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27.11.07

PEQUENAS FARSAS E TRAGÉDIAS

Celso Lungaretti (*)

Existem ocasiões em que não encontro nenhum acontecimento com peso suficiente para ser “o“ tema do meu artigo semanal. Fico vagando por jornais e pelos provedores, busco uma luz em notícias da véspera e nas do próprio dia, inutilmente. Então, só me resta dar uma repassada geral nas pequenas farsas e tragédias do dia-a-dia.

Circula uma enxurrada de textos, alguns explicitamente opinativos e outros que o são de maneira implícita, sobre Chávez, o caudilho da Venezuela. Preciso me beliscar para não confundi-lo com o humorista do México, que, pelo menos, é histriônico no bom sentido.

Apesar do matraqueado cantinflesco de Chávez soar caricato para quem não tem antolhos ideológicos, vale lembrar que os militares-presidentes que nos assolaram em passado recente foram todos sinistros. E, pelo andar da carruagem, não vai ser ainda desta vez que a regra terá exceção.

No fundo, Chávez repete a mesmíssima fórmula dos Vargas e Peróns de outrora. Uma combinação de métodos fascistas, retórica esquerdista e conquista do aplauso fácil dos pobres com as migalhas do assistencialismo.

Dói-me o coração ver que parte da esquerda brasileira embarca nessa canoa furada, nada tendo aprendido com as decepções do século passado.

Quanto não se têm líderes realmente comprometidos com as duas bandeiras fundamentais dos revolucionários – a liberdade e a justiça social –, é melhor arregaçar as mangas e tentar forjá-los, mesmo que no longo prazo, do que apadrinhar o candidato a ditador populista mais à mão.

Maquiavel é péssimo guru para os esquerdistas. Quem tenta utilizar personagens políticos para fins diversos do que a trajetória dos mesmos sugere, acaba, isto sim, sendo por eles utilizado em sua escalada para o poder... e depois descartado.

Então, é melhor voltarmos ao bê-a-bá: fins e meios estão em permanente interação, de forma que recorrer-se a um meio crapuloso para promover um fim nobre leva apenas ao aviltamento do próprio fim.

Outra lição preciosa vem do jornalismo: só idiotas se deixam pautar pelos adversários.

Se a imprensa burguesa – burguesa como nunca, aliás, pois está cada vez mais na mão dos bancos – exagera maliciosamente a importância geopolítica da Venezuela, não há motivo nenhum para fazermos o mesmo, com sinal trocado.

O destino da América do Sul é traçado pelo Brasil e Argentina. As outras nações decidem, quanto muito, o destino delas próprias e o de outras pequenas nações. Ponto final.

* * *

Enquanto isto, o Governo Lula tem como prioridade absoluta o caixa. Quer porque quer beneficiar-se de uma contribuição que foi vendida à cidadania como provisória – e depois de o PT ter sido, antes da chegada ao poder, o maior adversário de sua eternização.

Nunca foi tão apropriada a citação do trecho final de A Revolução dos Bichos, o libelo anti-stalinista (não anticomunista, como supõem os desinformados) de George Orwell: "As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco".

* * *

A Assembléia Legislativa de São Paulo cogita tomar o mandato do bravo deputado Carlos Giannazi (PSOL), que organizou o evento de lançamento da Frente Parlamentar em Defesa da Comunidade Gay e agora está sendo responsabilizado pela performance de um transformista no plenário.

Terá sido a primeira? No sentido figurado, não. Em cada votação importante, há um certo número de transformistas que, após um acerto de cifras ou demarcação de áreas de influência, deixam de ser homens e viram lobisomens...

Giannazi é aquele mesmo professor que, como vereador do PT, ousou confrontar a prefeita Marta Suplicy quando esta tentou desviar verbas do magistério para outras finalidades.

Ou seja, o caso raríssimo de um político mais fiel ao seu eleitorado do que às conveniências partidárias. Merece ser apoiado. Precisa ser preservado.

* * *

Uma governadora, uma juíza e uma delegada dividem as responsabilidades por ter uma menina sido atingida nos seus mais elementares direitos quando estava sob a guarda do Estado e, depois, pela tomada de providências muito aquém da gravidade do caso.

Veio-me à lembrança uma frase pessimista de Nelson Rodrigues: “os mineiros só são solidários no câncer”.

* * *

O desabamento da arquibancada do estádio baiano é mais uma tragédia que poderia ter sido evitada, caso os responsáveis pelas tragédias evitáveis anteriores houvessem recebido punições exemplares.

Na lógica capitalista levada às últimas conseqüências, dinheiro vale mais do que vidas. Só a Justiça poderá desarmar essa equação maldita – isto, claro, se o dinheiro não valer mais do que a Justiça.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

25.11.07

DOIS CASOS DE PODRIDÃO ESCANCARADA

Celso Lungaretti (*)

CASO 1: o diretor de redação de um grande jornal, quase sexagenário, inicia relacionamento amoroso paralelo com uma repórter que não tem nem a metade da sua idade. Em flagrante abuso de poder, coloca sua protegida à testa de uma importante editoria, embora existissem muitos profissionais mais qualificados para o cargo (os coronéis nordestinos, pelo menos, bancavam eles próprios os agrados às suas teúdas e manteúdas).

