarem de vez as esquivas, declarando em alto e bom som: quem resistiu à ditadura mais brutal que o Brasil conheceu, tinha todo direito de pegar em armas contra os déspotas e merece, acima de tudo, o reconhecimento da cidadania.

E isto vale tanto para Dilma, que não entrou na ação direta, como também para Carlos Lamarca, Carlos Marighella, Eduardo Leite, Devanir de Carvalho e outros que usaram a força contra um inimigo que pela força usurpou o poder e pela força nele se mantinha: todos eles, indiferenciadamente, foram heróis e mártires deste sofrido país!

Nada de tergiversações. Quem participou da luta armada, cumpriu as funções que seu agrupamento lhe designou. Se, como Dilma e eu, acabou recebendo outras incumbências, isto era irrelevante do nosso próprio ponto de vista e só estabelecia distinções entre nós aos olhos do inimigo, quando tratava de nos enquadrar nas suas leis draconianas, características de um regime de exceção.

Então, a postura digna nunca será a de se desculpar com afirmações tipo "estava lá mas não fiz isso ou aquilo", mas sim a de  proclamar que "estava lá e faria tudo que fosse necessário, porque nossa luta era justa e confrontávamos o despotismo mais hediondo".

É o mínimo que podemos fazer, pela nossa honra e por respeito aos companheiros que tombaram.

12.8.10

IRÃ MONTA FARSA PARA JUSTIFICAR EXECUÇÃO DE SAKINEH

Quando saí dos cárceres da ditadura militar, com uma lesão física permanente, muitos problemas psicológicos e terríveis danos morais, havia aclarado meu conceito sobre ditaduras.

Antes já repudiava as de direita, claro, mas me deixara iludir pelos textos que impingiam, como mal necessário, uma ditadura do proletariado, atenuada nas ressalvas: seria tão cirúrgica quanto possível, durando apenas o tempo necessário para se criarem os pré-requisitos de sua abolição.

A experiência vivida falou mais alto do que qualquer argumento: decidi que nada, absolutamente nada, justificava que um indivíduo fosse colocado na condição de vítima indefesa do Estado, qualquer que fosse o Estado.

Meus algozes podiam me torturar como e quando bem entendessem.

Privar-me do sono, de roupas, de alimentos, de higiene, de assistência médica e até da luz solar.

Ameaçar-me de estupro (com as mulheres, muitas vezes iam às vias de fato).

Simular roletas russas e fuzilamentos.

Emitir comunicados mentirosos a meu respeito.

E me matar, seja por excessos involuntários nas sessões de tortura, seja por tédio.

Aos 19 anos, estive próximo de um enfarte no terceiro dia de prisão, quando, após medirem minha pressão, suspenderam as torturas e me encheram de calmantes.

Ao contrário do que aconteceria a partir de 1971, ainda não haviam partido para a matança indiscriminada -- não por respeito à vida humana, mas porque as mortes chocantes davam ensejo a campanhas humanitárias exortando governos estrangeiros a suspenderem linhas de crédito para o Brasil.

A partir do quarto diplomata trocado por presos políticos, no entanto, os tiranos decidiram absorver os prejuízos de ordem econômica, de preferência a exilar militantes que pudessem depois voltar e contribuir para a libertação do povo brasileiro.

Então, ao invés de oficializar suas prisões, passaram a sequestrá-los, levá-los para centros de tortura clandestinos, submetê-los aos piores suplícios, executá-los e dar sumiço nos cadáveres.

Mesmo quando a ordem ainda não era matar, contudo, houve oficial que me incentivou a tentar a fuga, "agora que ninguém está olhando", para me fuzilar pelas costas e depois apresentar seu ato como necessário. Por quê? Porque havia tido um mau dia e estava enfastiado...

A PRIMEIRA BRECHA

Enfim, percebi que jamais se deveria conceder ao Estado tamanho poder sobre o cidadão, por não haver garantia nenhuma de que, mesmo sendo fixados limites, estes não seriam ultrapassados ao sabor dos acontecimentos.

Os textos marxistas sobre ditadura do proletariado e, p. ex., nem de longe justificam os massacres de camponeses durante a coletivização forçada na URSS ou os genocídios de Pol Pot no Camboja. No entanto, estes decorreram daqueles.

Vale lembrar uma frase antológica do filme O Julgamento de Nuremberg (d. Stanley Kramer, 1961).

