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3.9.13

ARAPONGAS, APRENDIZES DE FEITICEIRO, ÍDOLOS TOMBADOS, ETC.

Os Estados Unidos, com extrema arrogância, recusam-se a encarar a arapongagem  que praticam sob a ótica das leis internacionais. Mesmo agora, ao serem flagrados espionando ninguém menos do que a presidenta do Brasil, deixam claro que continuarão agindo de acordo com as próprias leis e o resto do mundo que se dane. 

Da mesma forma, o presidente Barack Obama considera que só precisa do aval do seu Congresso para ordenar bombardeios à Síria. Com isto, a ONU perde a razão de existir. 

Se tivessem um pingo de dignidade, as demais nações dela se retirariam, já que seu papel é apenas de figurantes, enquanto o protagonista aplica a seu bel prazer a lei do mais forte.

* * *

Se dúvida havia sobre a perda de mandato de João Paulo Cunha, Valdemar Costa Neto, Pedro Henry e José Genoíno, condenados à prisão como  mensaleiros, não há mais nenhuma. A péssima repercussão da lambança perpetrada pela Câmara Federal, ao permitir que o presidiário Natan Donadon continuasse deputado, selou-lhes o destino e fechou o caixão. 

Então, se houve quem tenha livrado a cara de Donadon para abrir um precedente favorável ao quarteto, deu um formidável tiro pela culatra.

Certos aprendizes de feiticeiro de Brasília continuam ignorando os humores do cidadão comum e a capacidade da indústria cultural, de amplificar rejeições ao máximo. 

Quem é burro, pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue...

* * *

A imprensa dá destaque excessivo ao julgamento do  mensalão, como se ainda existisse algum coelho para ser tirado da cartola. 

Não há. As condenações serão confirmadas e as penas, cumpridas. A esta altura do campeonato, qualquer outra decisão deixaria a imagem do STF em frangalhos. E os ministros estão bem cientes disto.

Os advogados deram o seu showzinho, mas de antemão sabiam que nada mudaria. Os acusados jogaram fora o dinheiro que melhor fariam se tivessem guardado para pagar as multas.

É comum os revolucionários, tendo meios para escapar, não cumprirem decisões judiciais que consideram injustas. A questão é: o Zé Dirceu e o Genoíno ainda se veem como tais? 

E há outro aspecto, o da própria injustiça. Pois a opção pela fuga só se justificaria na hipótese de inocência, não na de terem sido condenados por práticas nas quais quase todos os políticos incidem sem ser punidos. 

Incomoda-me muito, admito, a perspectiva de ver o Dirceu e o Genoíno presos. O simbolismo será deprimente ao extremo. Por mais que eles tenham se distanciado dos ideais de 1968, a direita vai celebrar como uma vitória sobre os revolucionários da nossa geração.  Posso imaginar o triunfalismo estampado na capa da Veja, que tanto fez para colocar o Dirceu no pelourinho, chegando até a espioná-lo da forma mais abjeta.

Sem afirmá-lo taxativamente, o Cesare Battisti várias vezes deu a entender que, caso se tornasse inexorável sua extradição, preferiria a morte do que oferecer a cabeça para ser exibida na sala de troféus do Berlusconi. 

Mas, claro, tudo depende da convicção íntima de cada um. 

Melhor teria sido se os ex companheiros jamais houvessem superestimado seu poder e exposto o flanco de forma tão temerária. Deram sopa pro azar e estão pagando caro por isso.

* * *

Roger Federer, o maior tenista de todos os tempos, teima em continuar nas quadras quando seu momento passou. A marcha do tempo é impiedosa. 

Ter recuperado a posição de nº 1 em 2012 já foi uma moeda que caiu em pé, permitindo-lhe quebrar mais um recorde importante (o de semanas liderando o ranking da ATP), além de ampliar para 17 o número de conquistas de torneios grand slam. 

Quando foi novamente desalojado do topo, faltou-lhe humildade para reconhecer que se tratava do seu (magnífico) canto do cisne e, dali em diante, só desceria a ladeira. 

