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23.3.14

AS MARCHAS MURCHAS DOS NOSTÁLGICOS DA DITADURA E OS VELHOS RESSENTIMENTOS DOS QUE LUTARAM CONTRA ELA

...E A DEMONSTRAÇÃO DE ANACRONISMO
E IRRELEVÂNCIA FOI DADA.

Batendo de novo nas portas dos quartéis?! Que asco!
Na 3ª feira passada cantei a bola:
"É óbvio que ainda existe uma direita golpista, ladrando mas não mordendo, porque quem manda mesmo são os donos do canil. Fracassou rotundamente com o Cansei! [em 2007] e vai tentar outra vez no próximo sábado, 22.
Será o Incrível Exército de Brancaleone novamente em marcha, para aumentar a quota de fiascos, dando mais uma demonstração de anacronismo e irrelevância".
Dito e feito. As viúvas da ditadura e os neofascistas conseguiram colocar 700 gatos pingados nas ruas da capital paulista e 150 nas do Rio de Janeiro. Isto ficaria de bom tamanho para acompanhantes de enterro, mas, em protesto político, equivale a nada. 

Então, foram sepultadas mais uma vez as pretensões dos que querem fazer o relógio da História girar para trás. [O que talvez não os impeça de, como vampiros, saírem novamente das tumbas daqui a outros sete anos.]

Já os antifascistas foram 800 em Sampa e 50 na cidade maravilhosa. Poucos, também, se considerarmos quão monstruosa era a abominação que estavam repudiando. 

A lição a extrairmos é a de que a ameaça envelheceu e não assusta a mais ninguém.

Como não deveria assustar aos grãos petistas, que várias vezes têm tolamente cedido às chantagens dos pijamados, sem perceber que os oficiais de hoje estão é preocupados com suas carreiras, não com os delirium tremens ideológicos de seus já longínquos antecessores.


DILMA, DARCY RODRIGUES E AS MÁGOAS DE 1969

Darcy Rodrigues (esq.), quando era jovem e vigoroso.
Conheci Dilma Rousseff no chamado Congresso de Teresópolis da VAR-Palmares, em outubro de 1969. Ela pertencia à facção que defendia a manutenção de vínculos com o movimento de massas, cujos principais líderes eram Carlos Franklin da Paixão Araújo e Antonio Roberto Espinosa. Eu, à facção que via a Organização como mais apta para o cumprimento das tarefas militares da revolução, principalmente o desencadeamento da guerrilha rural.

As discussões foram ásperas e acabaram com sete de nós (os militaristas) rachando para reconstituir a VPR, sob a liderança de Carlos Lamarca, enquanto os demais (os massistas) continuaram se denominando VAR. Como alguns comandantes ficaram do nosso lado, abriu-se vaga para Dilma  ascender ao Comando Nacional da VAR.

Mas, considerá-lo "acabado" seria exagero.
Neste sábado (22), uma entrevista de Darcy Rodrigues à Folha de S. Paulo revela que as mágoas de 1969 ainda não foram superadas pelos antigos integrantes das duas facções:
"Dilma era e é uma pessoa dura. Cai na asneira de chamá-la de sargentona quando era ministra --disseram que ela não gostou. Quando ela veio a Bauru [na campanha de 2010], fui ao aeroporto encontrá-la. Ela colocou a mão no meu ombro e falou: você está velho, acabado. Eu disse: vim aqui só para pegar o telefone de seus cirurgiões plásticos e esteticistas, para ficar bonito igual a você".
Será por isto que, quando soube da aberrante longevidade do meu mandado de segurança junto ao Superior Tribunal de Justiça (vide aqui), ela apenas oficiou ao ministro da Justiça e aceitou suas evasivas explicações? Ou realmente acreditou que a culpa fosse dos togados?
Dilma também fecha os olhos... ao meu caso.

O certo é que a Advocacia Geral da União recorre às mais óbvias manobras protelatórias para embaçar o cumprimento da decisão tomada em fevereiro de 2011, quando o julgamento do mérito da questão me foi favorável por acachapantes 8x0. A culpa é da AGU. Os ministros do STJ apenas dançam conforme a música. 

