PESQUISAR ESTE BLOGUE

26.3.14

O CORONEL MALHÃES NÃO SE VEXOU DE ADMITIR TORTURAS, ASSASSINATOS E MUTILAÇÕES. NEM DE COMPARECER À COMISSÃO DA VERDADE COM TINTURA NO CABELO...

Malhães admitiu que cortava as mãos dos cadáveres para dificultar sua identificação
Uma obra-prima de Sidney Lumet que ainda não obteve o merecido reconhecimento é O príncipe da cidade, de 1981.

Mostra a sofrida cooperação de um detetive da Divisão de Narcóticos de Nova York com os promotores que investigam a corrupção policial. 

Lá pelas tantas, um desses promotores comenta que todo policial corrupto, lá no íntimo, quer mesmo é botar pra fora todos os seus malfeitos, pois está em permanente conflito com os valores que lhe inculcaram. 

Sabe ter errado e anseia não só pela retirada de tal peso da consciência, mas também pela punição. Sua forma específica de autoflagelação é dar o serviço, exatamente como fazem os marginais que ele está acostumado a prender. Sente necessidade de se colocar no lugar deles, submetendo-se à rotina humilhante da confissão e delação. 

Seja por sentimento de culpa, seja por quererem os holofotes voltados uma última vez na sua direção antes da morte que se avizinha, militares convocados pela Comissão Nacional da Verdade têm sido pródigos em desembucharem as monstruosidades que cometeram durante a ditadura de 1964/85.

As revelações até agora mais chocantes acabam de ser feitas pelo coronel reformado Paulo Malhães, hoje com 76 anos, que revelou como funcionava a Casa Morte de Petrópolis (RJ), admitiu ter torturado muitos presos políticos e executado "tantas pessoas quanto foram necessárias", descreveu como mutilava os cadáveres para dificultar sua identificação (destruindo-lhes as arcadas dentárias e digitais), etc. Haja estômago. 

Então, mesmo sem ter levado a bom termo investigações cruciais nem conseguido obrigar os fardados da ativa a darem os esclarecimentos que lhes competiam (bem como a apresentarem o que ocultaram e ainda não tenham incinerado...), a Comissão poderá sair bem na foto, graças à compulsão dos pijamados em assumirem-se como os ogros que foram no passado.

Sem perceberem que, em sua decrepitude atual (mal disfarçada por tinturas para cabelo como a que Malhães evidentemente utiliza...), não inspiram mais medo. Somente nojo.

25.3.14

O LABIRINTO KAFKIANO DE NORAMBUENA SERÁ UMA RETALIAÇÃO VELADA?

O advogado Antônio Fernando Moreira me pede que ajude a tornar conhecida a situação kafkiana na qual se encontra seu cliente Mauricio Hernandez Norambuena, professor chileno que pegou em armas contra a bestial ditadura de Augusto Pinochet e foi depois preso no Brasil por comandar o sequestro do empresário Washington Olivetto.

