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16.1.14

APOLLO NATALI E SEU TRIBUTO EMOCIONADO AO PELÉ

O Apollo Natali é um dos melhores seres humanos que conheci no jornalismo e, quiçá, na vida.

Na década de 1980, trabalhamos juntos na Agência Estado. E, quando já marchava para a aposentadoria, lá pelos seus 55 anos, tomou a temerária decisão de demitir-se para dar assistência ao pai em seu final de vida.

O FGTS foi suficiente para bancar o quase um ano que ele passou cumprindo, em tempo integral, o dever de bom filho.

Quando o óbito ocorreu, já não havia emprego à sua espera na AE, nem em redação nenhuma.

Aceitou a adversidade e lutou contra ela, trabalhando até como pedreiro e mecânico.

De quebra, realizou o antigo sonho de obter um diploma de jornalismo -- que não lhe fora necessário para o exercício da profissão sob a lei antiga.

Mesmo sem esperança nenhuma de voltar à ativa, passou quatro anos nas Faculdades São Judas Tadeu e se graduou brilhantemente.

Hoje, próximo de se tornar octogenário, ele continua se indignando com os tormentos que os poderosos infligem aos coitadezas da vida e fazendo o possível para os minorar. 

Além de destacar e apontar como exemplo às novas gerações as trajetórias que considera edificantes, como a do rei Pelé.

Tenho enorme satisfação em dar-lhe as boas vindas como colunista deste blogue.

TRIBUTO AO PELÉ

Apollo Natali

Chamem este texto sobre Pelé do que quiserem: crônica, novela, reportagem ou coisa nenhuma. É uma historinha chorosa e melosa, que fiz quando Pelé parou de jogar, em 1974. Merece ser relembrada agora que Pelé ganhou, em 2014, a Bola de Ouro honorária da Fifa. 

Esta historinha de Pelé foi distribuída em 1974 para o Brasil todo e para o mundo pelo formidável circuito da Agência Estado, onde eu trabalhava. As agencias de notícias internacionais cozinharam a matéria na ocasião e distribuíram para o mundo todo, não por ser alguma coisa genial, mas, claro, porque se tratava de Pelé. O exemplar do Diário de Bauru com a publicação que eu guardava há décadas no meu baú, se desfez nas dobras e lá a leitura da despedida de Pelé está difícil.

Assim se sentiu o mundo, choroso e meloso, quando Pelé parou. A sensação de perda foi a de um velório. Os psicanalistas explicam esse profundo sentimento de perda lembrando que são os ídolos que constroem a auto-estima dos povos e a falta de Pelé já esvaziava então a auto-estima dos brasileiros.

Pelé fez o mundo voltar os olhos para o Brasil numa época em que nosso país, que inclusive não havia ganhado nada no  futebol em termos de seleção, sendo, aos olhos do mundo, apenas uma imensa e risível plantação de bananas cheia de índios e jacarés. 

Com seus dribles, gols, gestos e força, Pelé provocou uma verdadeira comoção afetiva nos corações e as atenções se voltaram então para o Brasil. Chutando bola, Pelé ajudou o Brasil e o time do Santos a conquistar títulos há muito sonhados e, de quebra,  realizou um inigualável trabalho de diplomacia e marketing em favor do seu país. 

Parece até que ele era um missionário que veio com esse propósito. Quando comparam Pelé com qualquer outro jogador, eu digo que, além do futebol mágico, ele tinha o que faltou nos outros: poder. Pelé era poderoso em campo.

A lei do passe já era defendida por Pelé quando ele não passava de um adolescente. No início de sua carreira o assunto foi tema de série de reportagens no Jornal da Tarde, feita pelo jornalista Michel Lawrence e fotografada por aquele que era chamado “o fotógrafo de Pelé”, Domício Pinheiro. 

O título da série era “O jogador é um escravo” e reproduzia exatamente uma frase solta de Pelé na longa entrevista. A série está lá nos arquivos do JT para quem quiser pesquisar. Mais para a frente, fora dos campos, como ministro dos Esportes, Pelé fez aprovar a nova lei do passe vigente no Brasil.

