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13.3.08

O GASPARI DE 2008 TAMBÉM NÃO É MAIS O DE 1968

A direita brasileira não se notabiliza por produzir quadros intelectualmente brilhantes (os Robertos Campos são raros!). Quem melhor a serve, defendendo o status quo com argumentos menos primários, costumam ser pessoas formadas pela esquerda que, em qualquer ponto da trajetória, passam a remar a favor da corrente.

O exemplo mais conspícuo é o do jornalista e político Carlos Lacerda, o corvo de todas as conspirações golpistas em meados do século passado. Por mais que desprezemos o uso que fazia de seus dons, é impossível deixarmos de admirar a agilidade mental que lhe permitiu enriquecer o anedotário político com réplicas devastadoras, que mandavam à lona os adversários.

A melhor delas, na minha opinião, foi a resposta que deu a um jornalista francês. Depois de ver concretizada a tão sonhada quartelada (e antes de perceber que os militares não haviam tirado as castanhas do fogo em benefício do seu projeto pessoal de chegar à Presidência sem votos, preferindo reservar o poder para si próprios), Lacerda saiu a propagandear pelo mundo a impropriamente chamada Revolução de 1964.

Naquela coletiva à imprensa, entretanto, fizeram-lhe uma pergunta zombeteira: “Por que, afinal, as revoluções sul-americanas são sempre sem sangue?”. Ao que ele respondeu, de bate-pronto: “Porque são semelhantes às luas-de-mel francesas”.

Acabou sendo gentilmente convidado a deixar o país. E o jornalista vampiresco não deve ter se decepcionado com os acontecimentos políticos subseqüentes, pois a América do Sul começava a entrar na fase dos banhos de sangue.

Mas, voltando aos melancólicos tempos presentes, há uma legião de jabores produzindo textos convenientes para a direita e sendo recebida de braços abertos pelos sites e correntes de e-mails das viúvas da ditadura. Gente que começa dissecando o conformismo da opinião pública e acaba colocando seu talento a serviço de quem tudo faz para manter bovinizada a opinião pública.

Torçamos para que não seja esse o novo rumo de Élio Gaspari. Seria um triste epílogo para uma carreira que, garante-me o excelente articulista Laerte Braga, começou na órbita do PCB.

Em 2008 remunera-se o terrorista de 1968, publicado na Folha de S. Paulo de 12/03/2008, é, seguramente, um dos escritos mais inoportunos e infelizes da carreira de Gaspari. Parece mais uma peça complementar da campanha da extrema-direita contra o programa de anistia do Ministério da Justiça do que uma análise do autor de A Ditadura Escancarada.

Contrapõe, utilizando uma narração piegas e folhetinesca no mau sentido, as trajetórias de um militante da Vanguarda Popular Revolucionária (Diógenes Carvalho Oliveira) e de um jovem piloto que perdeu a perna quando da explosão de um petardo diante do consulado estadunidense em São Paulo. Compara, de forma simplista e demagógica, os valores de reparações concedidas pela União a ambos.

Segundo ele, tal atentado teria sido cometido pela VPR e seus autores seriam Diógenes e os “arquitetos Sérgio Ferro e Rodrigo Lefèvre, além de Dulce Maia e uma pessoa que não foi identificada”. Esquece-se, entretanto, de citar as fontes que amparam sua convicção – lapso imperdoável num historiador!

A referência a “uma pessoa que não foi identificada” denuncia, entretanto, a origem de sua suposição (até prova em contrário, não a considerarei uma informação): os inquéritos policiais-militares da ditadura. Se algum(ns) dos quatro apontados houvesse(m) admitido publicamente sua(s) culpa(s), não teria(m) por que ocultar o nome do quinto participante.

O que são os IPMs do regime militar, do ponto-de-vista jurídico? Nada. Uma ignomínia que pertence à lata de lixo da História, já que tudo neles contido tem origem viciada: foram informações arrancadas mediante torturas as mais brutais, que várias vezes causaram a morte dos supliciados, como no caso de Vladimir Herzog.

E era muito comum os torturados simplesmente admitirem o que os torturadores pensavam ser verdade, ganhando, assim, uma pausa para respirar. Então, ao ler a versão dos algozes, eu sempre noto que, em cada ação da Resistência, são relacionados muito mais autores do que os necessários para tal operação.

