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26.7.07

CONSPIRADORES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

Celso Lungaretti (*)

São cada vez mais explícitas as exortações a uma nova quartelada, evidenciando a existência de um esquema golpista que poderá ser acionado se e quando chegar o momento propício.

Ao entregar espadins a ingressantes nas academias militares, um ministro do Superior Tribunal Militar, Olympio Pereira da Silva Júnior, teve um ataque de incontinência verbal e abriu o jogo: “Não desistam. Os certos não devem mudar e sim os errados. Podem ter certeza de que milhares de pessoas estão do lado de vocês. Um dia, não se sabe quando, mas com certeza esse dia já esteve mais longe, as pessoas de bem desse País vão se pronunciar, vão se apresentar, como já fizeram em um passado não muito longe, e aí sim, as coisas vão mudar, o sol da democracia e da Justiça brasileira vai voltar a brilhar”.

Quando a extrema-direita fez uma verdadeira tempestade em copo d’água em torno da anistia a Carlos Lamarca (culpando o Governo Federal pelo que fora decisão do Judiciário), o torturador-símbolo do Brasil, Carlos Alberto Brilhante Ustra, recebeu mensagem de um oficial da reserva pregando virada de mesa e só contestou o timing: “o fruto ainda não está maduro para ser colhido”. Sua certeza de impunidade é tamanha que ele manteve essa troca de idéias on-line!

Os Grupos Guararapes da vida lançam manifestos bombásticos aos militares (“A honra ou a morte!”) e os conspiradores já saíram às ruas em Salvador, tentando repetir as marchas “da família, com Deus, pela liberdade” que prepararam o terreno para a derrubada de João Goulart.

O script, aliás, é bem semelhante ao de 1964, com o MST no papel das Ligas Camponesas, o caos aéreo substituindo a agitação nos escalões inferiores das Forças Armadas (em que pontificou o famigerado cabo Anselmo), um fantasmagórico Foro de São Paulo fazendo as vezes da conspiração comunista urdida por Moscou e Pequim...

ALARMISMO EXACERBADO

Os acontecimentos do dia-a-dia são enfocados de forma tendenciosa e exagerada, como no caso da tragédia de Congonhas. Apesar das evidências gritantes de que a responsabilidade maior foi das empresas aéreas e sua ganância criminosa, a morte de 200 pessoas deu pretexto a uma enxurrada de panfletos virtuais contra o Governo Lula, cuja virulência ultrapassou todos os limites do razoável.

É certo que continuou permitindo o pouso de aeronaves de grande porte num aeroporto que não mais as comportava, cedeu aos lobbies colocando uma pista em operação antes de estar pronta e não cumpriu devidamente sua missão de fiscalizar o cumprimento de normas de segurança.

Mas, em matéria de omissão e subserviência aos interesses econômicos, pouco difere dos governos anteriores, não se justificando, nem de longe, o clima apocalíptico que se tenta insuflar por meio da Web e até de alguns manifestações na grande imprensa, como o editorial de O Estado de S. Paulo que proclamou o “colapso do lulismo em matéria de permitir, em última análise, que o país funcione”.

Ora, um observador isento concluiria que o País vem funcionando exatamente da mesma forma desde a década passada, quando se abateu sobre ele a desumanidade característica do capitalismo globalizado.

E até há uma pequena melhora na situação econômica, como se depreende dos dados sobre o desempenho do mercado de trabalho no último semestre: em 85,7% das negociações coletivas os trabalhadores obtiveram reajuste acima da inflação, enquanto 10,7% empataram e só 3,6% ficaram aquém da alta de preços.

“A recuperação dos salários reais, ao lado da expansão do crédito, tem dado impulso a um crescimento robusto da demanda interna. Com o aquecimento do consumo e do investimento, a criação de empregos com registro formal atingiu número recorde no primeiro semestre . O saldo líquido entre admissões e demissões foi de 1,095 milhão, o maior já registrado”, assinalou a Folha de S. Paulo, também em editorial.