A DESPEDIDA - Pelé. Este pequeno nome, o mais conhecido durante os últimos vinte anos em todas as camadas sociais do mundo [escrevo esta história em 1974], começa a desaparecer do cenário do futebol. Pertence ao jogador negro Edson Arantes do Nascimento, considerado o maior gênio do futebol que o planeta já conheceu e que agora encerra sua carreira. Seus gols, dribles, gestos e palavras acrescentaram uma qualidade de majestade ao apelido: rei. Rei Pelé. O rei abdicou e o futebol parece estar morto. 

O fim dos 20 anos de ouro do futebol que Pelé liderou com seus gols, dribles, gestos e palavras, é uma perda nacional e pronunciar agora o nome Pelé dá uma sensação de velório, uma espécie de vertigem, um mal-estar. Sua retirada é como um pesadelo.

O choro íntimo de cada torcedor por ver Pelé para sempre fora dos estádios encontra neste momento algum consolo no lamento do jornalista francês Alain Fontaine: “O futebol de Pelé tinha que existir a vida inteira pelo que representava de alegria e entretenimento”.

Agora Pelé vive a vida dos homens comuns, os estádios parecem vazios e qualquer lembrança de seus feitos soa como uma lenda. Seu apelido já é uma lenda. Quando Edson Arantes do Nascimento era criança, gostava de jogar no gol. O menino Edson se imaginava um grande goleiro e dizia que era o Apilé, apelido de José Lino, um bom goleiro da década de 40. Apilé era também o apelido que José Lino copiava de um grande toureiro da época. 

Conta a lenda que os amiguinhos de infância de Pelé não sabiam falar Apilé e diziam Pilé, Bilé e, finalmente, Pelé. Quando o menino chegou à adolescência, já saiu pelo mundo com esse apelido de rei e, como numa história fantástica, mas verdadeira, jogando pelo Santos F.C., foi demolir defesas em terras estranhas, deliciar platéias, provocar loucuras nos aeroportos e fazer outros reis se curvarem. No mesmo Santos F.C. o menino ficou homem e agora encerra o seu reinado. 

O começo da lenda é mostrado no filme O Rei Pelé, escrito pelo dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues. O filme mostra uma mulher negra, gorda, espírita, em estado de transe, numa pequena cidade do interior do Brasil, dizendo para os pais da criança que acabava de nascer: "Seu filho será rei, o menino será um rei". 

No momento não deu para entender. A vida daquela criança estava sendo profetizada pelos espíritos. Seria um rei, e foi, e é.

Pelé sendo homenageado em Três Corações
O nome da mãe do menino tinha, sim, algo a ver com os céus: a mãe de Pelé se chama Celeste. A cidade onde Pelé nasceu também tem nome de profecia: Três Corações. Cidade pequena, antiga, de ruas estreitas, no Estado de Minas Gerais. 

Lá o menino viveu três anos, sendo levado depois para a cidade paulista de Bauru. 
"Só me lembro - diz Pelé - que meu avô tinha uma lenhadora em Três Corações e fazia entregas com uma carroça. Eu brincava nela e devia fazer isso todos os dias porque é a única lembrança que guardo de lá." 
Em Três Corações foi erguida uma estátua de bronze do tamanho natural de Pelé e os moradores só lamentam não poderem mostrar aos visitantes a casa de fachada colonial onde ele nasceu. Ela já foi derrubada e em seu lugar existe apenas o terreno vazio, que pertence hoje a Pelé. 
"Foi meu pai quem o comprou para mim e eu pretendo construir alguma coisa lá no futuro. Ainda não sei bem o que vai ser, provavelmente uma escola." 
Em Três Corações o prefeito Odilon Rezende de Menezes apresentou Pelé em 1971 como “um elogiável membro da raça negra”. 

