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27.2.08

O VANDRÉ QUE EU CONHECI

"O que foi que fizeram com ele? Não sei
Só sei que esse trapo, esse homem foi um rei"
("Tributo a um Rei Esquecido", Benito Di Paula)


Eu era um adolescente começando a me interessar pela política quando uma música me atingiu em cheio: "Canção Nordestina", do Geraldo Vandré, com aquele seu grito lancinante ("...e essa dor no coração/ aaaaaaaAAAAAAAAIIII!!!!, quando é que vai acabar?") reverberando em todo o meu ser.

Foi meu primeiro ídolo. Acompanhei a consagração da "Disparada" no Festival da Record de 1966, amaldiçoando o Jair Rodrigues por abrir um sorriso bocó no trecho mais dramático ("...porque gado a gente marca,/ tange, ferra, engorda e mata,/ mas com gente é diferente").

Depois, nos estertores d'O Fino, o programa passou a ser conduzido, uma em cada quatro semanas, pelo Vandré (nas outras, se bem me lembro, os apresentadores eram Chico Buarque/Nara Leão, Elis Regina/Jair Rodrigues e Gilberto Gil/Caetano Veloso).

Num de seus programas, o Vandré declamou o "Poema da Disparada", sobre a modorrenta mansidão da boiada, até que um simples mosquito, picando um boi, provoca o estouro, e nada volta a ser como antes. Belíssimo.

Aí o Vandré brigou com a TV Record e saiu da emissora, alegando que um desses seus programas havia sido censurado pelos patrões, por temerem os milicos.

Veio o Festival da Record de 1967 e Vandré, com sua "De Como Um Homem Perdeu o Seu Cavalo e Continuou Andando" ("Ventania"), virou alvo de críticas e maledicências ininterruptas nas emissoras da Rede Record. Diziam até que ele havia contratado uma turba para vaiar Roberto Carlos.

"Ventania" não era mesmo uma segunda "Disparada", mas, sem toda essa campanha adversa, certamente teria obtido classificação melhor do que o 10º lugar.

Aconteceu então aquele 1º de Maio esquisito, em 1968, quando o PCB garantiu ao governador Abreu Sodré que ele poderia discursar tranqüilamente na Praça da Sé.

O ingênuo acreditou e, mal tomou a palavra, recebeu uma nuvem de pedradas dos trabalhadores do ABC e de Osasco, organizados pela esquerda autêntica.

Sodré correu para se refugiar na Catedral... e Vandré foi fotografado ajudando Sua Excelência a escafeder-se!

A foto saiu na capa da Folha da Tarde e fez com que muito esquerdista virasse as costas ao Vandré.

No final de junho/68, os operários de Osasco tomaram pela primeira vez fábricas no Brasil (em plena ditadura!). A reação foi fulminante, com a ocupação militar da cidade.

Os estudantes, por sua vez, ocuparam a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antônia, para mantê-la aberta durante as férias de julho, prestando apoio à greve de Osasco.

O Vandré apareceu lá numa noite em que estava marcada uma assembléia para tratar desse apoio estudantil à greve. Foi hostilizado pelos universitários. Lembro-me de uma fulaninha gritando sem parar: "traidor!", "traidor!".

Eu estava lá com companheiros secundaristas da Zona Leste, todos admiradores do Vandré. Então, nós nos apresentamos e fizemos o convite para vir conosco ao bar da esquina, oferecendo-lhe a oportunidade para retirar-se de lá com dignidade, e não como um cão escorraçado.

Bebemos, papeamos horas a fio, apareceu um violão e rolaram algumas músicas.

Lá pelas tantas, o Vandré mostrou uma letra rascunhada e cheia de correções, que ele escrevera numa daquelas folhas brancas de embrulhar bengalas (pão). Era a "Caminhando", que tivemos o privilégio de conhecer ainda em gestação.

É importante notar que ele fez a "Caminhando" exatamente para responder aos esquerdistas que o estavam hostilizando. Quis lhes dizer que continuava acreditando nos mesmos valores, que nada havia mudado.

Perguntamos por que ele havia socorrido o Sodré. A resposta: "Nem sei. Estava tão bêbado que não me lembro de nada que aconteceu".

Na verdade havia amizade entre ambos, tanto que o Vandré, meses mais tarde, encontraria abrigo no Palácio dos Bandeirantes, onde o próprio Sodré o escondeu quando a repressão estava no seu encalço.

Mas, não ficava bem para um artista de esquerda admitir publicamente que mantinha relações perigosas com um governador da Arena, partido de apoio à ditadura.

