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18.9.14

OS BRASILEIROS FINALMENTE PERDERAM O MEDO DE SER FELIZES. AÍ FOI O PT QUE NÃO OUSOU FAZÊ-LOS FELIZES...

Uma tarefa a que sempre me propus é a de garimpar as raras pepitas existentes em meio às toneladas de ouro de tolo com que os leitores se deparam no período eleitoreiro. Trata-se de uma tarefa das mais relevantes, pois a manipulação agora atinge os píncaros, com os veículos da grande imprensa e uma verdadeira legião de blogueiros amestrados competindo encarniçadamente pelo Troféu Goebbels de Martelagem de Mentiras

O que há para ser lido nesta 5ª feira (18) é a notícia Impasse com PT faz Dilma suspender plano de governo (acesse a íntegra aqui), de duas jornalistas da sucursal de Brasília da Folha de S. Paulo, Andréia Sadi e Natuza Nery.

Por quê? Porque fornece um quadro de bastidores que é bem coerente com o que os observadores perspicazes já depreendiam da bizarra demora de Dilma Rousseff em divulgar seu programa de governo.

Nunca superestimei esses papeluchos, que geralmente estão mais para peças propagandísticas do que qualquer outra coisa, produzindo espuma colorida cujo destino, depois das eleições, é o ralo.

Há até boas intenções, só que raras e inconciliáveis com os valores mais altos que (posteriormente) se alevantam, como diria Camões. Acabam pavimentando o caminho do nosso peculiar inferno tropical, no qual tudo conspira para o inarredável imobilismo ou o eterno retrocesso.

Mesmo assim, os programas são faca de dois gumes, pois os adversários os utilizam para, fazendo leituras distorcidas e tendenciosas, imputarem ao candidato cuja reputação querem assassinar os intentos mais sinistros e estapafúrdios, que nem a Spectre dos filmes do 007 seria capaz de cogitar a sério...

É o que a campanha petista tem feito com o programa de Marina Silva e com certas declarações de seus supostos futuros ministros.

E é por medo do troco que reluta tanto em expor o seu, preto no branco, ao fogo inimigo. Adora tanto ser estilingue quanto detesta ser vidraça.

Isto tudo era adivinhável e a notícia citada só veio confirmar.

O mais interessante é a identificação do que está pegando:
"...coordenadores da campanha enviaram a assessores presidenciais a proposta sobre trabalho.
O documento propunha, entre outros pontos, avançar na negociação para a redução da jornada de trabalho, o fim do fator previdenciário (que reduz o valor de aposentadorias precoces) e a regulamentação da terceirização.
Apesar de não declarar publicamente, o governo evita há quatro anos que a proposta do fim do fator previdenciário seja votada no Congresso. O Planalto enfrenta pressão das centrais sindicais, mas nunca se comprometeu com a ideia da redução da jornada de trabalho. 
Folha apurou que, ao tomar conhecimento por assessores das propostas para trabalho e emprego, Dilma determinou o adiamento da divulgação do programa.
Outro ponto de atrito é a revisão da Lei de Anistia. Dilma já disse, reservadamente, ser pessoalmente a favor, mas não encaminha a medida para não provocar crise com as Forças Armadas".
As repórteres lembram que, em 2010, o plano de governo de Dilma  inicialmente incluía "bandeiras importantes para a esquerda, como a democratização dos meios de comunicação", que acabaram sendo substituídas adiante por propostas menos polêmicas.

Resumo da opereta: 
  • é alentador constatarmos que ainda há correntes no PT querendo fazer a coisa certa, pois o mínimo que se espera de um partido dos trabalhadores é a luta pela redução da jornada de trabalho, pelo fim do fator previdenciário e pela extinção da falsa terceirização (amplamente majoritária), um mero artifício para privar os trabalhadores dos direitos que haviam adquirido, deixando-os à inteira mercê da cupidez capitalista;
  • mas, é desalentador ficarmos sabendo que a pressão das centrais sindicais até agora tem sido infrutífera, pois os dirigentes do PT preferem não atritar-se com o grande capital; e
  • mais desalentador ainda termos a confirmação de que a presidenta foge ao confronto com as Forças Armadas (ou, mais precisamente, com altos oficiais que estão apenas blefando, pois jamais conseguiriam arrastar as tropas para aventuras institucionais nas circunstâncias presentes).
NEGACEIOS EM CASCATA