A temporada de 2013 está sendo humilhante ao extremo para ele. Quem o admira, torce para que não haja temporada de 2014. 

22.8.13

UNITED SHIT OF AMERICA (O MARTÍRIO DE BRADLEY MANNING)

Hoje USA deve ser lido United Shit of America
O último e único herói dos EUA, Bradley Manning, permanecerá sequestrado por, pelo menos, 11 anos e 8 meses, 1/3 da privação da liberdade que lhe será imposta, como covarde retaliação, por seus captores.

Motivo: ter agido como cidadão exemplar, ao denunciar a seu povo as aberrantes ilegalidades cometidas na surdina pelos governantes do país. O justo é exemplarmente martirizado, para que os demais temam expor as arbitrariedades e injustiças. 



O rei nunca esteve tão nu. E nunca foi tão fácil constatarmos sua nudez.

Torturas deixaram Manning em frangalhos
Minha total solidariedade à vítima de mais este linchamento com verniz legal  made in USA. 

Meu absoluto desprezo por seus sequestradores e pelo presidente negro que se mostra uma completa decepção, descumprindo promessas solenes como as de garantir a transparência  das atividades governamentais e desmontar o centro de torturas de Guantánamo.

Barack Obama não passa de um  pai Tomás  com visual moderninho.

29.4.12

DE HORA EM HORA OBAMA PIORA

Crer que algo vá mudar com a troca da guarda na presidência dos EUA sempre foi a maior roubada. Quem manda é o  stablishment, pouco importando as características do seu serviçal da vez na Casa Branca.

John Kennedy, p. ex., nem de longe pode ser considerado a  pomba  que dele fizeram, embora assassinado por  falcões. 

Deu sinal verde para a invasão da Baía dos Porcos em abril/1961, mas refugou quando o show já começara. Deixou de fornecer a prometida cobertura aérea para o desembarque dos  gusanos  e estes foram facilmente dominados.

Mas, não fez objeção nenhuma a que exilados cubanos utilizassem o território dos EUA para prepararem uma incursão armada contra seu país, nem descartou o apoio intervencionista a tal empreitada.

Foi só na enésima hora que reconsiderou, preferindo evitar um comprometimento tão ostensivo com a agressão a uma nação soberana sem ter-lhe declarado guerra.

Resultado: o mundo inteiro ficou sabendo, da mesmíssima maneira, que os EUA estavam acumpliciados com a invasão. E esta fracassou rotundamente.

Depois que John e Robert Kennedy foram assassinados por ultradireitistas hidrófobos, houve quem os tentasse erigir em grandes democratas.

"JOÃO DO AMOR"?!

Em 1968, no IV Festival de MPB da TV Record, foi até inscrita uma música homenageando o clã, composta por Ary Toledo e Chico Anysio. John Kennedy, quem diria, metamorfoseou-se em "João do amor" que "cantava a paz e o bem", mas cuja canção foi calada por "um tiro à traição". Dessa vez, o simpático Jair Rodrigues não recebeu muitos aplausos por sua interpretação...

Justiça seja feita, John Kennedy teve lá seu grande momento quando administrou a crise dos mísseis cubanos sem ceder às pressões militares para endurecer com a URSS. Com um Nixon na presidência, talvez a humanidade tivesse ido pro beleléu.

Durante a Guerra do Vietnã, eram bem heterodoxos os discursos do precandidato democrata à presidência em 1968, Eugene McCarthy, a ponto de sensibilizarem os jovens contestadores, que fizeram campanha por ele. Mas a indicação acabou ficando com o anódino Hubert Humphrey. Nunca saberemos se Gene, no poder, teria sido fiel à sua retórica.

George McGovern, menos à esquerda mas igualmente comprometido com o fim da guerra, conseguiu ser candidato em 1972, perdendo a eleição para o coadjuvante do macartismo Richard Nixon.

O menos pior dos presidentes estadunidenses nas últimas décadas foi, sem dúvida, Jimmy Carter, que estimulou a redemocratização da América Latina tanto quanto seus antecessores haviam semeado ditaduras. Foi mediador do primeiro acordo de paz entre um país árabe (o Egito) e Israel, amenizou o embargo econômico a Cuba e adotou uma política de paz em relação aos países comunistas. 