O certo é que, depois de sete anos de tramitação e três anos após a sentença consistente e categórica haver sido dada, meu direito continua sendo embargado sob pretexto de questiúnculas periféricas e já superadas em fases anteriores.

Deste jeito, sou eu que ficarei velho e acabado. De raiva.


13.2.12

SÃO PAULO É O GRANDE FOCO DIREITISTA DO PAÍS

Redatores do  Estadão  no tempo de Olavo Bilac (mão no queixo). As idéias continuam as mesmas
Segundo o Instituto Verificador de Circulação, O Estado de S. Paulo é o jornal mais vendido na capital paulista, na Grande São Paulo e no Estado como um todo, enquanto a Folha de S. Paulo só o supera no interior paulista, mas mantém a liderança nacional por circular mais nos outros estados.

Tais dados são perfeitamente coerentes com a realidade política paulista e paulistana. 

Estadão  é o veículo de uma direita ideológica que remonta à aristocracia cafeeira. Conservador por excelência, foi peça importante na conspiração para a derrubada do presidente constitucional João Goulart.

Isto conflitava um pouco com o papel que o jornal desempenhou na ditadura getulista, quando esteve até sob intervenção. Então, depois de, segundo alegou, ter ajudado  a  salvar o País da ameaça comunista, passou a pregar insistentemente a devolução do poder aos civis, uma vez que a  intervenção cirúrgica  já teria  saneado as instituições.

Dondocas do Cansei! em SP:
adesão mínima frustrou planos
Ou seja, as cassações de mandatos, a extinção arbitrária de partidos e entidades, os expurgos e mudanças impostas pela força, as prisões e torturas, tudo isso já teria limpado o terreno para a burguesia poder voltar a exibir sua face civilizada...

Ressalvas feitas, a resistência dos jornais do Grupo Estado à censura e ao terrorismo de estado merece respeito. Afora o trivial que todos destacam (as poesias de Camões que o  Estadão  colocava no espaço de trechos ou de notícias inteiras censuradas, bem como as receitas culinárias que tinham a mesma serventia no Jornal da Tarde), houve dois episódios em que seus diretores mostraram, inclusive, coragem pessoal:
  • quando mandaram os seguranças impedirem o DOI-Codi de invadir a redação para prender um jornalista, tendo o Mesquita de plantão dito a frase célebre de que "ele pode ser comunista lá fora, mas aqui dentro é meu funcionário" (depois, abrigou-o no próprio sítio);
  • quando, depois da morte de Vladimir Herzog, decidiram acompanhar os jornalistas da casa arrolados no mesmo inquérito sempre que chamados a depor no DOI-Codi, a fim de garantirem pessoalmente sua integridade física.
Mas, embora repudie os excessos no exercício do poder burguês, o Estadão é o jornal brasileiro mais afinado com a sua essência --ao contrário dos  comerciantes  da Folha de S. Paulo, cuja postura oscila oportunisticamente ao sabor dos ventos políticos, ora cedendo viaturas para o serviço sujo da repressão, ora ajudando os Golberys da vida a recambiarem o País para a civilização... 

A supremacia do   Estadão  em São Paulo é consistente com o fato de ser um Estado sob governos tucanos desde 1995; e na cidade de São Paulo, com o de ela, desde a redemocratização, haver tido várias gestões direitistas e somente duas, digamos,  desalinhadas  (as de Luíza Erundina e Marta Suplicy).  

Também faz todo sentido que São Paulo esteja sendo o laboratório de testes das novas fórmulas golpistas, com a franca adoção de respostas policiais para os problemas sociais servindo para aferir a resistência que a fascistização provocará. 
SP, 1964: marcha das famílias abastadas
preparou o terreno para o golpe militar.

Ainda bem que a operação desastrada na cracolândia e a barbárie no Pinheirinho despertaram uma opinião pública que parecia anestesiada quando da invasão da USP por brucutus e da fixação de uma tropa de ocupação em pleno campus universitário (suprema heresia!).

