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23.5.16

FERREIRA GULLAR E SEU VERSO DE PÉ QUEBRADO SOBRE A DILMA

Gullar: visão distorcida da guerrilha.
O poeta, crítico de arte e cronista Ferreira Gullar, um dos papas do neoconcretismo, fez uma análise polêmica da personalidade de Dilma Rousseff, no seu artigo dominical intitulado Hora da Verdade:
"Atrevo-me a pensar que ela tem dificuldade em se ligar objetivamente com o mundo real. A sua participação num grupo guerrilheiro, que assaltava bancos para, com o dinheiro roubado, financiar a guerrilha, não é propriamente sinal de bom senso. Não pretendo, ao dizer isso, desconhecer a generosidade e a coragem dos que se atreveram a tal proeza, mas, a meu juízo –e como os fatos mesmos comprovaram–, tal opção estava longe da sensatez e da objetividade. 
Pois bem, minha tese é que a Dilma que optou pela guerrilha ainda está presente na Dilma de agora. Certamente não pretende desencadear um movimento armado contra o governo de Michel Temer, embora o tom de seus discursos, ao deixar o palácio do Planalto, desse a entender que sairá às ruas com seus seguidores para defender a democracia. 
E isso é que é preocupante, uma vez que a nossa democracia não está ameaçada e, sim, longe disso, funcionando plenamente, a ponto de pôr na cadeia altas figuras do mundo empresarial, acusadas de corrupção. Como a guerrilheira do passado, Dilma prefere a bravata a encarar a realidade".
Os defensores de Dilma certamente optarão pelo caminho fácil de desqualificá-lo, disparando-lhe insultos e até falsidades. É o que faz a parcela intolerante e preguiçosa da esquerda, infelizmente majoritária. Eu prefiro aprofundar a questão.

Primeiramente, lembrarei que Gullar não é nenhum reacionário empedernido ou escriba vendido à burguesia. Foi mais longe e sofreu maiores contratempos pelos ideais de esquerda do que a grande maioria dos que hoje o desprezam.
CPC da UNE encenando peça num sindicato

Em 1963, já intelectual eminente, presidiu o Centro Popular de Cultura da UNE, um marco do engajamento artístico às lutas políticas e sociais no Brasil. 

Depois, indignado com o golpe de 1964, filiou-se imediatamente ao Partido Comunista. E fundou o lendário Grupo Opinião, juntamente com Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e outros.

Em 1965 começou a sofrer prisões intimidatórias. E, em 13 de dezembro de 1968 --ou seja, no próprio dia da assinatura do AI-5--, foi um dos escolhidos para servir como exemplo do tratamento que aguardava aqueles que não se conformassem com a nova ordem. Ele, Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil [os dois últimos me antecederam na PE da Vila Militar e, mesmo não sofrendo torturas propriamente ditas, foram submetidos a grotescas humilhações, que os carcereiros faziam questão de relembrar amiúde].

Libertado, quando lhe chegaram informações dos bastidores militares, no sentido de que nova prisão era iminente, preferiu esconder-se na casa de parentes e amigos. Depois de quase um ano na clandestinidade, rumou em 1971 para a União Soviética. 

O exílio durou até 1979. Ele esteve também em Santiago, em Lima e em Buenos Aires. Foi demais. Desencantou-se com a revolução traída na URSS, com a revolução massacrada no Chile de Allende, com o projeto nacionalista que não vingou no Peru e com o peronismo agonizante na Argentina. 

Mas, o desengajamento da esquerda não o atirou nos braços do inimigo. Permaneceu um observador lúcido das mazelas brasileiras, criticando os que considera merecedores dos disparos quase sempre certeiros do seu teclado. 
Caetano teve seu cabelo raspado a zero no quartel

Parafraseando-o, atrevo-me a pensar que a derrocada do peronismo sob Isabelita Perón o preparou para antecipar e entender como poucos a derrocada do petismo sob Dilma. Os dois movimentos dependiam demais dos seus homens providenciais, Perón (que morreu) e Lula (cujo poste ganhou vida própria depois de eleita e passou a desconstruir o edifício que ele, o criador, tinha em mente). 

No entanto, mesmo tendo feito, o tempo todo, enormes restrições a Dilma (as mesmas que agora os principais dirigentes do PT lhe fazem para consumo interno), vou discordar desses três parágrafos melindrosos do Gullar.  

O PCB combateu virulentamente a opção pela luta armada, pois significou, na prática, a pá de cal na sua condição de força hegemônica da esquerda. Proibiu seus quadros de prestarem auxílio solidário a guerrilheiros em dificuldade e chegou até a publicar no seu principal jornal calúnias contra Carlos Lamarca, acusando-o de provocador a serviço da CIA.

Acredito que Gullar não tenha se deixado envolver por essa corrente de intolerância oportunística, a ponto de nos ver como inimigos objetivos da revolução. Só os fanáticos e os primários chegaram a tal extremo. Mas, como ninguém é totalmente imune a tais rolos compressores, então são ecos da postura do partidão que se percebem em sua caracterização de guerrilheira como uma pessoa carente de bom senso, com dificuldade em se ligar objetivamente com o mundo real e dada a bravatas.
Fala de Moreira Alves passara despercebida

Ora, percebe-se na sua biografia que ele não conheceu verdadeiramente o objeto de sua avaliação negativa: a partir do AI-5, quando a guerrilha se tornou a frente principal de luta contra a ditadura, ele andou preso, depois escondendo-se, depois exilado. 

Então, salta aos olhos que o perfil por ele composto não passa uma visão de quem estava fora do universo da guerrilha e, como o PCB, via na luta armada apenas um estorvo (estaria servindo para radicalizar a ditadura, como se a direita mais brucutu não estivesse disposta a tudo para atingir tal objetivo --o pretexto para o AI-5, vale lembrar, não foi nenhuma expropriação ou atentado, mas sim um discurso proferido por Márcio Moreira Alves apenas para constar na ata, durante uma sessão esvaziada da Câmara Federal).

