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25.3.07

HÁ 43 ANOS O PAÍS ENTRAVA NAS TREVAS

Celso Lungaretti (*)

Muitos atos de repúdio à ditadura militar de 1964 estão sendo programados, no País inteiro, para marcar a passagem dos 43 anos da quartelada, a se completarem no próximo dia 31. Em São Paulo, a iniciativa é do Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo e a manifestação terá lugar na Câmara Municipal paulistana (Viaduto Jacareí, 100), a partir das 19 horas do dia 3 de abril.

Lembrar o que realmente aconteceu nos anos de chumbo é muito relevante neste momento em que, aproveitando o esquecimento dos idosos e a desinformação dos que vieram depois, a direita troglodita tenta reabilitar a imagem da ditadura, com propaganda enganosa na base do "naquele tempo era tudo melhor".

Nas comunidades políticas do Orkut e em sites como o Terrorismo Nunca Mais, Mídia Sem Máscara e Usina de Letras, constata-se que essa gente está bem organizada, tem muitos recursos e vem fazendo intenso proselitismo. Atua como rolo compressor na internet, fez campanha pelo "não" no plebiscito sobre o comércio de armas e promove desagravos militares ao notório torturador Brilhante Ustra (numa tentativa pouco sutil de intimidar a Justiça). É a serpente se engendrando no ovo.

Eu tinha 13 anos quando os milicos deram o golpe. Depois, como militante estudantil a partir dos 16 anos, li e absorvi muita informação sobre esse assunto. E, ao ingressar na Vanguarda Popular Revolucionária, passei a conviver com pessoas que tiveram participação importante nos eventos de 1964. Curioso (já tinha espírito de jornalista), conversei muito com elas sobre o que haviam vivido e presenciado.

Mais tarde, em 1989, atuando na imprensa, fui incumbido pela Agência Estado de preparar uma série de matérias históricas sobre a quartelada, que estava completando 25 anos. Pesquisei, revirei arquivos, li brazilianistas, entrevistei personagens.

De tudo isso extraí algumas conclusões, que exponho como tópicos:

* há controvérsias sobre se a articulação da UDN com setores das Forças Armadas para derrubar o presidente Getúlio em 1954 desembocaria numa ditadura, caso o suicídio e a carta de Vargas não tivessem virado o jogo;

* mas, é incontestável que militares vinham tentando tomar o poder sob pretextos anticomunistas desde fevereiro de 1956, duas semanas após a posse de JK, com a revolta de Jacareacanga. Os oficiais da FAB repetiram a dose em outubro de 1959, com a também fracassada revolta de Aragarças. E, em agosto de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, as Forças Armadas vetaram a posse do vice-presidente João Goulart, só voltando atrás diante da resistência do governador Leonel Brizola (RS) e do apoio por ele recebido do comandante do III Exército, gerando a ameaça de uma guerra civil;

* apesar das bravatas de Luiz Carlos Prestes e dos "grupos dos 11" brizolistas, não havia em 1964 uma possibilidade real de conquista do poder pela esquerda. Não existiu o tal "contragolpe preventivo", mas, pura e simplesmente, um golpe para usurpar o poder, derrubando um governo eleito, fechando o Congresso, cassando mandatos legítimos e extinguindo entidades da sociedade civil;

* a esquerda só voltou para valer às ruas em 1968, mas as manifestações de massa foram respondidas pelo uso cada vez mais brutal da força, por parte de instâncias da ditadura e dos efetivos paramilitares que atuavam sem freios de nenhuma espécie, promovendo atentados e intimidações. Até que, com a edição do AI-5, em dezembro de 1968, a resistência pacífica se tornou inviável. Foi quando a vanguarda armada, insignificante até então, ascendeu ao primeiro plano, acolhendo os militantes que antes se dedicavam aos movimentos de massa;

* as organizações guerrilheiras conseguiram surpreender a ditadura no 1º semestre de 1969, mas já no 2º semestre as Forças Armadas começaram a levar vantagem no plano militar, introduzindo novos métodos repressivos e maximizando a prática da tortura, a partir de lições recebidas de oficiais estadunidenses;