Ou seja, a economia começa a ingressar num período de alta, o que sempre alavanca o prestígio dos governos no Brasil. Esta é a causa mais provável do desespero que se observa entre as viúvas da ditadura e os neo-integralistas. Acreditavam que o transcurso do tempo serviria a seus propósitos de acumulação de forças e vêem suas chances, pelo contrário, diminuírem.

O certo é que há muitos empecilhos ao seu sonho de bisar 1964: os EUA e os grandes empresários hoje não têm motivo nenhum para embarcar nessa aventura; o golpismo não encontra guarida no catolicismo e, muito menos, junto aos neopetencostais; o fim do socialismo real privou os conspiradores de um espantalho crível; a classe média não parece disposta a passar dos resmungos virtuais à ação concreta, etc.

SOM E FÚRIA NULOS

Então, por enquanto, esse estardalhaço todo se reduz, parafraseando Shakespeare, a “uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada".

Mesmo assim, o obscurantismo e as atrocidades que marcaram o período 1964/1985 nos obrigam a acompanhar com muita atenção esses tentativas de reincidência, jamais subestimando o perigo.

Há uma lâmina suspensa sobre nossa democracia. Poderá jamais ser acionada. Mas, melhor do que rezarmos para que não aconteça o pior, é desarmarmos o quanto antes essa guilhotina.

Começando pela apuração rigorosa dos crimes virtuais que estão sendo cometidos pelos golpistas, como incitações sediciosas, difamação e calúnia.

* Celso Lungaretti é jornalista, escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

23.7.07

AOS COMPANHEIROS E AMIGOS

Há uma trincheira praticamente abandonada, que precisamos ocupar o quanto antes: a própria internet.

A extrema-direita desenvolve uma atuação maciça na Web, com fartura de recursos materiais e uma verdadeira rede de fanáticos espalhando seu veneno, cuja finalidade última é preparar o terreno para uma nova quartelada.

Mantém sites como o Terrorismo Nunca Mais, o Usina de Letras, o Mídia Sem Máscara e A Verdade Sufocada, em que armazena centenas de textos demagógicos, como munição que os fascistinhas recortam, distribuem e colam em todo lugar.

Atua como rolo compressor nas comunidades do Orkut e congêneres, afugentando das discussões os internautas não-sectários.

Mantém envio ininterrupto de panfletos virtuais por meio de suas redes.

O ANTÍDOTO - Já é hora de começarmos a reagir -- mesmo porque dá menos trabalho matar a serpente ainda no ovo. Podemos:

1) Reunir provas dos delitos que estão sendo cometidos (exortação à rebelião contra os Poderes da Nação, calúnia e difamação, principalmente), encaminhando-as às autoridades (a equipe que o Ministério Público Federal criou para combater os crimes virtuais ou, nas cidades menores, a Polícia Federal), à imprensa e às entidades de defesa dos direitos humanos;

2) Denunciar essa propaganda enganosa e essas pregações golpistas na própria internet, disputando espaços com as tropas de choque virtuais dos neo-integralistas;

3) Criar e afirmar um ou mais sites que reúnam artigos sobre os mesmos temas, disponibilizando a verdade histórica para nossos seguidores, de forma a facilitar-lhes a desmistificação das manipulações primárias das viúvas da ditadura.

Tenho a impressão de que a corja golpista, temendo que a pequena melhora da situação econômica ora verificada fortaleça o Governo Lula, começa a ficar desesperada. Seu alarmismo subiu de tom e é bem capaz de tentar algo, na base do "agora ou nunca".

Então, temos de ficar bem atentos. E agir decididamente para abortar no nascedouro os planos do inimigo.

18.7.07

CRõNICA DE MAIS UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA

Celso Lungaretti (*)

Cada vez que acontece um acidente de grandes proporções como a explosão do Airbus da TAM, o volume de informações despejado sobre os cidadãos comuns é tamanho que a maioria deles não consegue situar-se nesse emaranhado de imagens, falas e textos com relevâncias e pertinências desiguais.