Gullar, que atuava apenas no front cultural, aderiu ao partidão por causa da ira sagrada que a quartelada lhe causou. Outros, igualmente pouco politizados, tiveram a mesma atitude. Mas, o movimento predominante foi no sentido contrário, de militantes que abandonavam o PCB porque este capitulara sem resistência significativa a uma quartelada anunciada (todo mundo sabia que estava prestes a ocorrer).

Entre 1964 e 1968, a esquerda fervilhou: críticas e autocríticas, lutas internas, ruptura de dirigentes, debandada de quadros, criação de novas forças, desmembramentos e reagrupamentos, redefinições estratégicas e táticas, etc. 

Até então, havia uma força principal (o PCB, de linha soviética), uma secundária (o PCdoB, de linha chinesa) e grupúsculos como a Polop, a Ala Vermelha do PCdoB, etc. Depois, o estilhaçamento do partidão deu origem a dezenas de siglas que tinham algum peso (regional, principalmente); a maioria delas propondo-se a enfrentar a ditadura com mais contundência do que os  ditos burocratas do PCB o faziam.
Notáveis nas passeata dos 100 mil

Em 1968, isto se corporificou num movimento de massas capaz de grandes mobilizações como a passeata dos 100 mil e de ações mais radicais como a tomada de fábricas em Osasco, SP. E algumas ações guerrilheiras já eram desenvolvidas pela VPR e ALN, mas sem grande vulto nem real importância; os combatentes e aliados de ambas totalizariam algumas centenas e a inexperiência levou a alguns desatinos que foram depois fartamente explorados pelos serviços de guerra psicológica das Forças Armadas.

O quadro mudou quando a truculência da ditadura contra os movimentos de massa e seus líderes foi sendo levado ao paroxismo, com a tortura se generalizando e bestializando, assassinatos pipocando, ações de paramilitares fascistas grassando soltas. A escalada de radicalização foi claramente favorecida e impulsionada pela chamada linha dura da caserna, que apostava no fechamento total, enquanto parte dos golpistas civis (incluindo alguns governadores) defendiam a volta à democracia com algumas salvaguardas.

Então, quando o AI-5 tornou a resistência pacífica extremamente arriscada (se tentada a sério) ou simplesmente inócua (quando os militantes se limitavam a ações tímidas como a de deixarem em banheiros públicos panfletos que os cidadãos comuns tinham medo de apanhar), os militantes que não se resignaram a abdicar da luta foram engrossar as fileiras da luta armada. Não por falta de bom senso, aturdimento ou voluntarismo desmedido, mas sim por ser a alternativa que restava para os que não se conformavam em viver debaixo das botas, à espera de dias melhores que sabia-se lá se e quando chegariam.
Dilma: vocação para tecnoburocrata.

A sensatez e a objetividade levaram Gullar ao exílio. Como não tinha perfil de combatente, é quase certo que sua permanência por aqui de pouco nos serviria, sendo mais uma preocupação do que uma ajuda. Deveria, contudo, demonstrar mais respeito por aqueles que ficaram, lutaram, sofreram e morreram. 

Quando penso nos muitos companheiros valorosos que entregaram a vida pela causa e em outros tantos que até hoje carregam graves sequelas físicas e emocionais, é revoltante ler suas elucubrações a respeito de um ambiente que jamais conheceu.

Mesmo porque, se assim não fosse, saberia que Dilma não era a personificação da guerrilheira e sim uma militante mais afeita às lutas pacíficas, tanto que, no racha da VAR-Palmares, posicionou-se frontalmente contra a tendência que, com Lamarca à frente, conferia máxima prioridade à guerrilha. 

E, no poder, deu para percebermos claramente que ela agiu muito mais em consonância com as teses do nacional-desenvolvimentismo da década de 1950 (que privilegiava o papel do Estado como indutor do desenvolvimento, cumprindo o papel que antes competia à chamada burguesia nacional) do que com a luta de classes marxista. Daí ter sido tão refratária à organização autônoma do povo e favorecer tanto a cooptação de líderes e satelização dos movimentos por parte do Executivo.

Para quem participou intensamente da efervescência de 1968 e estava no turbilhão dos anos de chumbo, o que ocorreu com a Dilma não constituiu novidade nenhuma: foram muitos os idealistas nos quais o espírito da época baixou e que fizeram então o que nunca mais fariam. 
A criatura destruiria o criador. Shelley explica.

Assumiram posições e ingressaram em organizações radicais demais para seu temperamento; depois, com a volta à calmaria, foram encontrando seus verdadeiros nichos.

A vocação de Dilma, p. ex., era a de ser uma tecnoburocrata, tanto que aí acabou chegando; melhor Lula faria se a tivesse deixado permanecer na sua praia. 

Ele cometeu um crasso erro de avaliação, que foi catastrófico para si próprio, para o PT, para a esquerda brasileira e para o nosso povo sofrido.

18.1.16

APOLLO NATALI: "O BOMBARDEIRO DE GETÚLIO".

Por Apollo Natali
Getúlio Dornellles Vargas chamou o cara e disse: vai ter uma revolução e eu quero que você fabrique bombas para mim. O homem que era especialista em fazer bombas, respondeu: eu vou fazer só uma bomba e é para te matar.
   
Getúlio Dornelles Vargas então arremessou o interlocutor ao solo com um empurrão e ordenou: levem esse sujeito para ser torturado. Concluída a tortura, o homem da bomba foi solto e se arrastou pelas ruas do Rio de Janeiro com o corpo em petição de miséria, tendo ainda debaixo das unhas os estiletes que os torturadores não quiseram se dar ao trabalho de tirar.

Bem antes disso, o tal do bombardeiro (cujo ofício, como se nota, é mesmo lidar com bombas) já havia sido preso e torturado a mando de Getúlio Dornelles Vargas, descoberto que foi fabricando bombas em sua própria residência. 

Seu segredo veio à tona após uma explosão em sua casa. Sua mulher e a filha de nove anos sofreram sérias queimaduras nas costas. Foram levadas presas para um convento por ordem de Getúlio Dornelles Vargas. Lá eram arrastadas pelos cabelos e xingadas de comunistazinhas pelas freiras.
Filinto Muller era o Brilhante Ustra do Getúlio

O cara que fabricava bombas era teimoso e colocou uma de sua autoria no vagão de um trem onde viajaria Getúlio Dornelles Vargas. 