O último item não surpreenderá os leitores dos meus artigos, pois escancarei, a cada episódio, a relutância de Dilma em fazer valer sua condição de comandante suprema das Forças Armadas. Eis um resumo do que fez e deixou de fazer no tocante à impunidade dos torturadores:
  • ignorou a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos que responsabilizou o Brasil pelo desaparecimento de cerca de 70 pessoas no Araguaia e determinou uma série de providências, inclusive que fossem investigados, processados e punidos os agentes estatais responsáveis por tais desaparecimentos;
  • criou a Comissão Nacional da Verdade, acreditando que propiciaria o jus sperniandi para as vítimas inconsoláveis e serviria como um bom engana-trouxas para desviar a atenção da opinião pública da decisão memorável da OEA, que ela jamais pretendeu cumprir;
  • vergou-se à chantagem da bancada evangélica no Congresso, que só admitiu apoiar a instituição da CNV se dela ficassem excluídos não só os militares (ponto pacífico), mas também os veteranos da resistência armada à ditadura, o que equivaleu a considerar os resistentes tão inconfiáveis quanto os fardados, ou seja, a igualar novamente vítimas e algozes;
  • prorrogou, por meio de medida provisória, o prazo final para entrega do relatório final da CNV, que vencia em maio de 2014. Com um pouco de boa vontade, daria até para divulgá-lo no momento em que o golpe obtinha grande espaço na imprensa em função do 50º aniversário. Ao invés disto, Dilma preferiu postergar a divulgação para dezembro, quando a eleição já tiver sido decidida (ou seja, as conveniências eleitoreiras vêm sempre em primeiro lugar, como apontei aqui);
  • omitiu-se quando as Forças Armadas, ao invés de responderem a um questionário com indagações pontuais formuladas pela CNV, pariram um patético relatório genérico de 455 páginas (vide aqui), garantindo que as torturas e assassinatos jamais ocorreram; e
  • omitiu-se novamente quando o comandante do Exército determinou a todos os oficiais que não atendessem a CNV (vide aqui), direcionando quaisquer pedidos ou perguntas ao seu gabinete, o que, na prática, equivaleu a CENSURAR A CNV, sem dispor de poder legal para tanto e cometendo um abuso de autoridade que deveria ter sido respondido com sua exoneração imediata por parte da comandante suprema das Forças Armadas.
No último mês de janeiro, quando a imprensa noticiava que alguns integrantes da CNV estariam dispostos a incluir a proposta de anulação da auto-anistia dos torturadores no relatório final, eu, gato escaldado, apostei que tal decisão ficaria em banho-maria até o desfecho das eleições:
"Temo que a revisão da Lei da Anistia venha a ser recomendada pela CNV apenas na hipótese de derrota da Dilma; seria um dos vários abacaxis a serem colocados no colo do(a) sucessor(a).
E que, vitoriosa, ela não queira nem ouvir falar do assunto, com a CNV abstendo-se de causar-lhe aborrecimentos.
Tomara que meus temores sejam infundados..."
Infelizmente, tudo que ocorreu desde então só os veio reforçar.

6.9.14

PUNIÇÃO DOS TORTURADORES É PÉSSIMO ASSUNTO DE CAMPANHA PARA DILMA

A rede propagandística do PT deu o máximo de quilometragem possível a esta notinha do responsável interino pelo Painel Político da Folha de S. Paulo, publicada na 5ª feira, 4:
"Antes era assim. Mais uma para a lista dos vaivéns de Marina. A candidata, que agora se diz contra a revisão da Lei da Anistia, pensava o contrário antes de disputar a Presidência. Ela defendia a punição de militares acusados de torturar na ditadura.
Agora é assado. Em 2008, Marina escreveu em artigo na Folha: 'A tortura é crime hediondo, não é ato político nem contingência histórica. Não lhe cabe o manto da Lei da Anistia'. Ontem, em sabatina no portal G1, declarou que é contra rever a lei".
Até alguns que exercem ou já exerceram o ofício de jornalistas embarcaram nessa canoa oportunista, ajudando a trombetear só o que servia para desqualificar a candidatura por eles temida, sem mostrarem o mais ínfimo empenho em informar corretamente a seus leitores.