Segundo ele, Norambuena está hoje num “limbo jurídico” que impede sua repatriação, além de sonegar-lhe vários direitos inerentes à sua condição de prisioneiro no Brasil:
"Estrangeiro, preso desde dezembro de 2001, teve sua extradição autorizada para o seu país de origem em 2004. Extradição que nunca pôde ser efetivada, pois o Chile não comutou as penas de prisão perpétua [reduzindo-as ao máximo admitido pelas leis brasileiras, 30 anos]. 
No Brasil foi condenado à pena de 30 anos pelos crimes de extorsão mediante sequestro, tortura e quadrilha. 
Em 2007 foi determinada sua expulsão do País. Contudo, a efetivação da medida foi condicionada ao cumprimento da pena a que estiver sujeito no País ou à liberação pelo Poder Judiciário...  
Não pode receber refúgio no Brasil, pois a Lei 9.474 diz que ‘não se beneficiarão da condição de refugiado os indivíduos que (inciso III) tenham cometido crime hediondo’. 
O tratado de transferência de presos entre Brasil e Chile também não pode ser cumprido, por falta de compromisso do Chile em comutar a pena de prisão perpétua. 
Por último, foi negada sua progressão de regime (...) sob o argumento que é estrangeiro expulso. 
Em suma: é extraditado, mas não pode ir para o país requerente (sua pátria); é expulso mas não pode sair do País; não pode sair do País, mas também não pode progredir de regime (pelo entendimento do Juízo da Execução Penal de Mato Grosso do Sul, em cuja penitenciária federal cumpre sua pena) pois não poderia trabalhar/residir no País.
 ... apesar de o reclamante ter cumprido o requisito objetivo (um sexto da pena) há quase sete anos, sempre são exigidos novos requisitos contra si e o último foi o fato de ele ser estrangeiro expulso.  
... Sua situação de saúde também não é boa. A saúde mental está acabada, depois de cinco anos no odioso Regime Disciplinar Diferenciado (...), regime considerado por quase toda a comunidade jurídica – nacional e internacional - como pena cruel, desumana e degradante.
Apesar de não estar mais submetido a este covarde regime, ainda está custodiado em penitenciária federal (...), ficando em isolamento 22 horas por dia, com restrições de informação (censura de livros e revistas, proibição de assistir TV, ouvir rádio, etc.), violação de correspondências e recebendo visitas raramente.  
Sem dúvida, é irreparável o dano que vem sofrendo..."
Concordo plenamente. Norambuena é prisioneiro num Estado de Direito, não um herege mantido pelo Santo Ofício numa masmorra medieval para ir morrendo aos poucos. 
  
Para mais informações sobre a batalha jurídica e sobre as maneiras de contribuir para o fim do que parece ser uma retaliação velada -e por isto mesmo, mais odiosa ainda- contra Norambuena, acessem o site da campanha de solidariedade, clicando aqui

23.3.14

AS MARCHAS MURCHAS DOS NOSTÁLGICOS DA DITADURA E OS VELHOS RESSENTIMENTOS DOS QUE LUTARAM CONTRA ELA

...E A DEMONSTRAÇÃO DE ANACRONISMO
E IRRELEVÂNCIA FOI DADA.

Batendo de novo nas portas dos quartéis?! Que asco!
Na 3ª feira passada cantei a bola:
"É óbvio que ainda existe uma direita golpista, ladrando mas não mordendo, porque quem manda mesmo são os donos do canil. Fracassou rotundamente com o Cansei! [em 2007] e vai tentar outra vez no próximo sábado, 22.
Será o Incrível Exército de Brancaleone novamente em marcha, para aumentar a quota de fiascos, dando mais uma demonstração de anacronismo e irrelevância".
Dito e feito. As viúvas da ditadura e os neofascistas conseguiram colocar 700 gatos pingados nas ruas da capital paulista e 150 nas do Rio de Janeiro. Isto ficaria de bom tamanho para acompanhantes de enterro, mas, em protesto político, equivale a nada. 

Então, foram sepultadas mais uma vez as pretensões dos que querem fazer o relógio da História girar para trás. [O que talvez não os impeça de, como vampiros, saírem novamente das tumbas daqui a outros sete anos.]

Já os antifascistas foram 800 em Sampa e 50 na cidade maravilhosa. Poucos, também, se considerarmos quão monstruosa era a abominação que estavam repudiando. 

A lição a extrairmos é a de que a ameaça envelheceu e não assusta a mais ninguém.

Como não deveria assustar aos grãos petistas, que várias vezes têm tolamente cedido às chantagens dos pijamados, sem perceber que os oficiais de hoje estão é preocupados com suas carreiras, não com os delirium tremens ideológicos de seus já longínquos antecessores.


DILMA, DARCY RODRIGUES E AS MÁGOAS DE 1969

Darcy Rodrigues (esq.), quando era jovem e vigoroso.
Conheci Dilma Rousseff no chamado Congresso de Teresópolis da VAR-Palmares, em outubro de 1969. Ela pertencia à facção que defendia a manutenção de vínculos com o movimento de massas, cujos principais líderes eram Carlos Franklin da Paixão Araújo e Antonio Roberto Espinosa. Eu, à facção que via a Organização como mais apta para o cumprimento das tarefas militares da revolução, principalmente o desencadeamento da guerrilha rural.