Mas, a cena paulista deve continuar sendo observada com muita atenção pelos verdadeiros democratas. Pois, qualquer atentado às instituições, para quebrar a continuidade de administrações petistas (bem toleradas pelos EUA e pelo grande capital, já que mantiveram seus privilégios, mas não pelas  viúvas da ditadura  e por alguns setores setores extremados da burguesia), começará, necessariamente, por São Paulo.

Vale lembrar: foi em São Paulo que o Cansei! tentou organizar uma nova (mas frustrada...) Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade.

E é em São Paulo que a truculência policial volta a ser exercida exatamente como nos tempos da ditadura militar, por efetivos que até hoje cultivam descaradamente a nostalgia do arbítrio.

Obs.: na história de São Paulo também há capítulos edificantes, como a luta contra o despotismo em 1932, o movimento estudantil de 1968, as diretas-já e o fora Collor!. Mas, parecem ter sido episódios fugazes, meras exceções, enquanto o conservadorismo e o reacionarismo dão a tônica.

22.9.10

O LOBO ESTÁ USANDO DE NOVO A PELE DE CORDEIRO

Humildemente, admito meu erro: não será no ano que vem que a direitalha começará a preparar uma virada de mesa, em razão da nova e acachapante derrota eleitoral.

Foi assim que eles agiram quando o presidente Lula conquistou seu segundo mandato.

Um semestre depois, tentaram reeditar a Marcha da Família, Com Deus, Pela Liberdade.

Só que o tal do Cansei! (foto) foi simplesmente ridículo, reunindo míseras 4 mil testemunhas no espaço imenso da Praça da Sé.

Mecanicamente, acreditei que a história se repetiria. E afirmei, no artigo As ameaças existem e ignorá-las poderá ser trágico (o qual,  timing  à parte, continua sendo uma boa  crônica da quartelada anunciada, a ser levada em conta pelos que têm a obrigação de adotar contramedidas):
"Podemos dar como favas contadas que haverá cidadãos querendo derrubar o governo no início de 2011".
Eu não espeava que, duas semanas antes do pleito, a direita golpista já tivesse desistido da cartada eleitoral e passado à etapa seguinte.

Então, um de seus mais notórios porta-vozes, Reinaldo Azevedo, está lançando a nova versão do Cansei!, provavelmente porque o João Dória ainda não se recuperou do último fiasco. Deve continuar cansadinho.

Na exortação carnavalesca que RA inseriu nesta 4ª feira em seu blogue da Veja (A democracia e o estado de direito pedem passagem...), ele deixou bem evidenciada, em caixa alta, a genealogia do novo movimento, que utiliza um manifesto de notáveis como abre-alas:

"NÃO ESTAMOS CANSADOS (sic)! AO CONTRÁRIO! ESTAMOS CHEIOS DE ENERGIA PARA DEFENDER A DEMOCRACIA, O ESTADO DE DIREITO E A LIBERDADE DE IMPRENSA".

Ou seja, a Marcha da Família foi um dos estopins de uma tragédia; o Cansei! de 2007, uma tentativa farsesca de a bisar; e o Cansei! de 2010 não passaria da farsa que reedita a farsa... como desfile carnavalesco?

Pateticamente, RA acusa "o PT e sindicalistas" de "flerte com a barbárie ditatorial", como se, afora a alegada (e, bem vistas as coisas, inofensiva) "truculência retórica", partisse deles a maior ameaça à democracia e ao estado de direito.

Não, a esquerda brasileira pode ser dada às bravatas da boca pra fora, mas as mordidas provêm sempre da direita, com seu know-how golpista aprimorado ao longo dos tempos: 1954, 1961, 1964...

Infelizmente, alguns homens dignos se deixaram iludir por esse alarmismo insuflado dia e noite pela mídia tendenciosa. Não serei eu a desmerecer suas magníficas trajetórias.

Apenas lamento que hoje estejam servindo de inocentes úteis para as vis tramóias dos inúteis.

9.9.10

ALERTA: O BRASIL NÃO ESTÁ IMUNE AO GOLPISMO

Vamos falar sério.

A eleição de Dilma Rousseff está mais do que definida.

O escândalo da invasão de dados siligosos de pessoas próximas a José Serra não tem apelo eleitoral suficiente para alterar o resultado do pleito.

Nem mesmo para evitar que a eleição seja decidida no 1º turno.

