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5.4.07

O OVO DA SERPENTE

Celso Lungaretti (*)

"Que a comemoração de mais um aniversário do vitorioso movimento de 64 possa servir de alerta a aqueles (sic) que ainda têm esperança de implantar, no Brasil, um retrógrado regime bolchevista. Que não tentem isso novamente, porque o povo e as Forças Armadas, mais uma vez, irão às últimas conseqüências para evitar que tal aventura tenha sucesso.”

Esta afirmação encerra uma nota do presidente do Clube de Aeronáutica, tenente-brigadeiro da reserva Ivan Frota, criticando a atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na condução da crise aérea. Trata-se de mais uma bravata de militar de pijama inconformado em só servir hoje para levar os netinhos ao playground... ou devemos temer algo mais sério?

Não foi só ele, evidentemente, que olhou para os acontecimentos dos últimos dias com esperança ou apreensão. Coincidências costumam ser encaradas como presságios. E houve a simultaneidade entre o transcurso dos 43 anos do golpe militar e mais uma lambança do Governo Federal, desautorizando a solução que o comando da Aeronáutica pretendeu dar à rebelião dos controladores de vôo.

Em 1964, na verdade, só houve uma “aventura”: o desfecho vitorioso da conspiração que vinha sendo urdida há pelo menos uma década por núcleos de militares direitistas.

A grande maioria da oficialidade relutava em rasgar a Constituição que prometera respeitar; preferia manter-se afastada da política, cumprindo seus deveres profissionais. No entanto, os movimentos de sargentos, cabos e soldados das Forças Armadas acabaram por atirar os oficiais nos braços dos conspiradores.

Eram, principalmente, reivindicatórios e anti-autoritários. Os subalternos pediam algumas melhoras e protestavam contra os exageros disciplinares de seus superiores.

Como militante da Vanguarda Popular Revolucionária em 1969/70, conversei muito sobre esses episódios com o ex-sargento José Raimundo da Costa, um dos líderes dos marujos. Ele me garantiu que, mesmo após a Revolta da Chibata, continuavam existindo, sub-reptícios, os castigos físicos na Marinha.

Deixo isto como registro, pois não tenho como confirmar a informação. Mas, plausível ela é, pois, em pleno século 21, continuam pipocando no noticiário denúncias de maus-tratos a subalternos nas Forças Armadas.

O certo é que a oficialidade da Marinha era a mais aristocrática e arrogante das três Armas, o que explica a maior abrangência e radicalismo dos protestos de marinheiros.

Uma discussão que perdura até hoje é se esses movimentos foram instigados pelos militares conspiradores.

De concreto, há o fato de que foram eles os principais beneficiados. Os oficiais prezam, acima de tudo, a hierarquia. Ao serem desacatados pelos subalternos (alguns deles -- suprema humilhação! -- chegaram a ser atirados ao mar pelos comandados), bandearam-se em massa para o lado dos golpistas.

Especula-se também sobre quando, exatamente, José Anselmo dos Santos (o notório cabo Anselmo) passou a servir à direita. Durante a resistência à ditadura, ele atraiçoou os companheiros da organização a que pertencia, atraindo-os para emboscadas fatais, até que sua adesão ao inimigo se tornou conhecida.

No entanto, seus ex-colegas da marujada garantem que ele era um provocador a serviço da direita golpista desde antes de 1964, mesmo porque fazia sempre os discursos mais radicais nas assembléias de marinheiros.

Os paralelos entre esses acontecimentos e a atual insubordinação dos controladores de vôo têm sido destacados na imprensa e na Internet. Tudo leva a crer que a conduta vacilante do Governo Lula haja mesmo aumentado o número de oficiais simpáticos às posições direitistas.

Mas, ainda estamos muito longe da ante-sala do novo golpe, alardeado pelos alarmistas de plantão.

PROPAGANDA ENGANOSA – A extrema-direita é forte, sobretudo, entre os militares da reserva e na Internet, em que mantém vários sites com esquemas os mais opulentos, evidenciando que recursos materiais não lhes faltam.

Produz vastíssimo material de propaganda -- artigos capciosos montados com mentiras, meias-verdades e conclusões delirantes -- que suas tropas de choque pressurosamente recortam e colam como posts nas comunidades e fóruns de discussão política, História, direitos humanos, etc.

Com isto, consegue fazer a cabeça de muitos jovens, convencendo-os de que a ditadura foi light (Lula endossa esta falácia!) e botou ordem na casa, trazendo prosperidade e segurança. Os resistentes, pelo contrário, são apresentados como ladrões de banco, seqüestradores, terroristas e assassinos, que estariam agora recebendo indenizações mirabolantes do Estado brasileiro.

Todo esse besteirol é facilmente refutável. Mas, como ensinava o ministro de Propaganda de Hitler, Josef Goebels, "qualquer mentira repetida à exaustão acaba por se tornar uma verdade".

