PESQUISAR ESTE BLOGUE

Mostrando postagens com marcador julgamento de Nuremberg. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador julgamento de Nuremberg. Mostrar todas as postagens

29.9.14

A "FOLHA DE S. PAULO" NOVAMENTE ACHINCALHA A LUTA CONTRA A DITADURA

O jornal da ditabranda continua publicando péssimos editoriais sobre os acontecimentos dos anos de chumbo, talvez porque o papel então desempenhado pelo Grupo Folha foi nada menos que indecoroso, daí seu desconforto ao tocar nesses assuntos. 

Para quem quiser conhecer mais detalhes sobre tal papelão, recomendo a leitura deste meu artigo. Vale, contudo, destacar alguns trechos de um texto autocrítico publicado pela própria Folha de S. Paulo quando da comemoração do seu 90º aniversário: 
"A partir de 1969, a 'Folha da Tarde' alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares.
A entrega da Redação da 'Folha da Tarde' a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais) foi uma reação da empresa à atuação clandestina, na Redação, de militantes da ALN... 
Em 1971, a ALN incendiou três veículos do jornal e ameaçou assassinar seus proprietários. Os atentados seriam uma reação ao apoio da 'Folha da Tarde' à repressão contra a luta armada.
Segundo relato depois divulgado por militantes presos na época, caminhonetes de entrega do jornal teriam sido usados por agentes da repressão, para acompanhar sob disfarce a movimentação de guerrilheiros. A direção da 'Folha' sempre negou ter conhecimento do uso de seus carros para tais fins [o grifo é meu]".
Sempre negou, mas ninguém, em sã consciência, acreditou!

PAGAMOS UM PREÇO ALTÍSSIMO POR
TERMOS SALVADO A HONRA NACIONAL

A visão que a Folha dá atualmente da faina da Comissão Nacional da Verdade e das reações militares é bem na linha de botar panos quentes e aparar arestas. Mas, se estas continuam existindo e machucando, é porque a Justiça não foi feita e tudo indica que jamais o será.

O mais inaceitável no editorial desta 2ª feira, 29 (acesse a íntegra aqui), são estes dois parágrafos:
"O principal mérito da Lei da Anistia, promulgada em 1979, foi o de permitir que o processo de democratização do país se desse num clima desanuviado dos ressentimentos que pesavam sobre ambas as partes em conflito.
A esmagadora maioria dos que se envolveram na luta armada, a começar da própria presidente Dilma Rousseff (PT), não tem problemas em fazer a revisão histórica de sua estratégia, fundada não só num romantismo revolucionário juvenil, mas também na exaltação da violência e num desprezo ao que então se desqualificava com o termo 'democracia burguesa'".
A redemocratização do País se deu, na verdade, em clima dos mais tensos, com a oposição tendo de engolir a anistia que igualou as vítimas a seus algozes porque era este o preço a pagar pela libertação dos presos políticos e a permissão de volta dos exilados. Mesmo assim, num primeiro momento foram excluídos os militantes condenados por ações armadas.

Foi, portanto, mediante a mais escrachada chantagem que os oposicionistas acabaram cedendo e concordando com o que sabiam ser uma abominação; afinal, tiranos não podem anistiar a si próprios em plena tirania. Fico a imaginar os criminosos de guerra nazistas munindo-se em 1944 de um habeas corpus preventivo semelhante. Se lhes houvesse ocorrido este brilhante expediente, teriam porventura evitado o julgamento de Nuremberg?    

Quero ser mico de circo se tal quadro caracteriza um "clima desanuviado dos ressentimentos que pesavam sobre ambas as partes". 

Quanto aos que pegamos em armas contra a ditadura, não me lembro de nenhum de nós fazendo a "exaltação da violência", muito menos em função de "romantismo revolucionário juvenil". 

Sabíamos que se tratava de uma opção quase suicida. Tínhamos plena consciência de que, sendo capturados, as piores torturas eram uma certeza e a morte, uma forte possibilidade. Só assumimos riscos tão extremos porque era a única maneira de continuarmos confrontando os usurpadores do poder sob o terrorismo de estado desmedido que eles desencadearam a partir do AI-5.  

Ao editorialista responsável por tais despropósitos, eu sugiro a leitura deste artigo  no qual relembro quão sofrido era nosso dia a dia. Não encarávamos uma barra tão pesada por fetiche pelas armas nem por arroubos adolescentes. Nosso motivo era bem outro: o de não suportarmos ver 90 milhões de brasileiros tratados como crianças tuteladas,  intimidadas e castigadas. 

E, como não sobrava "democracia burguesa" nenhuma no Brasil dos anos de chumbo, também não havia motivo nenhum para a desprezarmos naquele momento. Cada um de nós tinha algo muito mais imediato com que se preocupar: a própria sobrevivência, para continuar lutando o máximo possível, pois cada dia poderia ser o último.