"HÁ SOLDADOS ARMADOS, AMADOS OU NÃO"

Naquele Festival Internacional da Canção da Rede Globo, "Caminhando" foi uma das cinco classificadas de São Paulo para a final nacional no Rio. O que chamou mais a atenção por aqui foi a não-classificação de "Questão de Ordem", do Gil, e o desabafo de Caetano Veloso, que acabou retirando sua "É Proibido Proibir" do festival em solidariedade ao amigo (depois de detonar o júri "simpático, mas incompetente" com um discurso célebre, que acabou sendo lançado em disco com o nome de "Ambiente de Festival").

No Rio, entretanto, o clima era outro. Numa manifestação de rua, a repressão acabara de submeter estudantes a terríveis indignidades (os soldados chegaram a urinar sobre os jovens rendidos e a bolinar as moças). Isto despertou indignação geralizada na cordialíssima cidade maravilhosa.

O III FIC aconteceu logo depois e os cariocas adotaram "Caminhando" como desagravo. Vandré teve muito mais torcida lá do que em SP. Quando ele reapresentou a música, já como 2ª colocada, os moradores de Copacabana abriram as janelas de seus apartamentos e colocaram a TV no volume máximo. Cantaram juntos, expressando toda sua raiva da ditadura.

Reencontrei Vandré por volta de 1980, quando eu estava colaborando com várias revistas de música. Propus-lhe uma entrevista, que ele não quis dar: "Não tenho disco nenhum para lançar, para que falar à imprensa?".

Acabamos indo (eu e minha companheira de então) ao apartamento do Vandré na rua Martins Fontes e papeando durante horas -- mas em off, ou seja, com o compromisso de nada publicar.

Reparei que ele continuava lúcido, ao contrário das versões de que teria ficado xarope por causa das torturas. Mas, perdera a concisão e clareza. Seus raciocínios faziam sentido, mas davam voltas e voltas até chegarem ao ponto. Para entender a lógica do que ele dizia, eu precisava ficar prestando enorme atenção. Era exaustivo.

O mais importante que ele disse: estaria na mira de organizações de extrema-direita, inconformadas com o gradual abrandamento do regime.

A censura finalmente liberara "Caminhando", que fazia sucesso na voz de Simone. Vandré explicou que tinha de passar-se por louco pois, se ele tentasse voltar ao estrelato junto com a música, seria assassinado.

Insistiu muito em que não se apresentaria no Brasil enquanto o País não oferecesse garantias legais aos seus cidadãos. Realmente, algum tempo depois, soube que ele marcara um show para uma cidade paraguaia fronteiriça com o Brasil. Quem foi lá vê-lo? Brasileiros, claro...

Quando estudava na ECA/USP, eu fiz um trabalho de teleteatro de meia hora baseado nos personagens e no clima da música "Das Terras de Benvirá" -- sobre uma comunidade de refugiados brasileiros decidindo se já era hora de voltar para a patriamada ou não. Minha pequena contribuição àquele momento (1979) da anistia.

Conheço quase toda a obra do Vandré. E considero o LP francês, "Das Terras de Benvirá", uma pungente obra-prima.

"SEM TER NA CHEGADA QUE MORRER, AMADA"

Quanto à promiscuidade com milicos depois de sua volta do exílio, a canção composta em homenagem à FAB e as declarações negando ter sido torturado, a minha opinião é que ele não conseguiu suportar a realidade de que não se comportara heroicamente.

Em várias músicas (como "Terra Plana", "Despedida de Maria" e "Bonita"), o personagem central era um guerrilheiro. As canções, narradas sempre na primeira pessoa. Ou seja, saltava aos olhos tratar-se do papel que sonhava ele mesmo vir a representar na vida real.

Mas, claro, o Vandré não foi para a guerrilha nem parece ter passado pela prova de fogo nos porões da ditadura com o destemor desejado. Além disto, não aguentou viver muito tempo fora do Brasil e voltou com o rabo entre as pernas. Com certeza, negociou com os militares para poder desembarcar "sem ter na chegada/ que morrer, amada,/ ou de amor matar" ("Canção Primeira").

A minha impressão é que, nordestino e machista, ele não aguentou admitir que fora quebrado pela tortura e pelos rigores do exílio. Então, preferiu desconversar, embaralhar as cartas, descaracterizar-se como ícone da resistência. Enfim, um caso que só Freud conseguiria explicar (e esgotar).

De qualquer forma, aquele artista que tanto admiramos foi assassinado pelos déspotas, da mesma forma que Victor Jara e Garcia Lorca. Sobrou um homem sofredor, que merece nossa compreensão.