Os democratas se deram por satisfeitos vendo a verdade sobre os anos de chumbo incorporada à História. Subestimaram, entretanto, o poder da propaganda enganosa, ainda mais quando exercida de forma tão massacrante, como um rolo compressor.

Deveriam, atualmente, preocupar-se em tornar as verdades históricas mais acessíveis às novas gerações, como antídoto às pregações totalitárias.

ANÃOS MORAIS – Há uma diferença fundamental entre 1964 e 2007. Os Estados Unidos e parte do empresariado brasileiro favoreciam a conspiração, naquele contexto de guerra fria. Hoje, entretanto, salta aos olhos que o Governo Lula está perfeitamente afinado com os banqueiros e os capitalistas.

É risível atribuir-lhe “esperança de implantar, no Brasil, um retrógrado regime bolchevista”, como faz o tenente-brigadeiro Frota no seu aviãozinho retórico de vôo curto. E as tentativas de associar Lula às Farc ou aos planos maquiavélicos de Chavez simplesmente não colam. O máximo de que se pode acusá-lo, com alguma verossimilhança, é de continuísmo enrustido.

Então, a direita troglodita pôde contribuir um pouco para a vitória do “não” no plebiscito sobre o comércio de armas, tem enorme presença virtual e promove desagravos ao torturador-símbolo do País. Mas, por enquanto, não conta com o aval dos EUA e do grande capital para tentar nova quartelada.

Não se deve subestimá-la, contudo. Mesmo porque é, qualitativamente, pior ainda que a de 1964.

Naquele tempo, havia cidadãos seriamente convencidos do perigo comunista e/ou da conveniência de o Brasil ser sócio minoritário dos EUA. Não foram apenas os despóticos e os oportunistas que se colocaram do lado errado.

Hoje, os Bolsonaros, Passarinhos, Olavos de Carvalho e Ustras lideram um contingente de genocidas incomodados com seu papel na História e ansiosos por reescrevê-la à base da força bruta; políticos ambiciosos buscando atalhos para o poder; e uma massa informe de pessoas pouco brilhantes, frustradas e rancorosas, praticamente idênticas à escória urbana que respaldou a ascensão de Hitler e Mussolini.

Esses pseudo-moralistas estão sempre prontos a recriminar pequenas maracutaias, supostas ou reais, mas nada têm a dizer sobre os lucros imorais do sistema financeiro e a ganância criminosa das grandes empreiteiras.

Têm inveja dos cidadãos que supõem terem sido mais bem sucedidos do que eles em “espertezas” das quais eles próprios adorariam ser os beneficiários, mas mantêm um respeito servil em relação aos empresários mais predatórios.

Gostariam de ver a criminalidade erradicada à bala, desde que a “limpeza” ficasse a cargo de outrem, pois não têm coragem de agir pessoalmente como justiceiros.

Em suma, não passam de anãos morais, desprezíveis individualmente mas que podem se tornar perigosos como turba.

Nunca a expressão ovo da serpente foi tão apropriada.


* jornalista, escritor e ex-preso político. Outros artigos: http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

4 comentários:

Nina disse...

Companheiro Celso,

Muito oportuno o se artigo sobre as razões q ainda poderiam levar a um retrocesso (via golpe). Na comunidade Botequim Socialista do orkut, postei um tópico sobre essa possibilidade, qse apanhei virtualmente. Fui até ofendida de maneira deselegante: pensaram q eu estava defendendo o governo Lula.
Teu artigo deveria ir p/ os tópicos pq é muito didático e esclarecedor. Vc traduziu argumentos p/ a possibilidade de uma quebra institucional, q não consegui sustentar. Exelente artigo. Parabens,
Nina (Neusah Cerveira)

Rodrigo disse...

excelente texto, pretendo ler os outros agora que conheci seu site, assim como indicar a amigos

abraço

Fabiano de Melo disse...

Perfeito! Nós precisamos entender que um golpe não acontece do dia para a noite e sim é uma idéia que vai germinando no decorrer de décadas. Essa idéia está sendo plantada na cabeça das forças armadas, espero que ela não brote. Quanto a opinião popular sobre isso, a crença de que nós "somos esclarecidos politicamente" e não deixaríamos cair em uma ditadura novamente, é extremamente efêmera dada a possibilidade de conversão das idéias da massa.
Só espero que não tenhamos outra Marcha da Família com Deus pela Liberdade... Daí nós estaremos perto da caverna escura da ditadura.

Leonardo disse...

Amigos,

O Lula, como em chefe das forças armadas, deveria fazer com o bípede acéfalo do Frota era mandar ele se retratar publicamente ou receber algum tipo de punição prevista no código de conduta militar.

Ainda bem que eu não sou o presidente numa hora dessas... um idiota desse não passaria impune.

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