* em 1970 os militares assumiram a dianteira também no plano político, aproveitando o boom econômico e a euforia da conquista do tricampeonato mundial de futebol, que lhes trouxeram o apoio da classe média;

* nos anos seguintes, com a guerrilha nos estertores, as Forças Armadas partiram para o extermínio sistemático dos militantes, que, mesmo quando capturados com vida, eram depois executados;

* o "milagre brasileiro", fruto da reorganização econômica empreendida pelos ministros Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões, bem como de uma enxurrada de investimentos estadunidenses em 1970 (quando aqui entraram tantos dólares quanto nos 10 anos anteriores somados), teve vida curta e em 1974 a maré já virou, ficando muitas contas para as gerações seguintes pagarem;

* as ciências, as artes e o pensamento eram cerceados por meio de censura, perseguições policiais e administrativas, pressões políticas e econômicas, e dos atentados e espancamentos praticados pelos grupos paramilitares consentidos pela ditadura;

* corrupção, havia tanta quanto agora, mas a imprensa era impedida de noticiar o que acontecia, p. ex., nos projetos faraônicos como a Transamazônica, Ferrovia do Aço, Itaipu e Paulipetro (muitos dos quais malograram);

* a arrogância e impunidade com que agiam as forças de segurança causou muitas vítimas inocentes, cujas famílias nem sequer obtinham o reconhecimento da culpa do Estado e respectiva indenização. E integrantes dos efetivos policiais chegavam a acumpliciar-se com traficantes, executando seus rivais a pretexto de justiçar bandidos (Esquadrões da Morte);

* o aparato repressivo criado para combater a guerrilha propiciava a seus integrantes uma situação privilegiadíssima. Não só recebiam dos empresários fascistas vultosas recompensas por cada revolucionário preso ou morto, como se apossavam de tudo que encontravam de valor com os militantes. Acostumaram-se a um padrão de vida muito superior ao que o soldo lhes proporcionaria;

* daí terem resistido encarniçadamente à disposição do presidente Geisel de desmontar essa engrenagem de terrorismo de estado, no momento em que ela se tornou desnecessária. Mataram pessoas inofensivas como Vladimir Herzog, promoveram atentados contra pessoas e instituições (inclusive o do Riocentro, que, se não tivesse falhado, provocaria um morticínio em larga escala) e chegaram a conspirar contra o próprio Geisel, que foi obrigado a destituir sucessivamente o comandante do II Exército e o próprio ministro do Exército.

Em suma: é o último filme do mundo a merecer reprise. Com todos os seus defeitos e mares de lama, a democracia ainda é menos pior. Deve ser preservada, custe o que custar. E, claro, moralizada e aperfeiçoada.

* jornalista, escritor e ex-preso político. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

21.3.07

...E A BARBÁRIE CONTINUA NOS RONDANDO

Há quatro semanas, expus no artigo “A Barbárie Que Nos Ronda” algumas considerações sobre o banditismo e, principalmente, sobre sua demonização, orquestrada pelos inocentes úteis da mídia e pelos culpados inúteis da extrema-direita – estes, sempre à procura de bandeiras demagógicas para sua cruzada regressiva, tentando levar-nos de volta às trevas medievais.

As discussões que esse texto suscitou em comunidades do Orkut e outros espaços virtuais comprovaram que se trata de um dos temas mais polêmicos da atualidade. Eu já avaliava a conveniência de voltar a ele, quando duas mensagens me convenceram de vez.

Uma foi o spam com que um advogado panfleteou a Internet, derramando lágrimas hipócritas sobre o sofrimento de mais uma vítima dos monstros que o capitalismo engendrou e atribuindo a responsabilidade por esse crime aos defensores dos direitos humanos, com destaque para D. Paulo Evaristo Arns, alvo principal de sua sórdida catilinária.

Tendo renunciado ao posto de arcebispo de São Paulo em 1996, ao atingir a idade-limite de 75 anos, por que D. Paulo desperta até hoje sentimentos tão exacerbados nesses direitistas fanáticos?