De repente apareceu gritando um velho que, pela aparência desgrenhada, ninguém daria um centavo por ele.

Falou resfolegando para o bombardeiro e seus amigos agachados a uma certa distância do trem: alguém do Partidão [o Partido Comunista] nos denunciou. Precisamos tirar essa bomba daí logo para que ninguém nos identifique.

Era uma bomba à base de nitroglicerina. Pode explodir com uma respiração mais forte, um chacoalho ou mudança de temperatura.  Olha o perigo de explosão fora de hora na fornalha Rio 40 graus (que era aquele vagão) antes de Getúlio Dornelles Vargas entrar nele!

Outros amigos do Partidão chamados às pressas para tirar a bomba demoravam muito para chegar. Estavam aflitos os três ou quatro bombardeiros  escondidos com as mãos apertando os ouvidos. Ufa, a bomba foi retirada e Getúlio Dornelles Vargas só morreu em 1954, por conta própria.
Pai dos pobres? Vargas era mais um Mussolini dos trópicos...

O bombardeiro de Getúlio Dornelles Vargas se chamava Francisco Romero.

O neto dele, já antigo trabalhador na construção civil, mora num bairro vizinho ao meu, em São Paulo. Ele me contou esta história às 11h30 do dia 16 de janeiro do ano de Nosso Senhor de 2016.

Sei que os doutos historiadores exigirão depoimentos de outrem e/ou quaisquer registros do passado, coincidentes em algum(uns) ponto(s) com estas lembranças, para se decidirem a encaixar o pequenino personagem Francisco Romeiro num cantinho da biografia de Getúlio Dornelles Vargas; lamentavelmente inexistem, ou nem o neto os tem, nem eu os encontrei.

Pensei numa foto do avô e família, esta sim disponível, mas logo aquilatei que não seria suficiente.

O seu falar fluía tranquilo e pausado. Ouvindo-o, não duvidei em momento algum da veracidade do que ele me narrava. E você, caro leitor ou prezada leitora, o que concluiu deste relato?

Nota do editor: quando meu bom amigo Apollo me enviou este texto, percebi de imediato que a sua convicção da veracidade de tudo que o neto do personagem lhe contara poderia não ser compartilhada pelos leitores, à falta de elementos de comprovação. Sugeri, então, que deixasse uma margem para dúvida nos parágrafos finais e, como se trata de uma história fascinante, coloquei-a no ar.

Agora me ocorreu que, sendo isso História e não imaginação, o PCB detestaria que se tornasse conhecido. Afinal, pode mesmo ter tentado e abortado o atentado contra o ditador --plenamente justificável face à repressão bestial desencadeada contra seus quadros após o fracasso da Intentona--, mas em seguida voltou a ser um partido pacífico e legalista... até demais!
Agildo Barata levado a depor... de pijama!

E, após ter oportunisticamente apoiado a volta de Vargas ao poder pela via democrática, pareceria uma incongruência extrema haver-se alinhado com quem antes teria tentado mandar pelos ares.

Enfim, se eu fosse historiador, ouviria o que esse humilde aposentado tem a dizer e sairia em busca dos tais elementos de comprovação. Pode ser ouro de tolo, mas pode também ser uma pepita valiosa. Só o poderemos saber depois de alguns encaminhamentos que nem o Apollo nem eu temos condições de levar a cabo. (CL) 

4.6.15

QUE MORAL O PSOL SEGUE, A NOSSA OU A DELES?

Foi assim em 2006. Estará sendo produzido um remake?
O companheiro Eduardo Rodrigues Vianna pede a minha opinião a respeito do comportamento do PSOL, que outrora ia às ruas repudiar a chamada cláusula de barreira e agora, dando uma guinada de 180º, alinhou-se com as forças políticas majoritárias.

Na primeira votação na Câmara Federal, os quatros deputados psolistas (Chico Alencar, Edmilson Rodrigues, Ivan Valente e Jean Wyllys) surpreendentemente concordaram com a pretensão de se privar, tanto do tempo de televisão quanto dos recursos do fundo partidário, os partidos sem nenhum representante no Congresso Nacional. 

Tratando-se de uma proposta de emenda à Constituição, haverá ainda uma segunda votação na Câmara e duas no Senado --três chances de se rechaçar a também conhecida como cláusula de exclusão. E o STF poderá novamente considerá-la inconstitucional, como o fez, por unanimidade, em 2006.

Em termos práticos, os quatro votos da bancada do PSOL não decidiram nada, já que o placar foi de 369 a 39. Prevalecendo tal tendência, pouco importará se o PSOL mantiver sua nova postura ou voltar à antiga.
Por que mudou, mudou por quê?

Portanto, a questão é sobretudo de princípios.

Se o PSOL ainda pretende seguir a nossa moral (a moral revolucionária), estará traindo os seus valores ao esfaquear pelas costas o PCB, o PCO e o PSTU, agremiações do campo da esquerda que definharão de vez caso sejam submetidas a tais restrições.

Se agora adota a moral deles (a moral burguesa), não temos mais o que conversar. 

Francamente, meu ceticismo é total quanto à possibilidade de que o Parlamento deles venha a ter qualquer utilidade para a nossa causa. Nem acredito que as fugazes mensagens dos nanicos de esquerda veiculadas no horário eleitoral consigam penetrar em cabeças marteladas e mesmerizadas dia e noite pela indústria cultural.

Mas, para o que realmente conta --a revolução de verdade, nas escolas, nas ruas, campos e construções, não a revolução sem povo, essa ilusão daninha de que se possa tomar o Estado por dentro, a partir de infiltrações nos três Poderes--, a esquerda precisará estar unida como nunca esteve nas últimas décadas. 

