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24.7.13

COMÉDIA DE ERROS BOLIVIANA ACABA EM PASTELÃO

No dia 20 de fevereiro o jovem boliviano Kevin Espada morreu, atingido por um sinalizador naval a respeito do qual, até hoje, existe uma única certeza: a de que jamais deveria ter passado pela catraca de um estádio de futebol.

Passaram-se três semanas e, por esnobismo, preconceito contra as torcidas organizadas, simpatia (neste caso) equivocada pelo governo de Evo Morales ou mera indiferença em relação ao destino dos injustiçados em geral, quase ninguém havia se posicionado, na imprensa brasileira ou mesmo na internet, contra a prisão abusiva dos 12 corinthianos laçados pelas  otoridades  bolivianas para aplacarem a indignação popular.  

Foi quando lancei o artigo Vergonha: Bolívia faz 12 brasileiros de bodes expiatórios (11/03).   

Ao qual seguiram-se Os 12 torcedores sequestrados na Bolívia e a tibieza brasileira (08/05), IstoÉ desmascara a farsa e expõe a chantagem boliviana. E agora, Dilma? (20/05) e Bolívia passa recibo de que prendeu os torcedores corinthianos a esmo (07/06). Este último, quando os sete iniciais foram reconhecidos inocentes das falsas acusações e colocados em liberdade.

A diplomacia do Patriota rima com letargia
Nesta 4ª feira (24/07), os cinco  gaviões da Fiel  restantes foram soltos, a partir de gestões mantidas pelo chanceler Antônio Patriota, por orientação (declarou ele) da presidenta Dilma Rousseff.

Dilma merece meus sinceros cumprimentos. Fez o seu papel.

Já Patriota... não deveria ter se mexido para resgatar os coitadezas muito, mas MMMUUIIITTTOOO antes?! Precisava que a presidenta lhe recordasse qual era o seu dever? Como teria procedido se fossem seus entes queridos a mofarem numa masmorra estrangeira, sem culpa, por cinco intermináveis meses?

De minha parte, também posso considerar o dever cumprido. 

Já para os que não estiveram à altura de suas responsabilidades, deixo o lembrete: ficaram devendo e têm a obrigação de atuarem bem melhor da próxima vez.

O TROGLODITA DO PALÁCIO LARANJEIRAS ATACA DE NOVO

Cara de um....
O desgovernador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, criou por decreto uma Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas.  

Para os verdadeiros democratas, muito piores, mais graves e inaceitáveis são os atos de truculência perpetrados pela Polícia estadual ao barbarizar as mesmas manifestações; jamais a violência estúpida de particulares terá o mesmo peso da violência iníqua dos agentes do Estado, que existem para manter a ordem e não para a estuprar.

...focinho de outro
Pior: em seus delírios totalitários, Cabral acredita que basta seu papelucho de berdamerda para obrigar as empresas de telefonia e provedores de internet a fornecerem informações sobre os participantes dos protestos. 

Confirma o que já suspeitávamos: ele não passa de um brucutu cabal. E pensar que o Rio de Janeiro um dia foi cantado em prosa e verso como a terra dos brasileiros cordiais!

A inconstitucionalidade da medida é tão gritante que a intervenção saneadora do Judiciário constitui uma certeza, favas contadas e caçapa cantada. Assim que acionado, ensinará ao troglodita do Palácio Laranjeiras que o sigilo das comunicações só pode ser quebrado com autorização judicial.
OUTROS DESTAQUES DO BLOGUE "NÁUFRAGO DA UTOPIA" (clique p/ abrir): O PAPA FRANCISCO É UM DEMÔNIO? / O CANTOR QUE TERIA SIDO PUNIDO POR REVELAR OS MISTÉRIOS DO ALÉM / "DEVEMOS EXIGIR DO GOVERNO QUE FORNEÇA ASILO A SNOWDEN" / QUEM NASCE PARA REINALDO AZEVEDO NUNCA CHEGA A CARLOS LACERDA

13.7.13

O ROCK E EU

"Foi o primeiro, foi o único sonho."

É uma das frases mais marcantes de um filme cheio delas: Pierrot Le Fou (1965), de Jean-Luc Godard, que aqui recebeu o estapafúrdio nome de O demônio das 11 horas (como os boçais da companhia distribuidora não entenderam nada de nada, acharam que qualquer título bizarro serviria...).

Meu primeiro sonho foi, claro, a revolução. E nenhum dos subsequentes viria a ser tão importante para mim.

Mas, sobrevivi à grande derrota dos anos de chumbo. E, too young to die (1), só me restou seguir em frente,  living in the material world (2).

Fui juntar meus cacos nas esperançosas comunidades em que os jovens tentavam escapar, ao mesmo tempo, dos tentáculos do sistema e das tenazes da ditadura. Faço um balanço das experiências que vivenciei em Reflexões sobre a sociedade alternativa (3).

Nossa  comuna  também soçobrou ao baixo astral dominante, seguindo a avassaladora tendência brasileira da primeira metade dos anos 70:  out of the blue, into the black (4).

Aí, resignei-me a vegetar durante o dia, quando era obrigado a vender minha força de trabalho intelectual, para só ser eu mesmo à noite, com minha companheira e meus discos, numa quitinete da av. Nove de Julho. Um flash desta fase está em Memórias de um roqueiro pobre.

No final da década, não pensei mais que a cabeça aguentaria se eu parasse (5). Resolvi, portanto, abandonar a comunicação empresarial que no íntimo detestava, mas até então suportara estoicamente; e fui à luta por uma carreira mais gratificante. 

Acabei crítico de rock, redator e editor de várias revistas musicais, numa simpática editorazinha que, talvez por me remunerar parcamente, dava toda liberdade para eu escrever o que me desse na telha.