Seria ingenuidade supor que sua postura cristã em defesa dos excluídos tenha motivado tamanho rancor. Na verdade, a direita troglodita tenta colocar D. Paulo na berlinda porque foi um dos maiores nomes da resistência à ditadura militar, salvando dezenas de presos políticos da morte e da tortura.

Vilificar D. Paulo e outros defensores dos direitos humanos atende a um objetivo propagandístico maior da direita troglodita: fazer uma ponte entre os opositores da ditadura e a escalada do banditismo.

Os neo-integralistas cansam, p. ex., de acusar a esquerda armada de haver ensinado técnicas guerrilheiras ao Comando Vermelho, o que a faria responsável pelo estágio ora atingido pelo crime organizado.

Esquecem de mencionar que foi um abuso cometido pela ditadura militar contra os presos políticos o motivo da aproximação de dois universos que deveriam ser mantidos estanques.

Pretendendo humilhar e denegrir os militantes revolucionários, os tribunais de exceção passaram a condenar também presos comuns com base na Lei de Segurança Nacional. Queriam passar à opinião pública a imagem de que todos os assaltantes de bancos não passavam de meros bandidos, independentemente de suas motivações.

Para sustentar essa falácia, não hesitaram em colocar os condenados todos juntos na galeria B do presídio da Ilha Grande, entre 1969 e 1975. Depois de alguns conflitos, os dois contingentes acabaram chegando a um modus vivendi.

E os presos comuns, admirados com a organização, disciplina e companheirismo dos revolucionários, começaram a seguir seu exemplo, unindo-se para reagir aos abusos das autoridades carcerárias e implantando normas de convivência (como a proibição de ataques, roubos ou violência física e sexual entre os presos).

Não se podem culpar os presos políticos por servirem de modelo, nem os presos comuns por imitarem-nos, trocando a lei do cão pelos rudimentos do respeito mútuo, a violência cega pelo planejamento.

A ditadura é que criou esse monstro, ao deixar que os objetivos propagandísticos falassem mais alto do que o bom senso e as lições de episódios passados (presos políticos já haviam liderado os comuns numa fuga do Presídio Frei Caneca).

E a propaganda direitista continua enganosa, contando essa história pela metade e omitindo que os principais vilões foram exatamente os tiranos e verdugos por ela cultuados.

APOLOGIA DO EXTERMÍNIO - A outra mensagem marcante foi a de um admirador de Carlos Lamarca e Che Guevara, que numa comunidade do Orkut defendeu o fuzilamento dos marginais como única forma de erradicar a violência. Sem perceber, adota uma postura que convém a seus piores “inimigos de classe”.

É triste e inquietante ver o sonho de uma sociedade igualitária e justa desembocar em pregações tão brutais e primitivas.

O capitalismo condena desnecessariamente parcela substancial da população economicamente ativa ao desemprego e ao subemprego. Depois, demoniza os excluídos que se tornam bandidos, utilizando-os como espantalhos para assustar a classe média e fazê-la ansiar por soluções autoritárias.

É claro que, depois de transporem alguns dos limites que nos separam da horda primitiva, esses indivíduos se tornam mesmo irrecuperáveis, nocivos para si próprios e para a sociedade. No entanto, de que adianta encarcerá-los ou executá-los, se as condições degradantes a que nosso povo é submetido proverão imediatamente seus substitutos? O circulo vicioso será eterno.

Então, piores criminosos do que essas bestas-feras são os cidadãos educados e bem vestidos que zelam pela manutenção do status quo. Pois foram suas decisões e suas omissões que levaram esses outros seres humanos à desumanização extrema, como almas penadas que só existem para sofrer e para causar sofrimento aos demais. Na Ópera dos Três Vinténs, de Brecht, há uma frase lapidar: "O que é o roubo de um banco comparado com a fundação de um banco?".

A repressão jamais eliminará o banditismo, que é intrínseco ao capitalismo. Mas, certamente, vai fazer secar o que há de mais belo e digno em nós.

Temos de voltar a pensar em soluções estruturais, em vez de cedermos à tentação do mero revide, que nada deixa como saldo, se não motivos para novas retaliações, gerando uma espiral de violência que tornará tudo cada vez pior para todos.

13.3.07

MOLUSCO, CAMALEÃO OU PARASITA?