O PSOL, agindo assim, em nada está contribuindo para a gestação de uma mais do que necessária frente de esquerda --e isto num momento em que o quadro político favorece em muito tal iniciativa, pois os militantes fiéis aos ideais históricos do PT, indignados com a opção pelo neoliberalismo, tendem a sair do partido governista em busca de ar puro.

A falta de humildade, a eterna aspiração à hegemonia, a mesquinhez de pequenos comerciantes obcecados em alavancar seus próprios negócios tomando espaço dos concorrentes, esses resquícios da mentalidade deles que teimam em perdurar no nosso meio têm grande peso no apequenamento da esquerda brasileira desde a redemocratização.

Saímos da ditadura com enorme prestígio e aura de martírio. Dilapidamos praticamente todo o capital político que havíamos acumulado na heroica resistência ao arbítrio. E, se não reencontramos o caminho da unidade revolucionária, acabaremos reduzidos à irrelevância.

28.3.14

ESPECIAL: "O DIA DA GRANDE MENTIRA (a farsa)"

GOULART FOI DERRUBADO PELO PIPAROTE DE UM MAD DOG FARDADO

O que há, ainda, para se dizer sobre o infausto cinquentenário do golpe de 1964? Tantos e tantos já escreveram, alguns com conhecimento de causa, muitos com conhecimento livresco e um contingente maior ainda baseando-se nos panfletos pró e contra que infestam a internet...

Aos intelectualmente honestos e medianamente perspicazes não escapa a obviedade de que a conspiração direitista vinha de longe e quase emplacara quando da destrambelhada renúncia de Jânio Quadros.  O dispositivo golpista, contudo, ainda não estava pronto e a tentativa de aproveitamento de uma oportunidade de ocasião se revelou precipitada. 

As principais mudanças ocorridas entre agosto de 1961 e o dia da grande mentira em 1964 foram:
  • depois que o caipirão Lyndon Johnson herdou a presidência dos EUA, os pratos feitos da CIA voltaram a ser engolidos na Casa Branca (dificilmente John Kennedy deixaria suas digitais impressas numa virada de mesa no Brasil, assim como evitou oficializar o envolvimento estadunidense na invasão da Baia dos Porcos, negando apoio aéreo aos mercenários recrutados pelos gusanos de Miami);
  • após a firmeza do governador gaúcho Leonel Brizola e dos cabos e sargentos das Forças Armadas ter garantido sua posse, o bobalhão João Goulart tudo fez para apaziguar os inimigos. Chegou ao cúmulo de permitir que os oficiais reacionários desencadeassem um verdadeiro expurgo na caserna, transferindo os líderes dos subalternos para bem longe das respectivas bases (suas associações continuaram ruidosas, como convinha aos planos dos golpistas -está aí o cabo Anselmo que não me deixa mentir!-, mas não poderosas, pois eram muitos caciques para poucos índios);
Mourão Filho, macaqueando o gen. MacArthur 
  • a participação civil, inexistente em 1961, foi buscada mediante propaganda enganosa maciça e parcerias com  a direita católica, não porque tivesse verdadeira importância no script golpista, mas como azeitona na empada, a fim de tornar a quartelada mais palatável no Brasil e, principalmente, no exterior;
  • o Governo João Goulart vagava à deriva, ora inclinando-se à esquerda, ora contemporizando com a direita, o que fez os dois campos o encararem com suspeitas e não priorizarem a defesa do mandato legítimo; e
  • o hegemônico Partido Comunista Brasileiro se embananava todo ao acreditar que militares legalistas defenderiam Goulart e, como consequência, semeava a confusão entre a esquerda (esta ficou sabendo tarde demais que não contaria com apoio fardado nenhum contra os golpistas, só dependendo da resistência que ela própria conseguisse estruturar).
Mesmo com todos os ases e curingas nas mãos, os líderes golpistas hesitavam. Aí, o impasse foi quebrado por um ferrabrás que tinha papel secundário na conspiração: o general Olímpio Mourão Filho. 

Tratava-se de um fascistão com carteirinha assinada. Fora um dos líderes da Ação Integralista Brasileira e redator do famoso Plano Cohen, falso rol de intenções da Internacional Comunista que os galinhas verdes colocaram em circulação como espantalho para assustar milicos.

Ele botou o bloco na rua, precipitando os acontecimentos: sem aval do Estado Maior golpista, marchou com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro.  Foi duramente criticado pelo governador Magalhães Pinto (MG), para quem sua bravata poderia ter causado um banho de sangue.

Mas, porque a tão trombeteada ameaça comunista na verdade inexistia, a marcha pela Via Dutra acabou sendo um passeio. Bastariam dois ou três caças da FAB para a abortarem, pois os inexperientes recrutas debandariam em pânico logo à primeira rajada.

A traquinagem do histérico Mourão Filho não o beneficiou: o poder acabou ficando com os conspiradores históricos, articulados em torno de Castello Branco.

Pode-se dizer que João Goulart foi derrubado pelo piparote de um mad dog fardado.


NO DIA QUE A LIBERDADE FOI-SE EMBORA

Eu tinha 13 anos em 31 de março de 1964.

Puxando pela memória, só consigo me lembrar de que a TV vendia o golpe de estado em grande estilo, insuflando tamanha euforia patrioteira que os cordeirinhos faziam fila para atender ao apelo "dê ouro para o bem do Brasil!".

Matronas iam orgulhosamente tirar suas alianças e oferecê-las aos salvadores da Pátria, torcendo para que as câmeras as estivessem focalizando naquele momento solene.

Desde muito cedo eu peguei bronca dessas situações em que a multidão se move segundo uma coreografia traçada por alguém acima dela, com cada pessoa tanto esforçando-se para representar bem seu papel... que acaba parecendo, isto sim, artificial e canastrônica.

De paradas de 7 de setembro a procissões, eu não suportava a falsa uniformidade. Gostava de ver cada indivíduo sendo ele próprio, igual a todos e diferente de todos ao mesmo tempo.

E, na preparação do clima para a quartelada, houvera a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade. Aquelas senhoras embonecadas e aqueles senhores engravatados me pareceram sumamente ridículos.