Alguns anos depois, em 2000, ela já está bem posicionada na carreira e resolve descartar o protetor, em benefício de uma relação mais sincera. Inconformado, ele premedita a vingança, atrai-a para uma emboscada e a baleia pelas costas; depois, caminha calmamente até a vítima agonizante e lhe dá o tiro de misericórdia na cabeça.

Ficou míseros sete meses em prisão preventiva. Foi condenado a 19 anos e 2 meses de detenção, depois reduzidos para 18 anos. As manobras jurídicas e a condescendência dos poderosos em relação aos da própria laia o têm salvado do cumprimento da sentença.

O Superior Tribunal de Justiça acaba de confirmar a liminar que lhe garante a imerecida liberdade até que a condenação transite em todas as instâncias. Com a idade avançada do assassino e o arsenal de recursos protelatórios à disposição de quem pode pagar os melhores advogados, um homicídio duplamente qualificado, por motivo torpe, acabará lhe custando apenas os sete meses já cumpridos.

CASO 2: um governador de Estado, em 1993, vislumbra seu antecessor, inimigo político, numa mesa de restaurante. Caminha até ele e o surpreende com três disparos à queima-roupa (dois no corpo e um no rosto). A agressão covarde deixa a vítima com seqûelas que a martirizam durante os dez anos restantes de vida.

O agressor covarde se beneficia, primeiramente, da proteção da Assembléia Legislativa, que nega autorização para o processo criminal. Depois, eleito senador, consegue evitar as instâncias normais e só responde por sua tentativa de assassinato no Supremo Tribunal Federal, já que os parlamentares têm fôro privilegiado.

O processo leva 12 anos para entrar na pauta de julgamentos!!! Quando isto finalmente acontece, basta ao réu renunciar ao mandato de deputado federal (e, portanto, ao fôro privilegiado), para que volte tudo à estaca zero. Ninguém duvida de que no seu estado de origem, do qual seu filho é o atual governador, a Justiça não se fará antes do réu se safar definitivamente em razão da idade.

Os dois casos falam por si. O que eu poderia acrescentar? Shakespeare já disse tudo. Há algo de podre neste reino em que a Justiça antes se vergava ao arbítrio dos tiranos e agora se verga ao prestígio dos poderosos. E no qual os poderosos não se vexam de ser lembrados para sempre como criminosos que não tiveram sequer a dignidade de expiar suas culpas, preferindo burlar acintosamente a Justiça.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

UM REGISTRO PARA A POSTERIDADE

Aos 42 anos, certa noite saí de um cinema, fui atravessar a rua e acordei num hospital público, com três fraturas na tíbia, sem sequer lembrar-me do que havia ocorrido.

Durante a lenta recuperação, dei-me conta de que poderia ter morrido naquela noite, insensivelmente. Apenas não despertaria neste mundo. Talvez num outro, talvez em nenhum.

A consciência da nossa mortalidade nos chega assim, de repente. Num instante, nem pensamos nisso, mas nos sentimos como se ainda tivéssemos décadas e décadas pela frente. No instante seguinte, cai-nos a ficha de que podemos ser surpreendidos pela morte a qualquer momento.

O já surrado clichê: passei a viver cada dia como se fosse o último, a agir da maneira como gostaria de ser lembrado caso fosse esse meu derradeiro ato.

Devo ter-me tornado um ser humano melhor. Com certeza, mais guerreiro. Deixei de protelar minhas lutas para um amanhã que poderá não chegar.

Há, entretanto, um compromisso que assumi comigo mesmo e não estou tendo condições de cumprir, qual seja o de lançar mais luzes sobre o que aconteceu naquele terrível abril de 1970, quando a VPR foi praticamente desbaratada pela repressão.

Graças a um relatório secreto militar que veio a público e a um historiador honrado (até por ser ele também um ex-combatente), já consegui provar que, em circunstâncias obscuras, uma ou várias pessoas decidiram que eu levaria a culpa, perante a sociedade brasileira e a História, por algo que outra pessoa havia revelado à repressão: a localização da escola de treinamento guerrilheiro da VPR.

Mas, houve também uma seqüência terrível de prisões – as quedas em cascata que eram o pesadelo dos militantes da luta armada – e até agora foi insuficientemente explicada.

Disso não tentaram jogar a culpa em mim, porque seria impossível, estruturalmente, um comandante de Inteligência derrubar daquela forma a Organização no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Rio Grande do Sul.

Pelo nosso organograma, eu me reportava aos comandantes das unidades de combate (Juarez Guimarães de Brito e José Ronaldo Tavares de Lira e Silva) e aos comandantes nacionais Ladislau Dowbor e Maria do Carmo Brito. Como nenhum deles caiu por meu intermédio, eu não serviria como bode expiatório.

Uma informação importante: quando o Jacob Gorender colhia depoimentos para escrever “O Combate nas Trevas”, remanescentes da Organização se reuniram em Lisboa e combinaram entre si as versões que lhe contariam, nas entrevistas que ele já solicitara.