O único que honrou seu compromisso com a verdade foi Mário Magalhães (vide aqui), ao criticar o novo posicionamento de Marina, mas lembrar o singelo detalhe de que também Dilma Rousseff e Aécio Neves já haviam, antes dela, rechaçado a revisão da anistia de 1979:

Assim, na véspera da efeméride sinistra dos 50 anos da quartelada, Dilma afirmara que "nós reconquistamos a democracia à nossa maneira, por meio de lutas e de sacrifícios humanos irreparáveis, mas também por meio de pactos e acordos nacionais, muitos deles traduzidos na Constituição de 1988", declarando em seguida, enfaticamente, que reconhecia e valorizava "os pactos políticos que nos levaram à redemocratização". O principal destes pactos, obviamente, foi a anistia que equiparou as vítimas a seus algozes.

Quanto a Aécio Neves, instado pelo G1 a responder com um "sim" ou um "não" a diversas questões, cravou um "não" na referente à "revisão da lei da anistia".

Bem, os três cometem um erro grosseiro, já apontado várias vezes por grandes juristas nacionais e internacionais, além de repudiado pela ONU e insustentável à luz do Direito dos povos civilizados: admitem a possibilidade de agentes de uma ditadura munirem-se, em pleno regime de exceção, de uma espécie de habeas corpus preventivo para evitar que seus crimes sejam apurados e punidos adiante, quando se der a redemocratização do país.

Cansei de escrever que a esperança de ainda vermos encarcerados os torturadores e seus mandantes é quimérica, pois seriam necessários morosos trâmites na esfera do Executivo e do Legislativo, seguidos de processos que se arrastariam por todas as instâncias de nosso letárgico Judiciário, com ampla margem de manobras para os advogados de defesa retardarem ad nauseam seu desfecho. Só chegaríamos no fim da linha (o trânsito em julgado) lá pela próxima década, mas --surpresa!-- se ainda restassem torturadores vivos para pagarem por suas atrocidades, se contariam nos dedos de uma mão...

Ainda assim, a autoanistia dos torturadores nos coloca em ridículo mundial e é um péssimo precedente legal, que poderá beneficiar os carrascos de uma ditadura vindoura (torcemos para que nunca mais haja alguma, mas não se sabe...). Então, com ou sem efeitos práticos imediatos, a Lei de Anistia precisa, sim, ser REVOGADA E SUBSTITUÍDA POR UMA QUE NÃO FAVOREÇA ABERRANTEMENTE OS ALGOZES E SICÁRIOS DO ESTADO.

De resto, é chocante que a rede propagandística petista invista sorrateiramente contra Marina num terreno tão desfavorável a Dilma Rousseff, pois a presidenta:
  • ignorou a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos que responsabilizou o Brasil pelo desaparecimento de cerca de 70 pessoas no Araguaia e determinou uma série de providências, inclusive que fossem investigados, processados e punidos os agentes estatais responsáveis por tais desaparecimentos;
  • criou a Comissão Nacional da Verdade, acreditando que propiciaria o jus sperniandi para as vítimas inconsoláveis e serviria como um bom engana-trouxas para desviar a atenção da opinião pública da decisão memorável da OEA, que ela jamais pretendeu cumprir;
  • vergou-se à chantagem da bancada evangélica no Congresso, que só admitiu apoiar a instituição da CNV se dela ficassem excluídos não só os militares (ponto pacífico), mas também os veteranos da resistência armada à ditadura, o que equivaleu a considerar os resistentes tão inconfiáveis quanto os fardados, ou seja, a igualar novamente vítimas e algozes;
  • prorrogou, por meio de medida provisória, o prazo final para entrega do relatório final da CNV, que vencia em maio de 2014. Com um pouco de boa vontade, daria até para divulgá-lo no momento em que o golpe obtinha grande espaço na imprensa em função do 50º aniversário. Ao invés disto, Dilma preferiu postergar a divulgação para dezembro, quando a eleição já tiver sido decidida (ou seja, as conveniências eleitoreiras vêm sempre em primeiro lugar, como apontei aqui);
  • omitiu-se quando as Forças Armadas, ao invés de responderem a um questionário com indagações pontuais formuladas pela CNV, pariram um patético relatório genérico de 455 páginas (vide aqui), garantindo que as torturas e assassinatos jamais ocorreram; e   
  • omitiu-se novamente quando o comandante do Exército determinou a todos os oficiais que não atendessem a CNV (vide aqui), direcionando quaisquer pedidos ou perguntas ao seu gabinete, o que, na prática, equivaleu a CENSURAR A CNV, sem dispor de poder legal para tanto e cometendo um abuso de autoridade que deveria ter sido respondido com sua exoneração imediata por parte da comandante suprema das Forças Armadas.
Resumo da opereta: se o posicionamento em relação aos torturadores for determinante na decisão de voto, azar de Dilma, que perde de goleada para Marina e Aécio. Os três se posicionaram da mesmíssima maneira, mas só Dilma detém o poder para ir além das palavras e, até por ser a única do trio que passou pelos porões da ditadura, poderia ter agido com um mínimo de coerência, sem, p. ex., recuar vergonhosamente diante dos sucessivos blefes dos fardados.

