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1.6.17

O BLOGUE "NÁUFRAGO DA UTOPIA" ATINGE A MARCA DE 2 MILHÕES DE ACESSOS. COM AS PRÓPRIAS FORÇAS E SEM VENDER SUA ALMA.

Por Celso Lungaretti
As visualizações de página do blogue Náufrago da Utopia acabam de chegar à casa de 2 milhões. Não sei dimensionar a importância deste total em termos de blogosfera, mas eis alguns dados para os leitores poderem aquilatar por si mesmos:
— o blogue existe desde 8 de agosto de 2008; 
— tem 3.900 posts publicados; 
— conta com 620 seguidores; 
— vem mantendo nos últimos meses uma média de 1.600 acessos diários; 
— tais acessos provêm principalmente do Brasil (91,4%), EUA (3,7%), Portugal (1,4%) e França (0,5%).
Sejam ou não significativos tais números, a sensação que eles trazem a esta diminuta equipe (eu e os colaboradores permanentes Apollo Natali e Dalton Rosado) é de dever cumprido.

No meu caso e no do Apollo, o de continuarmos sendo jornalistas, fiéis à nossa missão de disponibilizarmos a verdade aos cidadãos comuns para que os poderosos não imponham tão facilmente as versões e análises que lhes convêm; e sendo jornalistas independentemente de tais poderosos decretarem nossa morte profissional, a pretexto da idade mas, muito mais, por não gostarem das convicções expressas em nossos textos.

No do Dalton, o de difundir uma interpretação do marxismo ainda pouco conhecida, mas que pode desempenhar um papel importante na renovação teórica da esquerda, ainda mais agora que as estratégias e táticas adotadas desde 2003 foram colocadas dramaticamente em xeque pelo impeachment de Dilma Rousseff e pelas circunstâncias nas quais ocorreu.

Também vejo este blogue como uma continuação da luta que outrora iniciei para livrar a comunicação de massa da tutela absoluta dos barões da mídia. Vale a pena explicar melhor.

Após minha participação na luta armada ter-me deixado em frangalhos, fui juntar os cacos numa comunidade alternativa, que era também uma forma de manter vivo meu sonho, ainda que a abrangência fosse bem menor.

Já não se tratava de desbravar um caminho para o povo, pois aprendera da forma mais sofrida a levar sempre em conta a correlação de forças, que naquele momento era totalmente desfavorável a quaisquer projetos ousados de nossa parte.

Mas ao menos podíamos, nós mesmos, praticar em recinto fechado um estilo solidário de vida, ajudando-nos uns aos outros e dividindo o trabalho e seus frutos igualitariamente. Foi o que pensamos e, por alguns meses, conseguimos levar à prática

Era, contudo, difícil mantermos algo assim  em meio ao terrorismo de estado que grassava lá fora, com suas atrocidades, injustiças e intolerância. E, como no conto antológico do Poe, a peste invadiu o castelo no qual acreditávamos estar a salvo dela.

Quando a nossa comuna se desintegrou, só me restou voltar à vida insípida de quem batalha apenas para garantir a sobrevivência pessoal. Como o jornalismo era uma vocação que se manifestara desde que  comecei a fazer jornais no curso médio para fins de conscientização política, foi o nicho que encontrei na divindade suprema do capitalismo, o deus mercado.

Mas, inconformado em ser apenas uma correia de transmissão de valores nocivos, usava minhas horas de folga para prover o antidoto, em publicações precárias que produzia com companheiros igualmente dados à escrita. 

Eram bancadas por nós mesmos, na esperança de que vendendo para amigos, conhecidos e para o público de nossas palestras e festas, arrecadássemos o suficiente para recuperar o que gastáramos. Nunca aconteceu.

Sabíamos que éramos pulgas tentando contrabalançar o estrago produzido pelos mamutes da indústria cultural, essa portentosa máquina de moldar a consciência dos cidadãos, tangendo-os para o conformismo e o consumismo.

Mas, tentávamos. Por mais que os resultados ficassem aquém de nossas expectativas, nunca desanimávamos. Era o que podíamos fazer e o fazíamos com enorme carinho. Cruzar os braços, jamais!

E é o que o Náufrago hoje faz. Lembrando os versos daquela comovente canção que Sérgio Ricardo compôs nos anos de chumbo, "cada verso é uma semente/ no deserto do meu tempo".

Aqui plantamos as sementes de uma esquerda que reassuma, como prioridade máxima e como sua razão de ser, a organização do povo para o combate sem trégua à exploração do homem pelo homem, até a vitória final.

Trata-se do que mais precisa ser feito neste momento e também do mais difícil de se fazer, pois já estão arraigados em nossas fileiras os vícios, a desmobilização e a acomodação resultantes da opção pelas urnas em detrimento das ruas. 
É mais fácil domesticar-se os bravos do que incutir bravura nos domesticados. Ainda mais depois de tantas e tantas décadas desperdiçadas em vãs tentativas de humanizar o capitalismo por dentro, rezando pela cartilha da democracia burguesa (que não passa do arcabouço institucional da dominação capitalista)!

É também aqui que tentamos ressuscitar valores como o da generosa solidariedade revolucionária, cada vez mais trocada pela postura egoísta de apoiar-se apenas o próprio partido ou a própria facção, lixando-se para as desgraças de outras forças do campo da esquerda e inclusive para os infortúnios de antagonistas pertencentes à mesma facção.

Há, ainda, que restaurarmos a própria moral revolucionária, a nossa, que infelizmente está ficando cada vez mais indistinguível da deles, nestes tristes tempos em que tantos trocam a dialética pelo mais rasteiro utilitarismo.

Aqui plantamos, ademais, a semente do respeito incondicional aos direitos humanos e à preservação do meio ambiente, pois nada, absolutamente nada, justifica os atentados à dignidade dos indivíduos e à sua existência (gravemente ameaçada pela devastação do nosso habitat). 