As discussões foram ásperas e acabaram com sete de nós (os militaristas) rachando para reconstituir a VPR, sob a liderança de Carlos Lamarca, enquanto os demais (os massistas) continuaram se denominando VAR. Como alguns comandantes ficaram do nosso lado, abriu-se vaga para Dilma  ascender ao Comando Nacional da VAR.

Mas, considerá-lo "acabado" seria exagero.
Neste sábado (22), uma entrevista de Darcy Rodrigues à Folha de S. Paulo revela que as mágoas de 1969 ainda não foram superadas pelos antigos integrantes das duas facções:
"Dilma era e é uma pessoa dura. Cai na asneira de chamá-la de sargentona quando era ministra --disseram que ela não gostou. Quando ela veio a Bauru [na campanha de 2010], fui ao aeroporto encontrá-la. Ela colocou a mão no meu ombro e falou: você está velho, acabado. Eu disse: vim aqui só para pegar o telefone de seus cirurgiões plásticos e esteticistas, para ficar bonito igual a você".
Será por isto que, quando soube da aberrante longevidade do meu mandado de segurança junto ao Superior Tribunal de Justiça (vide aqui), ela apenas oficiou ao ministro da Justiça e aceitou suas evasivas explicações? Ou realmente acreditou que a culpa fosse dos togados?
Dilma também fecha os olhos... ao meu caso.

O certo é que a Advocacia Geral da União recorre às mais óbvias manobras protelatórias para embaçar o cumprimento da decisão tomada em fevereiro de 2011, quando o julgamento do mérito da questão me foi favorável por acachapantes 8x0. A culpa é da AGU. Os ministros do STJ apenas dançam conforme a música. 

O certo é que, depois de sete anos de tramitação e três anos após a sentença consistente e categórica haver sido dada, meu direito continua sendo embargado sob pretexto de questiúnculas periféricas e já superadas em fases anteriores.

Deste jeito, sou eu que ficarei velho e acabado. De raiva.


12.3.14

LUNGARETTI PEGA REINALDO AZEVEDO NA MENTIRA

Reinaldo Azevedo, o aspirante a corvo que jamais igualará Carlos Lacerda mas vai continuar tentando enquanto não derem um nó (simbólico) no seu bico, afirmou ser "mentira das grossas" o que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou ao jornal italiano La Repubblica sobre o escritor Cesare Battisti. Mostrarei adiante que o mentiroso é ele próprio e mais ninguém.

Desde que lhe concederam uma coluna semanal na Folha de S. Paulo, RA está remoendo a frustração de não conseguir superar suas evidentes limitações intelectuais, que lá se tornam muito mais evidentes, fazendo dele um estranho no ninho (ou um cabeça-de-bagre dando bicões na divisão principal).

A ombudsman Suzana Singer (vide aqui) chegou a compará-lo a um rottweiler -"feroz", ainda por cima. Para ela, RA é uma figura emblemática dos tiroteios ideológicos virtuais e não deveria frequentar o mesmo espaço de colunistas do nível de Jânio de Freitas e Elio Gaspari: 
"...No impresso, espera-se mais argumento e menos estridência. Mais substância, menos espuma. Do contrário, a Folha estará apenas fazendo barulho e importando a selvageria que impera no ambiente conflagrado da internet".  
A selvageria não tardou: acreditando que os arranca-rabos favoreceriam seu propósito de afirmação, RA partiu destemperadamente para cima dos antípodas Jânio de Freitas e Vladimir Safatle, tentando forçá-los a polemizarem com ele.
Estarão os rottweilers ofendidos com a comparação?

Quebrou a cara: Freitas o enxotou com um piparote e Safatle o ignorou olimpicamente.

Depois de ver sua entrada de leão na Folha fracassar miseravelmente, RA passou a escrever de forma mais contida no veículo impresso, talvez já resignado com sua condição (metaforicamente falando) de um vira-latas do jornalismo. Mas, precisando descarregar a bílis em algum lugar, exacerbou a demagogia selvagem no blogue da veja, pois aquela sim é sua praia. Se ao lado dos civilizados RA destoa, entre os que estão à direita de Gengis Khan ele é hors concours...