Vai daí que as quedas em cascata da VPR, em abril/1970, foram atribuídas, na edição inicial do “Combate nas Trevas”, a apontamentos encontrados no aparelho de Juarez Guimarães de Brito.

É UMA INFÂMIA: CANALHAS VIVOS DECIDIRAM TRANSFERIR SUAS CULPAS A UM COMPANHEIRO DE COMPORTAMENTO IRREPREENSÍVEL, QUE MORREU HEROICAMENTE PELA CAUSA!

Como tive a honra de lutar ao lado do Juarez, afirmo que ele era um dos companheiros mais ciosos das regras de segurança. Jamais deixaria qualquer tipo de registro que pudesse comprometer a liberdade e a vida dos outros militantes.

Aliás, como não sabíamos onde os outros se escondiam e só os encontrávamos nas ruas, nem haveria maneira de a repressão chegar a alguém a partir de meras anotações.

Àquela altura, nossos pontos já nem eram mais em locais fixos. Combinávamos que, a partir de certo número (o nº 500 da av. Rio Branco, p. ex.), um seguiria para cima e o outro para baixo, dando a volta no quarteirão até que ocorresse o encontro (alvos móveis teriam tempo maior de reação, caso houvesse uma emboscada).

Mais: quando era imperioso anotar essas coordenadas, o fazíamos em código, não explicitamente. “Rio Branco” viraria RB. O nº 500 seria substituído por um código de letras (no meu caso, GEE). O que fosse para cima, grafaria +. E o horário também entraria como letras.

Então, morto alguém, de que serviria para a repressão encontrar um papel em que estivesse escrito SEBE RB GEE +? Como conseguiria descobrir que significava 10h30, na av. Rio Branco, indo para cima a partir do nº 500?

Enfim, os que tinham realmente culpa pelas quedas em cascata imaginaram que poderiam atribuir ao Juarez deslize semelhante ao cometido décadas antes pelo Luiz Carlos Prestes, com suas famosas cadernetas. Enganaram a alguns por algum tempo. Mas, não todos por todo o tempo.

Depois, as mesmas pessoas contaram versões igualmente adulteradas para a Judith Patarra, de forma que os mesmos vilãos foram inocentados e os mesmos inocentes vilificados no livro “Iara”.

Mais recentemente, tomei conhecimento também de que uma pessoa que teve grande responsabilidade nas quedas de abril/1970 foi submetida a um tribunal revolucionário no Chile, em fevereiro/1971, por não haver se comportado nos porões de maneira compatível com a sua posição na Organização. Por que isso foi tão bem escondido da esquerda e dos historiadores?

Não sei se disporei de oportunidade e meios para tirar esses assuntos a limpo. Mas, tendo ocorrido um complô para falsificar a verdade histórica, iludir historiadores e denegrir revolucionários (atirando-lhes culpas que não tinham), trata-se de algo gravíssimo. Espero que os historiadores de hoje, até por brio profissional, tentem elucidar estes fatos.

Por via das dúvidas, deixo este registro aqui.

É importante, sobretudo, que não pairem quaisquer dúvidas sobre Juarez Guimarães de Brito, um companheiro exemplar, cuja memória não deve jamais ser atingida por (faço questão de repetir) UMA INFÂMIA. De sordidez inqualificável.

P.S.: depois de ter escrito este registro, tomei conhecimento de que havia sido, sim, acusado de responsabilidade por "dezenas de quedas", no livro "Os Carbonários", de Alfredo Sirkis. Trocamos e-mails e ele renegou o que dissera sobre mim no seu texto original de 1978, informando que já se posicionara melhor, fazendo uma espécie de mea culpa, numa edição posterior da obra. Além disso, dispôs-se a incluir doravante minha incisiva refutação deste e de outro absurdo (uma imputação de colaboração com a repressão, totalmente estapafúrdia e sem fonte declarada). Aceitei suas justificativas e dei por encerrada a questão.

17.11.07

POLÊMICA C/ OLAVO DE CARVALHO: CONSIDERAÇÕES FINAIS

Companheiros e amigos,

embora considere Olavo de Carvalho desprezível como pensador, cidadão e ser humano, dei-me ao trabalho de polemizar com ele durante três semanas.

Depois de uma entrada triunfal, em que colocou seu artigo no "Diário do Comércio", no próprio blog e nos sites da direita radical, OC logo percebeu que se daria mal. Então, suas 2ª e 3ª intervenções ficaram restritas ao "Diário do Comércio", servindo apenas para salvar as aparências.

De minha parte, esforcei-me por tornar a polêmica conhecida, para que cumprisse seu papel: demonstrar, de forma cabal, que os ídolos da extrema-direita não têm consistência ideológica nem moral para confrontarem um homem de esquerda bem formado.

Pessoas que lhes são imensamente superiores em conhecimentos e caráter, às vezes se deixam intimidar por sua demagogia grosseira, evitando descer ao fundo do poço em que os fascistas invariavelmente tentam colocar a discussão. É um erro. Não devemos ceder um milímetro sequer diante dos representantes do retrocesso e da desumanidade.