São tudo menos herdeiros de Marx e Proudhon os que se norteiam pela realpolitik, justificando atrocidades e massacres quando perpetrados pelos bons bárbaros contra os maus bárbaros; quem existe para conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização jamais pode transigir com a barbárie, assim como a um religioso é vedado pactuar com o demônio.

E aqui tentamos exercitar o pensamento crítico, não deixando jamais de refletir sobre as práticas da esquerda, no sentido de aprimorá-las e de prevenir erros que poderão evidenciar-se desastrosos adiante. Quando a intolerância no relacionamento com as tendências minoritárias se dissemina cada vez mais entre nós, é fundamental restabelecermos o respeito entre companheiros e uma atitude positiva face aos questionamentos válidos. 

Até porque erros terríveis foram cometidos nos últimos tempos pelos detentores da hegemonia, os quais quase sempre fecharam os ouvidos às advertências daqueles que se encontravam em minoria... mas estavam com a razão!
De resto, somos os primeiros a reconhecer que as sementes por nós espalhadas frutificarão ou não graças a fatores que vão muito além de nosso idealismo, do nosso tirocínio e dos nossos esforços. 

Neste momento da vida só podemos apontar caminhos e dar exemplos, na esperança de que novos combatentes, com o vigor de que já não dispomos, inspirem-se nestas leituras ao decidirem suas linhas de ação.

Aos leitores que respeitam nossos esforços, peço: ajudem-nos a divulgar este blogue de resistência, que ninguém patrocina e tão poucos organizados apoiam, mas que prova ser possível sobreviver com as próprias forças (e desnecessário, portanto, vender a alma); e difundam estes textos impregnados de toda nossa experiência de vida e de todas as esperanças que ainda mantemos no futuro da humanidade, para que eles possam atingir seus objetivos...e nós também!

A luta continua.
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SOBRE O MESMO ASSUNTO, LEIAM TAMBÉM:
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A IMPORTÂNCIA DE UMA COMUNICAÇÃO LIVRE DO JUGO DO CAPITAL
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Por Dalton Rosado
Disse Marx, nos Grundrisse, que a máquina, ao reduzir o trabalho humano a um mínimo, beneficiária o trabalho emancipado e seria a condição de sua emancipação. 


Assim Marx inseriu, de maneira genérica, os ganhos da tecnologia para a emancipação humana; e nela está inserida a comunicação via satélite, que agora, por meio da internet, liberta (até certo ponto) a informação do jugo do capital.

É difícil para o capital bloquear a circulação da informação eletrônica, uma vez que a vida moderna se rege por tal modo de comunicação sob os mais variados aspectos; e, em termos técnicos, uma coisa dificilmente pode ser separada da outra.

Já estão distantes no tempo as tradicionais (e autoritárias) ações de empastelamento dos jornais que contrariavam os interesses dos governantes a serviço do capital. Mas, jornalistas até hoje continuam sendo assassinados e perseguidos por suas práticas profissionais... (clique para ver mais)

A ESQUERDA DA MINHA VIDA.
Por Apollo Natali
Afinal, que caminho é esse, a esquerda, pauta fiel do Náufrago?  A resposta culta eu ouço da boca dos estudiosos, dos intelectuais, da Academia. Mas como trocá-la em miúdos, em linguagem simples e direta, para boa parte dos 200 milhões de brasileiros não tão acadêmicos? Para o gasto do dia a dia do mortal que anda de ônibus, qual o significado dessa palavra  incompreendida até para mim?  

Definição acadêmica: os grandes ideólogos do marxismo e do anarquismo, Marx e Proudhon, pregavam a tomada de poder pelos trabalhadores que reformulariam a sociedade no sentido da priorização do bem comum, com as pessoas trabalhando solidariamente para que as atividades produtivas visassem ao pleno atendimento das necessidades humanas em regime de cooperação voluntária e igualdade. 

Lindo. Utópico. Impraticável. Como se tem visto. Que Lungaretti e seus pares de idéias possam perdoar minha visão turvada. Longínquo, incerto é o dia em que a humanidade vai atingir o topo moral necessário a uma vida feliz como essa. Não estaremos aqui para ver, nem nossos descendentes... (clique para ver mais)

18.1.16

APOLLO NATALI: "O BOMBARDEIRO DE GETÚLIO".

Por Apollo Natali
Getúlio Dornellles Vargas chamou o cara e disse: vai ter uma revolução e eu quero que você fabrique bombas para mim. O homem que era especialista em fazer bombas, respondeu: eu vou fazer só uma bomba e é para te matar.
   
Getúlio Dornelles Vargas então arremessou o interlocutor ao solo com um empurrão e ordenou: levem esse sujeito para ser torturado. Concluída a tortura, o homem da bomba foi solto e se arrastou pelas ruas do Rio de Janeiro com o corpo em petição de miséria, tendo ainda debaixo das unhas os estiletes que os torturadores não quiseram se dar ao trabalho de tirar.

Bem antes disso, o tal do bombardeiro (cujo ofício, como se nota, é mesmo lidar com bombas) já havia sido preso e torturado a mando de Getúlio Dornelles Vargas, descoberto que foi fabricando bombas em sua própria residência. 

Seu segredo veio à tona após uma explosão em sua casa. Sua mulher e a filha de nove anos sofreram sérias queimaduras nas costas. Foram levadas presas para um convento por ordem de Getúlio Dornelles Vargas. Lá eram arrastadas pelos cabelos e xingadas de comunistazinhas pelas freiras.
Filinto Muller era o Brilhante Ustra do Getúlio

O cara que fabricava bombas era teimoso e colocou uma de sua autoria no vagão de um trem onde viajaria Getúlio Dornelles Vargas. 

De repente apareceu gritando um velho que, pela aparência desgrenhada, ninguém daria um centavo por ele.

Falou resfolegando para o bombardeiro e seus amigos agachados a uma certa distância do trem: alguém do Partidão [o Partido Comunista] nos denunciou. Precisamos tirar essa bomba daí logo para que ninguém nos identifique.