A espetacularização levada a cabo pela mídia vem ao encontro dos instintos mórbidos de seus públicos-alvos e lhes fornece catarse. As discussões no ar ou no papel são apenas parte do show, devendo saturar todos os espaços durante alguns dias e, tão-logo ocorra novo episódio momentoso, ceder lugar a outras, que igualmente não levarão a lugar nenhum. Os culpados não recebem a devida punição nem são tomadas providências à altura. A vida humana vale muito pouco no Brasil.

Como destacou a colunista Eliane Catanhêde, da Folha de S. Paulo, o que aconteceu neste 17 de julho não passou de mais uma tragédia anunciada: “não pode ser pura coincidência o maior acidente da história acontecer exatamente em Congonhas , no dia seguinte à derrapagem de um pequeno avião da Pantanal. É o aeroporto mais congestionado do país, há décadas se sabe que é inviável e os relatórios oficiais já acendiam o sinal amarelo havia meses. Qualquer um sabe disso, no governo civil, na Aeronáutica, na Infraero, na Anac, nas companhias. Mas ficaram todos esperando ocorrer o pior”.

Quando o Boeing da Gol se chocou com o jato da Legacy, o Brasil inteiro ficou conhecendo as péssimas condições de trabalho a que eram submetidos os controladores de vôo. Por mais que se queira atirar a culpa para o outro lado do oceano, ficou evidenciada, de forma gritante, nossa incúria com a segurança dos passageiros e tripulações.

Todos sabemos que, quase dez meses depois, os problemas então constatados estão longe de terem sido resolvidos. Morreram 154 pessoas... em vão? E serão também em vão as quase 200 mortes de agora?

O ponto comum nas grandes tragédias brasileiras é sempre o mesmo: governos e empresas reduzem custos insensatamente, jogando com a vida dos cidadãos. Dinheiro é mais importante do que seres humanos, na lógica capitalista levada às últimas conseqüências.

Tanto que a ganância flagrantemente criminosa, como no caso das empreiteiras responsáveis pelo desabamento da estação de metrô Pinheiros, nunca leva os autores ao banco dos réus, para responderem pelo que realmente cometeram: assassinatos.

* Celso Lungaretti é jornalista, escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

11.7.07

A NOITE DOS MORTOS-VIVOS

Celso Lungaretti (*)

O cabo Anselmo saiu da tumba para provocar sustos e asco nas pessoas de bem, no Linha Direta Justiça que a Rede Globo levou ao ar no último dia 5.

Trata-se do mais célebre dos militantes da resistência à ditadura militar que, no jargão dos próprios órgãos de segurança, atuaram como cachorros da repressão, armando ciladas para os companheiros.

Seu caso voltou à baila por ele estar pleiteando reparação de perseguido político à Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.

A reconstituição de sua história em tevê aberta teve como ponto alto um episódio que o grande público ignorava (embora já fosse conhecido pela minoria informada), assim descrito por Élio Gaspari em A Ditadura Escancarada:

“A última operação de Anselmo, na primeira semana de janeiro de 1973, (...) resultou numa das maiores e mais cruéis chacinas da ditadura. Um combinado de oficiais do GTE e do DOPS paulista matou, no Recife, seis quadros da VPR. Capturados em pelo menos quatro lugares diferentes, apareceram numa pobre chácara da periferia. Lá, segundo a versão oficial, deu-se um tiroteio (...). Os mortos da VPR teriam disparado dezoito tiros, sem acertar um só. Receberam 26, catorze na cabeça. (...) A advogada Mércia de Albuquerque Ferreira viu os cadáveres no necrotério. Estavam brutalmente desfigurados.”

Foi chocante também, para o telespectador comum, ficar sabendo que Anselmo, no afã de bem servir à repressão, causou a morte inclusive de sua amante, a paraguaia Soledad Barret Viedma, que estava gerando uma criança dele; e que aqueles militantes estavam antecipadamente marcados para morrer, tanto que Anselmo chegou a pedir pela vida de Soledad, se fosse “possível” poupá-la do destino dos demais.