30.3.14

DEPOIS DA FARSA DO GOLPE VEIO A TRAGÉDIA DAS CARNIFICINAS

A frase célebre de Karl Marx foi ligeiramente modificada no Brasil: aqui a ditadura militar começou como farsa, transmutou-se em tragédia e terminou reconvertida em farsa (com a redemocratização pela metade, incluindo a impunidade eterna dos carrascos do regime e seus mandantes).

formidável ameaça comunista que ruiu quando um bando de recrutas zeros saiu desfilando pela Dutra, sem que fosse disparado um único tiro, escancarou o quanto eram farsescos os pretexto para o golpe. O que não impede os ultradireitistas de, à falta de justificativa plausível, baterem até hoje na desafinada tecla da contrarrevolução preventiva

É como se um réu alegasse haver assassinado um desafeto porque este pretendia matá-lo caso surgisse uma oportunidade. Seria condenado num piscar de olhos, pois legítima defesa se dá contra atos, não contra supostas intenções. 

E se o suposto assassino em potencial evidenciasse ser tão pusilânime e inofensivo quanto a esquerda se mostrou em abril de 1964 (1), pior ainda. A pena máxima se tornaria obrigatória. 

Talvez tenha sido este o motivo de os jornalistas franceses receberem com chacotas o governador golpista Carlos Lacerda, quando o corvo  foi promover a quartelada pelas bandas de lá. Perguntaram-lhe o porquê de as revoluções sul-americanas terminarem sempre sem derramamento de sangue.

A resposta de Lacerda foi tão ferina ("é porque são iguais às luas de mel francesas") que lhe valeu um discreto convite para retirar-se o quanto antes do país. Só que, ao se descontrolar e comprometer sua missão, ele passou recibo de que haviam colocado o dedo na ferida: a facilidade com que Mourão Filho pôs Goulart para correr simplesmente pulverizara a retórica fantasiosa dos farsantes. O espantalho tinha mesmo palha como recheio, e nada além de palha.

Mas, o que era farsa no dia da mentira em seguida se tornaria tragédia. O marco da mudança de espetáculo foi a tortura a céu aberto do sexagenário e já lendário dirigente comunista Gregório Bezerra, arrastado por uma praça de Recife com uma corda no pescoço e os pés em carne viva, pois haviam sido imersos em solução de bateria de carro.

A ditadura jamais foi branda, como a Folha de S. Paulo e Marco Antônio Villa querem fazer crer; ela dosava o uso da força de acordo com as necessidades de cada momento, mas sempre reagindo com contundência muito superior à das ações que se lhe opunham. Quando a resistência engatinhava, os militares barbarizavam menos; quando confrontados, fecharam o Congresso e colocaram o país sob estado de sítio, sem sequer terem a franqueza de dar nome aos bois.

Criam que bastava deterem o monopólio das versões, assegurado pela censura, para que as atrocidades fossem mantidas sob o tapete. Conseguiram parcialmente seu intento durante os 21 anos de arbítrio e também nos patéticos governos de José Sarney, Fernando Collor e Itamar Franco. Os torturadores do regime militar pouco foram incomodados, inclusive em termos de exposição e execração públicas, até 1994.