Reinaldo de Azevedo, Diogo Mainardi, Jarbas Passarinho, Brilhante Ustra, Felix Maier, Olavo de Carvalho e que tais não passam de tigres de papel (parafraseando Mao Tsé-tung). Alguns deles têm ótimas tribunas, que a grande imprensa lhes disponibiliza alegremente, enquanto nega espaço para o nosso lado. No entanto, na batalha dos argumentos, não dão nem para a saída.

Infelizmente, eles ganham de nós na parte da divulgação: infestam o Orkut e as caixas de e-mails com sua propaganda enganosa. Têm muito mais recursos materiais do que nós, provavelmente graças a subvenções dos empresários reacionários.

Então, precisamos equilibrar esse jogo, utilizando as armas de que dispomos: a verdade e o voluntariado. Não podemos deixar que essa corja continue disseminando, sem ser contestada, seu veneno entre as novas gerações.

Eis os links da polêmica, para quem quiser espalhar e divulgar:

GOEBBELS INSPIRA DIREITA E ESQUERDA NA INTERNET: http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2007/09/goebbels-inspira-direita-e-esquerda-na.html
INUTILIDADE CONFESSA:
http://www.olavodecarvalho.org/semana/071024dce.html
O SAMBA DO OLAVO DOIDO:
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2007/10/o-samba-do-olavo-doido.html
BELLA ROBBA: http://net.dcomercio.com.br/WebSearch/v.asp?TxtId=201349&SessionID=811604801&id=1&q=(bella%20robba)%20AND%20(%20publicationdate%20=%20%2020071107%20)
BELLA CIAO:
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2007/11/bella-ciao.html
BELLA ROBA, O RETORNO:
http://www.dcomercio.com.br/noticias_online/938750.htm
ENTRADA DE LEÃO, SAÍDA DE CÃO:
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2007/11/entrada-de-leo-sada-de-co.html,

16.11.07

ENTRADA DE LEÃO, SAÍDA DE CÃO...

No dia 16/11/2007, o "Diário do Comércio" publicou a intervenção final de Olavo de Carvalho em sua polêmica comigo ( http://www.dcomercio.com.br/noticias_online/938750.htm ).

Inapelavelmente derrotado nos três focos principais da discussão (o Foro de São Paulo, os sites fascistas e as acusações levianas que fez ao meu comportamento como preso político), OC bateu em retirada, limitando-se a negar que tenha preconceito contra italianos e a fazer análises psicológicas irrelevantes, pois não possui credenciais acadêmicas nem morais para tanto.

Já que OC gosta tanto de expressões em desuso, há uma ótima para encerrar este debate: "entrada de leão, saída de cão".

AQUI "ERA" O PAÍS DO FUTEBOL

“No fundo desse país,
ao longo das avenidas,
nos campos de terra e grama,
Brasil só é futebol.
Nesses noventa minutos
de emoção e alegria,
esqueço a casa e o trabalho.
A vida fica lá fora,
(...) e tudo fica lá fora.”
(“País do futebol”, Milton
Nascimento e Fernando Brant)

É deprimente vermos todas as discussões de temas candentes reduzidas a cifras, à moda do ganancioso e mesquinho homo economicus.

Então, os satisfeitos (ou favorecidos) com a realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil ressaltam que serão estimulados o turismo, os investimentos em infra-estrutura, as parcerias com empresas privadas, a criação de empreendimentos e empregos temporários, etc.

Já os descontentes alegam que os cofres públicos serão novamente saqueados, repetindo o Pan-Americano de 2007, cujo orçamento de R$ 414 milhões foi oito vezes excedido, com o custo batendo nos R$ 3,7 bilhões; e que verbas serão desviadas de setores essenciais para a farra futebolística.

O mal da segunda posição é que ficará fragilizada se o coro dos contentes provar, na ponta do lápis, que os benefícios de ordem material excederão a conta a ser paga.

No entanto, como sempre, essa tediosa dança de números não capta o essencial: o megaevento não passa de poeira colorida jogada nos olhos dos brasileiros.

Já vão longe os tempos em que, como dizia o tema composto por Milton Nascimento e Fernando Brant para o filme Tostão, a Fera de Ouro (1969), as ruas do Brasil ficavam vazias e os estádios lotados nas tardes de domingo.

Os motivos vão desde a violência das torcidas até a disponibilização de muitas outras opções de entretenimento, passando pelo agravamento da luta pela sobrevivência.

Mas, para aqueles que realmente amam o futebol, o principal motivo é outro: já não existe espetáculo. A tônica passou a ser muita transpiração e quase nenhuma inspiração.

Na fase de ouro do futebol brasileiro, nossos grandes craques exibiam aqui mesmo seu talento, preferindo ser bem pagos em casa do que magnificamente pagos no exterior.

Um ou outro, como Didi, se deixava seduzir pelo canto das sereias. Mas, tínhamos Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Gerson, Tostão, Rivelino e outros que tais enchendo nossos olhos nas tardes de domingo.

De 1970 para cá, entretanto, o futebol foi se tornando, cada vez mais, mercadoria. E os interesses econômicos impuseram sua lógica avassaladora, a mesma que outrora relegava o Brasil à condição de exportador de café e importador de produtos industrializados.

