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22.10.08

CASO SANTO ANDRÉ: OS GLADIADORES DO CAPITALISMO PUTREFATO

Um ex-cunhado meu foi economiário durante toda sua trajetória profissional. Entrou office-boy e acabou gerente.

Certa vez me contou que, quando sua agência era assaltada, a maior preocupação dos funcionários era apressarem os bandidos, para que dessem o fora com a grana antes da chegada da polícia: sabiam que os brucutus da lei mandariam bala para todo lado, sem consideração pela vida deles e dos clientes.

Também fiquei conhecendo o Massacre do Carandiru em detalhes, porque trabalhava na Imprensa do Palácio dos Bandeirantes quando o episódio ocorreu.

A soldadesca atirou porque estava apavorada com a fumaça, gritaria e confusão. Então, por despreparo, descarregou o medo no gatilho.

Oficial que se colocasse entre os matadores fardados e seus alvos acabaria recebendo bala também. É o que já aconteceu um sem-número de vezes nas guerras. Na do Vietnã, p. ex., havia mais oficiais estadunidenses mortos pelo fogo amigo do que pelos disparos do inimigo...

O coronel Ubiratan, coitado, nada pôde nem poderia fazer para controlar a tropa. Ele não era nenhum celerado fascistóide, mas sim um comandante de perfil burocrático, contando os dias que faltavam para a aposentadoria e torcendo para que não surgir nenhum contratempo nesse meio-tempo. Tirou o azar grande.

O grande culpado, claro foi o governador Fleury, que ordenou uma invasão desnecessária para exibir seu muque, depois convenceu o secretário da Segurança Pública a segurar o rojão.

Enfim, para quem sabe das coisas, nada há a estranhar em que a ação policial em Santo André tenha sido mais uma comédia de erros com final trágico.

A polícia tem pelo menos uma atenuante: incompetência não chega a ser crime.

Já os abutres da imprensa não têm nenhuma.

Passaram o tempo todo capitalizando um drama em benefício próprio, para saciar a bisbilhotice doentia de seu público.

Comprovaram que a ética do jornalismo foi levada de roldão pela competição e ganância. Está tão morta quanto a tal Eloá.

A VIDA RETOCA A ARTE - Não se preocupando em momento algum com a vida dos patéticos personagens alçados a atração momentânea da arena de gladiadores do capitalismo putrefato, os coleguinhas na ativa fizeram-me até lembrar de um dos grandes clássicos de Hollywood: A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder (1951).

O filme mostra um mineiro preso em velhas ruínas indigenas e um repórter ambicioso (Kirk Douglas) que o encontra, pode resgatá-lo de imediato, mas o convence a ficar lá, enquanto extrai todos os dividendos jornalísticos dessa situação.

Manipula a tudo e a todos: a esposa do mineiro, que faz melodrama, posando de semiviúva; o xerife, que lhe concede o direito de controlar como bem entender o acesso ao local; o empreiteiro responsável pela obra de salvamento, para que vá pelo caminho mais longo, esticando ao máximo a duração do espetáculo.

Na véspera do grand finale, entretanto, o mineiro morre de pneumonia. E o abutre responsável pelo desfecho trágico acaba também destruído, pelos remorsos.

O episódio de Santo André também tendia a ser resolvido muito antes, sem tragédia, caso a imprensa não montasse seu circo.

A partir do momento em que virou atração de mídia, o tal Lindemberg passou a representar um papel diferente; afinal, não é qualquer zé mané que tem essa raríssima chance de desfrutar não uns minutinhos ocasionais de fama, mas nada menos do que 100 horas!

Deu no que deu. Agora a ex-namorada está enterrada no caixão e ele passará o melhor de sua vida enterrado numa prisão, se os outros detentos não o matarem antes.

O pior é que se deu uma multiplicação dos abutres. No filme havia apenas um; o título brasileiro se refere ao nome indigena da montanha em que o mineiro ficou meio soterrado.

Em Santo André eram bem mais do que sete. E nenhum deles demonstrou o mínimo remorso, ao contrário do personagem cinematográfico.

A vida não apenas imitou a arte, mas também a retocou. Para pior.

5 comentários:

Wagner Ribeiro disse...