A realidade, portanto, foi bem diferente dos contos-de-fadas que os sites direitistas propagam, tentando fazer passar por operações policiais rotineiras as atrocidades cometidas pela ditadura militar.

Este Linha Direta, surpreendentemente, não deixou de mostrar os esqueletos que o regime dos generais tinha no armário. Mas, talvez tenha sido condescendente com Anselmo, ao encampar sua versão de que só teria mudado de lado em junho de 1971.

Antigos colegas da Marinha garantem que, durante os eventos que desembocaram na quartelada de 1964, ele já era agente do Cenimar, com a missão de radicalizar ao máximo a agitação entre os sargentos, cabos e soldados, de forma a provocar a indignação dos superiores. Afinal, a oficialidade hesitou bom tempo antes de aderir ao núcleo golpista, só o fazendo quando passou a ser contestada abertamente pelos subalternos.

Perseguido político? – Há outros fatos suspeitos.

Logo após o golpe, Anselmo pediu asilo na embaixada mexicana. Mas, embora fosse uma das pessoas mais procuradas do País, resolveu sair andando de lá, sem ser detido.

Logo mais foi preso, exibido como troféu pela ditadura... e logo transferido para uma delegacia de bairro, na qual, diz Gaspari, “Anselmo fazia serviços de telefonista, escrivão e assistente do único detetive do lugar”.

A situação carcerária do ex-marujo, continua Gaspari, não cessou de melhorar: “Com as regalias ampliadas, era-lhe permitido ir à cidade. Numa ocasião surpreendeu o ministro-conselheiro da embaixada do Chile, visitando-o no escritório e pedindo-lhe asilo. Quando o diplomata lhe perguntou o que fazia em liberdade, respondeu que tinha licença dos carcereiros. O chileno, estupefato, recusou-lhe o pedido”.

Finalmente, sem nenhuma dificuldade, Anselmo deixou a cadeia em abril de 1966. Nada houve que caracterizasse uma fuga: apenas constataram que o hóspede saíra e não voltara.

Só retornaria ao Brasil em setembro de 1970, iniciando no ano seguinte sua trajetória de anjo exterminador.

Se ficar estabelecido que ele sempre foi um agente duplo, Anselmo não fará jus à anistia federal; caso tenha realmente sido um perseguido político até 1971, seus direitos não são anulados pelas indignidades posteriores.

Portanto, o programa da Globo, ao não aprofundar tal questão, serviu ao principal interesse de Anselmo neste momento.

Ele, inclusive, tem posado de vítima nas entrevistas, deixando de vangloriar-se por ter causado a morte de “cem, duzentos” militantes, como antes fazia (aliás, com exagero). No entanto, mau ator, a hipocrisia transparece em sua voz. A pele de cordeiro não lhe cai bem.

De resto, o Linha Direta não aliviou também para a ditadura, de forma que os telespectadores tiveram uma rara oportunidade para conhecer a verdade, num veículo em que ela não é habitual...

Massacre no bom sentido – A emissão terminou com uma chamada para o chat em que o caso foi debatido pelo ex-preso político Ivan Seixas e o advogado de Anselmo, Luciano Blandy.

Foi mais um massacre, desta vez no bom sentido. Ivan levou o advogado às cordas várias vezes, como quando demoliu a versão de que Anselmo teria cooperado com a repressão para não ser, ele próprio, executado.

Se isso é duro de engolir nos episódios ocorridos no Brasil, torna-se absolutamente inverossímil durante a estada dele no Chile. Se não aproveitou a oportunidade para escapar das malhas da repressão quando estava num país democrático e soberano, é porque, como ressaltou Ivan, já pertencia de corpo e alma à ditadura, como assalariado dos órgãos de segurança.