Mas foi em Bauru que Pelé começou a desenvolver a majestade: 
"Muitas pessoas me perguntam como eu fiz essa ou aquela jogada no campo. Eu digo que deveriam ver o que a criançada de Bauru fazia nos campinhos de várzea. Era um campo pequeno, com vinte jogadores de cada lado. Então, para ficar alguns segundos com a bola, o jogador tinha que driblar por cima, entende? Porque embaixo não havia espaço. Evidentemente, num jogo profissional, não se pode fazer tudo aquilo que fazíamos lá. O que eu faço é apenas uma parte do que fazia antes".
Agora que chegou ao fim da linha todos perguntam o que Pelé vai fazer daqui por diante: 
"Quando abandonar a profissão - dizia ele há algum tempo - vou ser treinador do time dente-de-leite do Santos, mas antes pretendo me formar  professor de educação física, não para ensinar aos que querem ser profissionais de futebol, mas para orientar a garotada".
Pelé concluiu recentemente seu curso na faculdade de educação física [escrevo esta história em 1974] , que ele frequentou prevendo o dia em que os alto-falantes, nos mais diversos sotaques e acentuações, já não anunciassem mais a sua presença em campo e os aplausos não surgissem com a mesma força de sempre, e o mundo já não corresse mais atrás dele. E preparou também os papéis para fazer um curso de administração de empresas para dirigir seus numerosos negócios atuais. Preparou-se para a vida sem a bola.  

Em 20 anos de carreira no futebol o lendário cidadão Edson Arantes do Nascimento conseguiu mais comendas e homenagens que muitos chefes de estado e ministros. Quando em 1958 o Brasil conquistou seu primeiro título mundial de futebol Pelé, o menino franzino de 17 anos recebeu o cumprimento do rei Gustavo Adolfo, da Suécia. Não se constrangia diante de cabeças coroadas: “Um verdadeiro rei-embaixador”, dizem os cronistas 

Em fins de 1972, quando o Itamaraty fez uma grande investida diplomática na África, o chanceler Gibson Barbosa pode constatar a força da imagem de Pelé, um nome mágico em todo o Continente, tão conhecido no Zaire, por exemplo, quanto o todo poderoso presidente Mobuto Sesse Seko. Em alguns países, como o Congo Brazzaville, é mais popular que seus governantes . Em 1967, quando o Santos fez uma excursão pela África, um correspondente internacional assim descreveu a passagem de Pelé pelo Congo:
"Dos 100 mil habitantes de Brazzaville, 60 mil estavam no Estádio da Revolução e os demais se colocaram junto aos aparelhos de televisão. O presidente da República, Alfonso Massamba Debat e seus ministros, estavam nas tribunas. Boa parte da multidão não conhecia nem o presidente nem os outros. A Pelé, sim. Afinal, estavam todos lá exclusivamente para ver Pelé.
O sucesso deste rei brasileiro é tão impressionante que outros reis, de súditos menos fiéis, provocavam encontros com ele, certos de que sua vizinhança seria emulação de popularidade. Pelé, muito consciente disso, explicava: “Reis, presidentes, ditadores, governadores, sempre me trataram com o maior respeito. E de mim qualquer torcedor anônimo recebe o mesmo carinho que das maiores autoridades".
Quando se casou em 1966, Pelé deu de presente à sua mulher Rosemary uma viagem de volta ao mundo. Era a lua-de-mel fantástica para a moça simples de Santos. Mas o que era uma lua-de-mel se transformou numa sucessão de visitas protocolares que culminaram com a audiência concedida pelo Papa Paulo VI que, numa deferência especial, abençoou o casal.

Agora que ele chega ao fim, o mundo olha para trás e sente todo o impacto de sua aparição. Com ele o Santos foi chamado de “máquina infernal de futebol”. Quando surgiu como campeão mundial pela primeira vez em l958, aos 17 anos, magro, pernas finas, cara de menino, os jornais apregoavam: ”Jamais houve jogador assim”. Foi bi-campeão mundial pelo Brasil (103 gols em 103 jogos pela Seleção), dez vezes campeão estadual, sempre goleador.( Pelé foi tricampeão mundial  pelo Brasil em 1970, no México). 