...E O VENTO LEVOU!

Está sendo uma completa decepção a  grande esperança negra  Barack Obama (aquele que, dentre outras promessas que o vento levou, comprometeu-se a desativar Guantánamo, só faltando assinar um  papelzinho  como os do Serra).

Tão insignificante vem sendo seu governo que nada melhor ele tem para erigir em trunfo eleitoral, nesta altura da campanha para reeleger-se, do que a hedionda operação pirata para extermínio de Osama Bin Laden e quem mais estivesse por perto, ao arrepio da soberania do governo paquistanês.

Tolamente, o rival republicano Mitt Romney afirmou que "não vale mover céus e terras gastando milhares de dólares só para pegar uma pessoa".

Levantou a bola para os democratas explorarem um tema que lhes favorece junto ao eleitorado de jecas e brucutus dos EUA.

Começando por Bill Clinton, que deu uma declaração mais feia ainda do que as mulheres que escolhe para  pular a cerca: disse que, ao tomar a decisão de autorizar uma  vendetta  caracteristicamente mafiosa contra Bin Laden, Obama teria escolhido "o mais difícil e mais honrado caminho".

Fez-me lembrar o título em inglês de um ótimo filme policial francês (d. Jean Herman, 1968, com Alain Delon e Charles Bronson): Honra entre ladrões.

Pois nada existe de mais desonroso do que ordenar matança tão covarde.
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SINAL VERDE PARA AS COTAS RACIAIS. E TAMBÉM PARA AS COTAS SOCIAIS!

4.4.11

EUA TÊM 5 CAIXÕES PARA ENCHER

Campo de concentração nazista?
Não, mas é quase igual: Guantánamo.
Foi anunciada nesta 2ª feira (04/04) a decisão de realizar na base naval  dos EUA e centro de torturas da CIA em Guantánamo (Cuba) o julgamento de cinco suspeitos de envolvimento com o atentado contra o WTC.

Digo  suspeitos  porque processos montados com base em sevícias  valem, juridicamente, tanto quanto os IPM's da ditadura brasileira de 1964/85: nada. Não passam de lixo. A investigação teria de recomeçar do zero.

Os cinco vão ser, claro, condenados à morte pelo tribunal militar, depois de lhes negarem, arbitrariamente, o direito a todas as garantias processuais oferecidas a réus nas cortes dos EUA.

Vale repetir, mais uma vez, a comparação com a malfadada  Redentora  daqui:
  • cortes civis às vezes ousavam confrontar o arbítrio dos militares, tanto que estes, com o AI-5, proibiram-nas de conceder  habeas corpus  nos casos qualificados como de  segurança nacional;
  • já nas auditorias militares, as sentenças eram predefinidas pelos serviços de Inteligência das Forças Armadas, reduzindo os julgamentos a inócuas encenações para justificarem o veredicto pronto.
O recado dos EUA para o mundo: ignorarão
os direitos humanos de quem os desafiar.
Da mesma forma, os cinco receberão a pena máxima porque é esta a mensagem que os EUA querem enviar ao resto do mundo: a de que esmagarão quem quer que os desafie, e se não apanharem os verdadeiros responsáveis (Bin Laden continua livre como um passarinho...),  qualquer um serve.

Como serviram Sacco e Vanzetti e o Casal Rosenberg, flagrantemente injustiçados (*), vítimas de repulsivas demonstrações de força que nada tiveram a ver com o nobre ideal da justiça.

Não tenho, nem ninguém tem, como saber se os cinco de agora são mesmo terroristas ou meros bodes expiatórios.

Esta "lição de democracia" certamente
não aparecerá nos filmes de Hollywood...
Considero o atentado de 11 de setembro uma abominação, já que atingiu indiscriminadamente civis, o que combatentes do povo não devem fazer em hipótese nenhuma.

Carnificinas hediondas como as que Israel perpetra na faixa de Gaza são-nos vedadas, porque constituem a negação total do nosso solene compromisso de contribuirmos para o advento de um estágio superior de civilização.