A transição do roqueiro tardio para o  crítico acidental  é detalhada em Hoje é dia de rock.

Foi quando tive uma breve amizade com o Raul Seixas, consequência da satisfação que sentiu ao ler o meu texto sobre sua primeira coletiva na CBS e o primeiro porre que tomamos juntos (outros viriam):  A teimosia braba do guerreiro

E criei um estilo algo diferente de abordar o rock, que até me valeu uma pequena legião de fãs --a ponto de, três décadas depois, encontrar um dos meus antigos artigos disponibilizados na internet, por alguém que se deu ao trabalho de o digitar e postar: Rock germânico no Brasil

A bagagem de informações roqueiras e avaliações críticas que então acumulei pode ser aferida num dos meus escritos mais ambiciosos, o comemorativo dos 20 anos do festival de Woodstock: Éramos crianças, brincando no paraíso

Mas, acabei também me sentindo  too old to rock'n roll (6). E, no final de 1984, a crise do papel me deu o empurrão final, ao tornar inviável minha subsistência  meio dentro e meio fora do sistema

Muito a contragosto, tive de ir buscar um espacinho na grande imprensa. Com o único consolo de que não perdia muito, pois o rock visceral que tanto me empolgara estava sendo substituído pelas megaproduções sem alma. É o que conto em O divisor de águas: de 'Born to be wild' para 'We are the champions'... 

Finalmente, na década passada dei nova guinada na minha vida e, por caminhos tortuosos e sofridos, acabei voltando ao palco revolucionário, ou seja, à minha verdadeira praia, onde sempre quis estar e de onde jamais deveria ter saído. 

Curiosamente, uma revista de rock me pediu que iniciasse uma colaboração, bem naquele momento em que caía para alguns internautas a ficha de que o sumido crítico André Mauro e o Celso Lungaretti atuante na defesa do Cesare Battisti eram a mesma pessoa.

Aproveitando a deixa, dissequei minha trajetória pouco convencional no artigo Still crazy after all these years.  

O título, eu tomei emprestado de uma canção pungente do Paul Simon. Mas, creio ter adquirido o direito de o utilizar, até por jamais haver perdido a esperança de que os fios da História seriam reatados e novos inconformistas levariam adiante a luta contra o inferno pamonha (7) do capitalismo, partindo do ponto exato em que  fomos tão rudemente interrompidos (8).

Neste 2013 em que as pedras voltaram a rolar, o Dia Mundial do Rock não está mais na TV, nos palcos e em nenhum espetáculo programado. Está nas ruas. Até porque  há mais no quadro do que os olhos podem ver (9)...

Observações:
  1. Too old to rock'n roll, too young to die é a faixa-título do álbum de 1976 do Jethro Tull;
  2. Nome da faixa-título de um álbum de 1973 do George Harrison;
  3. Os trechos em vermelho são todos links, clique para abrir o artigo citado;
  4. Verso da canção My my, hey hey (out of the blue), do Neil Young;
  5. Referência à canção Tente outra vez, do Raul Seixas;
  6. Vide, acima, a observação 1;
  7. Expressão que o Paulo Francis criou para qualificar o capitalismo de imbecilizante, afora desumano;
  8. Before We Were So Rudely Interrupted é o título do ábum de reagrupamento do The Animals;
  9. Outros versos do hino roqueiro My my, hey hey (out of the blue).

5.7.13

AS RINHAS ENTRE CELEBRIDADES DA IMPRENSA: LAMENTÁVEIS!

Leio no Portal Imprensa que o jornalista Paulo Henrique Amorim foi condenado a 20 meses de prisão por "injúria preconceituosa" de cunho racista contra o colega Heraldo Pereira (veja aqui), podendo, contudo, a pena ser substituída por alguma restrição de direito a ser definida; e que Boris Casoy e Jorge Kajuru trocaram pesadas acusações pelo Youtube (veja aqui), o primeiro tratando o segundo como um "pobre coitado" que teria telefonado ao bicheiro Jorginho Cachoeira para pedir-lhe dinheiro (veja aqui) e o Kajuru retrucando que Casoy seria "elitista", "racista", "fascista" e "pedófilo" (veja aqui).

Os leitores podem tirar suas conclusões clicando nos quatro links acima. Eu apenas destaco que a catilinária de Kajuru contra Casoy foi a mais ofensiva de que já tomei conhecimento numa refrega entre jornalistas, daí eu estranhar que "o Boris não irá se manifestar sobre esse assunto", segundo a assessoria de imprensa da Band.

Como alguma resposta ele terá de dar em função da gravidade das imputações, presumo que vá novamente acionar a Justiça.

Então, quero deixar registrado meu inconformismo com a estranha prática de jornalistas recorrerem aos tribunais, quando o instrumentos e armas do nosso ofício são o teclado e o microfone. Heraldo, Boris e todos os outros que assim têm procedido, deveriam confiar mais nos próprios tacos do que nas togas.

O Paulo Francis, p. ex., sempre encontrava o que responder, mesmo quando um Caetano Veloso da vida o qualificava de "bicha amarga", "boneca travada", etc. Na minha opinião, ao esnobar Caetano como mero "fabricante de ruídos populares", ele causou mais danos ao ego do adversário do que conseguiria infligir-lhe se também apelasse para baixarias.

3.7.13

VERGONHA!!!!!!!!!!

A notícia é da Folha de S. Paulo e tem como título Brasil ignora solicitação de asilo de delator americano.

Começa errada, pois rotular Edward Snowden de delator é alinhar-se com a infame posição do governo estadunidense, colaborando com a estigmatização de um justo.

