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18.6.08

FORA, EXÉRCITO!

Celso Lungaretti (*)


O que há de tão inusitado no fato de que militares, direta ou indiretamente, causaram a morte de três favelados que não haviam cometido crime nenhum, exceto o de não lamberem suas botas?

Durante a ditadura de 1964/85, assassinatos muito mais escabrosos foram por eles cometidos às dezenas, evidenciando que, quando desafiados, é mesmo com tal truculência e bestialidade que alguns de nossos militares reagem.

Também não será novidade nenhuma a existência de ligações perigosas entre integrantes das Forças Armadas e a criminalidade – isto se foram mesmo os traficantes que torturaram e executaram aqueles pobres coitados.

Não deve ser descartada a hipótese de que se trate apenas de uma manobra diversionista, visando repartir com civis uma culpa exclusiva dos fardados -- mesmo porque o relato da mãe de um deles, que garante ter visto o filho caído e ensanguentado no quartel, traz logo à lembrança o acobertamento das circunstâncias da morte de Vladimir Herzog e tantos outros durante os anos de chumbo.

Enfim, prevalecendo a versão oficial, vale recordar o emblemático episódio da equipe de torturadores da PE da Vila Militar (RJ), que, na década de 1970, incorreu em associação, seguida de disputa de mercado, com contrabandistas, para compensar o esgotamento do vantajoso filão do combate à subversão, que lhe valia gordas propinas de empresários direitistas e o direito de rapinagem dos bens dos resistentes mortos ou detidos.

Como qualquer instituição, o Exército Nacional não tem apenas o paradigma por ele escolhido (Caxias). No outro extremo há o Capitão Aílton Guimarães Jorge, que conspurcou a farda duas vezes: como torturador e como contraventor.

O pior é que, mesmo tendo sido comprovado seu envolvimento com os contrabandistas, foi absolvido por seus pares. Não o expulsaram das Forças Armadas nem mandaram a julgamento na Justiça Civil, como seriam os procedimentos cabíveis. Deixaram que saísse do Exército pela porta da frente e fosse logo bater na porta dos fundos da fortaleza do bicheiro Tio Patinhas, iniciando a meteórica carreira que o transformou num dos reis da loteria zoológica e do bingo no Rio de Janeiro.

O que separa o Exército de Caxias do Exército do Capitão Guimarães não são desvios de conduta (o eufemismo que estão usando para justificarem o atual episódio chocante), mas sim desvios de função.

Como atestam os muitos escândalos e negociatas ocorridos (e encobertos pelo manto da censura) durante a última ditadura, os militares não são imunes à corrupção que atinge o resto da sociedade. Enquanto ficam restritos à sua missão constitucional, esperando nos quartéis a hora de defenderem a Nação contra inimigos externos, mantêm-se razoavelmente a salvo desse contágio.

No entanto, ao saírem da caserna para policiar favelas ou a sociedade como um todo, podem tornar-se uma monstruosidade: criminosos especificamente treinados para a guerra e detentores do monopólio do uso legal da força.

Foi por isso que em abril de 2007, quando o governador Sérgio Cabral mandou ofício ao presidente Lula pedindo a ajuda das Forças Armadas para “assegurar a lei e a ordem na região metropolitana do Rio”, eu adverti que haveria “os inevitáveis episódios chocantes” e que o Estado não tinha “o direito de dispor a bel-prazer da vida dos favelados inocentes” (artigo Em abril Cabral descobre... os quartéis!, 12/04/07).

A reação da sociedade, principalmente dos defensores dos direitos humanos, tem evitado que se consagre essa política de delegar aos militares a manutenção da ordem interna – desastrosa sempre que a tentaram implantar. Daí o subterfúgio de requisitar-se o Exército para fornecer segurança ao projeto Cimento Social no morro da Previdência, um exercício de relações-públicas visando preparar o caminho para o desejo de Cabral se tornar realidade.

