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12.3.12

"GRANDES CAMINHADAS COMEÇAM COM A DECISÃO DO PRIMEIRO PASSO"

Participei neste sábado da prévia inicial para a escolha do candidato do Partido Socialismo e Liberdade à prefeitura paulistana --talvez, parafraseando Platão, o primeiro passo de uma grande caminhada para forjarmos uma esquerda anticapitalista capaz de, verdadeiramente, representar uma alternativa de poder no Brasil.

Foi alentador ver tanta gente jovem e empolgada, acreditando que outro mundo é possível. Inevitavelmente, voltaram-me as lembranças do ardor dos secundaristas que acreditávamos ser capazes de sacudir o mundo em 1968.

Estávamos à beira de um abismo e não sabíamos.

O que, aliás, não importaria: ainda que tivéssemos uma antevisão dos horrores dos anos seguintes, com certeza seguiríamos em frente, com o arrojo magnificamente expresso por Caetano Veloso na canção "Mamãe coragem" (sobre o difícil momento de trocarmos a segurança do lar familiar pelos rumos perigosos ditados por nossa consciência):
"Mamãe, mamãe, não chore
Não chore nunca mais, não adianta
Eu tenho um beijo preso na garganta
Eu tenho um jeito de quem não se espanta
(Braço de ouro vale 10 milhões)
Eu tenho corações fora do peito
Mamãe, não chore
Não tem jeito"
Emblematicamente, os três precandidatos do PSOL são continuadores daquela luta. Ivan Valente e Odilon Guedes, inclusive por a terem travado; e Carlos Giannazi, o benjamim da turma, por identificação com os valores e o exemplo da resistência à ditadura militar, tanto que se deve a ele a instituição do Dia dos Mortos e Desaparecidos Políticos no estado de São Paulo.

O partido estará otimamente representado por qualquer um dos três.

Ivan Valente, o presidente nacional do PSOL, participou do movimento estudantil quando era diretor do centro acadêmico da Escola de Engenharia Mauá, foi preso e torturado como dirigente do clandestino Movimento de Emancipação do Proletariado, estava entre os fundadores do PT (tendo integrado seu Diretório Nacional) e acumula vários mandatos como deputado estadual e federal. Saiu do PT em 2005, na mesma leva do Plínio de Arruda Sampaio.

Eu o conheci em 1986, buscando apoio para a greve de fome dos  quatro de Salvador.

Foi um raro caso de petista que procurou ajudar estes companheiros desatinados: eles expropriaram um banco em benefício da revolução quando o país já se redemocratizara, foram renegados pelo PT e abandonados às represálias dos policiais fascistas (os quais tentaram inculpá-los por todos os bancos assaltados no País inteiro, além de tramarem seu assassinato na prisão).

O PT só pensava nos prejuízos eleitorais que adviriam de uma identificação com os autores de tal quixotada. Ou seja, há um quarto de século já colocava o noticiário da imprensa burguesa acima de valores como a solidariedade que os companheiros devem receber de nós quando são alvos da sanha da repressão.

Quanto ao Ivan, eu o reencontraria depois em várias lutas e situações. Nunca deixei de o admirar. E ontem nos cumprimentamos efusivamente, apesar do meu notório apoio à candidatura do Giannazi.

Disputas menores entre companheiros nunca os devem dividir nem azedar relacionamentos. A nós, revolucionários, cabe combatermos os burgueses, seus serviçais e os totalitários como inimigos figadais, mas tratarmos cordialmente os adversários de nossas posições no campo da esquerda. É esta a cartilha pela qual veteranos como o Ivan e eu rezamos.

Após participar do movimento estudantil e revolucionário nos anos de chumbo, Odilon Guedes  obteve destaque tanto na sua profissão (é mestre em economia pela PUC/SP, professor das Faculdades Oswaldo Cruz o presidiu o Sindicato dos Economistas no Estado de SP) como na política, chegando a ser vereador na capital paulista.

Transpira a dignidade de um velho guerreiro, no bom sentido da expressão. Em seu pronunciamento, lamentou que os filiados não estejam dando a devida atenção à sua precandidatura, face à polarização entre Giannazi e Valente. Um de seus apoiadores levantou a possibilidade de que venha a se tornar uma opção para assegurar a unidade do partido.

Só vejo um cenário em que isto seria possível: um quase empate entre os favoritos, com ambos decidindo então abdicar de suas pretensões em benefício de Odilon, o  tertius. Parece-me pouco provável.

O professor Carlos Giannazi apareceu no noticiário em 1998, como diretor de escola que movia céus e terras para abrir novas salas de aula naquele bairro carente, acabando por arrancar das autoridades a cessão de um prédio abandonado. 

Como vereador do PT, posicionou-se contra o desvio para outras finalidades de verbas que pertenciam à Educação. A prefeita Marta Suplicy conseguiu que ele tivesse seu mandato suspenso e fosse expulso do partido, o que só o engrandeceu aos olhos dos que não trocam os princípios pelas conveniências.

Desde então, como vereador e deputado estadual, veio sedimentando sua posição de principal liderança do professorado paulista e esteve sempre alinhado com o movimento estudantil e os movimentos sociais, marcando firme presença em suas lutas.