Se um governo comete flagrantes ilegalidades, como a de espionar em massa seus próprios cidadãos, qualquer homem digno que  tome conhecimento deste delito, funcionário ou não, tem o direito e até o dever de denunciar a ilicitude. Snowden, portanto, é DENUNCIANTE, não delator. Nada fez que justificasse prisão; merecia, isto sim, medalhas, porque HERÓI ele é. 

Assim como Julian Assange e Bradley Manning também são incontestáveis HERÓIS da luta pela transparência das ações governamentais. Os três colocaram sua liberdade e sua sanidade em risco para exporem os terríveis abusos de poder cometidos por altas autoridades dos EUA. 

Quem deveria ser processado é, para começar, o diretor da Agência de Segurança Nacional dos EUA, general Keith Alexander. E todos os funcionários que obedeceram a suas ordens arbitrárias. E o próprio presidente Barack Obama, se ficar provado que teve conhecimento prévio desta arapongagem em larga escala e a autorizou.

Em fuga pelo mundo, Snowden ora se encontra num aeroporto de Moscou. A Rússia se recusa a entregá-lo aos EUA e até admite sua permanência, desde que se sujeite a uma imposição para ele inaceitável: a de nada fazer que venha a  prejudicar  o governo estadunidense. Ou seja, que aceite ser manietado em benefício da tranquilidade de terroristas de estado.

Tentando conseguir um asilo sem tal condicionante, ele mandou carta a 21 países, inclusive o nosso.

Segundo a Folha, o porta-voz do Itamaraty, Tovar Mendes declarou o seguinte:
"O Brasil não vai reagir à carta com pedido de asilo. Nem sequer considerará seu mérito, pois ele circulou em carta genérica. A concessão de asilo não é feita de modo automático. O cidadão sequer está em uma embaixada do Brasil".
Trata-se de uma repulsiva evasiva burocrática para não honrar a tradição brasileira de acolher perseguidos políticos de todos os quadrantes e de todas as ideologias. Conforme lembrou o combativo jornalista Laerte Braga, alguns dos piores vilões da extrema-direita, como George Bidault, Marcelo Caetano e Alfredo Stroessner, "foram recebidos com loas e protegidos enquanto viveram".

Para o Laerte, "a diferença entre Dilma Roussef e FHC é apenas a saia". Eu não iria tão longe, mas deixo registrada minha mais profunda indignação com esta  saída pela tangente, uma maneira enviesada de fugir às responsabilidades que nossa dignidade nacional impõe. Teremos voltado, em pleno governo do PT, a ser quintal dos EUA?!

1.7.13

ELIO GASPARI REPETE AS FALÁCIAS DAS VIÚVAS DA DITADURA

De vez em quando o Elio Gaspari toma emprestado o chapéu do Reinaldo Azevedo ...
Elio Gaspari, napolitano radicado no Brasil há quase sete décadas, é um homem de esquerda que, em 1968 e anos seguintes, abominava os movimentos contestatórios que sacudiam o mundo. 

Assim como o genovês Mino Carta, mantinha-se devoto do comunismo desvirtuado e burocratizado que  se desmanchava no ar, esfarelando-se sob o impacto das duas grandes primaveras, a de Paris e a de Praga. Virou as costas à juventude mais combativa que o Brasil já produziu e está resmungando até hoje contra quem verdadeiramente lutou, enquanto seus camaradas se omitiam e até sabotavam a resistência heroica que uns poucos Davis opúnhamos à legião de Golias da ditadura militar.

Nunca esquecerei o desgosto que nos causava receber notícias de morte ou torturas de companheiros queridos, simultaneamente com relatos dos esforços mesquinhos da direção do PCB para convencer seus militantes a não nos apoiarem em nenhuma circunstância, a não nos darem abrigo, a dificultarem o acesso a jornalistas de esquerda que poderiam fornecer-nos informações vitais, a não nos disponibilizarem médicos nas emergências, etc.

Chegou até a fazer publicar no principal jornal do partido (Voz Operária, se bem me lembro) a calúnia de que o comandante Carlos Lamarca seria instrumento da CIA. Sentíamo-nos esfaqueados nas costas pelos velhos stalinistas --que, como os leopardos, não perdiam as pintas, hostilizando os adversários pertencentes ao seu próprio campo com virulência muito maior do que a dedicada aos inimigos de classe.

Do ponto de vista moral, nosso martírio significou, para os Minos e os Gasparis, uma fragorosa e contundente derrota, com a qual não se conformam até hoje.  Por mais que eles nos tentem diminuir, somos muito respeitados pelas novas gerações, como os filhos do Brasil que não fugiram à luta.

Eu acrescentaria: salvando a honra do nosso país como os resistentes franceses salvaram a da nação deles. Nem uns nem outros fomos realmente vitoriosos, mas Jean Moulin e seus valorosos companheiros evitaram que a França ficasse para sempre identificada com o colaboracionismo do Marechal Pétain; e nós, que o Brasil ficasse identificado com os especuladores favorecidos pelo  milagre  econômico, tão escandalosamente eufóricos com sua prosperidade repentina quanto indiferentes ao festival de horrores que transcorria sob seus narizes.

Uma dor de cotovelo que atravessou as décadas explica a rancorosa cruzada movida em passado recente pelo Mino contra o perseguido político Cesare Battisti, sem nunca haver tido a dignidade de reconhecer que sua motivação real eram as antigas desavenças entre o (por ele) tão estimado Partido Comunista Italiano e os agrupamentos mais à esquerda.
A perseguição desmedida a Battisti só serviu para desmoralizar Mino 

No fundo, Mino continua até hoje furibundo com os revolucionários que confrontavam verdadeiramente a burguesia, enquanto o PCI traía suas bandeiras históricas, firmando um compromisso podre com a Democracia Cristã e ajudando a salvar o capitalismo.