O primeiro gol oficial de Pelé registrado pelo Santos aconteceu a 7 de setembro (data comemorativa da Independência do Brasil) de l956,  num jogo contra o Corinthians, na cidade paulista de Santo André. Em 1972 completou mil partidas com a camisa do Santos. Em 1969 fez o milésimo gol, no Maracanã. O preparador físico do Santos, Júlio Mazzei, já previa em l957 um atleta excepcional “pela sua velocidade, capacidade de impulsão, resistência, habilidade e força muscular”.   

Em 1961 fez 110 gols em 75 partidas pelo Santos. O futebol do Santos, sua cidade, seus jogadores, ficaram conhecidos no mundo inteiro. Era o auge do Santos e Pelé e seus companheiros impunham contagens humilhantes aos adversários: 9 a 1 contra o Bayer de Munique (Pelé fez três), 10 a 1 contra o Berschot (cinco de Pelé), 7 a 3 contra o Real Madrid de Puskas. 

As ofertas pelo seu passe vinham de todos os cantos, prometendo somas que superavam orçamentos de alguns Estados do Brasil. A tudo disse não, afirmando que sempre quis viver no Brasil, pelo Santos e pelo futebol brasileiro. Jogou 2 anos de graça pelo Santos, ao final da carreira.

A carreira de Pelé tem lances de verdadeira lenda: em 10 de novembro de 1968 a rainha Elizabeth se levanta no Maracanã para quebrar o protocolo e aplaudir um gol seu. Em 19 de agosto de 1971 o presidente Nixon diz a Pelé que é um velho admirador de suas façanhas. Em 5 de janeiro de 1972 o ditador Emílio Garrastazu Médici o chamou para pedir que jogasse na Mini-Copa. Médici fez Pelé sentar-se à cabeceira de sua mesa dizendo que “o rei deve sentar-se à cabeceira”. 

Um dos lances de homenagem mais espontânea a Pelé aconteceu na Cidade do México, na copa de 1970: “Hoje não trabalhamos. Vamos ver Pelé”, diziam os cartazes pregados nas ruas. Era o tempo em que bastava alguém pronunciar o nome Pelé para que imediatamente aparecessem multidões largando seus serviços e deixando suas obrigações para correr até onde ele estava. “Uma magia incomparável. Ele é um mágico”, dizia o jornalista Alex Lanns, do Times, em 7 de junho de 1972. 

Certa vez um repórter perguntou a Pelé o que ele queria ser se não fosse Pelé: 
"Cristo. Acontece que Cristo foi maravilhoso.Tinha época em que eu queria ser pregador. Uma espécie de missionário no Nordeste do Brasil. Rose me dizia que eu não poderia reformar o mundo sozinho. Entendi que primeiro precisava educar meus filhos convenientemente".
Hoje Rosemary acompanha o marido na maioria dessas visitas, como a que foi feita ao presidente Nixon. Atualmente (1974) Pelé se confunde com o industrial Edson Arantes do Nascimento, cujos interesses econômicos se tornam cada dia mais amplos. Quando Pelé foi ver Nixon, foi aos Estados Unidos contratado pela Pepsi-Cola, por uma soma fantástica, incomparavelmente maior do que aquela que recebeu como jogador. 