Mas, culpados ou não, salta aos olhos que estes acusados serão linchados, e não julgados.

O presidente Barack Obama, que tentou impedir tais farsas inquisitoriais encenadas em Guantánamo, acabou humilhantemente derrotado pela direita mais boçal e troglodita do seu país.

É outro que entrou rugindo e sairá miando.

* Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti nada tinham a ver com o assalto e assassinatos pelos quais foram condenados -- cometidos, na verdade, por criminosos sem nenhum envolvimento político. A polícia sabia disto e acobertou os bandidos, deixando que os dois anarquistas italianos fossem executados para amedrontar o movimento operário. 

Ethel Rosenberg não participava das atividades do marido Julius. E este não passou de um laranja, comunista manjado que enviou aos soviéticos informações coletadas de forma amadoresca, sem valor real nenhum, sobre a bomba atômica estadunidense. 


Quem realmente revelou segredos foi (foram) cientista(s) do projeto nuclear. Julius pode até ter sido o pombo-correio, mas isto é só especulação. Também há quem defenda a tese de que o casal foi deixado exposto pelos verdadeiros espiões, exatamente para desviar as atenções do esquema principal. O certo é que a pena foi exageradíssima e a execução de ambos, um crime inominável.
 

12.4.10

A CAVALARIA PREPARA O ATAQUE AOS PELES VERMELHAS

Entra presidente, sai presidente, os Estados Unidos continuam um país prepotente.

Hoje (12/04) e amanhã estarão reunidos em Washington representantes de 47 nações, na chamada Cúpula de Segurança Nuclear. Quem rege a orquestra, claro, são os anfitriães.

Segundo um alto funcionário do Governo Obama, "a cúpula é focada na cooperação para prevenir o contrabando nuclear, de forma a reduzir tanto quanto possível o perigo de que grupos de terror ou gangues de criminosos coloquem as mãos em materiais nucleares".

Até aí, tudo bem. Bombas atômicas não são mesmo brinquedos para bandos de tresloucados.

A coisa pega quando se percebe nas entrelinhas que o verdadeiro motivo da reunião é concertar sanções (quiçá ações, no sentido intervencionista do termo...) contra o Irã, o resto não passando de conversa pra boi dormir.

Israel, p. ex., não é signatário do Tratado Não-Proliferação Nuclear e cogitou até ficar fora da cúpula, por temer que o fossem pressionar nesse sentido.

A hilária esposa do ex-presidente Clinton correu a tranquilizar os falcões israelenses: "Israel compartilha conosco uma preocupação profunda com as ambições nucleares do Irã e também sobre a ameaça de terrorismo nuclear", afirmou a secretária de Estado dos EUA.

Ou seja, Israel não admite controle internacional de nenhuma espécie sobre seus programas nucleares, e tudo bem.

O Irã almeja ser tratado da mesma maneira, e tudo mal.

Esses dois países representam ameaças à humanidade?

A resposta é sim.

O Irã, por ser um estado teocrático, cujos condutores supõem ter (ou fingem que têm) linha direta com seu Deus, de quem receberiam as determinações mais cruéis e desumanas, como a de assassinar mais de uma centena de cidadãos que protestaram pacificamente contra uma fraude eleitoral.

Que garantia os demais países têm de que gente desse tipo não recorrerá a armas nucleares contra nações inimigas, iniciando a derrubada das peças de dominó que poderá levar à extinção da espécie humana? Realmente, nenhuma.

Israel, por sua vez, é um estado pirata, que descumpre sistematicamente as resoluções da ONU e é capaz de promover massacres terríveis como o da virada de 2008 para 2009, quando dizimou velhos, mulheres e crianças palestinos da faixa de Gaza, repetindo as práticas infames dos nazistas: se algum soldado de Hitler era emboscado nos territórios ocupados e não havia como punir os verdadeiros responsáveis, matavam moradores escolhidos a esmo.

Quem trata os civis como reféns sobre os quais é lícito retaliarem-se as ações dos combatentes também não oferece garantia nenhuma aos demais países de que seja nuclearmente correto.