Era uma bomba à base de nitroglicerina. Pode explodir com uma respiração mais forte, um chacoalho ou mudança de temperatura.  Olha o perigo de explosão fora de hora na fornalha Rio 40 graus (que era aquele vagão) antes de Getúlio Dornelles Vargas entrar nele!

Outros amigos do Partidão chamados às pressas para tirar a bomba demoravam muito para chegar. Estavam aflitos os três ou quatro bombardeiros  escondidos com as mãos apertando os ouvidos. Ufa, a bomba foi retirada e Getúlio Dornelles Vargas só morreu em 1954, por conta própria.
Pai dos pobres? Vargas era mais um Mussolini dos trópicos...

O bombardeiro de Getúlio Dornelles Vargas se chamava Francisco Romero.

O neto dele, já antigo trabalhador na construção civil, mora num bairro vizinho ao meu, em São Paulo. Ele me contou esta história às 11h30 do dia 16 de janeiro do ano de Nosso Senhor de 2016.

Sei que os doutos historiadores exigirão depoimentos de outrem e/ou quaisquer registros do passado, coincidentes em algum(uns) ponto(s) com estas lembranças, para se decidirem a encaixar o pequenino personagem Francisco Romeiro num cantinho da biografia de Getúlio Dornelles Vargas; lamentavelmente inexistem, ou nem o neto os tem, nem eu os encontrei.

Pensei numa foto do avô e família, esta sim disponível, mas logo aquilatei que não seria suficiente.

O seu falar fluía tranquilo e pausado. Ouvindo-o, não duvidei em momento algum da veracidade do que ele me narrava. E você, caro leitor ou prezada leitora, o que concluiu deste relato?

Nota do editor: quando meu bom amigo Apollo me enviou este texto, percebi de imediato que a sua convicção da veracidade de tudo que o neto do personagem lhe contara poderia não ser compartilhada pelos leitores, à falta de elementos de comprovação. Sugeri, então, que deixasse uma margem para dúvida nos parágrafos finais e, como se trata de uma história fascinante, coloquei-a no ar.

Agora me ocorreu que, sendo isso História e não imaginação, o PCB detestaria que se tornasse conhecido. Afinal, pode mesmo ter tentado e abortado o atentado contra o ditador --plenamente justificável face à repressão bestial desencadeada contra seus quadros após o fracasso da Intentona--, mas em seguida voltou a ser um partido pacífico e legalista... até demais!
Agildo Barata levado a depor... de pijama!

E, após ter oportunisticamente apoiado a volta de Vargas ao poder pela via democrática, pareceria uma incongruência extrema haver-se alinhado com quem antes teria tentado mandar pelos ares.

Enfim, se eu fosse historiador, ouviria o que esse humilde aposentado tem a dizer e sairia em busca dos tais elementos de comprovação. Pode ser ouro de tolo, mas pode também ser uma pepita valiosa. Só o poderemos saber depois de alguns encaminhamentos que nem o Apollo nem eu temos condições de levar a cabo. (CL) 

9.12.14

ARTIGO DE APOLLO NATALI: "TIO SAM, TIO SAM, QUE MATAS OS TEUS NEGROS..."

No dia 5 de dezembro de 1955, o menino negro Emmett Till, de 14 anos, foi assassinado por dois brancos, acusado de ter se insinuado a uma mulher branca. Foi  surrado, levou um tiro de pistola .45, teve um olho arrancado e o pescoço amarrado com arame farpado a um peso para que afundasse no rio Tallahatchie. O assassinato aconteceu em Money, no Mississippi, onde mais de 500 casos de inchamento de negros haviam sido documentados desde 1882.

Naquele mesmo 5 de dezembro, Martin Lugher King foi eleito presidente da Associação pelo Progresso de Montgomery, uma pequena semente do movimento por direitos civis que varreria os Estados Unidos e teria Luther King como a principal liderança até o seu assassinato em Memphis, no ano de 1968.  

Rosa Louise Parks fez a introdução ao discurso de Luther King como presidente da  instituição. Antes, a atitude de Rose Parks, de não ceder seu lugar a brancos no ônibus, havia sido a semente de movimentos por direitos civis por todo o país. Morreu no furacão Catrina.

Em 3 de maio de 1963, 6 mil crianças marcharam pela cidade de Birmingham, em lugar de milhares de manifestantes que haviam sido presos. A resposta da polícia veio com cassetetes, jatos de água e cachorros ferozes contra a turba infantil.  

Em agosto desse ano mais de 200 mil pessoas se reuniram em frente ao Memorial Lincoln, em homenagem a Abraham Lincoln, o indeciso presidente norte-americano que, enfim, um dia levou à frente a causa da abolição. Luther King disse então: Eu tenho um sonho. Eu tenho um sonho de que um dia esta nação experimentará o verdadeiro significado de sua crença, de que todos os homens são criados iguais.

Em 22 de setembro de 1862, Abraham Lincoln assinou a lei que vigoraria a partir de 1º de janeiro de 1863, intitulada Proclamação da Emancipação, que libertou o negro do cativeiro da escravidão física. 

Cem anos depois, no entanto, o negro nos Estados Unidos da América ainda não é livre, vive isolado numa ilha de pobreza em meio a um vasto oceano de prosperidade material, abandonado nos recantos da sociedade na América, exilado em sua própria terra. 

E vocês sabem, meus amigos, que chega a hora em que as pessoas se cansam de ser pisoteadas pelo pé de ferro da opressão. Chega a hora, meus amigos, em que as pessoas se cansam de ser lançadas no abismo da humilhação, onde vivenciam a desolação de um pungente desespero. Chega a hora em que as pessoas se cansam de ser alijadas do brilhante e vívido sol de julho e abandonadas ao frio cortante de um novembro alpino. Assinado, Martin Luther King (*).