Foi no blogue (vide aqui) que RA citou o Caso Battisti como outra das "impropriedades" do Lula, após qualificar de "tolice monumental" a polêmica declaração atribuída ao petista, de que a defesa do emprego seria mais importante que a inflação. [Lula, aliás, acaba de desmentir o jornal italiano, divulgando inclusive um vídeo da tal entrevista, no qual aparece negando a necessidade de "desemprego para melhorar a inflação" e afirmando querer "melhorar a inflação com pleno emprego”]. 

Mas, vamos ao que viemos. Eis a diatribe do pinóquio da Marginal:
"...[Lula]  disse ao jornal italiano, por exemplo, que manteve no Brasil o terrorista Cesare Battisti porque respeitou uma decisão da Justiça. É mentira! Mentira das grossas! 
O Supremo Tribunal Federal considerou ilegal a concessão de refúgio a Battisti. Mas, numa segunda votação, esta sim, estupefaciente, afirmou que caberia ao presidente a última palavra sobre sua permanência no Brasil. E Lula decidiu que ele deveria ficar. Logo, a verdade é esta: ele desrespeitou a Justiça ao manter no país alguém cujo refúgio foi considerado ilegal"
Em panfletarismo dos grossos, RA reduz um dos processos mais complexos e dramáticos julgados pelo STF a apenas duas votações, quando, na verdade, ocorreram quatro:
  1. em 09/09/2009, por 5x4, anulou o refúgio concedido pelo ministro Tarso Genro a Battisti, por considerar que os crimes a ele atribuídos haviam sido comuns e não políticos;
  2. em 18/11/2009, também por 5x4, autorizou a extradição de Battisti;
  3. no mesmo dia, ainda por 5x4, reafirmou o entendimento que sempre prevalecera nesses casos, qual seja o de que a decisão de extraditar ou não cabe ao presidente da República (o primeiro mandatário, condutor das relações internacionais do País, precisa da autorização do Supremo para extraditar, mas não é obrigado a extraditar sempre que o Supremo der sua autorização);
  4. em 06/06/2011, por 6x3, ordenou a libertação de Battisti, depois de o presidente Cezar Peluso e o relator Gilmar Mendes o manterem inutilmente preso durante 17 meses, na esperança de conseguirem convencer os outros minutos a impugnarem a decisão de Lula, que havia sido anunciada em 31/12/2010.

    Ou seja, o STF meramente reconheceu a prerrogativa presidencial de dar a última palavra, como manda a tradição brasileira.

    Por quê? Entre outros motivos, porque o presidente dispõe de informações sigilosas que, trombeteadas num tribunal, têm o potencial de gerar graves crises diplomáticas. Então, faz sentido que não dê conhecimento delas nem mesmo à Justiça, mas será aberrante se as mesmas não forem levadas em conta quando está na balança o destino de um ser humano, já que talvez sirvam para evitar as terríveis injustiças que os ministros do STF podem ser levados a cometer por ignorarem fatos importantes ou por se fiarem em relatórios tendenciosos (e o de Peluso no Caso Battisti, 100% favorável à pretensão italiana, foi um dos piores de toda a história do Supremo...).

    Lula, é claro, não desrespeitou Justiça nenhuma, pois o STF não só reconheceu que a ele cabia decidir, como depois, quando mandou libertar Battisti, ratificou na prática sua decisão. Cada Poder agiu estritamente na esfera de sua competência. Mentira das grossas é a deturpação do que realmente aconteceu.

    Por último: a anulação do refúgio jamais implicaria a obrigatoriedade da extradição, como tenta fazer crer RA. Ainda havia duas etapas a serem cumpridas: a autorização do STF e a decisão presidencial. Quando o pedido de extradição italiano foi definitivamente negado, Battisti passou a ser residente permanente no Brasil, sendo-lhe então fornecida a respectiva documentação legal.

    Consequentemente, é uma falácia sugerir que tenha sido desrespeitada a decisão do STF, de não considerá-lo um refugiado. Ela foi, sim, obedecida; e as decisões seguintes da corte estabeleceram uma nova e diferente situação jurídica.