Battisti era, para ele, um símbolo daquele repúdio generalizado ao aburguesamento do PCI. Incapaz de autocrítica, Mino não admite até hoje que o fracasso e decadência do  partidão  de lá se deveram exatamente aos conluios com os inimigos de classe, não à atuação dos  autênticos  que acertadamente repudiavam tais conluios (mas, levados ao desespero, acabaram incorrendo em excessos nefastos como o assassinato de Aldo Moro).

Gaspari, por sua vez, continua (tanto tempo depois!) furibundo com os  autênticos  de cá, por não nos termos resignado à impotência enquanto o PCB tentava  civilizar  a ditadura. 

Longe demais das ruas e próximo demais dos gabinetes palacianos, o  partidão  brasileiro sonhava com os militares abdicando do poder em benefício de lideranças paisanas como o governador de São Paulo, Abreu Sodré.

Daí ter convencido Sodré a comparecer e até a discursar nas festividades do 1º de maio de 1968, quando acabou sendo escorraçado do palanque a pedradas pelos trabalhadores do ABC e Osasco, com o apoio do movimento estudantil.

O historiador  vacilão  não nos perdoa por termos atrapalhado os planos conciliatórios do PCB, na verdade quiméricos; naquele tempestuoso 1968, a  linha dura militar acabaria prevalecendo de qualquer maneira sobre a turma do deixa disso!, nem que tivesse de forjar outras farsas como os atentados terroristas do guru maluco Aladino Felix (por ela controlado -- vide aqui).

Vale lembrarmos, p. ex., que o principal pretexto para a imposição do AI-5 adveio de um discurso sem a mínima importância que Márcio Moreira Alves proferiu, apenas para constar nos anais, numa sessão da Câmara Federal transcorrida às moscas. Sua diatribe inócua passaria totalmente despercebida se um jornalista de direita não a tivesse divulgado. E foi pra lá de exagerado o empenho da ditadura em cassar seu mandato. Tudo não passou de uma crise fabricada, enfim. 

Mas Gaspari quer porque quer culpar-nos pela radicalização do regime, nem que tenha de fazer eco às mais imundas falácias das viúvas da ditadura. Os velhos rancores o desnorteiam.

O EPISÓDIO 'ALGOZ E VÍTIMA'
Gaspari teve de indenizar Dulce Maia por falsa acusação 

Foi assim que, em 2008, Gaspari assumiu as mágoas da vítima casual de um atentado contra o consulado estadunidense em São Paulo, ocorrido quatro décadas antes: Orlando Lovecchio Filho teve o azar de estar estacionando seu carro no Conjunto Nacional, em plena madrugada, quando explodiu um petardo lá deixado.  

Indignado com a reparação que a Comissão de Anistia acabava de conceder a um suposto partícipe do atentado, Gaspari escreveu um folhetim lacrimoso sobre a diferença entre o montante a ele outorgado e o valor (inferior) recebido por sua suposta vítima. 

A polêmica provocada por Gaspari terminou miseravelmente para ele (veja mais detalhes aqui):
  • ficou esclarecido que o dito algoz  (Diógenes Carvalho) não era algoz, pois acusado falsamente;
  • Dulce Maia, também inocente da acusação que Gaspari lhe fez, processou-o e obteve vitória exemplar na Justiça;
  • constatou-se que, além de errar a identidade de dois dos quatro autores do atentado, Gaspari também o imputara à organização errada (tinha sido uma ação da ALN, e não da VPR); e
  • o único dos quatro ainda vivo lembrou haver sido processado por Lovecchio, vencendo a batalha jurídica por ter provado documentalmente que a perna do dito cujo não fora amputada em função do ferimento em si, mas sim porque a repressão ditatorial interrompera seu tratamento de emergência para interrogá-lo, só o devolvendo aos médicos quando a gangrena se estabelecera irreversivelmente.
Gaspari tinha duas opções:
  • desqualificar resistentes que, em extrema inferioridade de forças, confrontavam uma ditadura atroz e, no caso específico, não pretenderam atingir ninguém, tanto que programaram o atentado para horário inóspito; ou
  • soltar os cachorros contra um regime que arrancava um cidadão gravemente ferido de uma UTI  por mera suspeita de que fossem um militante atingido pela própria bomba. 
Ter escolhido o primeiro alvo diz muito sobre seu caráter.

Pior: omitiu a informação jornalisticamente mais importante de todo o episódio, aquela que comprovava a negação de socorro por parte de agentes do Estado. A responsabilidade das autoridades é sempre maior que a de particulares.

AGORA, UM DESCALABRO HISTÓRICO
Foi deplorável contrapor à passeata dos 100 mil um episódio tão menor  

O tiro pela culatra de 2008 não lhe bastou como lição: neste domingo (30), Gaspari voltou à carga, recriminando o esquecimento de um episódio menor (talvez por já ter saturado a todos, de tanto que foi explorado pela rede de propaganda ultradireitista) e contrapondo-o a outro infinitamente maior:
"No dia 26 de junho de 1968 aconteceram duas coisas. Às 4h30, de madrugada, o soldado Mario Kozel Filho, de 18 anos, estava na guarita de sentinela do QG do 2º Exército, no parque do Ibirapuera, e viu uma caminhonete C-14 vindo em direção ao portão do quartel. Desgovernada, ela parou num muro. O soldado foi ver o que era, e a C-14, com 50 quilos de dinamite, explodiu e matou-o. Horas depois, numa bela tarde do Rio, a passeata [dos 100 mil] saiu pela avenida.
Seis meses depois o governo baixou o AI-5, ninguém foi para a rua, e o Brasil entrou no seu pior período ditatorial. Não foi a passeata que levou a isso. Ela era o fim de um ciclo. A bomba e o interesse do governo em subverter a precária ordem constitucional da época foram o início de outro.
...Festejando-se a memória da passeata, varreu-se para baixo do tapete a lembrança de um erro catastrófico. Passaram-se 45 anos e centenas de pessoas que participaram de atos terroristas se maquiaram como combatentes da causa democrática. Lutavam contra uma ditadura, em busca de outra, delas".
Esta ação, sim, foi da VPR. E no Congresso de Mongaguá, em abril/1969, a organização decidiu nunca mais reagir de forma tão pueril às provocações do inimigo (um comandante militar, em declarações à imprensa, qualificara os resistentes de  covardes, desafiando-os a irem enfrentá-lo  como homens  no seu quartel). 