A única forma de convivência de Israel com seus vizinhos tem sido a intimidação. Usa e abusa da sua condição de mais forte. Não é contido por escrúpulos de nenhuma espécie. Sua inclemência faz lembrar Átila, Gengis Khan e Vlad Dracul.

Só não foi derrotado até agora porque, na verdade, o inimigo que os senhores feudais e/ou tiranos do Oriente Médio mais temem é o seu próprio povo, que deve ser mantido sempre submisso; em segundo lugar, seus congêneres dos países vizinhos; e Israel vem só em terceiro lugar.

Mais dia, menos dia, esses déspotas serão derrubados e os novos governos vão conseguir unir-se contra Israel, como até agora nunca fizeram (quanto muito enfrentaram-no simultaneamente, só que sem obedecerem a uma estratégia conjunta nem unificarem seu comando pra valer).

Quando Israel tiver sua existência ameaçada, hesitará em usar as armas atômicas?

Por tudo que dele sabemos e por tudo que fez nas últimas seis décadas, só há uma resposta plausível: não.

Pelo contrário, os precedentes sugerem que, numa eventual iminência de extinção, arriscará tranquilamente levar consigo o resto da humanidade.

Então, se o Irã for enquadrado mas Israel mantiver sua licença para matar, continuaremos sem segurança nuclear nenhuma.

Recordando o velho Freud, que associava a agressividade ao déficit sexual, talvez fosse melhor uma cópula do que essa cúpula ridícula...

1.3.10

DISSIDENTES CUBANOS: MUITO SOFRE QUEM PADECE


Face a certas tragédias sobre as quais jornalistas e leitores cansavam de repetir o mesmo blablablá que nada resolve, Paulo Francis costumava ironizar: "muito sofre quem padece".

Caso recente do Haiti, cujos males estão diagnosticados há tanto tempo, sem que se vislumbre a mais remota possibilidade de que ocorra a mobilização de vontades e recursos necessária para as correções estruturais que se impõem.


Condenado a ser pária no mundo enquanto o mundo permanecer sob o jugo desumano do capitalismo, sua única esperança é uma transformação em escala maior. Até lá, muito continuará sofrendo porque padece...

Os reacionários agora me cobram que comprove ser mesmo defensor dos direitos humanos, posicionando-me sobre Cuba. Com seu habitual primarismo, ignoram que, longe de omitir-me, já me pronunciei na semana passada.

No fundo, trata-se de outro beco (quase) sem saída. Vamos recapitular.

Nos anos 50, a União Soviética não via com bons olhos revoluções na esfera de influência dos EUA, que pudessem lhe trazer complicações desagradáveis, num momento em que priorizava a consolidação do seu modelo político/econômico nos países que o Exército Vermelho libertara no fim da 2ª Guerra Mundial.

E a via chinesa, de formação de um exército revolucionário no campo e cerco das cidades, mostrava-se inviável na América Latina, na qual quem dominava as cidades tendia a esmagar sem maiores dificuldades as rebeliões rurais.


Aí, um pequeno grupo de abnegados conseguiu iniciar a derrubada da corrupta e sanguinária ditadura de Fulgêncio Batista com uma variação do modelo chinês: criou colunas guerrilheiras que surpreendiam o inimigo e depois embrenhavam-se nas serras, acumulando forças e conquistando aos poucos o apoio da população.

Foi uma mágica que só deu certo da primeira vez, e nas condições peculiares de Cuba, ilha que tinha como principal atividade econômica a monocultura da cana-de-açúcar e cujo tirano era particularmente repulsivo para seu povo.

Nas duas décadas seguintes, reprises seriam tentadas noutros países do subcontinente com monoculturas e ditadores repudiados, mas, havendo possibilidade de êxito, os EUA tratavam de erradicá-las com seu grande porrete, corporificado em ajuda econômica e assessoria militar.

Numa nação de dimensões continentais como o Brasil, o foco guerrilheiro se mostrou mais inadequado ainda, sendo descoberto e atacado antes mesmo de iniciar operações.