Com a famigerada Lei Pelé (rendição incondicional ao maior poder de fogo dos grandes clubes estrangeiros), o Brasil hoje não consegue segurar suas revelações nem por uma temporada completa.

Rafael Sobis (ex-Internacional), Alexandre Pato (ex-Grêmio) e William (ex-Corinthians) foram negociados no instante em que começavam a se afirmar. Já se fala em vender o corinthiano Lulinha, promessa que pode até não vingar. E por aí vai.

Então, os grandes clubes brasileiros hoje montam seus times com maioria de jogadores limitados e alguns craques veteranos que retornam do exterior após terem virado bagaços, mais os meninos saídos das categorias de base e que são colocados na vitrine para atraírem compradores.

Fornecemos a matéria-prima futebolística que será processada lá fora e depois pagamos às redes estrangeiras para receber as imagens do verdadeiro futebol brasileiro: aquele que Ronaldinho e Robinho jogam na Espanha, Kaká na Itália e Diego na Alemanha.

De quebra, fica esse péssimo exemplo dado aos brasileiros: o dinheiro compra tudo.

O último craque que se dispôs a abrir mão de uma oferta mirabolante em nome de valores mais nobres foi Sócrates, em 1984: durante um comício das diretas-já no Anhangabaú (SP), o doutor comprometeu-se publicamente a, caso fosse aprovada a emenda Dante de Oliveira, recusar a proposta da Fiorentina e permanecer no Brasil para contribuir na redemocratização.

A infâmia dos parlamentares não só nos privou de uma saída da ditadura pela porta da frente, como encerrou a grande fase de um dos nossos supercraques e, sem dúvida, o melhor cidadão que o futebol brasileiro já projetou.

Desde então, o homo eticus foi sendo extinto em nossa terra arrasada. Sobrou apenas o homo economicus.

Concluindo: teremos nossa noite de Cinderela durante a Copa, mas a carruagem vai virar abóbora logo em seguida, no Brasileirão – pois, persistindo as tendências atuais, o de 2014 será tão ruim quanto o de 2007.

12.11.07

BELLA CIAO

Celso Lungaretti (*)

Ao intitular de “Bella Robba” (Diário do Comércio, 07/11/2007) sua tentativa de resposta ao meu artigo “O Samba do Olavo Doido”, Olavo de Carvalho faz uma óbvia e grosseira alusão à minha ascendência italiana.

Não é de estranhar-se, pois OC não perde ocasião de manifestar seu desprezo pelos seres inferiores, como os brasileiros que residem nos pequenos municípios interioranos. Talvez os italianos também não mereçam o apreço do filósofo campineiro que se radicou na Virgínia, EUA, para sentir-se entre iguais.

Eu, pelo contrário, orgulho-me não só de ser herdeiro da tradição humanística dos povos latinos, como também (e muito!) de haver seguido os passos dos partisans que enfrentaram o nazi-fascismo. Bella por bella, fico com “Bella Ciao”, a canção-símbolo da Resistência italiana.

Mas, minhas raízes também estão neste sofrido Brasil, em que os Lungarettis lutam contra as injustiças praticamente desde sua chegada, na imigração italiana: meu antepassado Angelo não hesitou em balear o irmão do presidente da República Campos Salles para defender a honra da família contra os desmandos dos barões da terra.

Meus iguais são as vítimas do capitalismo – no Brasil, em primeiro lugar. OC foi em busca dos seus na Meca do capitalismo. Questão de gosto... ou de caráter.

OC pede desculpas aos leitores por suas afirmações estapafúrdias anteriores, de que eu seria ex-prefeito de Pariquera-Açu e atual dono da Geração Editorial. No primeiro caso, diz que “Lungaretti não foi nem isso”, como se eu devesse me considerar uma nulidade por ter apenas lutado aos 17 anos contra uma ditadura sanguinária e, depois, feito uma honesta carreira de jornalista, ao mesmo tempo em que continuava a defender os ideais de liberdade e justiça social.

No essencial, ele novamente tergiversa e calunia, pois são as opções que restam a quem defende o indefensável.

O espantalho inverossímil – Esta polêmica começou quando toquei num calo dolorido dos profissionais do anticomunismo. Em 1964 eles usaram a “conspiração comunista internacional” como bicho-papão para assustarem a classe média e conseguirem êxito em sua segunda tentativa de usurpação do poder, depois que a resistência legalista fez abortar o golpe de 1961.

Não há espantalho igualmente apropriado nos dias de hoje. Então, para suprir a lacuna, eles tiveram de satanizar uma inexpressiva reunião de partidos e organizações de esquerda da América Latina, o Foro de São Paulo, apresentando-a como uma sinistra articulação para, nas palavras de OC, reivindicar “o poder ditatorial sobre todo o continente”.

Ou seja, Chávez e Morales estariam em vias de hastear a bandeira bolivariana em Wall Street, privando OC da segunda pátria que é a primeira no seu coração...

Evidentemente, eu só poderia comparar um disparate desses a fantasias cinematográficas como Moscou Contra 007 e O Rato Que Ruge.