Tais demonstrações de força foram, dali em diante, vetadas, tanto que a VPR se negou a fornecer a um grupo menor a dinamite por ele solicitada para mandar pelos ares a estátua do Duque de Caxias no Dia do Soldado de 1969.

A morte de Kozel constituiu-se mesmo num  erro catastrófico, até porque o recruta incidentalmente atingido não passava de um pobre coitado. Mas, nem de longe teve a importância que Gaspari lhe atribui, praticamente colocando-a no mesmo plano da maior e mais emblemática manifestação de protesto contra a ditadura dos generais.

Quando os cidadãos pegam em armas para confrontar tiranias, invariavelmente ocorrem incidentes deste tipo. A Resistência Francesa, p. ex., errou muito mais do que a brasileira, sem que a ninguém ocorra jogar-lhe isto na cara. Os franceses são gratos a quem correu riscos e se martirizou por eles.
Outro pretexto para o AI-5

Quanto à  presunção de que a ditadura  entrou no seu pior período  por causa de uns poucos atentados que passavam quase batidos quando as massas contestavam o arbítrio nas ruas, trata-se de uma falácia que Gaspari tomou emprestada das  viúvas da ditadura, sempre à procura de atenuantes para os massacres e atrocidades do regime militar.

A ordem, na verdade, foi inversa: a partir do  interesse do governo em subverter a precária ordem constitucional da época, foram pinçados, aqui e ali, pretextos para submeter o país ao totalitarismo absoluto. Tudo serviu: os atentados realmente cometidos pela esquerda, os que a própria ditadura forjou, o discurso incauto de Márcio Moreira Alves e a recusa do Congresso em entregar sua cabeça, uma reportagem de capa famosa da revista Veja denunciando as torturas, etc.

E, com o Brasil praticamente sob estado de sítio, só restou aos resistentes o caminho da luta armada, cujas fileiras, até então numericamente insignificantes, foram em muito ampliadas, recebendo centenas de militantes antes dedicados ao trabalho de massas. Consequentemente, o que era secundário, quase irrelevante, em 1968, passou para o primeiro plano em 1969.

Outra falácia que Gaspari tomou emprestada dos Ternumas da vida  é a de que os resistentes lutávamos por outra ditadura. Historiador relapso, ele  esquece  que havia de tudo entre nós, inclusive católicos indignados com os  pecados  da repressão e dignos defensores da legalidade constitucional, passando por um sem-número de tendências da esquerda. O único ponto em comum era o repúdio à ditadura. 

Nós, da VPR, acreditávamos que, no  day after, seria criado um parlamento com a participação de todos os agrupamentos que haviam combatido o regime militar, para a definição das politicas a serem adotadas. Tínhamos clara consciência de que, inexistindo uma força dominante, as decisões deveriam ser consensuais,  jamais impostas, para não haver o risco de cedermos a tentações autoritárias.

Finalmente, as perguntas que não querem calar:
  • por que Gaspari nos execra tanto por supostas e não concretizadas intenções, havendo uma infinidade de crimes efetivamente cometidos e provados, um número tão elevado de ações genocidas e hediondas da ditadura para ele deplorar?
  • por que Gaspari se escandalizou tanto com dois episódios infelizes que para nós representaram exceções, se as torturas foram sempre  regra  para a ditadura e as execuções de prisioneiros indefesos também viraram  regra, a partir de 1971? Uma ou outra situação que fugiu do controle deve ser mais recriminada do que massacres sistemáticos, levados a cabo como uma política de Estado?
Guiado por suas frustrações, Mino Carta fez patética figura durante o Caso Battisti; e Elio Gaspari se desmoraliza cada vez que lança suas catilinárias contra os resistentes que pegaram em armas, invariavelmente acabando por ecoar, como papagaio, a mais rançosa retórica da extrema-direita. 

Ambos deveriam procurar catarse no divã do analista, não no teclado.

30.6.13

SELEÇÃO VENCE E CONVENCE. MAS NÃO DERROTOU A MELHOR DO MUNDO

Foi a vez da Seleção Espanhola  cair na real...
Numa noite em que tudo deu certo para a nossa Seleção, o Brasil ganhou a irrelevante Copa das Confederações e também algo muito mais valioso: resgatou o auto-respeito futebolístico, deixando definitivamente para trás o inferno astral dos últimos anos. 

Só não pode superestimar tal conquista, pois o escrete ainda não está pronto para os desafios que enfrentará no Mundial de 2014. 

Algumas peças precisam ser substituídas, mas o trabalho de renovação (que, justiça seja feita, deve ser creditado principalmente ao técnico Mano Menezes) já deu bons frutos, com a afirmação de Neymar, Paulinho, Oscar, David Luiz, Luiz Gustavo, Hernanes e Marcelo. Somados aos  sobreviventes  Daniel Alves e Thiago Silva, compõem uma boa base para a próxima Copa do Mundo.