Proclamamos com orgulho que ¾ da população mundial são formados por pessoas de cor. Nosso objetivo não deve ser derrotar ou humilhar o branco. Não devemos nos tornar vítimas de uma filosofia da supremacia negra. Deus não está interessado em libertar apenas o negro, o pardo e o amarelo, pois Deus está interessado em libertar toda a raça humana. 
Luther King discursa na Marcha sobre Washington (1963)

Devemos agir de maneira tal a tornar possível a união de brancos e negros num alicerce de verdadeira harmonia de interesses e compreensão. Devemos buscar a integração com base no respeito mútuo. À medida que lutamos por justiça e liberdade temos a companhia cósmica. Cada homem, do negro mais grave ao branco mais agudo, é importante no teclado do Senhor.  Assinado, Martin Luther King

Atentado a bomba cometido pela Klux Klu Klan à igreja Batista em Birmingham, em 1954, matou quatro meninas negras durante um culto – Addie Mãe Collins, Carol Denise McNair , Cyntia Diane Wesley e Carole Robertson. A morte dessas meninas possivelmente conduzirá todo o nosso Sul da mais baixa estrada da desumanidade do homem à mais elevada estrada de paz e da fraternidade. Estas mortes trágicas possivelmente conduzirão a nossa nação de uma aristocracia da cor a uma aristocracia do caráter. 

Não devemos perder a fé em nossos irmãos brancos. De algum modo, precisamos acreditar que os mais desnorteados dentre eles podem aprender a respeitar a dignidade e o valor de cada personalidade humana. Cheguei à conclusão de que esta premiação, o Prêmio Nobel, que recebo em nome desse movimento, representa um profundo reconhecimento de que a não-violência é a resposta à crucial questão política e moral de nosso tempo – a necessidade de o homem transcender a opressão e a violência sem recorrer à violência e à opressão. Assinado, Martin Luther King.

Em 7 de março de 1965, seiscentos negros foram brutalmente atacados na cidade de Selma. A polícia estadual avançou sobre os manifestantes, espancou-os com chicotes e pisoteou-os com cavalos. Foi o chamado Domingo Sangrento.  No dia seguinte, Luther King fez apelo a lideres religiosos de toda a nação para que percorressem o mesmo caminho do Domingo Sangrento. Mais de mil padres, rabinos, freiras e pastores atenderam a seu apelo. 

A chuva nos deixou encharcados. Nossos corpos estão fatigados, nossos pés, doloridos. Nossos pés estão cansados, mas nossas almas, não - disse Luther King em seu discurso – nunca houve um momento na história americana mais digno e mais inspirador do que a peregrinação de religiosos e leigos de todas as raças e de todas as crenças que afluíram a Selma para enfrentar o perigo ao lado dos negros oprimidos.  

A segregação entre raças foi uma estratégia dos emergentes conservadores sulistas para dividir as massas e baratear a mão-de-obra. Era simples manter as massas de brancos pobres trabalhando por um salário de fome nos anos que se seguiram à Guerra Civil, pois, se os humildes trabalhadores rurais brancos ficassem insatisfeitos com os seus baixos salários, os poderosos fazendeiros simplesmente ameaçavam demiti-los e contratar, por um salário ainda menor, um ex-escravo. 

Segregaram o dinheiro sulista dos brancos pobres, segregaram os costumes sulistas dos brancos ricos, segregaram as igrejas sulistas do cristianismo, segregaram as mentes sulistas do senso de justiça, segregaram o negro de tudo o mais.  Assinado, historiador C. Vann Woodward.
O assassinato impune de Eric Garner

Perguntou Martin Luther King: por quanto tempo mais o preconceito cegará a visão do homem, escurecerá o seu entendimento, afastará a iluminada sabedoria do seu trono sagrado? Quando a justiça ferida, prostrada nas ruas de Selma, de Birmingham e de todas as comunidades do Sul, levantar-se-á da poeira da vergonha para reinar suprema entre os filhos dos homens? Quando a radiante estrela da esperança será arremessada contra o escuro seio dessa noite solitária, extraída das almas fatigadas pelos grilhões do medo e pelas algemas da morte? Por quanto tempo mais será a justiça sacrificada diante da tolerância da verdade?

Sim, quando? O cenário nos Estados Unidos atual ainda são os velhos protestos de negros por todo o país e a repressão dos brancos contra eles, como nos velhos tempos de Luther King. Ainda agora, nos meses finais de 2014, Michael Brown, 18 anos, foi morto a tiros pela polícia em Ferguson; Akair Gurley, 28 anos, a polícia  o matou com um tiro no peito na descida de uma escada em Brooklin; Eric Garner, 43 anos, asmático, obeso, desarmado, foi esganado por um policial em Nova Iorque. Este episódio, o mundo inteiro, pateticamente entristecido, assistiu pela televisão e redes sociais e viu que o ódio pelo negro na terra do Tio Sam ainda está vivo. 

Quanto à enorme quantidade de negros que os Estados Unidos enviaram para a morte no Vietnã, é uma das nossas maiores vergonhas. Assinado, Martin Luther King.

Grande parte da abrangente e poderosa mensagem de Luther King corre o risco de ser abandonada à medida que novas gerações entram em contato com ele apenas por meio da história e o vêem mais como um mito do que como um homem. A vida e a obra de Luther King ainda são relevantes para compreender a complexa realidade dos problemas atuais e se permitirmos que a riqueza de seu exemplo se apague, perderemos a oportunidade de continuar aprendendo com ele. Assinado, Edward Kennedy.


* todas as citações de Luther King foram extraídas do livro Um apelo à consciência – Os melhores discursos de Martin Luther King (Jorge Zahar Editor, 2006, 184 p.)

3.6.14

APÓLLO NATALI DÁ SEU RECADO: "ABAIXO A DENTADURA!"

A era da humilhante ditadura chegou ao fim!

Saibam todos os 80% dos brasileiros que têm menos de 20 dentes: os implantes são realidade hoje para vocês que têm retração óssea severa na boca. 

Para vocês, até ontem, os dentistas desferiam a sentença cruel: é dentadura, meu filho, não tem jeito. E lá iam todos, banguelas por inteiro, para casa, com duas carroças na boca para a vida toda, a dentadura de baixo e a de cima.  