Face ao desabafo de um magistrado alemão, estupefato por as coisas terem saído tanto do controle durante a era nazista, um membro do tribunal explica:
"Esses horrores todos começaram quando o primeiro juiz condenou o primeiro réu que ele sabia ser inocente".
Então, não se pode deixar que seja aberta a primeira brecha, ainda que ínfima, pois haverá sempre os que a alargarão.

Quem luta para criar a sociedade perfeita, com a concretização plena da liberdade e da justiça social, não deve  transigir com nenhuma ditadura e nenhuma forma de desigualdade, seja em que ponto for da caminhada. Caso contrário, não chegará aonde pretendia, mas a lugar bem pior.

FARSA CONTRA SAKINEH

Foram as reflexões que me vieram à mente após ler que as autoridades iranianas exibiram na TV um vídeo com uma suposta Sakineh Ashanti, em fala  ademais dublada, praticamente admitindo a cumplicidade jamais provada no assassinato do seu marido.

Foi condenada a ser apedrejada até a morte por adultério, só por adultério.

Como isso teve a pior repercussão possível junto às pessoas civilizadas do mundo inteiro, armaram uma farsa para justificar a sentença hedionda.

E o fizeram depois de privarem sakineh do seu advogado, com abusos grotescos, inclusive o de aprisionar-lhe os entes queridos para usá-los como reféns.

Assim como quando Stalin fazia condenarem dignos revolucionários sob pretextos os mais falaciosos e ridículos, depois de triturados em seus cárceres, não existe condescendência possível com tais práticas por parte de quem pretende sinceramente transformar o mundo.

Há que se defender, sim, o Irã das ameaças de intervenção armada dos EUA, como represália por seu programa nuclear.

Mas, isto não pode -- jamais!!! -- implicar nossa conivência com o estupro sistemático dos direitos humanos por parte das autoridades iranianas.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu oficialmente asilo a Sakineh, dando aos aloprados do Irã uma saída honrosa neste episódio, ao menos.

Então, o assassinato com requintes de extrema crueldade que tramam só servirá à propaganda dos EUA enquanto eles mantiverem sua postura de fanática/asnática intransigência.

E enquanto a mantiverem, não merecem a simpatia de ninguém. São bárbaros empedernidos e cruéis assassinos. Nada mais.

10.8.10

O CAPITALISMO SELVAGEM ACABOU... MESMO?

Jean Valjean é um personagem lapidar da literatura universal, extraído da vida pela pena poderosa de Victor Hugo e a ela sempre voltando, pois a era capitalista se caracteriza pelos mais cruéis abusos e pelas injustiças mais chocantes.

Para as novas gerações, vítimas da faina incessante da indústria cultural no sentido de obnubilar as consciências, explico: personagem principal da obra-prima Os Miseráveis, Valjean perde os pais ainda criança, é criado pela irmã mais velha e, quando esta enviuva com sete filhos para criar, vai à luta para sustentar sua família.

Num inverno em que não consegue emprego, o desespero o leva a roubar um pão.

Preso e condenado a cinco anos de trabalhos forçados, acaba cumprindo 19, em função das várias tentativas de fuga.

Magníficos atores, como Friedric March, Jean Gabin, Gerard Depardieu e Liam Neeson, interpretaram Valjean nas versões cinematográficas de Os Miseráveis -- que somam, pelo menos, 12.

Para mim, ele sempre terá a forte imagem de Lino Ventura, protagonista da minissérie de TV dirigida em 1982 por Robert Hossein e depois condensada para o cinema. Talvez porque este carismático ator italiano, mais lembrado por suas interpretações de gangstêres e delegados na grande fase dos filmes policiais franceses (anos 60 e 70), fosse parecidíssimo com um tio-avô meu...

Já os pobres coitados que revivem o drama de Valjean por caírem em armadilhas do destino são incontáveis -- porque o capitalismo, no que tem de essencial, em nada melhorou desde o século 19 nem será redimido jamais; vai continuar tangendo o homem a ser o lobo do homem, enquanto perdurar.

Valjean aparece no noticiário da última 2ª feira (9) em versão feminina: Juíza manda prender desempregada, mãe de 10 filhos, por calote de fiança:
"Uma diarista desempregada, mãe de dez filhos, moradora de uma favela em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, corre o risco de ser presa a qualquer momento se não pagar R$ 300 à Justiça.