É uma pena que Lucas não haja tido mais chances nem aproveitado bem as que lhe deram, pois se trata de um jogador muito mais promissor do que o tão esforçado quanto limitado Hulk.

E a boa campanha de Júlio César não deveria enganar ninguém; se fôssemos levar em conta apenas grandes fases, os  milagres  do corinthiano Cássio na Libertadores e Mundial de Clubes do ano passado deveriam valer-lhe a camisa da Seleção. Um técnico menos intransigente do que Felipão descartaria apostas temerárias em goleiros irregulares, preferindo a consistência de Cavalieri e Jefferson.

Igualmente temerária é a aposta em Fred, o anacrônico artilheiro que passa 90 minutos à espera de uma chance para colocar a bola nas redes. Desta vez deu certo, mas não devemos esperar que as defesas adversárias sejam tão vulneráveis em 2014. Precisamos de atacantes que façam gols e outras coisas mais, participando efetivamente do jogo coletivo.
...repetindo o vexame do Barcelona na Liga dos Campeões.

Para reduzir o excesso de euforia tão comum nos brasileiros, que costumam passar da mais profunda depressão ao mais irrealista  já ganhou!, é bom lembrarmos que a decadência da escola espanhola já havia se evidenciado na Liga dos Campeões. Os 3x0 deste domingo foram uma reprise do  chocolate   ainda maior que o Barcelona levou do Bayern.

Os espanhóis têm um ano para se reciclarem, principalmente: 
  • montando uma defesa sólida, pois não podem mais confiar na força do ataque  para compensar a fragilidade da zaga (foi o que se viu nesta final: o gol de Fred,  achado  mas facilitado pela habitual inépcia da Espanha face ao jogo aéreo, abriu caminho para a vitória brasileira);
  • garimpando atacantes mais competentes para completarem (e aproveitarem) o excelente trabalho dos armadores.
Agora se percebe que a receita do futebol mágico do Barcelona tinha, como ingrediente obrigatório, o gênio de Messi. Bastou ele atuar  baleado  contra o Bayern para os catalães serem reduzido à impotência.

Já a Seleção Espanhola, não dispondo de ninguém remotamente equiparável, foi também reduzida à impotência neste domingo, pois um Iniesta só não faz mais verão.

Quanto ao Brasil, está na bom caminho, mas tem de começar desde já a preocupar-se com o melhor futebol da atualidade: o alemão. Não voltou a ser o nº 1 do mundo por haver suplantado, três anos depois, o vencedor do último Mundial. Longe disto.

29.6.13

É A SENTENÇA DO STJ QUE ESTÁ ERRADA? OU A NOTA DO STJ?

"O leão fugiu da jaula. 
Mas, calma minha gente, 
que o leão é sem dente"
(Jorge Benjor, 
"O circo chegou")

Companheiros, amigos e até parentes me perguntam, aflitos, o que acontecerá com o escritor italiano Cesare Battisti a partir da decisão da 5ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, de confirmar a sua condenação em primeira instância por estar portando passaporte falsificado quando a Polícia Federal o deteve no Brasil.

Respondo: DE IMEDIATO, NADA. Ainda cabe recurso; então, não é crível que o Ministério da Justiça venha a atropelar os direitos de Battisti, posicionando-se antes da pendenga estar concluída em termos jurídicos.

Resta sabermos se foi equivocada a redação da nota do STJ (leia íntegra aqui) ou a própria sentença, quanto a este detalhe:
"Cópia da decisão será encaminhada ao ministro da Justiça, para as providências que entender cabíveis. Isso porque o Estatuto do Estrangeiro (Lei 6.815/80) prevê no artigo 65, parágrafo único, alínea 'a', a expulsão do estrangeiro que praticar fraude para obter sua entrada ou permanência no país".
Podemos supor que se tenha decidido dar conhecimento ao Ministério da Justiça para que ele possa desde já ir fazendo um estudo PRELIMINAR do assunto, sobre o qual, EVENTUALMENTE, terá de se posicionar ADIANTE.  Esta é A ÚNICA PROVIDÊNCIA CABÍVEL NESTE MOMENTO.

Foi exatamente o que declarou o advogado de Battisti, Luiz Eduardo Greenhalgh, à Folha de S. Paulo: ele "disse 'estranhar' a nota do STJ, pois o ministério só poderá atuar após o esgotamento dos recursos cabíveis contra a decisão". 

Então, promete um parecer mais conclusivo para quando tiver tomado conhecimento do teor da sentença. E deixou implícito que vai dela recorrer.

Resumo da opereta: tudo indica que haja ainda muita água a passar sob a ponte, até termos reais motivos de inquietação.

De resto, os doutos integrantes da egrégia 5ª Turma do STJ estão, data vênia, VIAJANDO NA MAIONESE, ao considerarem fraudulenta uma prática à qual recorrem quase todos os perseguidos políticos obrigados a se refugiarem noutro país. O objetivo do legislador foi, EVIDENTEMENTE, o de evitar que bandidos escapassem das garras da Justiça, e não o de ajudar estados totalitários ou democracias imperfeitas a caçarem alhures seus opositores e seus bodes expiatórios (como Battisti).

Ao negar a extradição do escritor, o Supremo Tribunal Federal decidiu que ele é um perseguido merecedor da proteção do Estado brasileiro. A decisão da 5ª Turma vai em direção contrária e, portanto, acabará sendo derrubada, pois o STF fala mais alto. É simples assim.

28.6.13

A ONDA NACIONAL DE PROTESTOS É O COROAMENTO DE 6 ANOS DE ESFORÇOS

A desinformação campeia --talvez porque os principais veículos de comunicação escrita e eletrônica abdicaram da nobre tarefa de informar os cidadãos, trocada pela de os manipular em tempo integral, tangendo-os para o consumismo, o conformismo, o conservadorismo e o reacionarismo.  