Justiça seja feita, logo no seu primeiro ano de governo (1995) Fernando Henrique Cardoso instituiu a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, à qual viriam seguir-se, em 2001, a Comissão de Anistia; e, em 2011, a Comissão da Verdade, esta última por iniciativa de Dilma Rousseff.

Os esqueletos nunca mais pararam de sair dos armários, chocando os brasileiros civilizados com os relatos nus e crus das mais bestiais torturas (inclusive de crianças, para quebrar a resistência dos pais), de um sem-número de assassinatos maquilados em suicídios, confrontos ou tentativas de fuga (os mais emblemáticos foram os de Rubens Paiva e Vladimir Herzog), das execuções covardes de prisioneiros nos aparelhos clandestinos da repressão e na campanha do Araguaia, dos frequentes estupros, da ocultação sistemática de cadáveres e outros horrores.

Como os totalitários empedernidos teimam em festejar o que seres humanos normais consideram motivo de opróbrio, sugiro-lhes a escolha do símbolo mais adequado para a efeméride.

Poderia ser o delegado Sergio Paranhos Fleury, aquele funcionário tão abnegado que até levava serviço para casa, ou melhor, para o sítio (2), se ele não tivesse mordido a mão do dono e, logo em seguida, casualmente se afogado ao cair do próprio barco.

Poderia também ser o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que acusa os outros de sufocarem a verdade quando ninguém tem tanta verdade escabrosa para esconder quanto ele próprio.

Mas, lembrando o velho bordão de que futebol é momento, neste instante não há ninguém melhor do que o coronel Paulo Malhães para simbolizar a ditadura de 1964/85.

Pois ele foi além dos seus antecessores ilustres: não só fez coisas abomináveis, como assume que as fez e orgulha-se de tê-las feito. Torturou, matou, mutilou e é com indisfarçável prazer que conta isso, tintim por tintim.

1 a esquerda saiu tão mal na foto em 1964 que entrou em parafuso e partiu para intermináveis lavagens de roupa suja, culminando numa miríade de rachas e lançamento de novas siglas, enquanto filmes como Terra em transe e O desafio flagravam o desencanto e a perplexidade decorrentes da derrota sem luta. Então, para que o povo voltasse a respeitá-la, a esquerda precisava provar que tinha, sim, coragem para sangrar por seus ideais. Minha geração sentiu isto vivamente. Quando o regime se direcionou para o fechamento total, os melhores de nós consideramos indigno fugir de nossas responsabilidades... e pagamos um preço altíssimo por tal opção. Os que negaram fogo em 1964, quando as circunstâncias eram muito menos desfavoráveis, prepararam o terreno para as tragédias que marcariam a luta armada.
2 o sítio do delegado Fleury era um dos aparelhos clandestinos da repressão.

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NO RASTRO DA GRANDE MENTIRA (a tragédia)

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O DIA DA GRANDE MENTIRA (a farsa):

7.11.13

OS JOVENS LUTAM NAS RUAS. OS VELHOS RESMUNGAM NOS PALÁCIOS.

Ao qualificar estridentemente os black blocs de "fascistas" (o que não são), a presidenta Dilma Rousseff tenta justificar a postura autoritária do seu governo, de estimular enrijecimentos repressivos e penais. Omite, contudo, que eles estão ocupando
um espaço aberto pela domesticação da esquerda tradicional, que hoje nem sequer pronuncia mais a palavra revolução -tão cooptada está pelo capitalismo e tamanha é sua obsessão em se mostrar inofensiva para os inimigos de outrora, visando manter e aumentar cada vez mais suas boquinhas na democracia burguesa.

Para quem aspira apenas a gerenciar o capitalismo pelo máximo possível de mandatos, os black blocs não passam de um empecilho, e como tal são tratados. Chama a polícia!

Para quem não abdicou dos ideais revolucionários em troca de um poder ilusório e subalterno, eles se constituem, isto sim, numa dura acusação: suas ações, algumas das quais desatinadas, são consequência de nossa incapacidade de engajar os jovens num combate mais consequente à desigualdade, injustiças e crimes que caracterizam a dominação burguesa. Nostra maxima culpa!