Finalmente, no tocante a fazermos a revisão histórica da nossa estratégia, eu quero deixar bem claro que não me incluo na citada "esmagadora maioria" (aliás, desconheço qualquer pesquisa que respalde tal dimensionamento, o qual parece ser, isto sim, um chute conveniente).

A luta armada, na verdade, se constituía na única estratégia viável depois que todos os caminhos de contestação pacífica ao regime foram fechados e as torturas se tornaram bestiais e generalizadas, com os tribunais impedidos até de nos concederem habeas corpus.

O resultado foi trágico e até hoje não consigo aceitar o assassinato das duas dezenas de valorosos companheiros que conheci pessoalmente, incluindo um amigo de infância. 

Mas, o Brasil seria um país de pobres coitados se nem sequer uns poucos milhares de brasileiros houvessem se recusado a viver debaixo das botas. Pagamos um preço altíssimo por termos salvado a honra nacional. Merecemos respeito.

1.4.14

DILMA ENDOSSA A REDEMOCRATIZAÇÃO PELA METADE


"Assim como respeito e reverencio os que lutaram pela democracia, enfrentando a truculência ilegal do Estado (...), também reconheço e valorizo os pactos políticos que nos levaram à redemocratização."

Esta frase é a mais infeliz que a presidenta Dilma Rousseff já pronunciou, até por haver omitido duas palavrinhas que fazem toda a diferença: pela metade. Como consequência das concessões que os dirigentes oposicionistas fizeram em nosso nome, tivemos uma redemocratização pela metade, autoritária, manipulada, juridicamente capenga, oportunista e que deixou feridas abertas até hoje.   

Trata-se, também, de uma afirmação reveladora: atesta que, nos pronunciamentos de Dilma, seu presente de candidata à reeleição pesa muito mais do que seu passado de revolucionária e presa política. 

Ela quer evitar a qualquer preço que o tiroteio ideológico atrapalhe sua campanha eleitoral -a ponto de, por medida provisória, haver transferido a divulgação do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, de maio para dezembro (depois das eleições...), quando deveria é ter recomendado sua antecipação, a fim de que o povo brasileiro ficasse conhecendo melhor a abominação que está completando 50 anos neste dia da mentira.

Uma coisa é o reconhecimento de que, não tendo os torturadores e seus mandantes sido punidos, como deveriam, em 1985 e anos seguintes, a oportunidade de se fazer justiça passou. Hoje esses octogenários e septuagenários posariam de vítimas, enquanto a direita hedionda faria um novelão a respeito das agruras dos ogros reformados, que ela apresentaria como inofensivos velhinhos.

O pior é que, enquanto arcaríamos com um custo altíssimo ao darmos ensejo a tal chantagem emocional, nossos benefícios seriam mínimos, quiçá inexistentes: o letárgico Judiciário brasileiro certamente manteria os processos inconclusos o tempo suficiente para que morressem um a um os carrascos de outrora. A grande maioria, aliás, já está no inferno. 

Então, desde 2008 (vide aqui) eu venho propondo que desistamos da quimera de vermos os Ustras, Curiós e Malhães pagando seus pecados na prisão ou sendo obrigados a ressarcir o Estado pelos direitos a indenizações que, com suas atrocidades, eles geraram. Tenho sugerido que nos contentemos em expô-los à execração pública, para que as crianças fujam deles como do bicho papão e seu exemplo inspire nojo e horror nos pósteros. É para isto que servem as comissões da verdade.

Outra coisa, bem diferente, é endossarmos a falácia de que ditaduras, em plena vigência do arbítrio, tenham o direito de anistiar seus dirigentes e seus esbirros, concedendo-lhes habeas corpus preventivo para garantir sua impunidade eterna. 

Se assim fosse, Hitler e toda a sua quadrilha poderiam ter-se colocado a salvo de punições, anistiando a si próprios, digamos, em meados de 1944, quando o desembarque dos exércitos aliados na Normandia tornou a derrota alemã uma questão de tempo. 

Mas, claro, os juízes do tribunal de Nuremberg desconsiderariam tal impostura, assim como nosso Supremo Tribunal Federal tinha o dever de pulverizar a anistia imposta de 1979, só não o fazendo por ser uma corte eminentemente política.

As nações civilizadas são unânimes em rechaçarem tal saída pela tangente. A ONU a repudia inequivocamente. Ficamos, portanto, ao lado de povos primitivos, aqueles que estão mentalmente ancorados na Idade Média e são dóceis presas do autoritarismo. Ainda não chegamos nem a 1789.