Então, quando manifestações de protesto eclodem no País inteiro, parecem vexados de não terem, no momento preciso, dado o devido destaque aos acontecimentos que prepararam o terreno para elas --principalmente o renascimento do movimento estudantil. Então, omitem as etapas percorridas até as jornadas atuais, como se elas tivessem caído do céu.

Eu, pelo contrário, o saudei emocionado, naquele maio de 2007 em que os estudante da USP levaram a cabo a primeira ocupação de reitoria do Brasil redemocratizado. 

Foi quando escrevi o texto abaixo, convicto de que os fios da História começavam a ser reatados, para a retomada dos movimentos de contestação no estágio em que eles pararam quando a assinatura do AI-5 arrojou o Brasil nas trevas absolutas, no arbítrio total.

Como não estamos mais sob ditadura, a acumulação de forças desta vez foi mais lenta, embora perceptível. Para quem tem um mínimo de sensibilidade política, eram favas contadas que, mais dia, menos dia, uma enorme onda de protestos sacudiria o País.

Então, faço questão de lembrar como tudo (re)começou, publicando novamente um dos textos que mais me orgulho de haver escrito. Lancei-o no dia 31/05/2007. Alguns dias depois, o então governador José Serra capitulou, anunciando que reveria os quatro decretos autoritários repudiados pelos uspianos. 

Foi uma vitória tão emblemática como a que o Movimento Passe Livre acaba de conquistar, forçando o recuo de Geraldo Alckmin e Fernando Haddad na questão das tarifas. 

POR DENTRO DA REITORIA OCUPADA

A última segunda-feira de maio é ensolarada, uma exceção no invernal outono paulistano. As pessoas ao redor da reitoria da Universidade de São Paulo, ocupada pelos estudantes desde o dia 3, mostram aquela animação habitual de quem reencontra o calor e o céu azul, após vários dias frios e cinzentos.

Conversam, brincam, confraternizam. Há líderes de servidores públicos se revezando num alto-falante para instruir/entreter quem chegou adiantado à reunião da categoria que terá lugar ali mesmo, ao ar livre. Ninguém parece preocupar-se com uma invasão da Polícia Militar, para cumprir o mandado de reintegração de posse concedido pela Justiça.

Uma barricada de pneus diante da entrada é a vitrine da ocupação. De que realmente servirá, caso cheguem brutamontes bem treinados e equipados, que têm a violência como realidade cotidiana? Quase nada. Mas, os símbolos têm papel importante nas batalhas em que o grande objetivo estratégico é a conquista de corações e mentes.

Diante da única porta de entrada, alguns estudantes do esquema de segurança fazem a triagem dos visitantes. Basta ter uma carteirinha de aluno ou professor da USP para entrar sem problemas. Como não sou uma coisa nem outra, levo alguns minutos para convencê-los de que não vim brincar de 007.

Como credencial, apresento meu livro Náufrago da Utopia, que por acaso trago comigo. Agrada-lhes o caderno iconográfico, com muitas fotos do movimento estudantil de 1968. Meio convencidos de minhas boas intenções, deixam que eu vá parlamentar com a  Comissão de Comunicação  (ou rótulo que o valha). Acompanhado, por enquanto.

Lá decidem que eu posso circular à vontade pela reitoria ocupada, liberando meu cicerone/vigia para outras tarefas. Uns 15 estudantes rodeiam meia dúzia de computadores, uns digitando e os outros palpitando.

Cuidam de manter o blogue da ocupação no ar, de selecionar e imprimir textos que serão expostos nos quadros de avisos e paredes. E também de mandar mensagens de esclarecimento aos jornalistas que falam mal da ocupação. [Como se isso adiantasse. Tirando honrosas exceções, a imprensa se colocou contra os estudantes, às vezes dissimuladamente, outras da forma mais panfletária e caluniosa, como fez a Veja São Paulo, que os acusou de “vândalos”, “baderneiros” e “arruaceiros”.]

A diferença mais marcante em relação às ocupações antigas é, exatamente, o esquema de comunicação sofisticado da atual, incluindo TV por Internet e   rádio livre. De resto, sinto-me como se tivesse entrado num túnel do tempo e desembarcado naquele mês de julho de 1968 em que a Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia (SP) esteve ocupada para servir como QG das iniciativas em apoio da Greve de Osasco, lançando a nova onda que (como agora) rapidamente se alastrou.

Os mesmos colchonetes espalhados por um salão em que repousam alguns sentinelas cansados, após a vigília da madrugada – período mais propício para uma operação policial, exigindo, portanto, cuidados redobrados (e muita disposição para enfrentar o frio).

Os mesmos jovens com roupas coloridas e brilho no olhar, convencidos de que estão fazendo História, embora alguns ainda sejam imberbes.

Os mesmos mosaicos de textos e imagens compondo um visual agradavelmente anárquico. [O pôster mais hilário é o do governador José Serra fazendo mira com um fuzil e os dizeres “José Serra, nada mais nos U.N.E.”. Que ingenuidade, deixar-se fotografar em pose tão incompatível com sua aura e seu passado!]

Sou capaz de apostar que, se fizesse uma  excursão  como a que estou fazendo, a reitorazinha teria chiliques, pois, à  anarquia criativa, deve preferir os ambientes burocratizados, assépticos e sem vida, a julgar pelo que revela nas entrevistas: faz musculação, esteira e escova nos cabelos, usa terninhos de estilo clássico, quer corrigir pálpebras e bochechas com cirurgia plástica.