6 comentários:

Celso Lungaretti disse...

DO MEU BOM AMIGO WILLIAM WOLLINGER BRENUVIDA (tive de apagar o original, mas o reponho agora)

Camarada Celso! Ontem assisti uma peça teatral em comemoração aos 28 anos de luta do PT. O PT de SC tem uma linha mais socialista e compreende, sem suas várias análises de conjuntura, os problemas que o mundo passa e que o Brasil segue a reboque... muitos companheiros ainda sonham com o Socialismo.

Na peça teatral... talvez por desinformação tocaram um trecho de disparada na voz do Jair Rodrigues, além de outras músicas da época que considero incríveis. Ocorre, que naquele instante, como que de impulso eu falei: "eles bem que poderiam ter colocado a versão do Vandré (...) O Vandré não gostou nada quando o Jair Rodrigues fez pouco caso da essência da música". No mais, a peça foi muito boa, enfocando aspectos da censura nos tempos da ditadura...

Gostei o texto. Concordo com você em todos os aspectos. Sou admirador da música, da poesia de Vandré, e de modo algum, posso colocar Vandré numa situação de ridículo em face de ter negado, ao voltar ao Brasil, o cantor-interprete-poeta-revolucionário(na alma) que ele foi... Confesso que gostaria de vê-lo no palco e na mídia mostrando aquele arte inconfundível. Mas, somos humanos e sabemos que Vandré não resistiu aos fantasmas que ainda perambulam seu espírito.

Parabéns pelo texto! Ele reaviva a memória, a lucidez e brilha com a música-arte do Vandré. É sempre bom lembrar que tive a satisfação em conhecer o amigo (Lungaretti) que passou pelos horrores do cárcere e das torturas, mas participou também de momentos como o conhecimento dos primeiros passos de "Caminhando".

Ontem vi dois ou três Cd's do Vandré a venda, mas existem muitas canções que faltam a minha coleção. Canções que a mídia não se interessa em divulgar...

Saudações Fraternas,

William

Celso Lungaretti disse...

...E O VENTO LEVOU TAMBÉM O COMENTÁRIO DA ÓTIMA HELOÍSA, MAS FUI ATRÁS E ENCONTREI:

Lindo texto Celso! Obrigada.
Em 75 ou 76 encontrei o Vandré entre amigos meus, na platéia de um teatro e pude observar que havia se tornado um homem precocemente envelhecido e confuso. Lembro-me de ter pensado que talvez a dor tenha sido maior do que o seu coração foi capaz.
Abraço

Anônimo disse...

"a minha opinião é que ele não conseguiu suportar a realidade de que não se comportara heroicamente".

Lungaretti (nome quadrissílabo como Massafumi),
de-me o caminho ou endereço onde eu possa ler (certamente com prazer, vc escreve bem), como conseguiu e consegue suportar a tal realidade de tal comportamento.
Converti-me, hoje sou cristão, lerei com compaixão,
abs,
nestor cozetti.

Celso Lungaretti disse...

Muita coisa já veio à tona sobre os eventos de 1970 e muitas ainda virão.

Gostaria de haver me comportado como um herói de folhetim, mas quase ninguém conseguiu.

Então, assim que consegui avaliar os acontecimentos com alguma lucidez, percebi que as culpas que eu tivesse seriam infinitamente menos graves do que a TRAIÇÃO que eu sofrera por parte da VPR, ao me atirar a culpa de algo que sabiam não ser minha responsabilidade (a delação da área 2 de treinamento guerrilheiro) e ao excluírem-me sem motivo da lista de trocas do embaixador alemão, deixando-me nas garras da repressão, que intensificou suas torturas, enquanto a pessoa verdadeiramente culpada desfrutava de um exílio dourado.

Gostaria de ter sido herói, mas não fui. No entanto, sempre soube que havia sido vítima. E nunca desisti de prová-lo, o que acabei conseguindo 34 anos depois.

Se quer saber mais, leia o NAÚFRAGO DA UTOPIA.

Hugo Cortez disse...

Celso,
Realmente Vandré foi uma figura difícil de se compreender, e continua o sendo. Mas você fala no texto de um disco dele que você considera o melhor. Salvo engano meu, foi feito na França, basicamente por Marcelo Melo do Quinteto Violado, segundo Marcelo mesmo me contou. Entre em contato com ele para saber mais de Vandré.Parabéns pelo texto e por um outro que você escreveu sobre o Cabo Anselmo.

alquimides daera disse...

Olá Celso, o vandré vai voltar mais informações 43-99259405
www.autores.ning.com abraço.

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