Doutor pela Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, José Vicente Contatore iniciou há 30 anos pesquisas em sua terra natal, Araraquara, para desenvolver sua técnica de regeneração óssea mediante o enxerto celular. Atualmente Contatore exibe o resultado de sua descoberta em pacientes implantados que vêm até da mítica Suíça. Pedi ao Ministério da Educação e Cultura, por carta e e-mail, que a matéria seja incluída na grade curricular das faculdades de odontologia.

O paciente, idoso ou não, se acomoda desdentado em suas cadeiras de tratamento e, depois de l0 semanas de cuidados, vai para o seu trabalho com a massa óssea regenerada, todos os 32 dentes implantados, a auto-estima nas nuvens e uma vontade louca de voltar a viver e a sorrir... 

Em suas pesquisas, o Dr. José Vicente Contatore descobriu também que as doenças periodontais  podem ser causadoras do Acidente Vascular Cerebral, o AVC, por meio das bactérias instaladas nas microbolsas que se formam em decorrência da perda óssea e do descolamento da gengiva. Tais bactérias liberam enzimas que obstruem as artérias parcial ou totalmente.

Como os custos do tratamento não estão ao alcance dos pobres, enviei carta à presidenta Dilma narrando as conquistas do Dr.Contatore e passando a ela a esperança dos os desdentados deste País, de que no seu próximo mandato ela já poderá estender tal mágica à rede pública de saúde de todo o território nacional, começando pelos  hospitais universitários. 

Estejam à vontade também os hospitais particulares para abraçarem o novo paradigma da odontologia; assim, o Brasil deixará de ser o país mais banguela e de pior mastigação do mundo. 

Lembrando que o Dr. Contatore é o único que exerce tal trabalho na patriamada. Lembrando que a dentição e a mastigação são condições básicas de saúde da espécie humana. Lembrando que a vida saudável é a vida que deu certo.

Sua técnica está à disposição do mundo em seus vídeos e entrevistas no Google, no seu facebook, em seu site (odotologiacontatore) e no Youtube.  É assim: utilização de laser de alta potência. Pelo raio laser, a célula óssea, que está inerte em decorrência da periodontite, é ativada, aumentando a energia fabricada pela mitocôndria, e, com isto, torna a se reproduzir. 

Depois, a retirada do próprio paciente de células adiposas, ou seja, células somáticas adultas, reprogramadas geneticamente em células indiferenciadas, como se fossem células-tronco, afastando, assim, qualquer discussão ética sobre sua origem. 

Em seguida, aplicação de proteína morfogenética. A célula geneticamente reprogramada, enxertada no osso, se transforma em osteoblasto, responsável pela osteogênese, ou seja, a formação de osso, fechando o ciclo de reprodução e crescimento da massa óssea. 

E entra a fase do implante no osso regenerado: abaixo a dentadura! 

Finalmente, uma hipótese do Dr. Contatore é a de que pacientes com osteoporose poderiam se beneficiar dessa técnica.     

20.5.14

APOLLO NATALI PERGUNTA: "CADÊ O BIXIGA?"

CADÊ O BIXIGA?
                                                                                                                
Por Apollo Natali
"a pia que salvou a minha alma"
Grande como um continente, o Brasil tem 8 milhões e 542 mil quilômetros quadrados de território. O litoral brasileiro, 7 mil e 367 quilômetros de extensão. Quem se aventura a percorrer o País pelo litoral, desde o arroio Chui, no Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai, até o arroio Oyapoque, no alto do estado do Amapá, este lá em cima da América do Sul, já para os lados da América Central, contempla, entre esses dois pontos limites do chão brasileiro, uma sequência sem fim de nomes italianos em fachadas de indústrias, comércio, hospedarias,  fazendas.

Nós, brasileiros, quando queremos expressar o tamanho do nosso país dizemos: do Oyapoque ao Chui. No percurso pelo litoral entre esses dois distantes riachos limites, o aventureiro vê das janelas dos ônibus, do carro, da canoa, do lombo do jegue, artísticos recortes e contornos de deslumbrantes praias cheias de dizeres italianos.
   
Imigrantes de várias origens e etnias se espalharam pelo país e deixaram sua marca de trabalho e de progresso em cada canto do Brasil. Mas a religiosidade católica, a sensibilidade, as boas comidas, a participação em vários esportes, o modo de se mostrarem sempre felizes mesmo tendo sofrido muito ao tempo da imigração em  massa, estão entre as maiores influencias deixadas pela enorme colônia de italianos. A expansividade e o jeito alegre desses imigrantes modificaram até o próprio modo de falar de muitos dos brasileiros. Mesmo a mais comum xingação do mundo os brasileiros falam em italiano.

Convivi com a italianada de um punhado de cortiços na fronteira entre o Brás e a Mooca, em São Paulo, nas ruas Coronel Cintra, rua da Mooca, Caetano Pinto, Carneiro Leão.  Eu mesmo vivi 33 anos, desde bebê, num cortiço na Mooca, na rua Coronel Cintra, 129, habitado por 20 famílias de ruidosos italianos e suas briguentas crianças. Minha meninice lá foi marcada pela música "Marechiare", pelo rádio de Tzi Terê e vozerio de Gino Bechi. Eu sabia cantar essa canção em italiano: quem diz que as estrelas são luzentes não conhecem os olhos que você tem na fronte.
A tradicionalíssima escadaria do Bixiga

Realizando um sonho de criança, aos 46 anos fui a Manaus, capital do Amazonas, e naveguei pelos rios daquele Estado: o Amazonas, o Madeira, o Mamoré, o  Negro. Sabem o que eu via enquanto meu barco deslizava pelos igarapés, esses rios quietos e caudalosos que passeiam por entre a selva inundada? Via índios com camisas do Milan, remando suas canoas em meio ao mistério da floresta. E sabem qual o pano de fundo, ao longe? Placas com o nomes de propriedades e fazendas, em italiano. 