    9.3.14

    NÃO TÊM ÁGUA? QUE BEBAM FUTEBOL!

    Dedico a música do dia ao PSDB e a Geraldo Alckmin, pela relevante contribuição que deram aos ideais igualitários...

    Após quase 20 anos de governos tucanos, não será mais exclusiva do morro a situação descrita na marchinha "Lata d'água", de Luís Antônio e Jota Jr., que fez muito sucesso no carnaval de 1952 e foi incorporada ao filme Tudo azul (tal trecho pode ser acessado  aqui), cuja atriz principal era exatamente sua intérprete, a cantora Marlene.

    Quem imaginaria que, meio século depois, esta velha pérola da MPB fosse se tornar novamente atual?!

    LATA D'ÁGUA

    Lata d'água na cabeça
    Lá vai Maria
    Lá vai Maria
    Sobe o morro e não se cansa
    Pela mão leva a criança
    Lá vai Maria

    Maria 
    Lava roupa lá no alto
    Lutando 
    Pelo pão de cada dia 
    Sonhando 
    Com a vida do asfalto
    Que acaba 
    Onde o morro principia.

    Lata d'água na cabeça...

    Agora, vai haver racionamento em São Paulo e pessoas de todas as classes terão de carregar latas d'água na cabeça. Não era bem o que Marx pretendia, mas a nivelação por baixo parece ser a única possível no Brasil de hoje...

    Isto cerca de 25 anos depois da entrevista que fiz com o então titular da Secretaria de Obras e Meio Ambiente. Ele alertou que a situação ficaria crítica com o crescimento caótico da Grande São Paulo (principalmente), o custo proibitivo da captação da água em lençóis cada vez mais distantes, a contaminação dos mananciais por esgotos e dejetos industriais, o desperdício generalizado.

    Tudo se sabia, pouco se fez e a bomba relógio se aproxima do momento da explosão. 

    Merecidamente, num ano eleitoral. Será o justo castigo para quem preferiu investir nas obras mais vistosas do que nas mais necessárias. Que os tucanos paguem seus pecados nas urnas!

    O mesmo se aplica aos petistas, que completarão 12 anos no Palácio do Planalto sem terem adotado medidas prementes para garantir  a continuidade do fornecimento da energia elétrica, hoje à beira do colapso.

    Copa das Maracutaias ameaça se tornar também a Copa do Pandemônio, com o povo sedento e os estádios às escuras.

    Na boca dos nossos governantes caberiam frases semelhantes àquela que celebrizou a rainha Maria Antonieta (mesmo sem tê-la, verdadeiramente, proferido): Não têm água? Que bebam futebol. Falta  luz? Que acendam velas!

    7.3.14

    TRIBUTO ÀS CHUTEIRAS IMORTAIS: A CONQUISTA DA HONRA (1958)

    "A taça do mundo é nossa
    Com o brasileiro não há quem possa
    Êh eta esquadrão de ouro
    É bom no samba, é bom no couro

    O brasileiro lá no estrangeiro
    Mostrou o futebol como é que é
    Ganhou a taça do mundo
    Sambando com a bola no pé
    Goool!"

    (Maugeri, Müller, Sobrinho e Dagô)

    conquista da Copa de 1958, disputada na Suécia, teve um significado imenso para nós, brasileiros: provamos ao mundo e, principalmente, a nós mesmos que poderíamos ser os melhores em alguma coisa, começando a livrar-nos do complexo de viralatas.

    Até então, víamo-nos como seres inferiores, deitados eternamente em berço esplêndido, sem nunca concretizarmos o nosso potencial. Uma vinheta radiofônica dizia: “Brasil, um país a caminho do seu grande destino”. Que nunca chegava.

    Enquanto isto, admirávamos, embasbacados, o progresso dos EUA e as imagens fantasiosas que os grandes irmãos do Norte projetavam de si próprios via cinema e TV. Isso, claro, só fazia aumentar nossa sensação de inferioridade.

    Consolávamo-nos com a ilusão de que seríamos a nação do futuro – uma pífia compensação para o passado inglório e o presente insosso. Era como a promessa católica do paraíso, o sonho que ajudava a suportar uma vida de privações.