"A cobrança se refere à fiança por ela ter sido presa em flagrante e depois libertada ao tentar furtar roupas de um supermercado. O crime aconteceu no dia 30 de julho.

"Claudinéia Freitas Santos, 38, foi até um supermercado Carrefour e tentou furtar dez bermudas e dois sapatos para os filhos. Um segurança a flagrou e chamou a polícia. Acabou presa em flagrante".
UM IMPERATIVO: NUNCA NOS
OMITIRMOS FACE ÀS INJUSTIÇAS

É óbvio que casos assim pipocarão enquanto estivermos submetidos a uma forma de organização econômica-política-social que privilegia a ganância, o privilégio e a competição autofágica entre os homens, ao invés do atendimento das necessidades humanas, da igualdade de oportunidades e da solidariedade universal.

Mesmo assim, vale sempre mobilizarmo-nos para que as ocorrências escabrosas noticiadas tenham um desfecho justo -- pois, além de evitar-se o pior para as vítimas em questão, o exemplo poderá beneficiar a outros(as) coitadezas, em circunstâncias semelhantes.

Então, escrevi um artigo chamando a atenção dos companheiros para o caso, tão logo a imprensa o noticiou. E os estimulei a mandarem e-mails de protesto à rede Carrefour.

O sempre combativo Carlos Lungarzo, da Anistia Internacional, entrou de imediato na cruzada. E houve expressivo número de internautas que manifestaram seu inconformismo às profissionais de comunicação social do Carrefour.

A todos chegou a mesmíssima resposta, palavra por palavra:
"A empresa não prestou queixa, mas tomou as providências cabíveis para casos de furto, que é a de acionar as autoridades policiais".
E entregou o destino de Claudinéia nas mãos do Estado, que "assume a posição de acusador" porque "o caso foi definido como crime de ação penal incondicionada".

Ou seja, a empresa lavou as mãos, escorada nos formalismos:
"Em outras palavras, o Carrefour não tem legitimidade para autorizar a revogação da fiança decretada pela Justiça".
Então, estamos conversados.

Assim como em Os Miseráveis, cada vez que um Valjean qualquer surrupiar um pão do Carrefour, a empresa o entregará à Polícia e vai dar suas responsabilidades por encerradas.

Não terá o mínimo interesse em verificar se o furto foi motivado pela falta de dinheiro para comprar drogas ou pela falta de alimento para evitar que uma criança morresse de fome.

Dá tudo no mesmo.

Porque questão social e caso de Polícia são a mesma coisa, na ótica que se depreende das afirmações dos porta-vozes do Carrefour.

E, para não desembolsar 300 reais numa fiança nem entregar alguns vestuários e cestas básicas para uma pobre coitada, a empresa perdeu a oportunidade de exibir uma face humana -- aquela que seu gerente deveria ter mostrado, liberando Claudinéia, já que não houvera prejuízo.

PRISÃO REVOGADA: INTERVENÇÃO DA
IMPRENSA E BLOGUEIROS EVITA O PIOR
Profissionalmente, embora detestasse tal trabalho, já tive de zelar pela imagem de muitas companhias. Cheguei a conquistar prêmios nacionais e internacionais por meu desempenho.

Pois bem, em minha atividade de relações públicas eu avaliaria como catastróficos os danos causados à imagem do meu cliente num caso como este.

Pode-se até compreender que um gerente mais realista do que o rei corra a chamar a Polícia em episódio na qual não havia a mínima necessidade disso.

Mas, é ao rei que compete dar a última palavra.

Então, um diretor do Carrefour deveria vir a público para deixar claro que, embora a rede tenha sido fundada na França, não aprova nem repete a inclemência face aos miseráveis que Victor Hugo criticava nas autoridades francesas do século 19.

Pois, há sempre a chance de uma queixa dessas, que não fere a letra da Lei mas estupra o espírito da Justiça, ser recebida por autoridades brasileiras igualmente insensíveis.

E de uma mãe de 10 filhos acabar na prisão por causa de dez bermudas e dois sapatos, assim como Jean Valjean passou 19 anos em trabalhos forçados por causa de um pão.

Com a diferença de que Claudinéia é uma senhora de carne e osso, levando vida das mais sofridas, e não um personagem literário.