Para alguém que estava pendurado num pau-de-arara, recebendo choques insuportáveis, é desculpável que respondesse “sim” quando os carrascos perguntavam se fulano ou sicrano participara de determinado assalto a banco. Fazíamos o humanamente possível para evitar a prisão e/ou morte dos companheiros, mas não estávamos nem aí para o enquadramento penal nos julgamentos de cartas marcadas da ditadura.

O Projeto Orvil, o chamado “livro negro da repressão” (síntese do acervo ensangüentado dos IPMs), cita-me como um dos três juízes no julgamento de um militante caído em desgraça com a VPR; no entanto, além de não haver jamais julgado companheiro nenhum, nem mesmo tomei conhecimento da convocação desse tribunal, se é que ele realmente existiu.

Daí a impropriedade, a imoralidade e, até, a ilegalidade de se utilizar esse entulho autoritário como argumento contra quem quer que seja.

Em segundo lugar, Gaspari parece colocar em planos diferentes as ações armadas cometidas pela Resistência antes e depois da promulgação do AI-5, como se o País não estivesse sob ditadura.

O exercício do direito de resistência à tirania independe da intensidade da tirania. Não existe meia virgem: ou era democracia, ou era ditadura. O Brasil estava desde 1964 submetido ao arbítrio de usurpadores do poder que já haviam praticado um sem-número de barbaridades, como a humilhação, tortura e quase enforcamento, em público, do lendário Gregório Bezerra.

Então, todo aquele que, por resistir à tirania, foi preso e torturado como Diógenes, merece, sim, uma reparação, à luz do Direito das nações civilizadas e segundo as recomendações da ONU.

E, se tudo que Gaspari supõe fosse provado, o justo seria o Estado indenizar Diógenes pelos direitos atingidos e condená-lo à prisão pelas matanças cometidas. As reparações da Comissão de Anistia não são prêmio de boa conduta, de forma que uma coisa não invalidaria a outra.

Esta possibilidade, infelizmente, inexiste por causa da Lei da Anistia de 1979, que, ao conceder um habeas-corpus preventivo para os verdugos, acabou inviabilizando também a apuração de excessos cometidos pelos resistentes. É urgente e necessária sua revisão, doa a quem doer.

Quanto à linha de raciocínio de Gaspari, se levada às últimas conseqüências, desembocará na conclusão de que assassinos podem ser torturados pelos agentes do Estado. Então, repito: torço sinceramente para que ele não esteja aderindo às tropas de elite do autoritarismo redivivo.

P.S.: Antes mesmo do que eu esperava, a Folha de S. Paulo foi obrigada a reconhecer a impropriedade de se utilizar o "entulho autoritário como argumento contra quem quer que seja", publicando na edição de 15/03/2008 um "erramos" no qual admite que, tanto na coluna do Élio Gaspari quanto no noticiário, acusara falsamente Dulce Maia de participação no atentado ao consulado dos EUA.

2 comentários:

Robson disse...

Excelente artigo!

Adela disse...

Celso,
muitas vezes eu radicalizei com suas opiniões em torno da ditadura por ser mulher de militar, mas...
Sinceramente sou obrigada por força de uma leitura mais apurada de seus textos, a conduzir meus conceitos para um portal mais equilibrado.
Eu sempre condenei a indústria das indenizações e vou continuar defenestrando a por entender que há distorções e exorbitâncias nas avaliaçõese e nos propósitos com muitos oportunistas entre as pessoas que abalizam os processos. Nota-se uma frequência em escala industrial de dois pesos e duas medidas e a sociedade pagando por uma inéquivoca farra. Não acho isso correto.
Não conhecia esse seu lado humano e concordo com você quando diz ser legal e legítimo um torturado recebê-la, desde que realmente tenha sido emputado a essa pessoa, tais práticas abusivas e desumanas. Considero toda e qualquer violência e brutalidade, venha de onde vier um huorror a ser combatido.
É verdade que a ditadura comandada pelo sistema militar imposto a cidadãos brasileiros foi uma atrocidade cometida por um punhado de Generais que mancharam a honra da Instituição. É verdade, também que grande maioria da tropa não compactuava dessa desgraça. É verdade que hoje, o militar, em quase sua totalidade é oriundo das classes operárias, que buscam em cocursos públicos a garantia de ter o primeiro emprego e que a peneira é acirrada para que esse postulante possa adentrar.
É verdade, também que o militar das FFAA de ontem que comandou uma enorme maioria de policiais civis e das forças auxiliares (PM's)merecia ser investigado e trancafiado como os mesmos militantes de esquerda que mataram e sequestraram. Que bom seria se essa anistia tivesse sido condizida por um Tribunal Internacional que os julgassem com isenção para que hoje, tivéssemos o reconhecimento sem antagonismos, acirramentos e embnates equivocados dos papéis de cada um nos episódios das tentativas frustradas de ambos os lados, de uma verdadeira democracia com justiça e direitos para todos.
Infelizmente as versões, ficam unilaterais de tempos em tempos e por isso vemos gente outrora de esquerda mudarem de lado e vice versa.
Seria bom que os Governos que vem se sucedendo, abrissem os arquivos daquela época. Me pergunto muitas vezes; porquê não o fazem meu Deus?