Caro Celso

Embora acompanhe seu trabalho há anos (e também há anos venho aprendendo muito com ele), essa é a primeira vez que escrevo um comentário. Nunca comentei, porque não tinha nada a dizer que fosse somar em algo. Para não fazer comentários pífios e inoportunos, me calava. Pois os artigos falam por si só. No entanto, ao terminar de ler esse artigo, um calafrio percorreu meu corpo das pernas a cabeça.
Ainda hoje estava pensando sobre esse caso. É incrível como desde a.c o povo já se fartava com os gladiadores se destroçando nas arenas romanas. O importante era que as cabeças rolassem e as barrigas estivem cheias. Só mudou o cenário mas a situação continua a mesma. Ou, quem sabe, numa visão apocalíptica, o caso tenha piorado.
A mídia aguça e sacia a sede sanguinária das pessoas. Alguns poucos (como você) conseguem enxergar a desgraça que nos rodeia e tentam incansavelmente dizer que o ser humano está além desse reality show tenebroso, no qual não há vencedores. Então, me pergunto; até quando vai durar isso? O que será quando os homens de coragem não estiverem mais entre nós? Temo a possibilidade de retornarmos ao caos significante ante a insignificância da vida. E, pior de tudo, sem o direito a gênese da luz.

Um grande abraço, meu amigo guerreiro

Wagner Ribeiro

Celso Lungaretti disse...

Companheiro,

quando alguém decide ir contra a corrente, precisa dispor-se a pagar o preço.

O meu é escrever textos justos e importantes que acabam nunca tendo a repercussão que precisariam (para poderem cumprir sua função maior de estimular e provocar mudanças positivas).

Então, depoimentos como o seu são muito gratificantes. Fazem-me perceber que atinjo as pessoas certas, que nem tudo está perdido.

A blindagem quase total do sistema aos articulistas independentes e críticos torna muito mais lento o processo de acumulação de forças. Mas, ele continua ocorrendo.

Uma música do Sérgio Ricardo dizia: "cada verso é uma semente/ no deserto do meu tempo".

A opção que nos resta é continuarmos espalhando nossas sementes, na esperança de conseguirmos reverter esse processo de desumanização, de espetacularização da desgraça alheia e de manipulação aviltante dos videotas.

Um forte abraço, companheiro!

marcelo victor disse...

Srs,
Após ler a matéria do Sr. Celso e os comentários postados por um amigo (companheiro) dele, gostaria de deixar a minha contribuição.
Importantes aspectos foram tratados nos manifestos de cada um dos senhores citados, mas, num primeiro momento, abordarei apenas a questão dos cognominados "abutres" do governo (título conferido pelo dono deste Blog aos policiais militares).

Penso que de fato seria melhor viver em um mundo onde não houvesse necessidade de "abutres" do governo (ou desgoverno).
Porém, convenhamos, isso é pura utopia uma vez que existe também no mundo uma imensidão de outros tipos de abutres que estão por aí a voar atrás de corpos em decomposição, preferencialmente provenientes de matadouros clandestinos (olha que há abutres para todos os gostos e a ganância é tanta que, se não houver um mecanismo rígido de controle, abutre acaba comendo abutre e corremos o risco de que haja até uma extinção da família dos abutres, conforme modelo africano).
Deixando de lado (por enquanto) a necessidade (real, a meu ver) da existência dos tais “abutres” do governo, e focalizando apenas o aspecto do despreparo para a ação policial (visível no caso citado), ainda assim, seriam necessárias muitas linhas para formular hipóteses prováveis e improváveis do real motivo para tanta incompetência junta (e não faltam motivos).
Já no início de nossas investigações, por certo, deparar-nos-íamos com um agravante para as nossas argumentações contra os citados “abutres” do governo, qual seja: a incompetência é reconhecidamente generalizada nas ações governamentais em todas as esferas do poder público e por que seria diferente na área de segurança pública?

Para exemplificar a complexidade só deste aspecto, seguem três opções:
Opção 1: As estatísticas
Se recorrermos às estatísticas das ações policiais para fazermos um balanço da eficiência e eficácia do trabalho executado ao longo do tempo pelos “abutres” do governo, pode ser que encontremos um dado concreto a favor deste ou daquele, mas corremos o risco de sermos injustos com um dos dois lados, uma vez que geralmente os dados oficiais são manipulados de acordo com o interesse do governo (dizem as más línguas). Melhor irmos para outra opção.

Opção 2: A história.
Se considerarmos o passado, para uma correta análise da evolução das ações policiais, seria necessário saber primeiro de que lado nos posicionaremos (direita ou esquerda), pois ambos dizem ter razões de sobra para se orgulharem de seus feitos heróicos e históricos e incriminarem o “inimigo”. Melhor irmos para outra opção.