Mas se o jogador está cedendo lugar ao empresário, nem por isso Pelé deixou de ser o rei do futebol. O mesmo que, numa indiscrição casual, confessou que o senador Robert Kennedy, a quem recebeu no vestiário do Maracanã inteiramente ensaboado - e o Papa Paulo VI - “foram as maiores personalidades que conheci”. Essa pequena indiscrição exclui nomes famosos como o da rainha Elizabeth da Inglaterra, a atriz Brigite Bardot e o ex-presidente Charles de Gaulle. Mas como de um rei se deve esperar magnanimidade e infalibilidade, sua palavra é lei:
"Como jogador de futebol - disse Pelé numa entrevista em maio de 1973 - ganhei muitos títulos honoríficos. Sou cidadão honorário de inúmeras cidades brasileiras e até de Kansas City, nos Estados Unidos. Tenho a 0rdem do Cruzeiro do Sul no Brasil, sou  cavaleiro de França, e uma  porção de coisas mais. Desde que comecei a jogar sempre fui tratado com carinho.” Foi nesta entrevista que ele lembrou que Robert Kennedy desceu ao vestiário no Maracanã para abraçá-lo e o principe Phillip da Inglaterra entrou em campo para cumprimentá-lo. “O que é importante é você ser querido por todos, sem exceção"
Diante da realeza de Pelé desfilaram muitas outras personalidades, rendidas à popularidade de um jogador que sempre se revelou admirável embaixador. Até que chegou a hora de o mundo começar a lamentar seu afastamento. O matutino argentino Crônica publicava a manchete em oito colunas na primeira página: ”O futebol perdeu seu rei”. 

O meia-direita Amâncio, do Real Madrid, um dos jogadores mais famosos da Europa, expressou seu inconformismo desta forma: “Não pode ser, aos 32 anos, Pelé ainda está em grande forma para continuar sua carreira. Se ele desistir morrerá muito do futebol mundial”. 

Kubala, ex-jogador da seleção espanhola: ”É uma verdadeira lástima, porque Pelé não é apenas um maravilhoso jogador, mas também um símbolo. Se seu afastamento se consumar definitivamente todos quanto amamos o futebol sentiremos enorme tristeza. Além disso, Pelé sempre foi amigo de todos”.

No começo deste ano [1974] os jornais enchiam páginas e páginas com declarações de Pelé, marcando a angústia do fim:
"Talvez eu já sinta saudade da minha carreira. Sou o único jogador dos velhos tempos no Santos. A atual equipe é a terceira geração que está passando por mim. Da velha turma do velho time só resta eu. Isso, de vez em quando, me dá uma solidão confusa. Outro dia fui assistir a um filme meu. Quando vi a repetição de velhas jogadas, velhos gols, deu-me uma tristeza que não foi fácil suportar. Quando vejo uma partida da Seleção Brasileira me dá logo uma dor no peito"
"Nunca me fixei na fama e no sucesso. Amanhã eu posso ser uma pessoa sem nada, sem nenhuma posse. Vivi 15 nos sem nada. Tenho 33 anos. Portanto, quase metade da minha vida nada tive. Quanto tempo tenho de vida? Não sei. Esta é a minha filosofia, entende? Por isso acho que não há razão para maltratar ninguém".   
"Tenho orgulho da minha condição de ídolo. De ter parado a guerra de Biafra por um dia, de ver um menino balbuciando o nome Pelé e me olhando fixamente. De ver, como aconteceu dias atrás, um rapaz condenado á morte por uma doença incurável escolher, entre várias opções de última vontade, que abrangiam até uma viagem pelo mundo, uma medalha e uma foto de Pelé autografada".    
"Tenho orgulho de saber que as pessoas passam a mão na minha cabeça para ganhar um pouco de sorte, beijam meus pés, minhas mãos. Eu pergunto sempre por que isso acontece comigo. Povos diferentes, do Japão, da Tailândia, todo mundo querendo me abraçar, me beijar. Não encontro resposta. Apenas uma grande perplexidade e responsabilidade"
"Muitas pessoas guiam suas vidas de acordo com o meu exemplo, com minha imagem. Mas eu sou passível de erro porque sou humano. É terrível, porque o meu medo é o de ser uma coisa que não depende de mim. Imagine você receber uma carta de uma pessoa contando que rezou pedindo uma graça a Pelé e a conseguiu".
Ultimamente não importava tanto o prestígio do Santos ou do futebol brasileiro. Para o público que lotava todos os estádios onde o Santos ou a Seleção Brasileira jogava, o que realmente importava era Pelé. Ele não era mais procurado apenas como o melhor jogador do mundo, as perguntas que lhe faziam não eram apenas sobre futebol. Pelé tinha de falar sobre tudo, opinar e indicar soluções para os grandes problemas internacionais. Havia os que acreditavam firmemente que só ele seria capaz de resolver as crises que afetam o mundo atual. 