Aqui cabe uma explicação: duas fortes influências me indispunham contra o patético desfile daquela classe média abasta(rda)da, que detestava tanto o comunismo quanto o samba, talvez porque fosse ruim da cabeça e doente do pé.

Minha família era kardecista e, quando eu tinha oito, nove anos, me levava num centro espírita cujo orador falava muito bem... e era exacerbadamente anticatólico.

A cada semana recriminava a riqueza e a falta de caridade da Igreja, contrastando-a com a miséria do seu rebanho. Cansava de repetir que Cristo expulsara os vendilhões do tempo, mas estes estavam todos encastelados no Vaticano.

Vai daí que, cabeça feita por esse devoto tardio do cristianismo das catacumbas, eu jamais poderia aplaudir um movimento de católicos opulentos.

E devorara a obra infantil de Monteiro Lobato inteira. Com ele aprendera a prezar a simplicidade, desprezando a ostentação e o luxo; a respeitar os sábios e artistas, de preferência aos ganhadores de dinheiro.

Mas, afora essa rejeição, digamos,  estética, eu não tinha opinião sobre a tal da  Redentora.

Escutava meu avô dizendo que, se viesse o comunismo, ele teria de dividir sua casa com uma família de baianos (o termo pejorativo com que os paulistas designavam os excluídos da época, predominantemente nordestinos).

Registrava a informação, que me parecia um tanto fantasiosa, mas não tinha certeza de que Vovô estivesse errado.

O certo é que os grandes acontecimentos nacionais me interessavam muito pouco, pois pertenciam à realidade ainda distante do mundo adulto.

Na canção em que Caetano descreveu sua partida de Santo Amaro da Purificação para tentar a sorte na cidade grande, ele disse que "no dia que eu vim-me embora/ não teve nada de mais", afora um detalhe prosaico: "senti apenas que a mala/ de couro que eu carregava/ embora estando forrada/ fedia, cheirava mal".

Da mesma forma, o dia que mudou todo meu futuro -- seja o 31 de março do calendário dos tiranos, seja o 1º de abril em que a mentira tomou conta da Nação -- não teve nada de mais.

Gostaria de poder afirmar que, logo no primeiro momento, percebi a tragédia que se abatera sobre nós: estávamos começando a carregar uma fedorenta mala sem alça, da qual não nos livraríamos por 21 longos anos.

Mas, seria abusar da licença poética e eu não minto, nem para tornar mais charmosas as minhas crônicas.

Os mentirosos eram os outros. Os fardados, as embonecadas e os engravatados.

7.11.13

OS JOVENS LUTAM NAS RUAS. OS VELHOS RESMUNGAM NOS PALÁCIOS.

Ao qualificar estridentemente os black blocs de "fascistas" (o que não são), a presidenta Dilma Rousseff tenta justificar a postura autoritária do seu governo, de estimular enrijecimentos repressivos e penais. Omite, contudo, que eles estão ocupando
um espaço aberto pela domesticação da esquerda tradicional, que hoje nem sequer pronuncia mais a palavra revolução -tão cooptada está pelo capitalismo e tamanha é sua obsessão em se mostrar inofensiva para os inimigos de outrora, visando manter e aumentar cada vez mais suas boquinhas na democracia burguesa.

Para quem aspira apenas a gerenciar o capitalismo pelo máximo possível de mandatos, os black blocs não passam de um empecilho, e como tal são tratados. Chama a polícia!

Para quem não abdicou dos ideais revolucionários em troca de um poder ilusório e subalterno, eles se constituem, isto sim, numa dura acusação: suas ações, algumas das quais desatinadas, são consequência de nossa incapacidade de engajar os jovens num combate mais consequente à desigualdade, injustiças e crimes que caracterizam a dominação burguesa. Nostra maxima culpa!

Faz um bom tempo que a esquerda brasileira alterna fases de legalismo exagerado com acessos, geralmente curtos, de radicalismo. 

Em 1935, Moscou ordenou um putsch contra a ditadura de Getúlio Vargas e o PCB, obedientemente, lançou-se à Intentona, de péssimas consequências. Aí, como gato escaldado, tornou-se refratário a ações mais extremadas ao longo das décadas seguintes.

Sua tibieza face ao golpe de 1964, contudo, mexeu com os brios dos comunistas. Houve luta interna, um sem-número de cisões e o PCB burocratizado deixou de ser a força hegemônica da esquerda. Como consequência, a decretação do AI-5 levou muitos agrupamentos resultantes da pulverização do partidão a aderirem à luta armada, que se tornou a principal (praticamente única)  forma de resistência à ditadura.

A trágica derrota dos guerrilheiros devolveu a bola para o campo da luta pacífica. E, com a chegada de Lula à Presidência da República, a revolução praticamente foi excluída dos planos e até dos discursos da esquerda chapa branca, cada vez mais inflada por oportunistas atraídos pela migalhas do poder.

Restava a esperança de que algum pequeno partido de esquerda repetisse a trajetória do PT, mas sem descaracterizar-se no meio do caminho. Era o sonho do PSOL, do PSTU, do PCO...

No más! Salta aos olhos que tal brecha histórica deixou de existir, não só em função do formidável aparato de comunicação de que hoje a burguesia dispõe, como também porque o PT conseguiu dilapidar o patrimônio moral acumulado pela esquerda durante a resistência à ditadura.

Na redemocratização de 1985, éramos respeitados por nosso heroísmo e tidos como uma reserva moral, uma alternativa à podridão capitalista; foi o que alavancou o crescimento petista. Os 11 anos do PT  no poder, contudo, corroeram tal conceito, favorecendo a disseminação da descrença na política e nos políticos (os quais voltaram a ser encarados, indistintamente, como farinha do mesmo saco).

Pouco importa o quanto se consigam mudar as sentenças do mensalão, o mal já está feito. Os petistas e seus aliados se preocuparam demais em salvar pessoas, quando o que importava mesmo era salvar a imagem dos revolucionários, não deixando que o cidadão comum passasse a desprezá-los como despreza os políticos convencionais.