Mas, dá combustível para tentativas golpistas. Dos mais inflamáveis.

O jogo não vai ser virado. A mesa, talvez.

Foi com que sonharam os articuladores do  Cansei!.  Quando o que seria sua  Marcha da Família com Deus Pela Liberdade só mobilizou 4 mil gatos pingados, decidiram recuar, à espera de oportunidade melhor.

Resignaram-se ao cumprimento integral do segundo mandato do presidente Lula.

Aceitarão, da mesma forma, o mandato da sucessora que Lula produziu, mais a perspectiva de que ele próprio conquiste outro (eu quase ia escrevendo  um quarto...) em 2014?

Têm oito anos de pão e água pela frente e um mote e tanto para tentarem reeditar 1964.

Daquela vez, o pretexto era a conspiração comunista internacional, o  ouro de Moscou, etc. Funcionou.

Em 2007, ergueram o espantalho do Fôro de São Paulo, Chávez, etc. Não funcionou.

Agora, o bicho-papão será o estado policial, tentacular, conforme proposto pela Veja em recente matéria de capa (foto acima) cujo texto e ilustração têm mais a ver com   sci-fi  do que com jornalismo...

Sejamos francos: existe organização popular suficiente para que a resistência a uma eventual quartelada seja mais eficaz do que em 1964?

Não. A ênfase do lulo-petismo tem sido a de ganhar eleições, não a de estruturar, fora e independentemente do Estado, o poder popular. Então, a tomada do governo pelas forças reacionárias o privaria da fonte principal de sua força e capacidade de reação.

Podemos confiar em que as Forças Armadas desta vez não cedam à tentação golpista?

O quadro é pior do que em 1964, quando a maioria dos militares queria respeitar a Constituição, um núcleo de conspiradores esforçava-se para assumir a liderança da caserna e havia remanescentes dos cabos e sargentos que heroicamente impediram a primeira tentativa de usurpação do poder, em 1961.

Agora, a maioria continua preferindo atuar profissionalmente, o núcleo de oficiais conspiradores existe (contando com expressivo contingente de nostálgicos da ditadura) e nada restou de espírito resistente nos escalões inferiores.

Então, o fiel da balança é o poder econômico.

A anemia do  Cansei!  se deveu à falta de apoio do grande capital, dos banqueiros, da agroindústria, da Rede Globo. Os senhores do Brasil consideravam que seus interesses estavam sendo bem servidos e não viam motivos para aventuras.

Nada indica que tenham mudado de opinião, haja vista a profusão de recursos com que abastecem a campanha de Dilma.

Mas, nada é definitivo na política e os cenários se modificam com muita rapidez.

Podemos dar como favas contadas que haverá cidadãos querendo derrubar o governo no início de 2011.

Não se produziu até agora o fato político capaz de alterar os humores dos verdadeiramente poderosos. 

Mas, tudo é possível. Há sempre um Gregório Fortunato para fazer uma monumental lambança, ou um Cabo Anselmo para incitar radicalização desmedida.

Então, seria sensato, talvez até providencial, se os dirigentes petistas tomassem duas providências:
  • apagarem o incêndio na Receita Federal, demitindo superiores que não zelaram como deveriam pelos dados sob sua guarda e apurando rigorosamente as responsabilidades desses aloprados que, com suas ações criminosas e estúpidas, acabaram servindo como inocentes úteis para a arregimentação das forças inimigas;
  • passarem a se preocupar um pouco menos com a eleição, que marcha a contento, e um pouco mais com a sustentação do resultado que sairá das urnas.
Outubro não é preocupante. A incógnita são os meses seguintes.

25.3.09

ALERTA AOS COMPANHEIROS DE ESQUERDA, AOS DEMOCRATAS E AOS CIDADÃOS COM ESPÍRITO DE JUSTIÇA

Brasileiros,

há um projeto ambicioso por trás dos seguidos confrontos que Gilmar Mendes vem provocando com a esquerda, ao atacar o Governo Lula, o MST, os movimentos populares, os militantes da resistência à ditadura de 1964/85, os revolucionários de outros países que buscam refúgio no Brasil, etc.