Deuses, o que faz uma farmacêutica numa posição dessas? Serão esses os temas que uma reitora deve tratar na imprensa, quando sua universidade vive a maior crise das últimas décadas? [De quebra, é uma ingênua que, a mando ou com autorização do governador, pede reintegração de posse e depois paga o mico de ver o mandado judicial descumprido, já que os estudantes não engoliram o blefe e Serra teme as conseqüências desse presumível confronto sobre suas ambições políticas.]

Apesar de toda a grita demagógica dos direitistas empedernidos e dos cristãos-novos do reacionarismo, não há sinais visíveis de depredação ou vandalismo. Aliás, os estudantes criaram um sem-número de comissões, para cuidar de cada detalhe  administrativo  da ocupação, zelando pelo patrimônio público. Até permitem que os faxineiros continuem cumprindo sua função de manter limpas as várias dependências, indiferentes ao “perigo” de que o  inimigo  possa infiltrar-se camuflado com macacões.

O que não funciona mesmo são os caixas eletrônicos de bancos, nos quais  foram colados avisos de “sem dinheiro”. Uma fração infinitesimal da usura consentida pela Justiça e abençoada pelo sistema foi detida. Vem-me à lembrança uma música de Sérgio Ricardo, ídolo dos universitários responsáveis pelas ocupações de quatro décadas atrás: “Os bancos e caixas-fortes/ que eram rocha, se quebraram/ e um rio de dinheiro correu”.

À saída, lanço um último olhar a esses jovens belos, brilhantes e idealistas, aparentemente tão frágeis, mas dispostos a enfrentar a tropa de choque da PM, se isso for necessário. Espero, torço para que não venha a ser.

Volto para o mundo real da desigualdade, da competição e da ganância, depois de um breve reencontro com o faz-de-conta revolucionário. Ciente de que há um longo caminho a percorrer até que os voluntários da utopia voltem a ser em número suficiente para tentarem ir além do faz-de-conta.

E, mesmo assim, esperançoso, pois um passo importante está sendo dado, com esse renascer do movimento estudantil que ora se delineia. É tudo de que precisamos, a renovação e oxigenação da esquerda, depois de tantas desilusões e defecções.

As pedras voltam a rolar. 

26.6.13

O ARQUITETO DO REICH FOI CONDENADO EM NUREMBERG. O ECONOMISTA DA DITADURA TAMBÉM SERIA!

Delfim como papagaio de pirata do ditador Costa e Silva
"Se as condições fossem as mesmas e o futuro não fosse opaco, eu repetiria", afirmou Delfim Netto, referindo-se à sua ignóbil assinatura no hediondo Ato Institucional nº 5. Ou seja, ainda hoje ele seria capaz de apoiar o elenco de medidas que desencadeou o arbítrio sem quaisquer limites.  

O AI-5 proibiu o Judiciário de conceder habeas corpus para os perseguidos políticos, dando à ditadura militar sinal verde para torturar os resistentes a bel-prazer, além de outras disposições totalitárias: reforçou os poderes do presidente da República para decretar estado de sítio, intervenção federal, suspensão de direitos políticos, restrições ao exercício de direitos públicos ou privados (principalmente o afastamento dos  subversivos  de seus cargos), cassação de mandatos eletivos, imposição de recesso ao Congresso, assembléias legislativas e câmaras municipais, etc.

Delfim foi convocado para depor na Comissão da Verdade do município de São Paulo e eram favas contadas que ele não perderia as estribeiras, dando espetáculo tão patético quanto o do torturador-símbolo da Nação, Carlos Alberto Brilhante Ustra, ao comparecer à Comissão Nacional da Verdade. 

Speer: condenado, como mereceu!
Não, ele é ave de outra plumagem; os serenos mandantes, que não chegaram a ter uma gota sequer de sangue nos seus ternos chiques, se diferenciavam em muito dos destrambelhados paus mandados, aqueles cujas fardas ficaram emporcalhadas com o sangue das vítimas. 

No entanto, foi acintosa e repulsiva a afirmação de Delfim, segundo quem  o AI-5 teria sido necessário porque o país "estava num estado de desarrumação geral". Impor a paz dos cemitérios nunca foi método de arrumação.

Caso houvesse ocorrido aqui um julgamento como o de Nuremberg, mais do que justificável nas circunstâncias, decerto Delfim Netto seria condenado como o foi, p. ex., o arquiteto do Reich, Albert Speer, que também não era  pessoalmente responsável por nenhuma tortura ou assassinato, mas tinha total responsabilidade política por um governo monstruoso. 

Curiosamente, as desculpas esfarrapadas de ambos foram as mesmíssimas. Delfim alegou que desconhecia as torturas e teria até chegado a indagar do carrasco Médici se elas existiam, sendo tranquilizado. Acredite quem quiser.

Speer foi mais longe, afirmando ter participado do planejamento de um atentado contra Hitler que acabou não ocorrendo (claro!).

Em ambos os casos, nenhuma pessoa viva corroborou as versões daqueles a quem convinha mentir.
Uma camaradagem escrita nas estrelas

O paralelismo se deu, inclusive, quanto às provas fotográficas. 

Speer foi confrontado com uma imagem dele visitando o campo de concentração de Mauthausen, mas garantiu que era apenas uma viagem protocolar e não lhe teria sido mostrado nada que caracterizasse o Holocausto.

Esfregaram no nariz do Delfim uma foto em que aparece alegremente ao lado do empresário-símbolo do financiamento à repressão, mas ele, presumivelmente, negou que conhecesse tal faceta de Henning Boilesen. Acredite quem quiser.

Uma sentença como a de Speer, de 20 anos de prisão, teria caído muito bem para o gordo ministro (ou seria melhor dizermos  sinistro?) da ditadura.
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