    O futebol já dera mostras, em 1950, de que poderia se tornar nosso grande motivo de orgulho nacional. No entanto, vacilamos na hora H e a euforia se transformou em frustração.

    Meu pai costumava contar que, depois da fatídica derrota contra o Uruguai, a principal rua do nosso bairro ficou quase deserta, como ele nunca a vira num domingo. Rapazes e moças não tiveram nem ânimo para saírem de casa, na noite habitualmente destinada à paquera.

    Em 1954 trombamos com o inesquecível esquadrão da Hungria e fomos merecidamente eliminados por Puskas & cia.

    Aí, em 1958, receosos de mais uma frustração, não ousávamos acreditar na Seleção Brasileira. Ainda mais depois de duas derrotas vexatórias em amistosos de 1956 (0x3 Itália e 2x4 Inglaterra, apesar dos milagres de são Gilmar) e da eliminatória tortuosa em 1957, quando sofremos o diabo para vencer... o Peru!

    É que a Venezuela desistira de disputar uma vaga no Mundial, deixando-nos a tarefa aparentemente facílima de derrotarmos um único e pouco ameaçador adversário.

    No entanto, o Peru não morreu na véspera. O jogo em Lima ficou em 1x1 e, no Maracanã, num magro 1x0 -- gol de falta de Didi, cobrando com a maestria habitual uma infração da entrada da área.

    [Um causo hilário. Excursionando pelo Brasil, o grande Benfica de então enfrentou o Botafogo e seu famoso goleiro Costa Pereira sofreu um gol de falta do Didi exatamente da mesma maneira, a folha seca, com o arremate parecendo que passaria sobre o gol e a bola descendo nos últimos metros. Aí, no Pacaembu, o corinthiano Cláudio repetiu a dose, com seu chute que ia para fora e entortava no finzinho da trajetória. Costa Pereira, que caminhava tranquilamente para bater o tiro de meta, botou as mãos na cabeça, estupefato, ao ver a redonda balançando suas redes, depois de fazer o que, nas entrevistas, ele qualificaria de "uma curvita"...]

    GARRINCHA FUNDIU A CUCA 
    DOS CIENTISTAS SOVIÉTICOS

    O empate diante da Inglaterra, no segundo jogo das oitavas-de-final (depois da boa estréia contra a Áustria, 3x0, com direito a golaço de Nilton Santos) fez aumentar nosso pessimismo. Foram 90 minutos de sofrimento, grudados nos rádios cujo som às vezes fugia, pois as transmissões a longa distância estavam longe de ser perfeitas; quando voltava, era uma agonia tentarmos adivinhar o que sucedera, até constatarmos que não tinham marcado nenhum gol durante o apagão.

    Iríamos para o tudo ou nada contra a poderosa URSS, que anunciava ter levantado cientificamente as vulnerabilidades dos futebolistas brasileiros.

    Foi quando o técnico Vicente Feola se curvou à pressão dos líderes do elenco e escalou o fenômeno Garrincha... que até então ficara no banco porque um laudo psicológico o dava como pouco mais do que um débil mental. Foi preciso chegarmos à beira do abismo para o técnico desconsiderar os preconceitos dos engravatados.

    O resultado foi aquilo que passou à história do futebol como um dos inícios de partida mais avassaladores de uma Copa do Mundo. Imprevisível como uma força da natureza, Garrincha pulverizou a ciência soviética, colocando uma bola na trave, servindo Vavá no primeiro gol e criando sucessivas jogadas agudas. 2x0.

    Na quarta-de-final contra o retrancadíssimo Pais de Gales, foi a vez de Pelé dar o ar de sua graça, fazendo o gol salvador. 1x0.

    Ele também começou a Copa como reserva (de Mazzola), pois Feola temia que, aos 17 anos, não aguentasse tamanha responsabilidade.

    Melhores lances da semifinal. Para ver o jogo todo, clique aqui.