Opção 3: A falência da autoridade constituída.
Se tratarmos da omissão da autoridade competente (o famoso “eu não sabia”, “não foi bem assim”, “eu não mandei”, etc.), então eu temo que nós venhamos a dar com os burros n’água, pois não é só as autoridades e os políticos que se omitem no desempenho de suas funções (a maior parte dos cidadãos comuns também o fazem em algum momento de suas vidas, aplicando a famosa “Lei de Gerson”). Agora, imaginem só se todos resolvessem assumir seus erros e começassem a dizer a verdade, começando pelo relacionamento entre marido e mulher, faltariam advogados, juízes, promotores e talvez houvesse um rombo na balança comercial do país, pois seria necessário importar quantidades fabulosas de cimento para construir inúmeros presídios, na maioria de segurança máxima (senhores, onde por[íamos tão grande cambada de picaretas ? Exclusive nós, é claro!).

Considerando que o assunto requer, de fato, uma gama variada de dados e informações para uma análise melhor elaborada, acho que a melhor opção, por agora, seria parar por aqui e pedir uma pizza a moda da casa...
obs: nós, os abutres modernos, aprendemos a comer até pizza nas horas vagas.

Celso Lungaretti disse...

Marcelo,

há outros textos sobre a Rota no meu blog NÁUFRAGO DA UTOPIA, cujo link você encontra na coluna da direita.

Pessoalmente, não tive nenhuma experiência desagradável com a Rota.

Mas, como cidadão que defende os direitos humanos em quaisquer circunstâncias, só posso tomar a posição que tomei, face a quem os violou tanto no passado e, pelo que leio, continua os atropelando no presente, embora de forma menos ostensiva.

Abs.

marcelo victor disse...

Sr Celso,
Os direitos humanos englobam todos os "humanos", sem distinção, penso eu.
Considerando que a vida é o bem mais precioso que DEUS deu ao homem e que arriscá-la por seu semelhante é a maior demonstração de amor ao próximo, como cidadão brasileiro apolítico, Sr. Celso, defendo a seguinte tese a respeito do trabalho policial:

PREMISSA BÁSICA: o Policial deve ser o profissional com a maior remuneração entre todas as profissões do mercado de trabalho, pelo menos no que se refere ao funcionalismo público.

JUSTIFICATIVA: entre as mais variadas profissões, a única delas em que o sujeito arrisca sua própria vida em prol da vida de seu semelhante é a do POLICIAL (ainda mais nos dias de hoje com o crescimento vertiginoso dos índices de violência nas grandes cidades e em todo o mundo).

E os bombeiros? Os bombeiros, não menos importantes na estrutura social, enfrentam o fogo e outros sinistros, mas, via de regra, não se deparam com situações de confronto com bandidos.
Já o policial, ao contrário, além de conviver rotineiramente com situações de violência explicita, por vezes, apaga fogo e salva vítimas de sinistro.

Não resta dúvida de que há profissões de enormes responsabilidades e de extrema relevância para a vida cotidiana, como, por exemplo, a de lixeiro, mas nenhum caso é semelhante ao do POLICIAL.

O médico tem um papel fundamental na sociedade, especialmente para quem está doente, porém, mesmo ele, no desempenho de suas atribuições normais em momento algum põe em risco sua própria vida para salvar seu semelhante.

Como se não bastasse as armas sofisticadas dos bandidos e o desprestígio social, o policial tem que enfrentar ainda uma gama enorme de "colarinhos brancos", cuja função, em um ambiente com ar-condicionado e outras mordomias, é, entre outras, exatamente a procurar erros policiais para gritar aos quatro cantos (em praça pública ou para os seus discípulos nas universidades) que "peitou" a polícia, defendeu os direitos humanos e pôs um "ditador" atrás das grades, ou coisa que o valha.

Dentro dessa ótica, querendo ou não, é bastante provável que em breve a sociedade seja obrigada a admitir que estamos à beira de um caos social e que já chegamos em um beco sem saída.
Ou a sociedade desperta desse profundo estado de sono em que se encontra e exalta aqueles que estão dispostos a defendê-la com o sacrifício da própria vida, ou os cidadãos de bem chorarão lágrimas de sangue em volta dos esquifes de seus entes queridos.

Ou se dá o devido valor à polícia, ou a corrupção tomará proporções gigantescas e incontroláveis, de tal modo que o poder paralelo imporá aos cidadãos de bem toda sorte de desrespeito aos seus "direitos" constitucionais, "governando" através da lei do silêncio e do medo.

É preciso esclarecer à sociedade que quando um cidadão comete algum deslize, em algum momento do convívio social, é melhor que ele seja enquadrado por um policial (até com a arma em punho, se a situação exigir) do que estar na mira da pistola de um marginal, cujos valores morais são completamente deturpados e quase sempre, sem dó nem piedade, age sob efeito de entorpecentes.

Ai de nós se a POLÍCIA cruzar os braços...


"O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons". (Martin Luther King)

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