Felizmente, a Justiça paulista voltou atrás na própria 2ª feira, revogando o mandado de prisão que expedira quatro dias antes, de forma que a diarista responderá ao processo em liberdade.

A péssima repercussão junto à opinião pública fez com que começassem a corrigir uma situação de iniquidade extrema.

Espanta, no entanto, que o caso tenha ido tão longe.

E que, antes da intervenção da imprensa e dos blogueiros, tendesse a reeditar a desumanidade do capitalismo selvagem, supostamente deixado para trás.

5.8.10

RETÓRICA ULTRADIREITISTA TEM DESTAQUE NO SITE DO SERRA

Um ridículo vídeo promovendo o presidenciável tucano pode ser encontrado no Youtube: José Serra – O Patriota.

Duas das postagens foram efetuadas pela RedePSDB (http://kkkwww.youtube.com/watch?v=XEORM3qcZyo&) e por Mobiliza-PSDB (http://kkkwww.youtube.com/watch?v=jSi2vYcnWq4). [Para acessar, delete o kkk.]

Apresenta um apanhado louvaminhas da trajetória de Serra, do qual eu nem me ocuparia se não fossem dois elogios feitos exatamente para contrastar sua biografia com a da adversária Dilma Rousseff:
“Esse homem lutou mas não foi para a luta armada”.

“Hoje alguns políticos se gabam de terem lutado contra a ditadura, mas pedem dinheiro, contraprestação por suas lutas (...) que vem do dinheiro público do povo. Serra, Serra não. Nunca pediu dinheiro algum. Lutou pelo amor que sempre teve pelo nosso país (...) Esse homem abriu mão de tudo isso, para que o dinheiro seja voltado para nossa educação, para nossa saúde, para nossa segurança, para nosso desenvolvimento e não para políticos que se gabam de heróis da Pátria”.
Ou seja, repisa duas falácias comumente encontradas nos sites das viúvas da ditadura e/ou ultradireitistas e/ou dos militares reacionários:
  • a de que seria incorreto resistir pela força à tirania, devendo os cidadãos idealistas deixarem-se massacrar sem reação ou desistirem de lutar contra o arbítrio quando o terrorismo de estado atingiu o ápice sob o ditador Médici; e
  • a de que não cabe aos heróis brasileiros e às famílias dos mártires aceitarem, por vidas parcial ou totalmente destruídas, reparações como as que as nações civilizadas, seguindo orientação da ONU, outorgaram às vítimas congêneres de nações do 1º Mundo (caso, p. ex., de quem resistiu ao nazi-fascismo na Europa).
O vídeo abjeto estava publicado e destacado no site oficial da campanha de Serra na internet até que a Folha de S. Paulo indagasse a seu respeito, nesta 4ª feira (4).

A assessoria do candidato tucano eximiu-se de responsabilidades, atribuindo a postagem a um "simpatizante". E correu a substitui-lo por outra peça promocional.

Diz a sabedoria popular que "quem cala, consente".

Há também os que calam, consentem, depois tentam salvar as aparências. Estes são os piores.


DEPUTADOS BRASILEIROS APELAM AO IRÃ POR SAKINEH

A Câmara Federal aprovou nesta 4ª feira (4) moção apelando pela vida de Sakineh Ashtiani, que o Irã pretende assassinar a pedradas, com requintes de extrema crueldade, por presunção de adultério.

As principais considerações dos deputados brasileiros foram as seguintes:
“Relembrando que o Brasil já ofereceu a Ashtiani e a sua família concessão de asilo político;

“Ressaltando a necessidade de um esforço conjunto com o intuito de banir em todo o mundo as penas de apedrejamento e de morte em todas as suas formas;

“Reafirmando a tradição brasileira de defesa veemente dos direitos humanos;

“Relembrando que nossa Constituição Federal, em seu artigo 4º, estabelece que a República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais, entre outros, pelo princípio da prevalência dos direitos humanos;

“Confiantes da necessidade de o parlamento brasileiro participar ativamente em prol da defesa absoluta dos direitos humanos, em concordância com o princípio da não-indiferença, que adverte não ser possível resignar-se diante do sofrimento alheio;

“Considerando que a defesa dos direitos humanos se coaduna com a doutrina da não-intervenção em assuntos internos dos Estados e que a vida deve ser tratada como valor supremo;

“Exortamos o governo do Irã a libertar Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento”.
ARBITRARIEDADES EM CASCATA

Também nesta 4ª feira, a Alta Corte de Teerã decidiu manter a bárbara, cruel e inaceitável sentença, conforme informação divulgada pelo Comitê Internacional contra Apedrejamento.