Faltou a percepção de que a sanha reacionária não visava destruir o Zé Dirceu e o José Genoíno atuais, mas sim o símbolo do movimento estudantil de 1968 e o símbolo da guerrilha do Araguaia, pouco importando que um e outro já não fossem mais os homens que eram naquele passado distante. 

Tratava-se de um daqueles episódios nos quais as individualidades (até por terem cometido erros bisonhos) deveriam ser sacrificadas em nome da causa. Não o foram, e a indústria cultural deitou e rolou com a oportunidade única, concedida de mão beijada, de ficar desmoralizando a esquerda e seus mitos por oito anos a fio. Sabe-se lá até quando continuará capitalizando esta incrível lambança... O certo é que, quanto mais os condenados espernearem, mais ibope assegurarão para o espetáculo. O show nunca termina.

Por essa e outras, hoje praticamente inexiste o voto idealista; as eleições voltaram a ser decididas pelo voto interesseiro (que amiúde chega a ser mendicante)  e pelo voto útil. São os trunfos com que o PT conta para tentar quebrar o recorde do PRI: sete décadas de permanência estéril no poder, findos os quais os trabalhadores mexicanos continuavam tão explorados, humilhados e ofendidos como antes.

OS MASCARADOS JAMAIS CONSEGUIRÃO
IGUALAR A TRUCULÊNCIA DOS FARDADOS

Dilma mostra muita insensibilidade política ao acusar os black blocs de não serem "democráticos", exatamente num momento em que o desencanto com a democracia brasileira é generalizado e os três Poderes parecem estar numa competição de quem se desmoraliza mais no menor espaço de tempo.

Quem ainda conserva um mínimo de capacidade crítica, constata a cada momento ser o econômico o único poder que realmente conta: em torno dele gravitam os satelizados Executivo, Legislativo e Judiciário, arrotando independência em relação às miudezas mas submetendo-se caninamente à voz do dono nas questões que afetam os interesses maiores do grande capital.

Então, com a esquerda palaciana se distanciando cada vez mais do campo revolucionário e alguns partidos bem intencionados desperdiçando esforços em eleições nas quais patinam sem saírem do lugar, a esperança que resta (como augurava há meio século o fundamental Herbert Marcuse) são os contingentes à margem do jogo de cartas marcadas do sistema: os indignados que se mobilizam por meio das redes sociais e vêm sacudindo a pasmaceira da política brasileira.

Alguns já mostram uma surpreendente maturidade política, elegendo objetivos e alvos com muito discernimento, conscientes de que lhes cabe conquistarem corações e mentes, sem fornecerem pretextos para que a imprensa canalha os difame. É o caso, p. ex., do Movimento Passe Livre e dos organizadores de escrachos contra os monstros impunes da ditadura militar.

Os black blocs partem para o confronto físico com os efetivos policiais e para ações que a nossa excelentíssima presidenta coloca todas no mesmo saco de "vandalismo", como se destruir instalações bancárias fosse algo tão negativo quanto a atividade que nelas se desenvolve. Dilma deveria reler Brecht: "O que importa o roubo de um banco, comparado à fundação de um banco?".

No entanto, os mascarados jamais conseguirão igualar a truculência dos fardados. E -lição que aprendemos amargamente nos anos de chumbo!- os jagunços do sistema eram descartáveis e facilmente substituíveis, enquanto nós nos enfraquecíamos a cada baixa sofrida, perdendo companheiros de valor inestimável.

Enfim, as batalhas campais com a repressão tendem a terminar mal para o lado dos black blocs, além de conduzi-los à prisão. Devem ser evitadas tanto quanto possível, o que não implica cruzarem os braços diante das agressões bestiais que os PMs amiúde desfecham sobre os manifestantes. Quando os agentes do Estado se comportam como hordas de linchadores, é lícito, sim, defender-se deles. 

Quanto à destruição de bens, mesmo que justificada, nunca vai transparecer como tal para o grande público, já que a imprensa burguesa a apresentará da pior forma possível, fazendo a cabeça dos videotas. Com mais humor e menos furor, o recado poderia ser passado sem chocar o homem comum, nem facilitar tanto a vilificação por parte da mídia.

A atuação dos black blocs, no seu todo, deveria ser melhor dosada, pois os excessos só favorecem o inimigo. Confio em que eles saberão extrair as lições dos últimos episódios, efetuando as correções táticas que se impõem.

E respeito a determinação com que combatem o capitalismo, exibindo um espírito de luta há muito inexistente em tantos esquerdistas que os vituperam, preocupados apenas com os transtornos que poderão trazer à Copa das maracutaias e à próxima temporada de caça aos votos.

Dos primeiros, podemos esperar que amadureçam. Os segundos, em sua maioria, já apodreceram.

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1.7.13

ELIO GASPARI REPETE AS FALÁCIAS DAS VIÚVAS DA DITADURA

De vez em quando o Elio Gaspari toma emprestado o chapéu do Reinaldo Azevedo ...
Elio Gaspari, napolitano radicado no Brasil há quase sete décadas, é um homem de esquerda que, em 1968 e anos seguintes, abominava os movimentos contestatórios que sacudiam o mundo. 

Assim como o genovês Mino Carta, mantinha-se devoto do comunismo desvirtuado e burocratizado que  se desmanchava no ar, esfarelando-se sob o impacto das duas grandes primaveras, a de Paris e a de Praga. Virou as costas à juventude mais combativa que o Brasil já produziu e está resmungando até hoje contra quem verdadeiramente lutou, enquanto seus camaradas se omitiam e até sabotavam a resistência heroica que uns poucos Davis opúnhamos à legião de Golias da ditadura militar.

Nunca esquecerei o desgosto que nos causava receber notícias de morte ou torturas de companheiros queridos, simultaneamente com relatos dos esforços mesquinhos da direção do PCB para convencer seus militantes a não nos apoiarem em nenhuma circunstância, a não nos darem abrigo, a dificultarem o acesso a jornalistas de esquerda que poderiam fornecer-nos informações vitais, a não nos disponibilizarem médicos nas emergências, etc.