Foi igualmente infeliz o advogado a referir-se ao Genoíno e a mim como ex-militantes cujos casos seriam semelhantes ao do Anselmo. Enviei de imediato respostas e interpelações que os organizadores do chat ignoraram, mas minhas queixas posteriores surtiram efeito e o site do Linha Direta publicou uma nota com minha defesa:

“A acusação que ele me fez no chat, de ter sido delator, foi desmentida em 2004 pelo historiador Jacob Gorender, depois que lhe enviei um relatório secreto militar que viera a público e confirmava inteiramente minhas alegações. Em carta enviada à imprensa, Gorender me isentou de qualquer responsabilidade pela descoberta da escola de guerrilha e o cerco a Lamarca. Exumar essa versão já superada foi uma represália do advogado por eu ter escrito e divulgado, na véspera do debate, um artigo contundente sobre o Cabo Anselmo, intitulado ‘Anistia para um canalha’ – afirma Lungaretti.”

Foi citada nessa nota também a resposta que o companheiro Ivan deu no próprio chat:

“Eu acho um absurdo o que você está falando. Essas pessoas todas que você falou, elas foram presas, foram muito torturadas e elas não colaboraram. Não passaram a ser assassinas a serviço do Estado. Elas passaram a ser presas e perseguidas. Você colocar em pé de igualdade as pessoas torturadas com um cara desses (Anselmo), me desculpe, mas é inaceitável. Não tem o mínimo sentido. Os critérios para aceitação do processo de anistia com certeza são de perseguição, de pessoas que tiveram suas vidas prejudicadas. Esse cara [Anselmo] foi assalariado, você sabe disso.”

O advogado Blandy depois me escreveu para afirmar que não havia me citado como delator da área de treinamento guerrilheiro em Registro, mas sim como exemplo de militante perseguido pela própria esquerda por causa de acusações infundadas (como, no entender dele, é o caso do Anselmo).

Não foi essa a impressão que ficou do que ele disse no ar, nem foi assim que entendemos o Ivan, eu e o próprio redator da Globo que escreveu a notícia publicada no site. Mas, como Blandy não é um comunicador experiente, admito a hipótese de que tenha sido apenas infeliz na escolha das palavras. Tenho por princípio nunca duvidar, a priori, da sinceridade de ninguém.

Cara de pau consumado – Também nos dias seguintes, Ivan enviou mensagem aos amigos relatando o que aconteceu nos bastidores do chat, até como forma de prevenir-se contra eventuais represálias da direita. Alguns trechos interessantes:

“Lá chegando me deparei com a presença do advogado, junto com o Carlinhos Metralha, torturador da equipe do [delegado Sérgio] Fleury, e o próprio cabo Anselmo.”

“O cabo está mais magro, quase careca, com o nariz aquilino e o queixo pontudo para frente.”

“O cabo foi apresentado ao pessoal da Globo como sendo o Fininho, torturador e membro do Esquadrão da Morte.”

“Em vários momentos comentavam as encenações e confirmavam entre si a semelhança com o que viveram.”

“O momento mais cruel foi quando o torturador perguntou para o Anselmo sobre a encenação do massacre e este respondeu: ‘Ta bem bom’.”

“Afirmei várias vezes que o cabo e Carlinhos Metralha estavam fora da sala e o advogado não negou. Quando terminou, ele me ‘esclareceu’ que não era o cabo, mas Fininho. Respondi a ele que eu conhecia os dois Fininhos e que esse era o cabo. Ele apenas riu e saiu fora da sala.”

“O cara é mais cara de pau do que imaginávamos.”

***

Carlos Alberto Brilhante Ustra saiu da tumba para provocar sustos e asco nas pessoas de bem, colocando no seu site e infestando a internet com o artigo “Celso Lungaretti e a organização de Lamarca”, em que repete a receita habitual de misturar calúnias, mentiras, meias-verdades, entulho autoritário retirado dos famigerados Inquéritos Policiais-Militares e daquela documentação secreta cujo paradeiro o Governo Lula garante desconhecer, tudo isso interpretado da forma mais tendenciosa e distorcida. Ele segue, com pouca criatividade e nenhum brilhantismo, as lições de Goebbels: martelar uma falsidade mil vezes até que ela passe por verdade.