Pois bem, o tiro saiu pela culatra e, em vez de agradecida, aquela comunidade carente está gritando “Fora, Exército!”.

As primeiras reações oficiais, entretanto, foram as piores possíveis: lágrimas de crocodilo em novo exercício de relações-públicas (o pedido de desculpas às famílias da vítima) e, o que realmente conta, os esforços do Executivo para preservar a iniciativa funesta, não acatando a sábia liminar concedida pela Justiça.

Três cidadãos torturados e mortos até agora não foram suficientes para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desista de enfiar pela goela da sociedade adentro o desvio de função dos militares. Quantas outras atrocidades serão necessárias?

* Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista e escritor.

4 comentários:

neusah cerveira disse...

O que aconteceu no Rio de Janeiro, envolvendo militares já era perfeitamente previsível, como o Celso muito bem colocou.
A brutalidade e desonestidade que alguns militares de ontem e de hoje exercem, envergonha a Instiuição Exército que é composta como qualquer outra, por pessoas boas e honestas, infelizmente subjugados a uma dúzia ou mais de canalhas que reproduzem outros canalhas em função da impunidade que até hoje gozaram em relação aos seus crimes.
Canalhas de farda, canalhas de batina, canalhas academicos, canalhas políticos. Parece que o Brasil e seu povo, está a mercê de ter a condução de seu destino traçado por depósito de lixo humano.
Agora, punir um e outro vai adiantar? não, não vai.
Enquanto o Exelentíssimo Presidente da República não assumir com mão firme a democracia que nós o povo, os mortos e torturados pela ditadura de 1964 conquistamos e entregamos em suas mãos, nada vai adiantar.
Ou ele se comporta como nosso representante e assume o comando do País, manda fazer uma limpeza na escória que está no poder e infiltrada em todas as Instituições, ou o desgoverno que se transformou seu governo pode nos devolver novamente ao obscurantismo.
Está na hora, passou da hora, de levar a julgamento, militares e outros envolvidos nos bárbaros crimes da ditadura.
Gostei muito do teu artigo Celso.
Nina

Neide disse...

Olá Celso,
muito bom mesmo; li na DH e vim elogiar aqui.
Abraços,

neide imbrisha

Celso Lungaretti disse...

Companheiras,

parece-me que o Lula agora tem bronca da esquerda e escolhe sempre o lado contrário, talvez por pirraça.

Foi o que ele fez no caso da transposição do São Francisco e é o que está fazendo agora.

Qualquer presidente sensato aproveitaria a decisão da Justiça para lavar as mãos e retirar o Exército do morro.

Ele, não. Manda entrarem com recurso para preservar um projeto insustentável. Acabará causando mais mortes.

Peço também sua atenção para as colunas do Jânio de Freitas. Ele está certíssimo: tudo leva a crer que os milicos agiram exatamente como na ditadura, torturando e matando esses pobres coitados. Os traficantes só estão servindo de biombo.

Um abração a ambas!

Alexander José de Freitas disse...

Este episódio é grave, é pior do que crime de guerra, porque não estamos em guerra, a lei marcial anda imperando na "democracia"! Enquanto isto o acéfalo do nosso presidente blefa mais uma vez, o Brasil perdeu o rumo totalmente, e parece que desde seu descobrimento, à época de Pedro Álvares Cabral, dos portugueses! Com a revelação de quem é realmente a tropa de elite, (ver Álvaro Lins) o piroténico Sérgio Cabral e sua pirotecnia foram pelos ares! Que o Brasil repense o Brazil antes que seja tarde demais! Corte marcial para os energúmenos microcéfalos vestidos de verde é pouca, toda justiça deve ser feita! Parabéns Celso por mais um excelente artigo, por anos fomos bombardeados pelo “jornalismo canalha da Globo e CIA, agora estamos livres, vão aparecendo vários Lungarettis, outros Rebates!”.

No Caminho, com Maiakóvski
(Eduardo Alves da Costa)
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

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