Sou mulher de militar como já disse e venho acompanhado o desmantelamento da Instiuíção FFAA, iniciada por FHC e aceleradamente continuada por Lula, numa clara demonstração de revanchismo asinino e pelo temor que os militares retomem o poder e reicidam nos crimes passados. Evidente que é uma equivoco, além de discriminação com fulcro na Constituição Federal de 1988. Quer goste a elite de esquerda ou não, dentro das FFAA o número de pensamento esquerda a despeito da farda, é maioria. O pensamento de unidade de Marx é difundido de maneira natural, pois a crença no ato de servir é inerente a postura e honra de juramento à Nação e à bandeira.
Quando vejo todo esse desrespeito para com nossos militares que são gente do povo e que jamais se comportariam a repetir o passado, eu me envergonho dessa pseudo esquerda instalada noi Planalto, que é sufragada por Frei Beto e tantos outros que abominam quaisquer forma de banditismo na condução dos destinos de um país.

Essas FFAA, hoje vilipendiada, está de cabeça baixa, envergonhada e desestimulada. Isso não é bom para nosso povo que pode vir a precisar dela em momentos cruciais. Oxalá, nada de ruim aconteça ao nosso país e ao nosso povo. Tragédia natural, invasão territorial, etc, pois eles não terão como socorrê-los e em algum insite beligerante, o menor poder de dissuação. Poderemos ver uma Nação de joelhos, ao invés de uma instituição, apenas. Seria uma lástima, ficarmos apenas na bravata, sem ter como se defender, pois me parece provável que teremos que nos enveredar pelo puxa-saquismo para não sermos humilhados física ou moralmente. Que tipo de diplomacia seria aplicada no joelho da Nação?

Faço parte daquelas mulheres que legitimamente, -como se fazia nos áureos tempos dos bons combatentes de esquerda- protestam em nome de seus maridos que são cidadãos de segunda categoria por força de PECs caducos e perversos e do Código Militar que transformou o Militar das FFAA num cidadão de segunda categoria. Num país que se diz democrático, isso é uma indignidade e um desrespeitos aos preceitos democráticos. Por conta ainda do Código de Conduta Militar que pune com rigor quem tentar se enquadrar nos direitos adquiridos por força de nossa Carta Magna, Onde já se viu numa democracia, cidadãos não poderem se associar, protestar, reivindicar, rebelar, processar responsáveis por ser tratado com desigualdade e por ser discriminado por uma penca de direitos? Então só se pode ter deveres para com o Estado? Porquê? Não recebem qualquer benefício ao se aposentar como:FGTS por exemplo. Não podem ter uma segunda profissão, mesmo que já tenham ido para a RESERVA REMUNERADA, pois podem ser convocados a qualquer hora ao trabalho se forem necessáios. Pegue como exemplo os CTA's que voltaram ao trabalho porque não há no mercado profissionais capacitados o suficiente. Estando eles fora dessa código, poderão ser expulsos ou simplemente perder a remuneração sem chances muitas vezes de apelação em foruns especiais de justiça, tornando-se assim, uns páreas para a sociedade. É pior que um crimionoso que após pagar sua pena, pode tornar sem mácula sua vida perante a sociedade.
Gostaria de pedir-lhe licença para postar seus textos que acho os bastante coerentes em nosso site da UNEMFA (Uniaõ das Esposas de Militares das Forças Armadas) que está em contrução e lá somos taxativas que DITADURA NUNCA MAIS, mesmo!
Esse são os nossos valores e dos militares que nos apoiam.
Parabéns por seus textos e por sua postura justa.

Um abraço fraterno,

Adelinha Aguiar
Presidente da UNEMFA Rio

fam_aguiar@globo.com

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