Cônscio do ridículo, OC refugia-se agora na autoridade acadêmica: “Devo recordar, como autor de livros de lógica, que fatos documentalmente comprovados, reiterados até pela confissão direta de seu personagem principal, não têm satisfações a prestar ao critério de verossimilhança, o qual, por definição, é um mero julgamento de aparências, útil apenas quando não se tem acesso aos fatos”.

Leiam e releiam! Nada que eu pudesse dizer seria mais ruinoso para a reputação intelectual de OC do que ter apelado para essa embromação doutoral, subestimando a inteligência de quantos tomariam conhecimento do seu artigo. Para os vigaristas saírem-se bem, é preciso que existam otários. Eu não sou. Quem acompanha polêmicas políticas, também não. Então, noves fora, acaba sobrando apenas... um malandro-otário.

Onde está a comprovação documental de que Brasil e Argentina, as nações com peso decisivo na América do Sul, estejam sendo teleguiadas pelo Foro de São Paulo, em vez de perseguirem seus próprios objetivos geopolíticos? Em lugar nenhum, claro!

Os saraus da esquerda sempre produziram um blablablá triunfalista que nada tem a ver com a correlação real de forças. Aí vem um OC da vida, pinça meia-dúzia de arroubos retóricos, junta com uma interpretação distorcida dos fatos e sai trombeteando que o continente americano inteiro está a caminho de se tornar uma constelação de ditaduras esquerdistas.

Se tivesse um mínimo de honestidade intelectual, ele esclareceria que existem apenas alguns candidatos a caudilhos com projetos populistas-autoritários de perpetuação no poder, sem ruptura real com o capitalismo. Nem de longe a perspectiva de novos regimes castristas; quanto muito, tentativas de bisar o PRI mexicano.

Mas, claro, nunca se pode esperar sinceridade dos manipuladores políticos. E menos ainda daqueles que servem de gurus para os medíocres e ressentidos, fornecendo-lhes explicações simplistas para seus fracassos cotidianos. “A culpa é do Governo Lula!” “O Governo Lula é de esquerda!” “Então, a culpa é da esquerda!”

Embora se pavoneie como autoridade em lógica, OC só parece ter verdadeira afinidade com os sofismas.

Propaganda enganosa – Em sua cruzada contra a verossimilhança, OC volta a bater na tecla de que eu teria pedido “ação policial contra os sites liberais e conservadores”. Como se o cidadão de um país democrático não tivesse o direito de requerer o cumprimento das leis que coíbem crimes como incitação à rebelião, difamação e calúnia.

E como se os sites extremistas de direita – jamais citei qualquer outro além do Ternuma, do Mídia Sem Máscara, do Usina de Letras e do A Verdade Sufocada – fossem apenas “liberais e conservadores” e “supostos pregadores de rebeliões virtuais”, segundo afirma OC.

O Brasil padeceu 36 anos, no século passado, sob duas intermináveis ditaduras. Isto já é motivo suficiente para não sermos condescendentes com o Grupo Guararapes, integrado por oficiais aposentados das Forças Armadas que passam a vida incitando seus colegas da ativa a sublevarem-se contra ministros e presidentes, por meio de manifestos bombásticos que trazem exclamações do tipo “a honra ou a morte!”; ou com o tal Partido Vergonha na Cara, que exige “militares no poder já!”.

Se permanecessem como sociedades secretas, endereçando suas mensagens apenas a outros fanáticos, não estariam infringindo a lei. O caso muda de figura quando recorrem à comunicação de massa (Internet). E o acesso à Web lhes é propiciado exatamente pelos quatro sites da direita radical, veículos de propagação de suas exortações golpistas.

Além disso, tais sites mantêm permanentemente no ar centenas de artigos de propaganda enganosa, para denegrir os movimentos de resistência à ditadura militar de 1964/85 e seus participantes.

Trata-se de uma mistura infame de mentiras, meias-verdades e interpretação distorcida dos fatos, bem ao estilo do guru OC. E têm como matéria-prima os Inquéritos Policiais-Militares da ditadura, ou seja, informações arrancadas de seres humanos mediante torturas terríveis, a ponto de muitos (como Vladimir Herzog) terem morrido durante os interrogatórios.

Na Europa, um historiador que ousou negar a existência do Holocausto foi condenado à prisão. Algo deveria ser feito pelo Estado brasileiro para impedir que abutres continuem revirando o lixo ensangüentado da ditadura brasileira, no afã de caluniarem vivos e mortos. Por respeito à lei e por dever de gratidão para com aqueles que sacrificaram tudo em nome da liberdade.

Pontapé na virilha - Finalmente, o filósofo OC não tem pejo de recorrer aos golpes baixos: “Lungaretti, segundo ele mesmo conta, mal saiu da prisão e na primeira entrevista já começou a falar grosso contra a ditadura que supostamente o havia persuadido a fazer aquilo que os demais torturados, submetidos a idêntico tratamento, não puderam ser induzidos a fazer”.

Ou seja, mal saí da prisão em 1971 e já em 1978 comecei a falar grosso contra a ditadura que me havia persuadido a fazer aquilo que mais de 30 companheiros também foram induzidos a fazer.