Cabe agora ao vice-procurador-geral Saeed Mortazavi decidir se seu país está no 3º Milênio ou no 1º, quando viveu Maomé. Deverá fazê-lo na próxima semana.

Sakineh nem sequer conta com defensor atualmente, pois seu advogado Mohammad Mostafaei precisou fugir do país: foi interrogado durante quatro horas, libertado, mas teve sua prisão decretada três dias depois. Escapou atravessando a fronteira com a Turquia

Os parentes de Mostafaei tiveram menos sorte: não conseguiram escafeder-se em tempo e foram detidos (melhor seria dizer tomados como reféns).

A condenação de Sakineh se deu graças uma estapafúrdia figura jurídica do Irã, chamada de conhecimento do juiz, que dispensa a avaliação de provas e testemunhas. Ou seja, vale mais uma convicção preconceituosa do que mil evidências concretas.

Durante as trevas medievais, era assim em todo o mundo.

Hoje, só em grotões onde a civilização não chegou, como o Irã.

3.8.10

CURSO OBJETIVO VENDE GATO POR LEBRE, COM O AVAL DA "FOLHA"

Comecei a estudar no Cursinho do Grêmio em 1968, mas a participação nos movimentos contestatórios acabou prevalecendo sobre os projetos de conquistar um lugar ao sol na sociedade capitalista.

Decidi que queria mesmo era meu lugar ao sol num Brasil solidário e justo, que o capitalismo jamais propiciaria.

Fiquei, entretanto, tempo suficiente naquela instituição — cujos proprietários e professores eram estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP — para constatar que sua prioridade era formar cidadãos conscientes e dotados de espírito crítico, capazes de vencer os desafios da vida e não apenas de transpor a barreira do vestibular.

Finda minha sofrida passagem pela luta armada, quando juntava os cacos para seguir vivendo após meus sonhos maiores terem sido postergados por décadas, sem que sequer se vislumbrasse a luz no fim do túnel, fui buscar no Equipe Vestibulares o necessário para ingressar numa faculdade de Jornalismo.

Cisão do Cursinho do Grêmio, também o Equipe incutia nos alunos o interesse em irem muito além do estritamente necessário para o vestibular. Não era só o como que importava, havia uma infinidade de porquês sendo colocados, discutidos, aprofundados.

Contra essa visão do ensino como instrumental para a compreensão do mundo e participação crítica na sociedade, vicejou uma outra, utilitária, mesquinha, castradora: a linha de montagem de robozinhos chamada Curso Objetivo.

Usando e abusando de recursos da nascente informática, o Objetivo sistematizou o levantamento do que já havia caído em vestibulares e a projeção do que provavelmente cairia no seguinte, martelando na cabeça dos alunos esses retalhos de conhecimento por meio de shows-aulas, com os recursos audiovisuais e as performances canastrônicas dos professores servindos para tornar menos intragável a chatice. Decoreba modernizada, enfim.

Esta didática que desvirtuava a Educação foi alavancada pela redução do vestibular a um mero exercício de fincar cruzinhas em questões de múltipla escolha.

A ditadura sabia a quem lhe convinha facilitar o ingresso no curso superior: as chances dos c.d.f., dos esforçados mas não brilhantes, eram maximizadas por esses exames grotescos, em detrimento da capacidade de raciocínio e da criatividade — as quais, não por acaso, eram características marcantes dos insatisfeitos com o regime.

E, como o Objetivo tinha bons resultados quantitativos para trombetear, sua metodologia Frankenstein ocupou espaços cada vez maiores no mercado, aplicada por si e pelos outros cursinhos que a copiaram.

Depois de alguns anos, entretanto, o ensino superior começou a despertar desse pesadelo, reintroduzindo questões dissertativas no vestibular, para preencher suas salas de aula com algo mais do que laranjas mecânicas.

O tempo passou, o país se redemocratizou, vivemos uma nova realidade, mas o leopardo não perde as pintas, nem o Objetivo deixa de corporificar a pior mentalidade capitalista aplicada ao ensino.

Assim é que, em anúncios de página inteira veiculados nos jornalões, crava: Objetivo cria escola só para bons alunos.