Não se pode respeitar um pseudo acordo político que se negociou com o Congresso Nacional: 
  • desfigurado por regras eleitorais que inflavam artificialmente a bancada situacionista; 
  • traumatizado pelos estupros recentes, pois havia sido amiúde fechado e tivera seus parlamentares cassados com a maior sem cerimônia, a bel-prazer dos tiranos;
  • intimidado pelas constantes ameaças de "chamar o Pires" (o presidente João Baptista Figueiredo utilizava o ministro do Exército Walter Pires como espantalho para dissuadir os que o contrariavam, lembrando-lhes que a qualquer momento poderia impor novo fechamento político); e
  • chantageado com o condicionamento da libertação de presos políticos e permissão de volta dos exilados à aceitação, por parte dos oposicionistas, do perdão aos torturadores, assassinos, estupradores e mutiladores de cadáveres.
Se isto é pacto, pertence à categoria dos firmados com Mefistófeles. Goethe explica.

Já Dilma, por mais que futuramente tente explicar seu endosso à igualação entre vítimas e algozes, jamais o conseguirá justificar. Wanda morreu.

RELAÇÃO DOS TEXTOS COM A TAG "GOLPE DE 1964 x 50 ANOS" (clique p/ abrir):

26.6.13

O ARQUITETO DO REICH FOI CONDENADO EM NUREMBERG. O ECONOMISTA DA DITADURA TAMBÉM SERIA!

Delfim como papagaio de pirata do ditador Costa e Silva
"Se as condições fossem as mesmas e o futuro não fosse opaco, eu repetiria", afirmou Delfim Netto, referindo-se à sua ignóbil assinatura no hediondo Ato Institucional nº 5. Ou seja, ainda hoje ele seria capaz de apoiar o elenco de medidas que desencadeou o arbítrio sem quaisquer limites.  

O AI-5 proibiu o Judiciário de conceder habeas corpus para os perseguidos políticos, dando à ditadura militar sinal verde para torturar os resistentes a bel-prazer, além de outras disposições totalitárias: reforçou os poderes do presidente da República para decretar estado de sítio, intervenção federal, suspensão de direitos políticos, restrições ao exercício de direitos públicos ou privados (principalmente o afastamento dos  subversivos  de seus cargos), cassação de mandatos eletivos, imposição de recesso ao Congresso, assembléias legislativas e câmaras municipais, etc.

Delfim foi convocado para depor na Comissão da Verdade do município de São Paulo e eram favas contadas que ele não perderia as estribeiras, dando espetáculo tão patético quanto o do torturador-símbolo da Nação, Carlos Alberto Brilhante Ustra, ao comparecer à Comissão Nacional da Verdade. 

Speer: condenado, como mereceu!
Não, ele é ave de outra plumagem; os serenos mandantes, que não chegaram a ter uma gota sequer de sangue nos seus ternos chiques, se diferenciavam em muito dos destrambelhados paus mandados, aqueles cujas fardas ficaram emporcalhadas com o sangue das vítimas. 

No entanto, foi acintosa e repulsiva a afirmação de Delfim, segundo quem  o AI-5 teria sido necessário porque o país "estava num estado de desarrumação geral". Impor a paz dos cemitérios nunca foi método de arrumação.

Caso houvesse ocorrido aqui um julgamento como o de Nuremberg, mais do que justificável nas circunstâncias, decerto Delfim Netto seria condenado como o foi, p. ex., o arquiteto do Reich, Albert Speer, que também não era  pessoalmente responsável por nenhuma tortura ou assassinato, mas tinha total responsabilidade política por um governo monstruoso. 

Curiosamente, as desculpas esfarrapadas de ambos foram as mesmíssimas. Delfim alegou que desconhecia as torturas e teria até chegado a indagar do carrasco Médici se elas existiam, sendo tranquilizado. Acredite quem quiser.

Speer foi mais longe, afirmando ter participado do planejamento de um atentado contra Hitler que acabou não ocorrendo (claro!).

Em ambos os casos, nenhuma pessoa viva corroborou as versões daqueles a quem convinha mentir.
Uma camaradagem escrita nas estrelas

O paralelismo se deu, inclusive, quanto às provas fotográficas. 

Speer foi confrontado com uma imagem dele visitando o campo de concentração de Mauthausen, mas garantiu que era apenas uma viagem protocolar e não lhe teria sido mostrado nada que caracterizasse o Holocausto.

Esfregaram no nariz do Delfim uma foto em que aparece alegremente ao lado do empresário-símbolo do financiamento à repressão, mas ele, presumivelmente, negou que conhecesse tal faceta de Henning Boilesen. Acredite quem quiser.

Uma sentença como a de Speer, de 20 anos de prisão, teria caído muito bem para o gordo ministro (ou seria melhor dizermos  sinistro?) da ditadura.
Related Posts with Thumbnails

Arquivo do blog