Sua atividade frenética, colocando o mandato a serviço de todos os bons combates, fez dele o precandidato com mais respaldo nas bases do partido e junto à população. Daí ser o homem certo para este momento, sem demérito nenhum para os  imprescindíveis  Valente e Guedes.

Identifico-me com o repúdio de Giannazi ao autoritarismo no seio da esquerda (amiúde vitupera o stalinismo em suas falas) e com sua convicção de que a crise do capitalismo é grave e ensejará uma nova onda revolucionária. Os dois apostamos, sobretudo, nas ruas e nas praças, que são do povo como o céu é do condor.

É nelas que devemos construir nossa opção, não nos gabinetes do poder. 

OS EMBRIÕES GOLPISTAS

Na minha intervenção, abordei um assunto de ordem geral: a necessidade de todos nós, da esquerda, acompanharmos com muita atenção os manifestos militares e outros embriões golpistas.

Não é tão fácil se derrubar um presidente legítimo, rasgar a Constituição e submeter a nação ao terrorismo de estado. A quartelada de 1964, p. ex., começou a ser tramada no momento em que Jânio Quadros se elegeu presidente da República, em fins de 1960 --tanto que já havia um dispositivo golpista suficientemente estruturado para tentar o  pulo do gato  quando da renúncia de Jânio, em agosto de 1961.

Mas, a falta de respaldo na opinião pública, além da firme reação do governador Leonel Brizola e dos subalternos das Forças Armadas, frustraram esta primeira tentativa.


Foram necessários quase três anos para apresentar-se outra ocasião propícia. Nesse meio tempo, os conspiradores acumularam força; retaliaram os sargentos e cabos que haviam se posicionado contra o golpe, impondo-lhes medidas disciplinares e dispersando-os por unidades longínquas; conseguiram algum apoio da classe média por meio das marchas de carolas, dondocas e reaças; e utilizaram a radicalização de subalternos das Forças Armadas como espantalho para assustar a oficialidade e tangê-la ao golpismo (podem até ter provocado tal radicalização, por meio de figuras como o cabo Anselmo).

Da mesma forma, desde a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva nota-se a existência de embriões golpistas, seu que a  ocasião propícia  surgisse até agora. Eis alguns:
  • o Cansei!, que aspirava a ser uma nova Marcha da família, com Deus, pela liberdade, mas só reuniu algumas centenas de  testemunhas, não decolando;
  • a tentativa de tornar o Supremo Tribunal Federal, sob a presidência de Gilmar Mendes, um polo de poder alternativo ao Governo Federal, tendo a blitzkrieg de usurpação de prerrogativas do Executivo sido detida no Caso Battisti, o que fez o PIG e as forças reacionárias desistirem de apostar na dupla Mendes/Peluso;
  • o caráter ultradireitista que a campanha presidencial de José Serra assumiu no segundo turno de 2010, com o ostensivo envolvimento de remanescentes e de viúvas da ditadura;
  • a reintrodução da repressão caracteristicamente ditatorial nos episódios da ocupação da USP e das  faxinas sociais  na cracolândia e no Pinheirinho, levadas a cabo por efetivos policiais-militares que até hoje cultuam as práticas e a memória do arbítrio;
  • a arregimentação dos católicos contra o aborto e dos evangélicos contra os gays;
  • as recentes insubordinações dos oficiais da reserva, encabeçados por figuras como o coronel Brilhante Ustra (declarado torturador pela Justiça), o General Maynard Marques (que qualificou a presidente Dilma Rousseff de assaltante, torturadora e assassina), o general Valmir Pereira (presidente do Ternuma, um dos sites mais extremados na apologia da última ditadura) e o coronel Jarbas Passarinho (aquele que reconheceu estar mandando os escrúpulos às favas ao assinar o AI-5).
Há, sim, forças empenhadas em mergulhar o País novamente nas trevas. Mas, enquanto o grande capital e os EUA considerarem seus interesses bem servidos sob o status quo, os esquemas golpistas permanecerão em stand by. Não se violenta as instituições no Brasil sem a participação ou o sinal verde dos verdadeiramente poderosos.

Temos, contudo, de manter uma observação atenta dos quadros político e econômico. Os cenários são dinâmicos e, havendo crises e turbulências, os pescadores em águas turvas certamente tentarão alguma cartada para interromper o longo ciclo petista no poder.

E a melhor maneira de lidar com eles nunca foi ceder, como fez o PT ao desistir da descriminalização do aborto para apaziguar religiosos medievaliestas e ao assegurar aos militares insubmissos que a anistia de 1979 permanecerá intocável (diante de uma bravata tão desrespeitosa ao ministro da Defesa e à presidente da República, o primeiro deveria tê-los apenas chamado às falas, sem dar-lhes quaisquer satisfações, nem mesmo a reiteração de obviedades).

A verdadeira esquerda não deve recuar diante das ofensivas direitistas, nem por motivos eleitoreiros, nem por pusilaminidade face às carrancas militares.

Nosso papel é o de mantermos erguidas essas bandeiras que o PT está descartando ou defendendo pela metade (caso da Comissão da Verdade, que poderá ser desfigurada pelas concessões aos comprometidos com a mentira); e de cerrarmos fileiras com o PT na defesa da democracia, caso esta venha a ser ameaçada.

Obs.: computadas as duas primeiras prévias, de um total de seis, Giannazi obteve 288 votos (57%);  Valente, 197 (39%); e  Guedes, 20 (4%).

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