Faz um bom tempo que a esquerda brasileira alterna fases de legalismo exagerado com acessos, geralmente curtos, de radicalismo. 

Em 1935, Moscou ordenou um putsch contra a ditadura de Getúlio Vargas e o PCB, obedientemente, lançou-se à Intentona, de péssimas consequências. Aí, como gato escaldado, tornou-se refratário a ações mais extremadas ao longo das décadas seguintes.

Sua tibieza face ao golpe de 1964, contudo, mexeu com os brios dos comunistas. Houve luta interna, um sem-número de cisões e o PCB burocratizado deixou de ser a força hegemônica da esquerda. Como consequência, a decretação do AI-5 levou muitos agrupamentos resultantes da pulverização do partidão a aderirem à luta armada, que se tornou a principal (praticamente única)  forma de resistência à ditadura.

A trágica derrota dos guerrilheiros devolveu a bola para o campo da luta pacífica. E, com a chegada de Lula à Presidência da República, a revolução praticamente foi excluída dos planos e até dos discursos da esquerda chapa branca, cada vez mais inflada por oportunistas atraídos pela migalhas do poder.

Restava a esperança de que algum pequeno partido de esquerda repetisse a trajetória do PT, mas sem descaracterizar-se no meio do caminho. Era o sonho do PSOL, do PSTU, do PCO...

No más! Salta aos olhos que tal brecha histórica deixou de existir, não só em função do formidável aparato de comunicação de que hoje a burguesia dispõe, como também porque o PT conseguiu dilapidar o patrimônio moral acumulado pela esquerda durante a resistência à ditadura.

Na redemocratização de 1985, éramos respeitados por nosso heroísmo e tidos como uma reserva moral, uma alternativa à podridão capitalista; foi o que alavancou o crescimento petista. Os 11 anos do PT  no poder, contudo, corroeram tal conceito, favorecendo a disseminação da descrença na política e nos políticos (os quais voltaram a ser encarados, indistintamente, como farinha do mesmo saco).

Pouco importa o quanto se consigam mudar as sentenças do mensalão, o mal já está feito. Os petistas e seus aliados se preocuparam demais em salvar pessoas, quando o que importava mesmo era salvar a imagem dos revolucionários, não deixando que o cidadão comum passasse a desprezá-los como despreza os políticos convencionais.

Faltou a percepção de que a sanha reacionária não visava destruir o Zé Dirceu e o José Genoíno atuais, mas sim o símbolo do movimento estudantil de 1968 e o símbolo da guerrilha do Araguaia, pouco importando que um e outro já não fossem mais os homens que eram naquele passado distante. 

Tratava-se de um daqueles episódios nos quais as individualidades (até por terem cometido erros bisonhos) deveriam ser sacrificadas em nome da causa. Não o foram, e a indústria cultural deitou e rolou com a oportunidade única, concedida de mão beijada, de ficar desmoralizando a esquerda e seus mitos por oito anos a fio. Sabe-se lá até quando continuará capitalizando esta incrível lambança... O certo é que, quanto mais os condenados espernearem, mais ibope assegurarão para o espetáculo. O show nunca termina.

Por essa e outras, hoje praticamente inexiste o voto idealista; as eleições voltaram a ser decididas pelo voto interesseiro (que amiúde chega a ser mendicante)  e pelo voto útil. São os trunfos com que o PT conta para tentar quebrar o recorde do PRI: sete décadas de permanência estéril no poder, findos os quais os trabalhadores mexicanos continuavam tão explorados, humilhados e ofendidos como antes.

OS MASCARADOS JAMAIS CONSEGUIRÃO
IGUALAR A TRUCULÊNCIA DOS FARDADOS

Dilma mostra muita insensibilidade política ao acusar os black blocs de não serem "democráticos", exatamente num momento em que o desencanto com a democracia brasileira é generalizado e os três Poderes parecem estar numa competição de quem se desmoraliza mais no menor espaço de tempo.

Quem ainda conserva um mínimo de capacidade crítica, constata a cada momento ser o econômico o único poder que realmente conta: em torno dele gravitam os satelizados Executivo, Legislativo e Judiciário, arrotando independência em relação às miudezas mas submetendo-se caninamente à voz do dono nas questões que afetam os interesses maiores do grande capital.