Quem conseguiu alguns êxitos foi a guerrilha urbana, principalmente aqui (vários grupos, começando pela ALN e VPR), na Argentina (ERP e montoneros), Uruguai (tupamaros) e Chile (MIR). Trinfos temporários, contudo. Causaram impacto, mas a avassaladora superioridade de forças e os métodos bárbaros do inimigo acabaram prevalecendo.

O certo é que os revolucionários cubanos, face ao embargo implacável dos EUA, sonhavam com a construção do socialismo apoiada por outras revoluções latino-americanas, mas tinham de curvar-se à evidência dos fatos, aceitando a tutela da União Soviética, que lhes dava sustentação econômica mas impunha, como contrapartida, limites de atuação no exterior.

A CRISE DOS MÍSSEIS E O MARTÍRIO DE GUEVARA

A crise dos mísseis, em 1962, foi o sapo mais indigesto que tiveram de engolir.

Depois que os EUA insuflaram a fracassada invasão da Baía dos Porcos, a URSS instalou armamento atômico na ilha, aparentemente apenas para dissuadir os norte-americanos de outras aventuras intervencionistas.

A reação estadunidense colocou o mundo à beira do apocalipse. E o acordo que pôs fim à crise pareceu um recuo humilhante da URSS, que retirou os mísseis -- embora houvesse uma cláusula não divulgada segundo a qual os EUA se comprometeram a nunca mais tentarem derrubar ou favorecer a derrubada do regime cubano.

O certo é que a imagem passada para o mundo foi de que a cavalaria botara de novo os índios pra correr.

Daí a indignação dos líderes cubanos, que foram totalmente ignorados por Kruschev enquanto negociava com Kennedy, recebendo depois a decisão como um prato feito; e a heróica iniciativa de Che Guevara, de tentar pessoalmente levantar novas revoluções, que livrassem Cuba da dependência exclusiva da URSS.

Isto também falhou e só restou a Fidel a opção de construir sua versão tropical do socialismo com todas as limitações de uma nação pequena, pobre e asfixiada pelo embargo econômico -- as quais acentuaram-se ainda mais quando as nações do antigo bloco soviético voltaram ao capitalismo.

Conseguiu alguns êxitos notáveis em educação e saúde, principalmente. Mas, não teve como oferecer prosperidade ao povo. E a experiência soviética ensina que as massas submetem-se a terríveis sacrifícios em nome de um ideal durante algum tempo, mas não por todo o tempo.

Quando os sacrifícios se tornavam rotina, sem nenhuma luz à vista no fim do túnel, a URSS resvalou para o estado policial.

Cuba não reproduziu na mesma escala os horrores do stalinismo, principalmente porque não houve cisão significativa no partido: os revolucionários de primeira hora cubanos concordaram com a mudança de rumos como resposta às circunstâncias adversas, ao contrário de boa parte da velha guarda bolchevique, que resistiu bravamente ao desvirtuamento dos ideais de 1917, até ser imolada.

Então, quem enfrentou o indiscutivelmente popular Fidel Castro não foram figuras exponenciais como Trotsky e Bukharin, mas intelectuais sem muito prestígio junto ao povo, alguns trabalhadores como Orlando Zapata e também cubanos fascinados ou teleguiados pelo capitalismo (eles existem, claro, mas é uma falácia sustentar que todos os oposicionistas o sejam).

E os irmãos Castro, com flagrantes violações dos direitos humanos desses dissidentes, têm conseguido evitar que as brisas se tornem verdadeiros ventos de mudança.

Então, de um lado eu repudio veementemente tais perseguições políticas, pois nenhum outro posicionamento é admíssivel para um homem civilizado e para um verdadeiro revolucionário; do outro, não vislumbro nenhuma possibilidade de que apenas os discursos e abaixo-assinados, mesmo transbordantes de justa indignação, venham alterar o quadro que levou à morte de Orlando Zapata.