Chegou até a fazer publicar no principal jornal do partido (Voz Operária, se bem me lembro) a calúnia de que o comandante Carlos Lamarca seria instrumento da CIA. Sentíamo-nos esfaqueados nas costas pelos velhos stalinistas --que, como os leopardos, não perdiam as pintas, hostilizando os adversários pertencentes ao seu próprio campo com virulência muito maior do que a dedicada aos inimigos de classe.

Do ponto de vista moral, nosso martírio significou, para os Minos e os Gasparis, uma fragorosa e contundente derrota, com a qual não se conformam até hoje.  Por mais que eles nos tentem diminuir, somos muito respeitados pelas novas gerações, como os filhos do Brasil que não fugiram à luta.

Eu acrescentaria: salvando a honra do nosso país como os resistentes franceses salvaram a da nação deles. Nem uns nem outros fomos realmente vitoriosos, mas Jean Moulin e seus valorosos companheiros evitaram que a França ficasse para sempre identificada com o colaboracionismo do Marechal Pétain; e nós, que o Brasil ficasse identificado com os especuladores favorecidos pelo  milagre  econômico, tão escandalosamente eufóricos com sua prosperidade repentina quanto indiferentes ao festival de horrores que transcorria sob seus narizes.

Uma dor de cotovelo que atravessou as décadas explica a rancorosa cruzada movida em passado recente pelo Mino contra o perseguido político Cesare Battisti, sem nunca haver tido a dignidade de reconhecer que sua motivação real eram as antigas desavenças entre o (por ele) tão estimado Partido Comunista Italiano e os agrupamentos mais à esquerda.
A perseguição desmedida a Battisti só serviu para desmoralizar Mino 

No fundo, Mino continua até hoje furibundo com os revolucionários que confrontavam verdadeiramente a burguesia, enquanto o PCI traía suas bandeiras históricas, firmando um compromisso podre com a Democracia Cristã e ajudando a salvar o capitalismo.

Battisti era, para ele, um símbolo daquele repúdio generalizado ao aburguesamento do PCI. Incapaz de autocrítica, Mino não admite até hoje que o fracasso e decadência do  partidão  de lá se deveram exatamente aos conluios com os inimigos de classe, não à atuação dos  autênticos  que acertadamente repudiavam tais conluios (mas, levados ao desespero, acabaram incorrendo em excessos nefastos como o assassinato de Aldo Moro).

Gaspari, por sua vez, continua (tanto tempo depois!) furibundo com os  autênticos  de cá, por não nos termos resignado à impotência enquanto o PCB tentava  civilizar  a ditadura. 

Longe demais das ruas e próximo demais dos gabinetes palacianos, o  partidão  brasileiro sonhava com os militares abdicando do poder em benefício de lideranças paisanas como o governador de São Paulo, Abreu Sodré.

Daí ter convencido Sodré a comparecer e até a discursar nas festividades do 1º de maio de 1968, quando acabou sendo escorraçado do palanque a pedradas pelos trabalhadores do ABC e Osasco, com o apoio do movimento estudantil.

O historiador  vacilão  não nos perdoa por termos atrapalhado os planos conciliatórios do PCB, na verdade quiméricos; naquele tempestuoso 1968, a  linha dura militar acabaria prevalecendo de qualquer maneira sobre a turma do deixa disso!, nem que tivesse de forjar outras farsas como os atentados terroristas do guru maluco Aladino Felix (por ela controlado -- vide aqui).

Vale lembrarmos, p. ex., que o principal pretexto para a imposição do AI-5 adveio de um discurso sem a mínima importância que Márcio Moreira Alves proferiu, apenas para constar nos anais, numa sessão da Câmara Federal transcorrida às moscas. Sua diatribe inócua passaria totalmente despercebida se um jornalista de direita não a tivesse divulgado. E foi pra lá de exagerado o empenho da ditadura em cassar seu mandato. Tudo não passou de uma crise fabricada, enfim. 

Mas Gaspari quer porque quer culpar-nos pela radicalização do regime, nem que tenha de fazer eco às mais imundas falácias das viúvas da ditadura. Os velhos rancores o desnorteiam.

O EPISÓDIO 'ALGOZ E VÍTIMA'
Gaspari teve de indenizar Dulce Maia por falsa acusação 

Foi assim que, em 2008, Gaspari assumiu as mágoas da vítima casual de um atentado contra o consulado estadunidense em São Paulo, ocorrido quatro décadas antes: Orlando Lovecchio Filho teve o azar de estar estacionando seu carro no Conjunto Nacional, em plena madrugada, quando explodiu um petardo lá deixado.  

Indignado com a reparação que a Comissão de Anistia acabava de conceder a um suposto partícipe do atentado, Gaspari escreveu um folhetim lacrimoso sobre a diferença entre o montante a ele outorgado e o valor (inferior) recebido por sua suposta vítima. 

A polêmica provocada por Gaspari terminou miseravelmente para ele (veja mais detalhes aqui):
  • ficou esclarecido que o dito algoz  (Diógenes Carvalho) não era algoz, pois acusado falsamente;
  • Dulce Maia, também inocente da acusação que Gaspari lhe fez, processou-o e obteve vitória exemplar na Justiça;
  • constatou-se que, além de errar a identidade de dois dos quatro autores do atentado, Gaspari também o imputara à organização errada (tinha sido uma ação da ALN, e não da VPR); e
  • o único dos quatro ainda vivo lembrou haver sido processado por Lovecchio, vencendo a batalha jurídica por ter provado documentalmente que a perna do dito cujo não fora amputada em função do ferimento em si, mas sim porque a repressão ditatorial interrompera seu tratamento de emergência para interrogá-lo, só o devolvendo aos médicos quando a gangrena se estabelecera irreversivelmente.
Gaspari tinha duas opções:
  • desqualificar resistentes que, em extrema inferioridade de forças, confrontavam uma ditadura atroz e, no caso específico, não pretenderam atingir ninguém, tanto que programaram o atentado para horário inóspito; ou
  • soltar os cachorros contra um regime que arrancava um cidadão gravemente ferido de uma UTI  por mera suspeita de que fossem um militante atingido pela própria bomba. 
Ter escolhido o primeiro alvo diz muito sobre seu caráter.