Torturador-símbolo do Brasil desde a morte do delegado Sérgio Fleury, Brilhante Ustra comandou, entre setembro/1970 e janeiro/1974, o DOI-Codi de São Paulo, o principal órgão de repressão aos grupos de esquerda que pegaram em armas contra a ditadura militar. Já foram apresentadas 502 denúncias de torturas referentes a esse período. Pelo menos 40 revolucionários foram assassinados no DOI-Codi, inclusive o jornalista Vladimir Herzog.

Para se ter uma idéia do nível do samba do crioulo doido ideológico e até cronológico com que Brilhante Ustra tenta em vão me desacreditar, basta este trecho: “Foi a VPR que planejou e organizou o atentado ao Quartel do II Exército, onde morreu o soldado Kosel e outros ficaram feridos. (,,,) Ele sabia desse atentado bárbaro e, mesmo assim, continuou militando na mesma.”

Ora, seria muito difícil eu sair da VPR em junho de 1968, já que nela ingressei em abril de 1969!

Em meados de 1968 eu era apenas um secundarista que ia distribuir panfletos numa Osasco sob ocupação militar e não tinha o mínimo interesse em atentados contra quartéis. Só passei a prestar atenção na luta armada meses depois, quando o recrudescimento da ditadura começou a inviabilizar a resistência pacífica, tornando-a, cada vez mais, suicida.

Finalmente, é emblemático que Brilhante Ustra relacione esse artigo, no seu site, como de sua própria autoria, mas o distribua na Internet com uma assinatura farsesca: os administradores do site www.averdadesufocada.com

Ivan Seixas, no chat do Linha Direta, ressaltou que os veteranos da resistência à ditadura todos assumimos o que somos e o que fazemos, assinamos os textos com nossos nomes reais, não escondemos nossas fotos, lutamos de peito aberto.

Já as viúvas da ditadura e os novos integralistas atuam como fakes e anônimos na Internet, mascaram a autoria de seus escritos e comparecem a estúdios de TV sob falsa identidade, sem que possam apontar nenhuma ameaça real para justificar essas práticas ridículas... salvo o complexo de culpa pelos crimes contra a humanidade que praticaram, coonestaram e/ou defendem. Sabem que merecem punição e punem-se a si próprios com suas paranóias.

São, além de tudo, covardes.

* Celso Lungaretti, jornalista, escritor e ex-preso político, foi militante da VPR, uma das organizações traídas pelo cabo Anselmo e massacradas pelos comandados de Brilhante Ustra. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

5.7.07

ANISTIA PARA UM CANALHA

Celso Lungaretti (*)

A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça está às voltas com o segundo processo mais rumoroso em seus quase seis anos de existência: o de José Anselmo dos Santos, conhecido como cabo Anselmo, embora tenha sido apenas marinheiro de primeira classe.

O assunto, que já vinha sendo abordado com algum destaque na mídia escrita e na Internet, deverá agora despertar o interesse de um público mais amplo, graças ao Linha Direta Justiça de 05/07/2007 da Rede Globo.

Em 2004, a Comissão de Anistia sofreu muitas críticas em razão do óbvio favorecimento ao escritor e jornalista Carlos Heitor Cony, que não só teve seu processo passado abusivamente à frente dos de dezenas de milhares de anistiandos que não eram celebridades, como recebeu uma pensão mensal vitalícia (e respectiva indenização retroativa) cujo valor, exageradíssimo, não condizia com as próprias regras do programa.

O caso atual é bem mais complexo.

O cabo Anselmo foi o principal agitador da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil no período que antecedeu a quartelada de 1964. Depois do golpe, passou vários anos foragido, esteve em Cuba treinando guerrilha e, de regresso ao Brasil, militou na luta armada contra o regime militar, ao mesmo tempo em que colaborava sub-repticiamente com a repressão da ditadura, atraindo seus companheiros para emboscadas.