No fim de sua carreira, depois de sua despedida da Seleção Brasileira numa tarde de 18 de julho de 1971 (ainda fez seu último jogo pelo Santos em 1974), chegou-se a temer que sua fama fosse diminuir e, como consequência, seus negócios também. Mas a imagem comercial de Pelé se mostrou ainda mais poderosa do que a de anos atrás, com a assinatura de novos contratos publicitários que haviam começado logo depois da Copa de 1958. Foi dessa época em diante que a marca Pelé começou a ser usada para chamamento de vendas.

A imagem de Pelé sempre foi positiva para os publicitários. A imprensa, procurando-o em todos os momentos e vasculhando sua vida, mostrou que ele é bom filho, bom pai, bom marido, bom irmão, bom amigo. Uma pessoa como todos ambicionam ser. Hoje, quando alguém quer agradar a um negrinho na rua o chama de Pelé. Quando um profissional - engenheiro, médico, mecânico - se destaca dos demais, é chamado de Pelé da engenharia, da medicina, da mecânica. 

Segundo os publicitários, o mito do nome Pelé já está firmado e tende a sobreviver à pessoa. Ele apareceu através de estímulos bastante poderosos que nunca mais vão ser esquecidos. Se Pelé muda hoje, o seu passado garantirá o seu nome. E seu passado, como numa lenda, nunca será esquecido, pois temos teipes, filmes e a memória do povo, que sempre lembrarão sua vida. 

A história de Pelé teve um começo e um final feliz. Hoje (1974) ele tem sítio, casas, apartamentos, ações, empresas e contratos publicitários, tudo lhe proporcionando uma boa renda mensal. Ele diz que tudo terminou como ele quis, isto é, abandonou o futebol contente consigo mesmo, em plena forma física e técnica, e não cansado e desmotivado. Para ele, ainda não há nada melhor que o futebol . [Pelé define o futebol como “90 minutos de sérios problemas” e um time de futebol como “11 homens de caráter”]. 

De vez em quando, para manter a forma, diz que vai participar de algumas brincadeiras em campo e dirigir equipes infantis do Santos, o que quer dizer que ainda o veremos ao lado de uma bola. Seu último desejo é mais uma grande jogada, um magnífico drible, um lance de verdadeiro embaixador:
"Tudo o que eu tenho devo ao futebol. Se eu pudesse, me chamaria Edson Arantes do Nascimento Bola. Seria a única maneira de agradecer tudo o que a bola fez por mim"
Pelé dedicou seu 1.000º gol às criancinhas do Brasil
ÚLTIMA PARTIDA (3-10-1974) - Numa partida histórica, disputada ontem à noite na Vila Belmiro, na despedida de Pelé, o santos venceu por 2 a 0, derrubando a Ponte Preta da liderança do Campeonato Paulista. Agora a equipe campineira passa a ocupar a segunda colocação em pontos perdidos. Na outra partida o Corinthians empatou com o Botafogo por  2 a 2 em Ribeirão Preto e divide a posição de honra do certame ao lado da Portuguesa e do Palmeiras. Em pontos ganhos, a Lusa é lider com 17 pontos, seguida da Ponte, com 16.

Pelé, que ontem encerrou sua carreira, completando a 1.255ª. partida em 18 anos de atividades profissionais, marcando 1.216 gols, jogou pouco mais de 20 minutos, pois deixou o campo aos 23 minutos do primeiro tempo. 

O Santos derrotou a Ponte Preta com dois gols, de Cláudio Adão, aos 51 minutos do primeiro tempo e Geraldo (contra) aos 11 minutos do segundo tempo. O jogo ficou paralisado 7 minutos no primeiro tempo com a saída de Pelé. 