Pior: omitiu a informação jornalisticamente mais importante de todo o episódio, aquela que comprovava a negação de socorro por parte de agentes do Estado. A responsabilidade das autoridades é sempre maior que a de particulares.

AGORA, UM DESCALABRO HISTÓRICO
Foi deplorável contrapor à passeata dos 100 mil um episódio tão menor  

O tiro pela culatra de 2008 não lhe bastou como lição: neste domingo (30), Gaspari voltou à carga, recriminando o esquecimento de um episódio menor (talvez por já ter saturado a todos, de tanto que foi explorado pela rede de propaganda ultradireitista) e contrapondo-o a outro infinitamente maior:
"No dia 26 de junho de 1968 aconteceram duas coisas. Às 4h30, de madrugada, o soldado Mario Kozel Filho, de 18 anos, estava na guarita de sentinela do QG do 2º Exército, no parque do Ibirapuera, e viu uma caminhonete C-14 vindo em direção ao portão do quartel. Desgovernada, ela parou num muro. O soldado foi ver o que era, e a C-14, com 50 quilos de dinamite, explodiu e matou-o. Horas depois, numa bela tarde do Rio, a passeata [dos 100 mil] saiu pela avenida.
Seis meses depois o governo baixou o AI-5, ninguém foi para a rua, e o Brasil entrou no seu pior período ditatorial. Não foi a passeata que levou a isso. Ela era o fim de um ciclo. A bomba e o interesse do governo em subverter a precária ordem constitucional da época foram o início de outro.
...Festejando-se a memória da passeata, varreu-se para baixo do tapete a lembrança de um erro catastrófico. Passaram-se 45 anos e centenas de pessoas que participaram de atos terroristas se maquiaram como combatentes da causa democrática. Lutavam contra uma ditadura, em busca de outra, delas".
Esta ação, sim, foi da VPR. E no Congresso de Mongaguá, em abril/1969, a organização decidiu nunca mais reagir de forma tão pueril às provocações do inimigo (um comandante militar, em declarações à imprensa, qualificara os resistentes de  covardes, desafiando-os a irem enfrentá-lo  como homens  no seu quartel). 

Tais demonstrações de força foram, dali em diante, vetadas, tanto que a VPR se negou a fornecer a um grupo menor a dinamite por ele solicitada para mandar pelos ares a estátua do Duque de Caxias no Dia do Soldado de 1969.

A morte de Kozel constituiu-se mesmo num  erro catastrófico, até porque o recruta incidentalmente atingido não passava de um pobre coitado. Mas, nem de longe teve a importância que Gaspari lhe atribui, praticamente colocando-a no mesmo plano da maior e mais emblemática manifestação de protesto contra a ditadura dos generais.

Quando os cidadãos pegam em armas para confrontar tiranias, invariavelmente ocorrem incidentes deste tipo. A Resistência Francesa, p. ex., errou muito mais do que a brasileira, sem que a ninguém ocorra jogar-lhe isto na cara. Os franceses são gratos a quem correu riscos e se martirizou por eles.
Outro pretexto para o AI-5

Quanto à  presunção de que a ditadura  entrou no seu pior período  por causa de uns poucos atentados que passavam quase batidos quando as massas contestavam o arbítrio nas ruas, trata-se de uma falácia que Gaspari tomou emprestada das  viúvas da ditadura, sempre à procura de atenuantes para os massacres e atrocidades do regime militar.

A ordem, na verdade, foi inversa: a partir do  interesse do governo em subverter a precária ordem constitucional da época, foram pinçados, aqui e ali, pretextos para submeter o país ao totalitarismo absoluto. Tudo serviu: os atentados realmente cometidos pela esquerda, os que a própria ditadura forjou, o discurso incauto de Márcio Moreira Alves e a recusa do Congresso em entregar sua cabeça, uma reportagem de capa famosa da revista Veja denunciando as torturas, etc.

E, com o Brasil praticamente sob estado de sítio, só restou aos resistentes o caminho da luta armada, cujas fileiras, até então numericamente insignificantes, foram em muito ampliadas, recebendo centenas de militantes antes dedicados ao trabalho de massas. Consequentemente, o que era secundário, quase irrelevante, em 1968, passou para o primeiro plano em 1969.

Outra falácia que Gaspari tomou emprestada dos Ternumas da vida  é a de que os resistentes lutávamos por outra ditadura. Historiador relapso, ele  esquece  que havia de tudo entre nós, inclusive católicos indignados com os  pecados  da repressão e dignos defensores da legalidade constitucional, passando por um sem-número de tendências da esquerda. O único ponto em comum era o repúdio à ditadura. 

Nós, da VPR, acreditávamos que, no  day after, seria criado um parlamento com a participação de todos os agrupamentos que haviam combatido o regime militar, para a definição das politicas a serem adotadas. Tínhamos clara consciência de que, inexistindo uma força dominante, as decisões deveriam ser consensuais,  jamais impostas, para não haver o risco de cedermos a tentações autoritárias.

Finalmente, as perguntas que não querem calar:
  • por que Gaspari nos execra tanto por supostas e não concretizadas intenções, havendo uma infinidade de crimes efetivamente cometidos e provados, um número tão elevado de ações genocidas e hediondas da ditadura para ele deplorar?
  • por que Gaspari se escandalizou tanto com dois episódios infelizes que para nós representaram exceções, se as torturas foram sempre  regra  para a ditadura e as execuções de prisioneiros indefesos também viraram  regra, a partir de 1971? Uma ou outra situação que fugiu do controle deve ser mais recriminada do que massacres sistemáticos, levados a cabo como uma política de Estado?
Guiado por suas frustrações, Mino Carta fez patética figura durante o Caso Battisti; e Elio Gaspari se desmoraliza cada vez que lança suas catilinárias contra os resistentes que pegaram em armas, invariavelmente acabando por ecoar, como papagaio, a mais rançosa retórica da extrema-direita. 

Ambos deveriam procurar catarse no divã do analista, não no teclado.
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