Um dos marcos dessa emocionante saga da italianada em nosso país, é que, em meio à massa de oriundi que invadiu o Brasil desde o final do século 19, uma mítica aglomeração deles emergiu em São Paulo: o bairro do Bixiga. Na capital paulista os imigrantes que chegavam se hospedavam na Hospedaria dos Imigrantes, no bairro do Brás, hoje tornada Museu da Imigração. Em São Paulo, as principais regiões onde eles mais se concentraram foram nos bairros do Bixiga, Brás, Mooca, Água Branca, Lapa, Ipiranga e no chamado ABC paulista, formado pelas cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul.

São uns privilegiados os milhões de leitores brasileiros deste blogue do meu velho amigo ítalo-brasileiro Celso Lungaretti. Privilegiados são também os outros milhões de leitores que o acessam na América do Sul, Estados Unidos, Canadá, Rússia, Alemanha, Portugal, China, França, Índia, Austrália, Malásia. Privilegiados porque podem viver agora a emoção intitulada bairro italiano do Bixiga, que no meu tempo de criança  - estou com 78 -  era habitado predominantemente por italianos e negros.  Os negros e pardos correspondem hoje praticamente à metade da população do país. Pesquisa de 2005 contava 92 milhões de brancos e 91 milhões negros e pardos. No Brasil apenas não há negros nas reservas indígenas.
O passado sucumbe à degradação urbana

Ainda hoje está viva lá no Bixiga, pertinho da casa que foi da minha nona, no fim da rua São Vicente, uma escola de samba que desfila no Carnaval, chamada Vai-Vai. No coração do Bixiga, o samba italiano. Brasileiro de sangue italiano, a maior frustração da minha vida, além de não ter voz para cantar canções napolitanas como "Parlami d’amore Mariu" na voz potente e dramática de Mário Lanza, é não ter aprendido a dançar como os negros, é invejar sua dança, que está no seu sangue, nos nervos, na pele, nos pés, nos olhos. Considero perdido o dia em que não se dançou o samba nenhuma vez. Até os cachorros do Bixiga latem no ritmo do samba, dizia Osvaldinho da Cuíca, integrante da ala italiana do samba paulista no Bixiga. Confesso, eram escurinhas as 4 moças por quem este brasileiro branquelo de sangue italiano se apaixonou  no decorrer de sua longa vida.

E foi da seguinte maneira que os italianos fundaram o bairro do Bixiga, na região central de São Paulo: em 1º de outubro de 1878 o imperador do Brasil D.Pedro II inaugurou o loteamento da Chácara Bexiga – falava-se Bexiga – que pertencia a Antonio José Leite Braga. Os lotes eram baratos e foram comprados por imigrantes italianos, que acabaram batizando o bairro. A Chácara Bexiga ficava no centro de um bairro chamado até hoje de Bela Vista. O nome Bexiga vem de um problema de saúde, a varíola, que atacou os imigrantes. Eles tinham seus rostos marcados por bechigas.

Pasmem: os vereadores de São Paulo não aprovaram até hoje, 136 anos desde o seu nascimento, um projeto de oficialização do bairro do Bixiga, proclamando sua independência e evitando o seu desaparecimento.

Desde os antigos italianos que o habitavam, o Bixiga veio ganhando o status de bairro cultural, por suas cantinas, gastronomia, teatros, variadas atividades culturais. No entanto, de tudo, resta hoje apenas uma única festa, concentrada na igreja Nossa Senhora Achiropita, onde ainda se rezam missas em italiano. 
A famosa festa de N. Sra. da Achiropita

De vez em quando, padres, sacerdotes, mães de santo, pais de santo, misturam ingredientes africanos na missa afro, rezada na paróquia. É uma leitura africana com olhos cristãos da religião católica. Rituais católicos se misturam às tradições afro-brasileiras. Pode-se agendar casamento afro nessa histórica igreja.

Atualmente há apenas três ambientes nas festividades para gostos variados: a rua 13 de Maio, onde eu nasci de parteira em 1936 no antigo número 29, a igreja onde fui batizado aos 7 anos de idade em 1943, em plena II Guerra  e a cantina Madona Achiropita.

Na Igreja, até hoje bênçãos são dadas a cada hora. No meu batismo, o padre italiano grandão todo vestido de preto enfiou o dedo cheio de sal na minha boca e eu cuspi pecaminosamente na pia batismal. O padre deu um cascudo na minha cabeça e disse: "Onde se viu ser batizado aos 7 anos?". Fui carregado para o batismo por duas tias italianíssimas, corpulentas, catolicíssimas, tia Bianca e tia Líbera.  Elas me erguiam decididamente pela rua 13 de Maio e meus pés nem alcançavam o chão. Outro dia, já nos meus 78 anos, voltei á Igreja Nossa Senhora de Achiropita, para matar saudades da pia que salvou a minha alma.

Na minha infância os vidros coloridos das antigas janelas de madeira do velho palacete da nona na rua São Vicente pintavam de verde, amarelo, vermelho, azul, os pratos quentinhos de macarrão e rizzoto.  O vozeirão harmonioso de Beniamino Gigli acariciava nossos corações nos almoços e jantares. Meus avós maternos são de Nápoles, no sul. Os paternos são de Pescia, no norte. Minha avó paterna engravidou 24 vezes, a materna 17 vezes, minha mãe 7.

No ano de 2013 viviam no Brasil cerca de 30 milhões de descendentes de imigrantes italianos, a metade da população da Itália. Que fantástica capacidade de proliferação dessas gentes que pisaram no Brasil vindas do Vêneto, Campânia, Calábria, Lombardia, Abruzzo-Molise, Toscana, Emília-Romagna, Basilicata, Trento, Sicília, Piemonte, Puglia, Marche, Lácio, Úmbria, Ligúria, Sardenha!

Quando um brasileiro quer definir algo muito bom, fala uma palavra um pouco forte: é do cacete!  Então, o título de um jornal que criei sobre o Bixiga, também é forte: DO BIXIGA! Em formato de sanfona, logotipo em posição vertical, dobrável, cabe no bolso. Não foi além do primeiro número. O meu editorial desse jornal conta como está hoje o Bixiga.