A partida teve outra paralisação, durante 20 minutos, devido a uma falha nos refletores. A Ponte esteve perto de não continuar jogando, alegando autêntica luz de boate na Vila Belmiro.

Emídio Marques Mesquita foi o árbitro do último jogo de Pelé e a renda somou Cr$ 219.371,00, com 20.258 pagantes. SANTOS: Cejas; Wilson Campos, Vicente, Bianqui e Zé Carlos; Léo e Brecha; Cláudio Adão, Silva, Pelé (Gilson) e Edu. PONTE PRETA: Carlos; Geraldo, Oscar, Zé Luis e Valter; Serelepe e Serginho; Adilson,Valtinho (Brasinha) Valdomiro e Tuta. 

PELÉ PAROU - Como havia anunciado, Pelé se despediu dos gramados. Aos 23 minutos do primeiro tempo dirigiu-se ao centro do campo. Ajoelhou-se, fez o sinal da cruz, deu a volta olímpica coma camisa na mão direita e deixou o gramado, rumando para sua residência com a camisa 10 que o consagrou como o maior jogador do mundo em  todos os tempos.
          
O MILÉSIMO GOL - Na noite de 15 de novembro de 1969 o mundo parou. O Santos perdia para o Vasco por 1 a 0 no Maracanã, pela Taça de Prata. Houve um pênalti contra os cariocas e Pelé foi o encarregado de fazer a cobrança, atendendo aos gritos da multidão. O Rei bateu contra o gol do argentino Andrada e converteu o seu milésimo gol, um dos fatos mais marcantes de sua carreira.

5 comentários:

Dea Conti disse...

Que beleza de texto! Apollo Natali, seja muito bem vindo! Querido Celso, que grande aquisição para o blog!!! Parabéns a ambos!

Celso Lungaretti disse...

O mérito é todo do Apollo, minha cara Dea.

Eu apenas fiz o que ele fazia por mim na Agência Estado: editava e punha no circuito. Estou retribuindo.

Um abração!

ismar disse...

Excepcional. Pelé pode ter tido alguns erros na vida, mas a sua importância para futebol brasileiro será eterna.

Parabéns!

JPrado disse...

Eu sou bauruense de coração e tenho algumas relíquias em preto e branco da infância do menino Edson Arantes do Nascimento, brincando e correndo pelas ruas da antiga Bauru.
Agora vou falar do Edson Arantes do Nascimento " O Pélé", sou santista de paixão também porque papai que já não esta nesta Campo Terrestre também era santista de coração, o Pelé fez 1.000 "O Milésimo", Gol que ficoram registrado nos anais da História, mas o mais belo Gol que ele deveria ter feito era apenas reconhecer a sua filha, que nos últimos momentos de vida disse: Pai eu não quero nada, quero apenas ser reconhecida, e este Gol o Rei do Futebol Mundial não marcou e jamais, irá marcar, porque a Vida dá muitas voltas.Jaime Prado - Bauru/SP.

Celso Lungaretti disse...

Companheiro,

o interesse pelo Pelé é mais do meu amigo Apollo do que propriamente meu.

Aliás, eu também tenho uma mágoa em relação a ele: acredito que ele rechaçou os pedidos para defender o Brasil em 1974 não por discordar da ditadura militar, mas, tão somente, com medo de "sair por baixo", com um fracasso. Preferiu deixar como última imagem a conquista do tri.

Depois, quando aceitou voltar aos gramados para ganhar uma fábula de dólares, inventou esta justificativa "nobre", para driblar as acusações de mercenário.

MESMO ASSIM, eu acredito que sua excelência futebolística deva ser reconhecida e separada da avaliação moral que dele façamos.

É um erro querermos encontrar perfeição em tudo que dizem ou fazem as celebridades. São tão falíveis quanto qualquer um de nós. Então, o jeito é levarmos em conta apenas seu desempenho no esporte, nas artes, na ciência, etc., deixando de lado suas outras facetas (desde que não sejam criminosas como a do goleiro Bruno...).

Abs.

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