A própria sofreguidão com que ele cria um novo fato político a cada dois ou três dias denuncia sua pressa. Se ele mirasse 2014, não iria com tanta sede ao pote. Tudo indica que jogará sua cartada em 2010, pela via eleitoral; ou a qualquer momento, pela via golpista.

Enganam-se os que pensam que ele oscila na órbita da aliança PSDB/DEM. Isto foi no passado. Agora ele é CONCORRENTE da centro-direita. Está mais para o "Cansei" e para os golpistas abrigados nos sites da extrema-direita (dos quais, aliás, já copia a retórica).

Desde que liquidamos a ditadura, só tínhamos esquerda, centro-esquerda, centro e centro-direita como forças consideráveis em nosso espectro político. A rearticulação da direita propriamente dita é muito preocupante, até porque ocorre num momento de grande instabilidade econômica e política (a atual recessão ainda deverá agravar-se, antes de começar a ceder).

Considero fundamental determos Gilmar Mendes. E o primeiro passo será impor-lhe uma fragorosa derrota na sua própria praia, o STF.

Até agora, a esquerda não conferiu ao Caso Battisti a importância que ele tem: trata-se do mais nítido e radicalizado confronto direita x esquerda desde a redemocratização, com alcance internacional.

Se Gilmar Mendes vencer, seu prestígio alcançará os píncaros. Firmará sua liderança sobre a direita e vai passar a ter poder de fogo para causar-nos danos ainda maiores.Temos de esmagar o ovo da serpente enquanto é tempo!

Então, urge que os companheiros do MST, da CUT, dos partidos de esquerda e dos movimentos populares assumam seu lugar na trincheira. Do outro lado estão as forças mais retrógradas e reacionárias da Itália e do Brasil.

E, bem pesadas as coisas, nossa alternativa é vencer ou vencer.Qualquer outro resultado será catastrófico para a esquerda e para os progressistas em geral.

Vamos à luta, companheiros!

CELSO LUNGARETTI

24.8.07

O RESCALDO DO "CANSEI"

Celso Lungaretti (*)

Tenham sido 2 mil ou 5 mil os cidadãos presentes ao ato público do Cansei na Praça da Sé, o certo é que, para uma metrópole como São Paulo, isto equivale a uma gota d’água no oceano.

Na verdade, as próprias lideranças do movimento não esperavam grande coisa depois que a OAB Nacional pulou fora, deixando a decisão de apoiá-lo ou ignorá-lo às seccionais. E o que se viu não deu nem para salvar as aparências. Outros enterros já tiveram participação mais expressiva.

O fracasso teve muitas causas.

João Doria Jr. tentou transpor para a política as fórmulas publicitárias que costumam dar certo nas campanhas eleitorais. Então, face à comoção provocada pela tragédia de Congonhas, supôs mecanicamente que se tratasse da gota d’água para a classe média passar dos resmungos virtuais ao protesto aberto. A virulência dos posts na Internet deixava exatamente essa impressão.

E foi com visão de publicitário que ele estruturou seu projeto, desde o título mais próximo dos slogans propagandísticos do que das palavras-de-ordem políticas (e que acabou se revelando extremamente inadequado, pois propiciava piadas dos adversários) até o foco demasiadamente difuso: querendo atingir o máximo de consumidores, Doria pretendeu enfeixar num único movimento todas as insatisfações por mazelas de responsabilidade do Executivo, Legislativo e Judiciário, em âmbito federal, estadual e municipal.

Para piorar, a idéia foi prontamente apoiada pela extrema-direita golpista que faz proselitismo na Internet e pelas correntes que até hoje não se conformam com o fato de Lula haver escapado do impeachment. Com Brilhante Ustra, Olavo de Carvalho, o Partido Vergonha na Cara e o Fora Lula apoiando o Cansei, ficou fácil para os governistas apontarem-no como uma nova Marcha da Família, com Deus, Pela Liberdade.

Afinal, além de ter essas ligações perigosas, o Cansei se voltava contra muitas iniqüidades e não propunha solução para nenhuma delas. O que resolveria tantos problemas de uma só vez? Fazia sentido supor-se que sua verdadeira meta fosse, como em 1964, um golpe de estado contra a subversão e a corrupção.