Muita festa, pouco bairro  

"Aconchego dos artistas e dos teatros. Das cantinas italianas. Da escola de samba Vai-Vai. Da festa de Nossa Senhora Achiropita. Diversidade étnica. Tradições, práticas, costumes, símbolos. Muitas e belas histórias de vida.  Pois saibam todos quantos possam se interessar, essa riqueza cultural do Bixiga respira com o balão de oxigênio da mídia. Cadê o Bixiga? Vai morrer? Já morreu? O dia em que rádio, TV, jornais, se calarem, podem encomendar o ofício dos mortos para o bairro.

O problema é que esse estado de espírito, como é definido o Bixiga, anda muito mal acomodado nesse bairro que nem é bairro oficialmente. O precioso acervo leva má qualidade de vida. É cercado por arquitetura descaracterizada pelo chamado progresso, leia-se especulação imobiliária. Calçadas, deterioradas. O leito das ruas, devastado pela invasão dos vikings do asfalto, os automóveis. Mas que terra barulhenta e poluída de fumaça é hoje o Bixiga!

Três mil saudosas residências de outrora, desesperançadas, sobreviventes da terra urbana arrasada que deu passagem a viadutos e avenidas, imploram tombamento para não acabarem virando garagens decoradas com graxa. Mas os apaixonados pela causa, trabalham. Os grandes problemas têm soluções simples. Que o diga o também italiano, como os bixiguenses, Cristóvão Colombo, a espantar o mundo com a sua solução para equilibrar um ovo."

Pronto, o editorial acaba por aqui.

Continuando, uma providência simples e prática repetidamente sugerida é a construção de uma garagem subterrânea para mil carros, a oferecer dignidade e segurança a um número sem fim de turistas, brasileiros e estrangeiros, atraídos pela mágica do lugar. O estacionamento, aprovado por dois falecidos prefeitos, Reinaldo de Barros e Jânio Quadros, se um dia sair do papel irá para o subsolo da praça D.Orioni.

A proposta é de Walter Taverna, feitor, há décadas, de grandes eventos que, junto com o favor da mídia, vêm dando sobrevida à aura do bairro. Entre outras festas, Taverna criou o maior pão do mundo e o maior bolo do mundo, este para comemorar o aniversário de São Paulo, em 25 de janeiro. Cada bolo tem o tamanho do número de aniversários da cidade. O último tinha 460 metros e foi devorado em cinco segundos pela população. A prefeitura de São Paulo não o deixou fazer a maior pizza do mundo. O dia em que Taverna morrer, podem contratar a cerimônia fúnebre do Bixiga. Eu já disse isso a ele.

Para avivar o magnetismo do bairro, Taverna tem um belo sino dourado na porta de sua cantina, a Concheta. Ao tocarem o sino, os seus clientes participam de uma simpatia italiana: quem tocar o sino uma vez, consegue conquistar a pessoa amada. Duas vezes, consegue trabalho. Três vezes, saúde para ele e toda a família. Quatro vezes para ganhar bastante dinheiro.

Taverna lança o brado: o Bixiga precisa dessa referência, o estacionamento.

Ele quer também a rua 13 de Maio transformada em um calçadão e em shopping a céu aberto. E a reestruturação do comércio da área. E sonha acordado com investidores para realizar esses seus sonhos, contados nas nossas páginas do DO BIXIGA!

E quem somos nós, do DO BIXIGA!, para vir aqui contar vantagem? Mostramos a decadência do bairro, mas também somos apaixonados por ele. Chegamos para defender essa causa. Como? De duas maneiras: dar sempre mais e mais divulgação e visibilidade às festas, ações sociais e tradições do bairro; e, em busca de soluções, mostrar continuadamente às autoridades e interessados em geral os problemas do monumento a céu aberto que é esse bairro afamado. Há muito a fazer.

(O I Guia Turístico do Bixiga, uma iniciativa do Site do Bixiga, com apoio de ONGs e comerciantes locais, e realização do Studio Maria Ribeiro, apresenta o bairro com detalhes: mapa de localização, calendário de festas e eventos, informações e roteiros dos pontos turísticos, museus, teatros, as famosas cantinas, restaurantes e padarias, a feira de antiguidades e os antiquários, os personagens e lugares históricos. A valorização e resgate da cultura dos imigrantes que ajudaram a construir a São Paulo de hoje, é a tônica desse roteiro, que apresenta espaços culturais e de lazer, desconhecidos muitas vezes pelos próprios moradores da cidade).

Manchete: O Bixiga vai morrer? 
Os belos arcos que o prefeito Jânio Quadros recuperou

Caminhe hoje alguém pelas ruas estreitas e íngremes do Bixiga. Vê um bairro agonizante, sufocado pelo gás carbônico de verdadeiros estouros de boiadas de automóveis, esses furiosos e barulhentos perseguidores dos humanos pelo asfalto. Calçadas deterioradas. Um verde esfarrapado, um pouquinho cá, um pouquinho lá. Casas, umas e outras, relíquias residenciais sem cor, se desfazendo, abandonadas.

As entranhas desse bairro feito de história, cultura, religião, sentimento, estão rasgadas por viadutos e vias expressas ocupando o lugar de outrora mil casas, de emocionantes histórias, que foram demolidas. O comércio, descaracterizado, de pequenos empórios de dia, bares e restaurantes à noite. Vai morrer? Já morreu? Cadê o Bixiga?

O homem que há meio século promove eventos e defende o Bixiga, Walter Taverna, diz que não, se ao doente forem ministrados alguns remédios, como criar alguns pontos de referência – um portal, um estacionamento subterrâneo para a dignidade e segurança dos turistas, a transformação da rua principal, a 13 de maio, em calçadão, reestruturar o comércio transformando o bairro em shopping a céu aberto abastecido de produtos característicos da região e o tombamento urgente de 3 mil casas, todas prestes a se transformarem de um momento para outro em estacionamentos e garagens.

