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29.9.09

O COMPROMISSO DOS REVOLUCIONÁRIOS COM A CIVILIZAÇÃO

Ao surgirem, tanto o marxismo quanto o anarquismo prometiam conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização.

A proposta de ambos era a de um melhor aproveitamento do potencial produtivo existente, direcionando-o para a promoção da felicidade coletiva, ao invés de desperdiçá-lo em desigualdade e parasitismo.

A hipótese anarquista nunca foi testada: não houve país em que cidadãos livres organizassem a economia e a sociedade sem a tutela do estado.

A hipótese marxista não foi testada da forma como seus enunciadores previam: em países cujas forças produtivas estivessem plenamente desenvolvidas.

Nas duas nações que realmente contam, a revolução teve de cumprir uma etapa anterior, qual seja a de acumulação primitiva do capital, já que se tratava de países ainda desprovidos da infra-estrutura básica para uma economia moderna.

Acabaram tendo de exigir esforços extremos dos trabalhadores; e, como eles não se dispunham livremente a isto, a URSS e a China, cedendo ao imperativo da sobrevivência, coagiram-nos a dar essa quota de sacrifício.

Ou seja, tornaram-se tiranias. Uma mais brutal e assassina, a stalinista. A outra mais messiânica e fanática, a maoísta.

Sobreviveram exatamente até cumprirem a função por elas assumida, de trazer países atrasados até o século XX. A partir daí, entretanto, passaram a emperrar as forças produtivas, ao invés de as deslanchar.

O socialismo real da União Soviética e satélites caiu de podre na década de 1980, com as nações voltando ao capitalismo.

O maoísmo tentou ainda resistir aos ventos de mudança com a revolução cultural, em vão. Depois de uma luta travada na cúpula, sobreveio o pior dos mundos possíveis, um amálgama de capitalismo de estado na economia e ditadura do partido único na política.

De 1989 para cá não surgiu uma proposta revolucionária alternativa, capaz de vingar nos países economicamente mais desenvolvidos - aqueles que, segundo Marx, traçam o caminho que depois é seguido por todos os outros.

Inexiste hoje uma estratégia que contemple a concretização simultânea das três bandeiras principais do marxismo e do anarquismo: a promoção da justiça social, o estabelecimento da liberdade plena e o incremento da civilização.

Unir essas três pontas soltas, na teoria e na prática, é nossa principal tarefa no século XXI.

FLERTANDO COM O APOCALÍPSE

Até lá, devemos esforçar-nos para, pelo menos, não nos tornarmos agentes da tirania e da barbárie.

O capitalismo globalizado é tão decadente, putrefato e destrutivo quanto a escravidão nos estertores do Império Romano. Já não oferece valor positivo nenhum à sociedade, só os negativos.

É mais um motivo para não nos comportarmos como a imagem invertida de nossos inimigos.

Se a indústria cultural deles se tornou totalmente parcial e tendenciosa, não é justificativa para substituirmos a reflexão pela propaganda em nossos meios de comunicação, endeusando líderes, exagerando acertos e minimizando/escondendo erros.

A imprensa burguesa se desacredita e desmoraliza a olhos vistos. Temos de ocupar esse espaço vazio, mostrando-nos capazes de cumprir melhor as três funções do jornalismo: informar, formar e opinar.

E não deixarmos que a função opinativa impregne tudo e determine o conteúdo das outras duas. Se eles nâo dispõem mais de credibilidade, só teremos a ganhar zelando religiosamente pela nossa.

E não é qualquer forma de luta que nos serve, como serve para eles.

Os EUA não hesitaram em fazer do povo japonês uma cobaia dos efeitos de petardos atômicos, detonando-os para, principalmente, servirem como efeito-demonstração: queriam intimidar Stalin. Para forçar a rendição japonesa, hoje está mais do que provado, os holocaustos de Hiroshima e Nagasaki não eram necessários.

Se houve uma verdadeira lição desses episódios terríveis, é a de que nunca mais as armas atômicas devem ser utilizadas, contra ninguém, absolutamente ninguém!

Então, por piores que sejam as atrocidades cometidas por Israel, ainda assim não há hipótese em que verdadeiros revolucionários possam defender projetos nucleares, mesmo estando direcionados contra o estado judeu.

Até porque, como será impossível evitar a retaliação, o que está em jogo é a destruição simultânea de dois países e seus povos, afora os efeitos devastadores sobre as nações vizinhas e seus povos.