De quebra, o apoio da Fiesp, da Febraban e da Associação Comercial de São Paulo reforçou a suspeita de que se tratasse de uma conspiração dos endinheirados contra o presidente metalúrgico. E a OAB, respeitada por sua atuação exemplar durante os anos de chumbo, não acompanhou o presidente da seccional paulista em sua aventura.

Os erros crassos cometidos pelos que se propuseram a representá-la não devem, entretanto, fazer crer que a classe média esteja indiferente em relação a um governo que prioriza os muito ricos e os muito pobres, pouquíssimo oferecendo a quem está no meio, exagerando na carga tributária e descurando de serviços essenciais.

Bem farão os lulistas se encararem o Cansei como um alerta e iniciarem algumas correções de rumo. Nem todos os movimentos de classe média serão tão trapalhões.

João Goulart também sentia-se perfeitamente seguro depois da estrondosa vitória obtida no plebiscito que lhe restituiu poderes presidenciais plenos. Um ano e meio depois, era derrubado.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

2.8.07

EU CANSEI, TU CANSASTE... QUEM NÃO SE CANSOU?

Celso Lungaretti (*)

De um lado, o "Cansei" da OAB. Do outro, o "Cansamos" da CUT. E os cidadãos brasileiros, que carregam o cansaço de décadas e séculos perdidos, onde ficam? Assistindo à briga de cachorro grande, sem se comprometerem. Desta vez, até que com razão.

As vaias ao presidente Lula na abertura do Pan e a tragédia de Congonhas foram superdimensionadas pela direita golpista que viceja na Internet e pela direita engravatada da grande imprensa.

Os panfletos virtuais circularam como nunca e atingiram o grau máximo de radicalização verbal, enquanto os posts nas comunidades de discussão política fervilhavam de indignação.

E na mídia escrita (principalmente) o viés do noticiário e editoriais começou a evocar a informação distorcida e os "chega!", "basta!" e "fora!" que antecederam o golpe militar de 1964.

No entanto, seria um erro igualar o eternamente conspirador Grupo Guararapes com, p. ex., O Estado de S. Paulo - embora um editorial infeliz do jornalão tenha causado calafrios em quem ainda se lembra do papel por ele desempenhado na última virada de mesa institucional.

A direita radical que jamais engoliu a redemocratização do País e os neo-integralistas por ela formados apostam mesmo todas as fichas numa nova quartelada. As pregações golpistas daí advindas há muito ultrapassaram os limites da legalidade e deveriam ser coibidas, com a imputação penal de quem espalha por toda a Web exortações sediciosas do tipo "militares no poder já!".

A grande imprensa, no entanto, mais reverbera a insatisfação da classe média e a amplifica. Ou seja, afaga o seu público-alvo e dá uma força para os principais partidos de oposição, o PSDB e o DEM. O Lula estava certo ao dizer que são apenas os primeiros movimentos da campanha eleitoral de 2010, mas logo depois voltou à retórica oportunista sobre os endinheirados que não suportam ver um torneiro-mecânico no poder...

Espertamente, os petistas estão procurando reaproximar-se dos cidadãos idealistas que lutaram a seu lado contra a ditadura e foram se distanciando à medida que o partido abandonava suas bandeiras históricas. Utilizam o mal maior – a ameaça de recaída autoritária – como espantalho para tangê-los de volta ao redil.

Então, o posicionamento mais lúcido acaba sendo o de quantos estão apontando a guerra dos cansados como uma mera disputa de poder entre dois segmentos da elite que, no essencial, convergem: ambos mantêm a mesma fidelidade canina ao capitalismo globalizado, tanto que a política econômica de FHC vige até hoje. A diferença se dá apenas nos detalhes, como o de que um é mais inclemente e o outro prefere colher os dividendos eleitorais do assistencialismo.

Quem não faz parte da elite nem é dela caudatário, tem todos os motivos para defender a democracia se e quando ela estiver realmente ameaçada, mas nenhum para servir de peão no tabuleiro político em que se defrontam os responsáveis pelo cansaço nacional.


* Celso Lungaretti é jornalista, escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
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