O Governo Lula pretende limitar o direito de greve dos funcionários públicos que atuam em serviços tidos como essenciais – casos do INSS e dos controladores de vôo, exemplificou o ministro do Planejamento. Segundo declarações de Paulo Bernardo publicadas na Folha de S. Paulo, as paralisações dos servidores devem ser usadas para pressionar a União, mas não para “desgraçar a população”.

Não menos enfática foi a mea culpa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Há abusos em greves, não apenas no setor público, mas em outras categorias. Agora cada um de nós paga um preço pelos exageros que cometemos. Seja no governo, seja no movimento sindical".

É curioso que, enquanto Lula intitula as posições que ele e o PT defendiam em passado não muito distante de “exageros”, Bernardo rotula de “besteiras” as críticas que os defensores dessas mesmas posições fazem agora à intenção governamental de disciplinar as greves. “Nós” apenas exagerávamos. “Eles” não passam de umas bestas.

Lula repetiu, assim, seu malabarismo retórico e ideológico de dezembro, quando, na confraternização de fim de ano do Clube Militar, qualificou de problemáticos os sexagenários que mantêm seus ideais de esquerda.

O sensato velhinho também mudou sua maneira de encarar Bush e os Estados Unidos, conforme notou o analista político Clóvis Rossi: “...a visita de George Walker Bush a São Paulo e, dentro de três semanas, a do próprio Lula a Washington, acabam representando a descida do muro por parte do presidente brasileiro, para ficar do lado do que seus antigos aliados do Fórum Social chamam de globalização corporativa”.

Vale ressalvar que, bem vistas as coisas, tem de haver mesmo algum limite às greves em serviços públicos essenciais, igualar esquerdismo com juvenilismo não passa de um clichê reacionário e a identificação com o país-símbolo do capitalismo e com seu presidente truculento e desmoralizado é um grave erro.

Mas, o que há de comum nesses três casos é a impudência com que Lula queima as bandeiras do passado. Faz lembrar o ditador Figueiredo, pedindo que o esquecessem.

Na mesma linha, Lula poderia muito bem afirmar: “Esqueçam o que eu dizia antes, vale só o que eu digo hoje”.

Enganam-se, entretanto, os que chamam Lula de “incoerente” e até de “aburguesado” ou “vendido”. Ele continua o que sempre foi: pragmático e amoral. Adota as teses mais apropriadas para a defesa dos seus interesses em cada momento e as descarta assim que perdem a serventia.

Não é de esquerda nem direita, democrata nem autoritário, a favor do socialismo ou do capitalismo. Será sempre, unicamente, aquilo que mais convier para si próprio.

O chocante é tão poucos haverem percebido que, sob o apelido moluscóide, o que havia era um camaleão – ou, pior ainda, um parasita que se adapta a todos os ambientes e situações, utilizando-se de qualquer organismo para dele extrair a energia vital, de forma a fortalecer-se enquanto o parasitado se torna exangue (caso do PT).

Como atenuante, havia aquele velho sonho marxista de que o operariado industrial assumisse a vanguarda da revolução. A esquerda festiva vibrou quando surgiu um metalúrgico, barbudo como Marx, que parecia corporificar essa esperança. Viu apenas aquilo que queria ver. E agora se recrimina amargamente por ter deixado de perceber o óbvio.

E houve também os que, como Zé Dirceu, captaram de imediato as gritantes limitações do Lula, mas pensaram que, exatamente por isso, poderiam servir-se dele como cavalo de Tróia para chegarem ao poder. Quem cavalga um tigre acaba sendo devorado pela fera, diz um provérbio chinês.

Para a esquerda, o saldo acabou sendo desastroso: forneceu à direita o líder popular que ela seria incapaz de criar sozinha e é identificada pelo cidadão comum com a podridão e os desatinos do Governo Lula.

Além de haver contribuído para um dos maiores estelionatos eleitorais da História, ao ajudar a eleger um homem que nega hoje quase tudo que pregava antes de chegar ao poder – esquecido de que foi em nome do seu suposto compromisso com essas posições que os partidários continuaram apoiando-o fervorosamente, mesmo depois das derrotas na eleição para o governo de São Paulo e em três pleitos presidenciais consecutivos.