Na ultima página do DO BIXIGA!,  Walter Taverna, considerado o eterno protetor do bairro que não é bairro oficialmente, conta a história de sua vida e dá a receita para não deixar o Bixiga morrer:
                            
Três mil saudosas residências de outrora, desesperançadas, sobreviventes da terra urbana arrasada que deu passagem a viadutos e avenidas, imploram tombamento para não acabarem virando garagens decoradas com graxa. Mas os apaixonados pela causa, trabalham. Os grandes problemas têm soluções simples. Que o diga o também italiano, como os bixiguenses, Cristóvão Colombo, a espantar o mundo com a sua solução para equilibrar um ovo.

O defensor perpétuo do Bixiga
(a história de Walter Taverna e sua receita para 
salvar o bairro, contada por ele mesmo, em 
depoimento  concedido a Apóllo Natali)


“Nasci há 77 anos, nos fundos de uma cocheira que ficava na rua 13 de maio, número 703. Uma discussão besta em família na véspera de Natal, meus avós nos puseram fora da cocheira, meus pais e sete filhos. Para fora de casa a família toda, de madrugada. Eu tinha 6 anos.  Fiquei morando na rua, dormindo nas escadarias do Morro dos Ingleses. Perambulava por aí, à procura de parentes. Fui menino de rua. Fiz uma caixa de engraxate. Roubaram. Fiz outra, roubaram.

A tradição do Bixiga só vai se mantendo pela força dada por alguns da mídia. Faço eventos há 40 anos, de nível internacional. A vida ensina. Em 1978, levei para a rua a festa da Igreja Nossa Senhora Achiropita. Era dentro. 

Hoje só restam descendentes de italianos e suas propriedades deterioradas à venda. Em 1987, o patrimônio tombou 906 casas. Mais de 3 mil estão em processo de tombamento. Se tombaram quase mil, poderão tombar as restantes e o bairro não morre. Mas ninguém se interessa. Estado, Prefeitura, centros culturais, não fazem nada.

O bairro precisa de uma referência. Um estacionamento que estou sonhando faz tempo, 678 vagas, na praça Dom Orione, já foi aprovado duas vezes, uma pelo prefeito Reinaldo de Barros, outra pelo Jânio Quadros. O turista merece estacionar com dignidade e segurança. Vem visitante de todas as partes do Brasil, estrangeiros também. Transformar a rua 13 de maio em calçadão. Reestruturar o comércio, transformar o bairro em um shopping a céu aberto com estoques de produtos característicos.  Construir um portal, na rua Manoel Dutra com Rui Barbosa. Fazer a limpeza pública sempre. Colocar placas em todo o perímetro do bairro: Sorria, você está no Bixiga. 

O bairro deve ser conhecido com palavras e visuais bonitos.  Se os investidores aparecerem, dou um jeito em tudo isso. Viver sem apoio de ninguém é horrível. Preciso de investidores. Fundei a Sociedade de Proteção ao Bairro, a Sodepro, só família, se não for familiar não funciona.

Uma tia me levou para a Vila Mariana. Me tratou mais do que um filho. Desculpe, sempre que falo nela eu choro. Vivi dois anos lá. Ela veio morar no Bixiga.

(Para a mulher que pede para instalar um pula-pula para adultos e crianças na rua Rui Barbosa durante a festa do maior pão: eu autorizo. Eu mando nesta droga, aqui). 

Aos 11 anos fui aprender a ser barbeiro. Comprei a barbearia a prestação. O Minhocão desapropriou. Fui para a Conselheiro Carrão. Aos 11 anos já era barbeiro. Aos 13 me transformei num grande barbeiro. Na Conselheiro Carrão era a barbearia. Levei toda a minha família para lá. Sustentava a família toda. Fiz barba e cabelo de defunto, cobrava mais caro e, com isso, ganhava dinheiro. Sem poder manter o equipamento e mais minha família toda no salãozinho alugado, meus pais, 3 irmãos, 3 irmãs, e eu, livrei-me do equipamento, ficou todo mundo morando lá e fui trabalhar em domicílio. Antigamente velório saia das casas.

Em 1958 meu pai alugou um carro para ir à festa do vinho de São Roque. Nunca tinha levado minha mãe para passear a lugar nenhum. Ele tinha tirado minha mãe do hospital psiquiátrico do Juqueri. Morreram todos num acidente, pai, mãe, três irmãs, duas sobrinhas.  Foi tudo para o brejo.

Casei depois. Meu filho foi sequestrado com 15 anos. Ficou 7 dias preso em Avaré. Conseguiu fugir do cativeiro, uma casa. Em 1978 esse meu filho mexia numa arma. Ela disparou e ele morreu. Me derrubou. Dormia na porta da minha casa, não conseguia entrar. A mãe dele faleceu de desgosto. Em 1980 casei outra vez. Depois de 2 anos, ela morreu. 

O médico agora me dá uma terapia: muito trabalho.

Os varais do Bixiga, que criei. Quis mostrar o valor do varal. É de grande importância histórica e social o varal de roupas. Eram 4 mil roupas penduradas na rua. Costurava dia e noite, sem parar. Sou costureiro. A prefeitura veio e tirou tudo. Um mendigo viu que eu conseguira montar outro varal pequeno, com poucas roupas, me deu de presente o seu paletó. Nessa noite chorei, virei poeta e compus a poesia 'História dos Varais'.



Fiz o Hino do Bixiga com Gilson de Souza, cantor e compositor.

Não tenho nem o primário. Fiquei 6 anos no primeiro ano. Passei de ano por antiguidade.

Via as pessoas pegar comida no lixo da minha cantina. Não era para pegar, eu daria a comida. Quando fechava a cantina, fazia as marmitas e distribuía. As pessoas chegaram a 150. A polícia bateu num mendigo. Chorei. Às 3 da madrugada fiz uma poesia de protesto, que começa assim: por favor meu Deus, mande Jesus Cristo para a terra, quero a paz, não a guerra, para o mundo se acalmar.

Quem não tem dinheiro, conta história. 

Tenho mais de dez mil fotos em casa, papéis, documentos, cartas, reportagens.

Vivi até hoje defendendo o bairro tradicional que é o Bixiga.

Moro sozinho num casarão.”
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