E, em letras garrafais, reproduz citações de uma matéria que, à primeira vista, até me pareceu uma daquelas peças louvaminhas que são contratadas e detalhadas nos Departamentos Comerciais da grande imprensa, chegando às redações como tarefas a serem cumprida seguindo as especificações da bula:

“O Objetivo criou uma escola apenas para bons alunos. O Colégio Integrado Objetivo tem o mesmo endereço da tradicional unidade Paulista (avenida Paulista, 900) (…)

“A mensalidade (cerca de R$ 1.600) e a carga horária não mudam. A diferença é que no Colégio Integrado, criado em 2008, só entra aluno com nota alta. Além disso, ele oferece aulas extras para os alunos no período da tarde e os professores são ‘especiais’.”

O ridículo, no anuncio, chegou ao ponto de serem apresentadas como verdades irrefutáveis as alegações do Objetivo sobre os motivos de tão prodigioso colégio, que se propõe a isolar os geniozinhos para melhor moldá-los como raça superior, não figurar bem no Enem.

‘AUTOFAGIA PERIGOSA’

No entanto, a coluna de Suzana Singer, ombudsman da Folha, no último domingo (1º), Um texto, dois objetivos, esclareceu que não se tratava de uma armação comercial imposta à redação, mas sim de um texto jornalístico que foi desfigurado para adequar-se à imagem que o Objetivo queria projetar:

“O que era uma reportagem crítica virou, em cinco dias, peça publicitária. Em 20 de julho, a Folha relatava, com chamada na primeira página, que a rede Objetivo criou uma escola apenas para bons alunos, que ganham aulas extras à tarde, ministradas por professores considerados ‘especiais’.

“Esse grupo teria obtido no último Enem, o Exame Nacional de Ensino Médio, uma nota suficiente para aparecer como segundo colocado no ranking nacional.

“Nas entrelinhas, o que se deduzia era que não se tratava de fato de uma escola nova, mas de um artifício: separam-se os mais estudiosos, eles obtêm boas notas no Enem e o nome do colégio aparece no alto do ranking das escolas.

“Nos dois primeiros parágrafos, o texto dizia que o Colégio Integrado Objetivo, criado em 2008, não tem um prédio próprio, cobra a mesma mensalidade e tem carga horária obrigatória idêntica às demais unidades da rede.

“Era para ser uma denúncia, mas a reportagem deve ter sido comemorada na avenida Paulista, 900, onde fica a sede do Objetivo. O texto virou anúncio de página inteira, publicado quatro vezes na Folha e em outros jornais.

“O colégio reproduziu o título da reportagem, destacou várias partes e assinalou em letras grandes: ‘Parabéns alunos e professores do Colégio Integrado Objetivo pelo êxito no Enem’. Deixou, no alto, o logotipo da Folha para dar credibilidade.

“O anúncio, porém, omitiu vários trechos importantes. Um deles dizia que ‘as demais unidades do Objetivo, que não selecionam os alunos, não vão tão bem assim no ranking do Enem’.

“Outro afirmava que a escola premia com iPhone e notebooks os que se destacam nos simulados.

“Dois parágrafos subtraídos tinham declarações de uma educadora criticando a prática de selecionar alunos”.

Ou seja, o Objetivo pegou um texto jornalístico que tinha prós e contras, suprimiu todos os contras e trombeteou os prós. Será que, nesse seu colégio-chamariz, também são ministradas aulas de ética?

A ombudsman revela que, depois de produzir o anúncio com o texto expurgado e maquilado, a agência de publicidade do Objetivo entrou em negociações comerciais com a Folha, que, mediante pagamento pelo uso do seu material, concordou com o abuso.

Suzana interpelou a Secretaria de Redação, que defendeu a distorção cometida:

“A avaliação foi a de que a essência da reportagem não foi adulterada”.

Mas, cumprindo conscenciosamente sua função, a ombudsman sustenta que o procedimento foi aberrante:

“Se fosse isso mesmo, a reportagem original teria algo bem errado, já que seria praticamente um press realese. Mas não era. Foi retalhada e usada como peça de marketing.

“Para os leitores, expostos mais vezes ao anúncio do que à reportagem, fica a impressão de que a Redação da Folha prestou um serviço ao Objetivo. O jornal permitiu uma autofagia perigosa”.

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