Com o colapso físico de Fidel, os dirigentes cubanos dificilmente ousarão desmontar a estrutura do estado policial no instante em que o regime está prestes a encarar o desafio de sobreviver à sua figura mais emblemática. Alguma turbulência sempre haverá, quando a morte for anunciada. Quanta, nem mesmo eles sabem.

É claro que, se tiverem uma perspectiva de prosperidade a oferecer ao povo cubano, poderão até decidir que vale a pena correr o risco.

Daí ser este o momento em que Barack obama poderá se colocar à altura das esperanças que despertou, dando contribuição decisiva para que seja virada uma página lamentável da História.

Como? Pondo um fim ao injusto, contraproducente e odioso embargo econômico de Cuba, um abuso inominável de poder, que fere profundamente o direito de autodeterminação dos povos.

Caso contrário, o mais provável é que os dissidentes cubanos continuem muito sofrendo porque padecem, independentemente do clamor dos justos e da grita demagógica dos injustos.

10.1.09

FAROESTE NO GUETO DE GAZA

Pasmem: tanto a Câmara dos Representantes quanto o Senado dos EUA aprovaram, por esmagadoras maiorias, resoluções de apoio ao genocídio que Israel está perpetrando no Gueto de Gaza!

Como se fossem autistas, alheios a tudo que câmaras mostram, correspondentes relatam e a ONU deplora (com tanta veemência quanto impotência), os parlamentares estadunidenses atribuem ao Hamas a responsabilidade única por essa versão em miniatura e com sinal trocado do Holocausto.

"Israel, como qualquer outra nação, tem direito à autodefesa quando está sob ataque", disse a presidente da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi, omitindo a extrema desigualdade de forças e a adoção da matança generalizada de civis (velhos, mulheres e crianças incluídos) como prática intimidatória por parte do estado judeu.

Então, que fique o resto do mundo ciente: por melhores que sejam as intenções do presidente eleito Barack Obama, pouco ou nada poderá fazer para corrigir as distorções mais aberrantes da política dos EUA. O Congresso não deixará.

De resto, louve-se a coerência dos deputadores e senadores estadunidenses, que mantêm ínalterada sua postura através dos séculos. Avalizaram outrora o extermínio dos indígenas em seu país com a mesmíssima argumentação ora utilizada para avalizar o extermínio dos palestinos.

PITONISA - Embora pareça mais o jornalzinho da Gaviões da Fiel enfocando um Corinthians x Palmeiras, o trecho abaixo é da reportagem "O direito à autodefesa", publicada na edição de 14/01/2009 da revista Veja:

"O que é fora de dúvida é que Israel não pode (e não vai) perder a guerra contra as forças da intolerância religiosa no Oriente Médio, representada agora pelos terroristas do Hamas. Israel é uma sentinela avançada da democracia e da civilização judaico-cristã cercada por nações e grupos políticos armados que formal e claramente lutam pela destruição do estado judeu e pela morte de todos os seus habitantes não-árabes. Também é fora de dúvida que não haverá paz enquanto os vizinhos hostis não aceitarem que a existência de Israel é legítima, que o país tem o direito de se defender e que o terrorismo destrói o que pretende construir."

A confusão é total entre espaços noticiosos e editoriais, bem como entre jornalismo e militância e, enfim, entre análise séria e mera expressão de desejos.

Eu, que não vi em nenhuma bola de cristal se Israel vai ou não perder qualquer guerra, prefiro relatar/comentar os fatos à medida que vão ocorrendo, como aprendi na escola de jornalismo .

BUMERANGUE - O PT comparou a carnificina em Gaza com suas similares históricas, cometidas pelos nazistas. Pelo menos desta vez, está certíssimo.

Que se preparem, entretanto, os petistas para o bumerangue: eles é que serão alvos de uma comparação extremamente vexatória, caso venham a entregar o perseguido político Cesare Battisti para a retaliação (não Justiça) italiana.

O episódio será encarado pela esquerda digna desse nome como repetição do ato indigno de Getúlio Vargas, ao despachar Olga Benário para os cárceres nazistas e a morte.

E a reputação que certos petistas laboriosamente tentam construir, de coerência com os ideais históricos que o partido esqueceu, virará pó no mesmo instante.
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