Sintomaticamente, OC comete ato falho e deixa aflorar a verdade dos fatos, ao admitir que fui submetido “a idêntico tratamento” dos “demais torturados”.

Desde a Santa Inquisição se vem comprovando que há limites para a resistência do ser humano à tortura prolongada. Alguns dos revolucionários mais ilustres do seu tempo foram reduzidos à condição de confessar absurdos e balbuciar lamúrias nos julgamentos stalinistas.

Então, ninguém jamais conseguirá intimidar-me ao evocar aquele episódio em que, já sem forças para reagir depois de dois meses e meio de maus tratos, tendo sido mantido incomunicável à mercê dos carrascos muito mais do que os 30 dias que as próprias leis de exceção facultavam, com o tímpano recém-estourado ainda gotejando pus e sangue, manchas roxas no rosto e o corpo esquelético como o dos sobreviventes dos campos de concentração nazistas, fui conduzido a uma TV de madrugada e, sob ameaça de ser torturado até à morte, recomendei aos jovens que não ingressassem numa guerra já perdida.

O que OC supõe servir-lhe de defesa é a mais veemente acusação da desumanidade que ele defende no passado e tenta reviver no presente.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

3º MANDATO: UM SALTO NO ESCURO

Celso Lungaretti (*)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem uma grande chance de melhorar a imagem que deixará para a História, não cedendo à tentação de favorecer as tramóias dos áulicos para propiciar-lhe um terceiro mandato consecutivo.

Infelizmente, tudo indica que, escolhida a pior linha de ação, o Congresso Nacional não vai cumprir sua missão de defender a letra da Constituição (art 14, § 5º: “O Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito Federal, os Prefeitos e quem os houver sucedido, ou substituído no curso dos mandatos poderão ser reeleitos para um único período subseqüente”). Depois das barganhas de praxe, deverá adotar a posição de sempre, vergando-se à vontade do Executivo.

Então, Lula é quem decidirá, em última análise, se compensa atirar o Brasil numa aventura de conseqüências imprevisíveis ou mais vale esperar até 2014, correndo o risco de ver seu objetivo esfumar-se, como aconteceu com FHC.

O que pesará mais em seus cálculos: o interesse nacional ou a ambição pessoal?

O certo é que, nos países com dimensões continentais e economias diversificadas, a permanência indefinida de um mandatário no poder não transcorre tão automaticamente quanto em ilhas ou em pequenas nações que sobrevivem à custa de um único item de exportação.

O último exemplo bem-sucedido de hegemonia eternizada graças ao controle da máquina pública, da cooptação dos adversários por meio da corrupção e da conquista do eleitorado com as migalhas do assistencialismo foram os 71 anos em que o Partido Revolucionário Institucional dominou o México.

Emblematicamente, a chamada ditadura perfeita do PRI – pois a monopolização do poder coexistia com o pluripartidarismo e as eleições – não adentrou o século 21.

Por provir de casuísmos e representar uma mudança de regras com o jogo em curso, um terceiro mandato de Lula seria extremamente contestado por forças políticas à direita e também à esquerda.

Já é perceptível, hoje, o esvaziamento da centro-direita e da esquerda palaciana. Este processo tenderia a acentuar-se, colocando o Governo e seus aliados de aluguel sob o fogo cruzado de agrupamentos com mais firmeza ideológica.

O grande perigo é uma polarização entre direita e esquerda, como nos idos de 1964. Por enquanto, o grande capital e os EUA, tendo seus interesses bem servidos pelo Governo atual, não estimulam as conspirações dos que estão cansados da democracia.

Mas, se a radicalização chegar a um ponto em que se vejam obrigados a optar, os poderosos novamente retirarão as focinheiras dos seus pitbulls.

Um confronto desses sempre poderá acabar mal para milhões de brasileiros. Já a obediência ao princípio democrático de alternância no poder só aterroriza, realmente, alguns milhares de parasiteiros que têm boquinhas no poder e temem perde-las.

Torçamos para que Lula não ceda ao canto dessas sereias que, como as mitológicas, tramam a perdição. Dele, nossa ou de todos.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

8.11.07

O SAMBA DOS OLAVETES DOIDOS

Celso Lungaretti (*)

Meu artigo-resposta às incongruências e destemperos verbais de Olavo de Carvalho, O Samba do Olavo Doido, despertou fúria homicida de seus fãs, que, inclusive, escolheram-me como o homenageado do mês de uma comunidade rancorosa do Orkut, a Comunistas Caricatos.

Aceitando o desafio, lá compareci para um debate que, prometeram-me, seria civilizado. No entanto, a minha primeira série de respostas às perguntas feitas os desarmou de tal maneira que passaram, imediatamente, para as baixarias e agressões.

Recusando-me a acompanhá-los na guerra de insultos e constatando que o debate civilizado seria impossível ali, deixei a discussão. O tópico foi totalmente deletado por eles, bem como os posts em que eu colara O Samba do Olavo Doido, na sequência do ataque do OC a mim que eles triunfalmente haviam colocado no ar.