    Ledo engano. O escrete melhorou muito com sua escalação a partir do jogo contra a URSS, para deslanchar de vez na semifinal contra a poderosa França de Fontaine (que, com seus 13 gols marcados nos gramados suecos, dificilmente perderá um dia a coroa de maior artilheiro de um só Mundial). Graças ao idiota Garrincha e ao inexperiente Pelé, o Brasil conseguiu a mais retumbante conquista de uma Copa do Mundo até hoje: com exibições da mais refinada arte futebolística já vista no Planeta Bola, emplacou goleadas de 5x2 tanto na semifinal contra a França quanto na final contra a Suécia.

    Gilmar; Djalma Santos, Belini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo disputaram a partida final, não se intimidando com a abertura do placar pelos anfitriães. Duas arrancadas fulminantes de Garrincha, dois centros convertidos por Vavá e a vantagem mudou de mãos.

    Melhores lances da final. Para ver o jogo todo, clique aqui.

    Pelé (2) e Zagallo liquidaram a fatura, sob aplausos dos maravilhados suecos.

    O nosso povo, que há tanto tempo andava atrás de qualquer alegria, pôde finalmente desabafar: com o brasileiro, não há quem possa!

    Pena que as lições foram logo esquecidas. O embasbacamento face às metrópoles e a submissão aos preconceitos dos engravatados voltaram a prevalecer.

    E continuamos reprimindo o Macunaíma que temos dentro de nós – tanto que, ao contrário dos argentinos com seu ídolo Maradona, fomos terrivelmente ingratos com nosso herói de duas Copas, deixando Garrincha agonizar no alcoolismo e abandono.

    TEXTOS RECENTES DO BLOGUE NÁUFRAGO DA UTOPIA (clique p/ abrir):

    5.3.14

    MAIS LAMBANÇAS: UMA DEFESA PRA LÁ DE DESASTRADA DO "MAIS MÉDICOS"

    exemplo clássico da miopia política dos gênios da ciência é o episódio Albert Einstein x bomba atômica.

    Em agosto de 1939, cientistas europeus apavorados com a possibilidade de a Alemanha nazista produzir sua bomba convenceram o grande Einstein a enviar uma carta ao presidente Franklin Delano Roosevelt, propondo a criação de um projeto nuclear estadunidense.

    Deu no que deu: os nazistas nem sequer chegaram perto de fabricar a deles e os estadunidenses só tiveram os artefatos prontos quando passara a chance de utilizá-los contra a Alemanha.

    A morte de Roosevelt colocou a decisão no colo de um presidente medíocre: Harry S. Truman.

    Apesar de o Japão estar praticamente derrotado e mantendo contatos sigilosos com os EUA em busca de uma fórmula de rendição que lhe permitisse preservar seu imperador, Truman mandou lançar bombas em Hiroshima e Nagasaki. Cerca de 220 mil seres humanos morreram instantaneamente, e tiveram sorte: pior ainda foi a agonia lenta dos atingidos pela radiação.

    Motivo da carnificina: mostrar a Joseph Stalin que, embora o exército soviético fosse imbatível em solo europeu, os EUA tinham como retaliar caso a URSS, no embalo da vitória conquistada contra os alemães, decidisse ampliar suas conquistas territoriais. As bombas, em última análise, serviram para deter o Exército Vermelho.

    Um dos mais atrozes genocídios da História foi apenas o recado emitido para um terceiro!

    Aprendizes de feiticeiros desastrados, os cientistas que antes haviam considerado justificável confiar uma arma do Juízo Final aos estadunidenses, não se conformaram com a mudança de alvo. Admitiam que a bomba fosse usada contra a Alemanha, mas ficaram horrorizados ante a possibilidade de que servisse para os EUA, covardemente, baterem em bêbados da Ásia.

    Não conseguiram, contudo, impedir a monstruosidade. Einstein declarou: 
    "Eu cometi o maior erro da minha vida, quando assinei a carta ao presidente Roosevelt recomendando que fossem construídas bombas atômicas".
    A POLÊMICA QUE O SR. OPUS DEI 
    NÃO TEM COMO PERDER

    Se aquele que é tido como o maior de todos os físicos fez tal lambança, não é de admirar que Rogério Cezar de Cerqueira Leite, um dos maiores físicos brasileiros, também cometa a sua. 
    Cerqueira Leite: digno, mas desastrado.