Quanto ao equilíbrio do terror - a tese de que, se nações inimigas possuírem armas nucleares, nenhuma as ousará disparar -, foi exatamente a que quase levou à destruição da humanidade em 1962.

Pois, por nela acreditarem, os cientistas responsáveis pela bomba estadunidense vazaram o know-how para os soviéticos.

Como consequência, na crise dos mísseis cubanos estivemos a um passo de uma guerra atômica que, provavelmente, teria extinto a espécie humana. Fomos buscar a salvação na bacia das almas.

Nem meio século se passou e já admitimos flertar de novo com o apocalípse?!

Ao invés do equilíbrio do terror, a opção mais sensata é limitarmos o ingresso de nações instáveis no clube atômico.

Mesmo porque, quanto mais países dispuserem de armas nucleares, maiores as chances de que sejam utilizadas.

Pensadores como Norman O. Brown veem o capitalismo, em última análise, como um instrumento cego da destruição da humanidade. Isto se torna bem plausível se considerarmos, p. ex., as alterações climáticas e a devastação de recursos naturais essenciais à nossa sobrevivência.

Para nós, os empenhados na construção de um mundo melhor, o desafio é evitarmos que o enterro do capitalismo seja também o da espécie humana.

3 comentários:

Marco Rocio disse...

Prezado Celso,

Quais seriam, então, as "nações instáveis" cujo ingresso no clube atômico deve ser limitado? Ou, de modo inverso, quais seriam as estáveis que poderiam usar de seu poder para ameaçar as demais, atualmente sob inspiração religiosa ultraconservadora?

Grato,

Marco Rocio

Marco Rocio disse...

Prezado Celso,

Comentei hoje à tarde, rapidamente, pouco antes de sair do trabalho, sobre sua posição a respeito da posse de artefatos bélicos nucleares por parte do Irã - creio que a este país você se referia em seu artigo.

Quando mencionei o ultraconservadorismo religioso, pensei nos alucinados cristãos bushistas e nos sionistas aproveitadores da ortodoxia judaica. Deixei aberto o flanco do fanatismo oportunista islâmico, que me parece ser exercido por grande parte do clero xiita iraniano. Convenci-me do oportunismo desses aiatolás depois da leitura do livro 'Todos os homens do Xá', do Stephen Kinzer. "Si non è vero, è ben trovato".

Mas, ainda assim, receio que a opção por um desarmamento unilateral abra demais a guarda aos sionistas. Deixa-os senhores incontestes de uma região, certos de sua superioridade.

Não concordei, também, com sua conclusão implícita de que o Irã seria a nação instável. Pareceu-me parcial. E a loucura expansionista sionista, não faz de Israel um estado instável? E a insânia messiânica bushista também não faz dos EUA uma ameaça ao resto do mundo?

Desculpe-me se faço todos esses comentários sobre uma postagem antiga, mas é porque somente há pouco descobri seu blog - por uma entrevista sua ao PH Amorim - e tenho lido tudo com grande interesse e proveito.

Sua história pessoal me faz recordar o que via e ouvia na infância e início da adolescência - sou de 1959 - e, de certo modo, o que passei, pois meu avô teve o mandato de deputado estadual cassado no antigo estado do Rio e meu pai e seu irmão foram envolvidos em IPM por vendettas no pós-golpe. Qualquer antipatia virava motivo para deduragens.

Sempre que aparece algo interessante para ler sobre o período, esqueço até das horas.

É isso. Grato por sua atenção,

Marco Rocio

Celso Lungaretti disse...

Marco,

é óbvio que o ideal seria o desarmamento nuclear universal, mas não temos força política para impor isso.

Não conseguimos nem mesmo fazer com que sejam adotadas medidas eficazes contra a pirataria e os genocídios israelenses.

Mas, seria meio kamikaze ficarmos indiferentes à disseminação ainda maior de projetos nucleares potencialmente belicosos.

E o Irã, se olharmos a questão de forma isenta, é realmente um país do qual podemos temer loucuras, com seu fanatismo religioso e seu desprezo pelos direitos humanos.

É insensato raciocinarmos de forma maniqueísta em questões que envolvem a sobrevivência ou não da espécie humana.

Quando o nazismo ascendia, houve também esquerdistas que nele viram um contraponto ao Império Britânico (o maior vilão da época). Deu no que deu.

O marxismo nasceu firmemente alinhado com a civilização, contra a barbárie. Temos de resgatar esse compromisso.

Um forte abraço!

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