Quando seu verdadeiro papel ficou evidenciado, ele passou a viver sob a proteção dos órgãos de segurança, que lhe proveram remuneração e fachada legal sob identidade falsa. De vez em quando, para aumentar os ganhos, concedeu entrevistas que foram publicadas com destaque na grande imprensa e até viraram livros.

O processo do cabo Anselmo, que tramita desde 2004 na Comissão de Anistia, não tem julgamento marcado. Ou seja, esse colegiado hesita porque ainda não tem clareza sobre como descascará o abacaxi.

Estigma da infâmia – O programa foi criado para oferecer reparações àqueles que sofreram danos físicos, psicológicos, morais e profissionais em decorrência do estado de exceção vigente no Brasil entre 1964 e 1985.

Então, caso o cabo Anselmo tenha realmente sido um militante revolucionário até o início da década de 1970, só então mudando de lado, sua vida foi mesmo afetada pelo arbítrio instaurado no País, independentemente do juízo moral que façamos de quem se vangloria de haver causado a morte de "cem, duzentos" idealistas que combatiam a ditadura e o tinham como companheiro.

Ou seja, se o poder não tivesse sido usurpado por um grupo de conspiradores em 1964, o cabo Anselmo continuaria presumivelmente servindo a Marinha, ao invés de se tornar um homem que há três décadas carrega o estigma da infâmia e precisa viver escondido no próprio país. Daí o seu direito formal à reparação que está pleiteando.

No entanto, a anistia federal foi uma tentativa de re-equilibrar os pratos da balança, depois que a Lei da Anistia de 1979 passou uma borracha no passado, equiparando carrascos e vítimas.

Naquele momento, os vitoriosos impuseram aos vencidos as condições para a pacificação: libertariam presos políticos e deixariam os exilados retornarem ao País desde que os assassinatos, torturas e atrocidades cometidos ou consentidos pela ditadura ficassem para sempre fora do alcance da Justiça e da Lei.

O Governo Fernando Henrique, não podendo ou não ousando remediar essa situação, resolveu, pelo menos, remendá-la, concedendo compensações financeiras aos humilhados e ofendidos.

Vilãos e vítimas – Daí o mal-estar causado pela impudência com que o cabo Anselmo pleiteou benefício de vítima, após ter sido um dos maiores vilãos do período. Do ponto-de-vista moral, é chocante ver um ser tão abjeto lado a lado com cidadãos dignos e sofridos; do ponto-de-vista legal, provavelmente não há como expulsar esse estranho do ninho.

A menos, claro, que se consiga comprovar a tese sustentada por vários de seus ex-colegas da Armada: a de que o cabo Anselmo desde o primeiro momento serviu à comunidade de informações, como agente infiltrado nos movimentos de esquerda.

Evidentemente, o Cenimar, o Deops e órgãos congêneres não atestarão que o cabo Anselmo já estava na sua folha de pagamentos quando tudo fazia para radicalizar os movimentos dos subalternos das Forças Armadas – fator decisivo para que a oficialidade decidisse quebrar seu juramento de fidelidade à Constituição, passando a apoiar o núcleo golpista.

Os indícios são fortes: não o expulsaram da Marinha embora houvesse motivos de sobra para tanto; e, logo depois do golpe, foi preso e solto em circunstâncias as mais suspeitas, conservando uma liberdade de movimentos de que nenhum outro perseguido político desfrutava.

Mas, as chamadas provas circunstanciais não bastam para privá-lo da reparação a que moralmente não faz jus.

E dificilmente aparecerão provas formais que justifiquem o indeferimento da anistia do canalha capaz de causar até a morte da militante que engravidara, tendo considerado mais importante garantir o massacre de seis revolucionários do que salvar a sua amante e a criança que ela concebia.

* Celso Lungaretti, jornalista e ex-preso político, foi militante da VPR, uma das organizações traídas pelo cabo Anselmo. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
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