    Numa canhestra tentativa de defender o programa Mais Médicos contra ataque do jurista direitista Ives Opus Gandra Dei Martins (vide aqui), ele compara a situação dos doutores cubanos à de cidadãos recrutados para defenderem seu país numa guerra: 
    "Com frequência, os salários desses soldados são insignificantes. Não obstante, se qualquer um se recusar a servir seu país, será considerado um criminoso".
    Alega que o povo cubano foi reduzido à "extrema pobreza" pelo embargo econômico estadunidense, tendo sua principal fonte de renda de outrora, a indústria açucareira, perdido competitividade ("hoje está em frangalhos").

    Então, explorar o labor de seus médicos seria uma das principais fontes de renda que restaram:
    "Para sobreviver e assegurar insumos vitais, tais como remédios, certos alimentos, combustíveis etc., conta Cuba quase que exclusivamente com a exportação de tabaco (charutos), rum e, intermitentemente, dos serviços prestados pelos seus médicos no exterior".
    Duvido que os admiradores brasileiros do regime cubano concordem com o quadro catastrófico pintado por Cerqueira Leite.

    Gandra Martins: a voz agourenta do Opus Dei.
    O coitado está tão desconfortável pisando em praia alheia que cai no ridículo de insinuar e, ao mesmo tempo, negar que Gandra Martins esteja contra o programa por preconceitos ideológicos:
    "Reduzir a questão do Mais Médicos a uma infringência burocrática ou, pior ainda, a um conflito partidário ou ideológico -o que certamente não é o caso do jurista- é uma indignidade".
    Ora, venerável professor, quem sai na chuva é pra se molhar. Se acha que o artigo O neoescravagismo cubano (acesse aqui) teve como motivação maior o antipetismo escrachado de Gandra Martins, afirme-o sem ressalvas e arrisque-se a uma interpelação judicial. Ou nada sugira nas entrelinhas, pois tal subterfúgio, ainda mais sendo tão perceptível, não faz jus ao seu currículo de brilhante cientista e de cidadão exemplar, que resistiu como pôde à ditadura militar.

    O pior é que, sendo a contestação tão pífia, Gandra Martins nem sequer precisaria responder -mas, com certeza, não vai desperdiçar a oportunidade de o fazer, deitando e rolando em cima das impropriedades do artigo de Cerqueira Leite. 

    Pois o fulcro da discussão não é o tratamento que os profissionais cubanos recebem do governo cubano, mas sim se o Brasil pode admitir que tal tratamento, em desacordo com as leis brasileiras, seja estendido para nosso país.

    É claro que não! Estrangeiro em solo brasileiro está protegido pelas leis brasileiras, ponto final. 

    Errou o governo brasileiro ao aceitar imposições do governo cubano em desacordo com nossa legislação trabalhista e com nosso enfoque constitucional dos direitos humanos. E continuará errando se tentar tapar o sol com a peneira, aumentando um tantinho a mesada dos médicos cubanos, ao invés de entregar-lhes o valor total dos seus vencimentos.

    Por que o governo cubano faz tanta questão de que a grana lhe seja enviada? Simplesmente por temer que seus soldados, de posse do valor total, não deem a contribuição à pátria que deles se espera.

    A verdade, contudo, é que inexiste um estado de guerra declarada, que justificasse a adoção de medidas tão extremas. 

    E, o principal: o Brasil não tem motivo nenhum para pisar em suas próprias leis em nome de tal esforço bélico.

    Este episódio me lembra o de apostadores em cassinos: quanto maior o prejuízo, mais perseveram em suas tentativas de reverter o quadro, até perderem tudo que têm.

    O programa Mais Médicos contém ilegalidades flagrantes, que precisam ser imediatamente sanadas, sob pena de sofrer as mais contundentes derrotas nos tribunais. 

    Defender o que está errado, com toscos argumentos de realpolitik, acaba sendo um desserviço, pois, quanto mais tempo perdurarem as situações equívocas, mais dividendos os inimigos delas extrairão. 

    Related Posts with Thumbnails

    Arquivo do blog