Se faltava uma prova da intolerância e obscurantismo dos discípulos de OC, eles a deram. Estão sempre prontos para o linchamento moral dos ausentes, mas não conseguem encarar sequer uma discussão de dezenas contra um, sem descerem ao nível dos esgotos.

Já no site do Observatório da Imprensa, os defensores do OC são obrigados a um mínimo de decoro e argumentação. Então, suas tentativas de me refutarem centraram-se em dois pontos:
· eu estaria sendo insincero ao repudiar ditaduras, já que, no fundo do coração, morreria de amores pelas ditaduras de esquerda;
· e teria manifestado vezo autoritário, ao pedir que o Ministério Público Federal e a Polícia Federal voltassem sua atenção para os sites fascistas.

Primeiramente, respondi-lhes que não gasto palavras em vão: ao me colocar contra todas as ditaduras, disse exatamente o que queria dizer e, aliás, já havia dito antes, em vários contextos. Se alguém viu numa bola de cristal que eu aceito determinadas ditaduras, sugiro que jogue a bola de cristal fora.

Quanto aos textos cuja veiculação na internet deveria ser punida, dou alguns exemplos.

O Ternuma me atribuíu a redação de um manifesto que a VPR distribuiria à imprensa depois de sequestrar o cônsul dos EUA em Porto Alegre. Nesse manifesto, estaria escrito que o cônsul confessara ser agente da CIA.

É totalmente falso. Nem eu, nem a VPR colocaríamos na boca de um diplomata o que ele não havia dito, antecipando um interrogatório que não ocorrera. Há uns três anos, exigi que o Ternuma tirasse essa mentira do ar. Continua lá até hoje.

Na semana passada, o antigo comandante de torturadores Brilhante Ustra passou a oferecer em seu site, para download, o chamado Livro Negro da Repressão, uma contrapartida infame da Inteligência militar ao projeto Tortura Nunca Mais. Entre outras falsidades, esse livro diz que eu fui um dos três quadros da VPR que julgaram um militante por traição.

Eu nem sequer soube desse caso. Ignoro se o episódio aconteceu mesmo ou não passa de mais uma fantasia. Mas, com toda a certeza, eu jamais tomaria em minhas mãos a decisão sobre o fuzilamento ou não de um companheiro.

Que direito têm o Ternuma e o A Verdade Sufocada de me atribuírem atos que não pratiquei e que contrariam frontalmente minhas convicções? Isso é calúnia e difamação, crimes capitulados no Código Penal. Nada tem a ver com liberdade de opinião e democracia.

GOLPISMO EXPLÍCITO

Quanto às conclamações sediciosas, eis, p. ex., um trecho de um manifesto do Grupo Guararapes, amplamente reproduzido nos sites fascistas: “O Presidente Lula não merece mais o nosso respeito (...). Não o consideramos nosso chefe, pois ele não respeita nem cumpre a Lei, não merecendo nossa subordinação. O Grupo Guararapes, em defesa da honra da Nação brasileira, espera que as Forças Armadas revertam tal afronta [a anistia ao Lamarca]. A honra ou a morte!”

Divulgadíssima no circuito virtual dos radicais de direita, a Carta Aberta aos Militares do Partido Vergonha na Cara conclamava as Forças Armadas a cumprirem "o seu papel histórico e constitucional de proteger o Brasil de comunistas e assaltantes e criminosos que ameaçam o nosso país”, concluindo com um enfático “Militares no poder já!”.

Que cada um julgue se é admissível isso tudo ir ao ar sem a responsabilização judicial dos autores e divulgadores.

Os radicais de direita estão extremamente incomodados com meus alertas, porque sabem ter infringido diversas leis de nosso País. E são as leis normais de uma nação civilizada, não a legislação de exceção que eles forjavam na caserna e impunham a todos os brasileiros pela força bruta. Quem tiver estômago para revirar os escritos nauseabundos publicados nos sites fascistas, encontrará, aos montes, afirmações que justificam a instauração de procedimentos legais.

Ademais, são artigos que versam sobre a ditadura de 1964 e os movimentos de resistência que a enfrentaram. Dão a visão dos carrascos sobre os acontecimentos históricos, utilizando informações dos famigerados IPM's, inclusive as sigilosas (aquelas que os militares negam possuir quando as autoridades as pedem).

Inquéritos que custaram o sangue e a vida dos meus companheiros são exumados para se caluniarem os vivos e os mortos. Como o Olavo de Carvalho caluniou o prestigioso professor Quartim de Moraes, que vem recebendo a solidariedade dos mais respeitados acadêmicos da Unicamp e de toda a comunidade intelectual.

O que essa gente faz é um escárnio, tripudiando sobre as vítimas de suas práticas hediondas. É como se reeditassem o Mein Kampf em plena Alemanha de 1946. Caso estivessem na Europa ou nos EUA, já teriam sido punidos - rigorosamente dentro da lei.

Negar a existência do Holocausto por lá é crime e levou até um historiador à cadeia. Já os responsáveis por nosso pequeno Holocausto têm o cinismo de invocar as liberdades democráticas, que não cansaram de violentar enquanto estavam no poder...

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
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