8.3.07

GEORGE W. BUSH, O PANACA-MOR

Os anjos estão pelas ruas, tentando cravar suas flamejantes lanças retóricas no coração da fera: o dragão da maldade George W. Bush, 43º presidente dos Estados Unidos.

É gratificante ver a juventude começar de novo a mobilizar-se em função de questões maiores. Será que vão queimar bandeiras dos EUA, como fazíamos nas manifestações estudantis de 1968? Haverá bonecos Bush para serem malhados como Judas em sábado de Aleluia? Ou isso não pegaria bem nestes tempos politicamente corretos?

Só uma coisa me incomoda: o alvo é insignificante demais.

No século passado, os dirigentes das nações eram gigantes como Roosevelt, Churchill, De Gaulle, Hitler, Mussolini, Lênin, Stalin, Mao, Perón, Getúlio Vargas. Independentemente de como avaliemos a posição política e os feitos de cada um deles, é inegável que cravaram uma marca pessoal no destino de seus países. Fizeram História, no bom e no mau sentidos.

Desde a transição para a sociedade de massas, entretanto, quem dá as cartas é o “sistema”, com os governantes atuando mais como relações-públicas de suas administrações do que tomando decisões transcendentais. Então, chegamos à atual fornada de mediocridades eleitas a partir de sua semelhança com o homem comum.

O “sistema” oferece aos eleitores algumas opções de panacas em quem eles possam espelhar-se. Os eleitores escolhem aquele panaca que lhes pareça mais próximo do que eles são ou do que eles gostariam de ser. E depois o “sistema” fornece ao panaca escolhido todo o staff de que necessita para desempenhar a contento sua função de rainha da Inglaterra, enquanto o "governo invisível" trabalha.

George W. Bush é exatamente isto: o panaca-mor.

Sem o mínimo carisma, parece o gerente subalterno de uma agência bancária interiorana. Teve desempenho escolar ridículo e sua vida, antes da política, era um tédio só.

O único “feito” marcante, até então, havia sido o artifício utilizado para escapar da Guerra do Vietnã: aproveitando a influência familiar, alistou-se na Guarda Aérea Nacional do Texas e pôs-se a salvo de ser enviado para o sudeste asiático, embora defendesse a intervenção militar dos EUA naquela região.

Sua plataforma na disputa presidencial de 2000 foi a de governar como um “conservador com compaixão”. Prometeu, acredite quem quiser, avanços educacionais e inclusão social...

E teve uma vitória das mais contestadas, pois o fiel da balança foi o estado da Flórida, governado por seu irmão; houve muitas acusações de fraude e uma interminável recontagem dos votos.

Os atentados contra o WTC, no nono mês de mandato, forneceram a seu esquema político um mote providencial para fidelizar a classe média dos EUA: a luta contra o terrorismo.

O Governo Bush ordenou invasões desnecessárias do Afeganistão e do Iraque, derrubou a bel-prazer os mandatários desses países e tripudiou da forma mais arrogante sobre um inimigo vencido, fazendo (por meio de fantoches) condenar e executar Saddam Hussein.

É difícil relacionar a imagem do estudante sofrível e do poltrão que driblou a guerra com esses eventos repulsivos. Acreditar que o banho de sangue no Iraque se deva à vontade de um panaca tão panaca.

Hitler parecia mesmo um destruidor de nações. Bush, não. Tudo faz crer que seja apenas um boneco de ventríloquo nas mãos dos falcões (militaristas convictos).

Ou, talvez, nem mesmo falcões, mas tão-somente canalhas calculistas que consideram demonstrações de força no 3º Mundo um preço válido a pagar pelas vitórias eleitorais no 1º mundo.

Então, é preciso um esforço de imaginação para odiarmos George W. Bush. Temos de nos repetir, a cada instante, que ele é a face visível de um “sistema” que infelicita a humanidade e ameaça destruí-la com o aquecimento global; que massacra populações do 3º Mundo e que ajuda a manter a maioria dos brasileiros em condições subumanas.

Mas, com a cara de completo panaca que ele tem, haja imaginação!
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