Então, com a esquerda palaciana se distanciando cada vez mais do campo revolucionário e alguns partidos bem intencionados desperdiçando esforços em eleições nas quais patinam sem saírem do lugar, a esperança que resta (como augurava há meio século o fundamental Herbert Marcuse) são os contingentes à margem do jogo de cartas marcadas do sistema: os indignados que se mobilizam por meio das redes sociais e vêm sacudindo a pasmaceira da política brasileira.

Alguns já mostram uma surpreendente maturidade política, elegendo objetivos e alvos com muito discernimento, conscientes de que lhes cabe conquistarem corações e mentes, sem fornecerem pretextos para que a imprensa canalha os difame. É o caso, p. ex., do Movimento Passe Livre e dos organizadores de escrachos contra os monstros impunes da ditadura militar.

Os black blocs partem para o confronto físico com os efetivos policiais e para ações que a nossa excelentíssima presidenta coloca todas no mesmo saco de "vandalismo", como se destruir instalações bancárias fosse algo tão negativo quanto a atividade que nelas se desenvolve. Dilma deveria reler Brecht: "O que importa o roubo de um banco, comparado à fundação de um banco?".

No entanto, os mascarados jamais conseguirão igualar a truculência dos fardados. E -lição que aprendemos amargamente nos anos de chumbo!- os jagunços do sistema eram descartáveis e facilmente substituíveis, enquanto nós nos enfraquecíamos a cada baixa sofrida, perdendo companheiros de valor inestimável.

Enfim, as batalhas campais com a repressão tendem a terminar mal para o lado dos black blocs, além de conduzi-los à prisão. Devem ser evitadas tanto quanto possível, o que não implica cruzarem os braços diante das agressões bestiais que os PMs amiúde desfecham sobre os manifestantes. Quando os agentes do Estado se comportam como hordas de linchadores, é lícito, sim, defender-se deles. 

Quanto à destruição de bens, mesmo que justificada, nunca vai transparecer como tal para o grande público, já que a imprensa burguesa a apresentará da pior forma possível, fazendo a cabeça dos videotas. Com mais humor e menos furor, o recado poderia ser passado sem chocar o homem comum, nem facilitar tanto a vilificação por parte da mídia.

A atuação dos black blocs, no seu todo, deveria ser melhor dosada, pois os excessos só favorecem o inimigo. Confio em que eles saberão extrair as lições dos últimos episódios, efetuando as correções táticas que se impõem.

E respeito a determinação com que combatem o capitalismo, exibindo um espírito de luta há muito inexistente em tantos esquerdistas que os vituperam, preocupados apenas com os transtornos que poderão trazer à Copa das maracutaias e à próxima temporada de caça aos votos.

Dos primeiros, podemos esperar que amadureçam. Os segundos, em sua maioria, já apodreceram.

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13.9.13

A COMISSÃO VAI RESGATAR AS VERDADES QUE FALTAM OU REPISAR AS JÁ SABIDAS?

Durante 33 anos o jornalismo foi o meu ganha pão. Poderia sê-lo até hoje, caso eu não tivesse sido vítima de dois preconceitos: contra os idosos e contra os homens de esquerda.

Vontade e pique não me faltam, mas a grande imprensa fechou suas portas para mim. O macartismo vive. 

Por força do hábito, os textos que coloco nos blogues e espalho na web têm, quase todos, jeitão jornalístico. 

Hoje optei por um caminho diferente, o de usar este espaço como um  querido diário. Sem intenção de suscitar polêmicas, mas apenas para deixar registrado meu lado da questão, tornando-o conhecido dos leitores mais próximos e constantes, vou colocar, exclusivamente nos meus blogues pessoais, o que realmente penso sobre as Comissões da Verdade.

Sempre me senti como um pai da criança que realmente conta, a Comissão Nacional da Verdade (CNV). 

Há exatos cinco anos, no dia 11/08/2008, fui dos primeiros a escrever (vide aqui) que, com a inapetência ou falta de coragem do Executivo e do Legislativo para fazerem a parte que lhes cabia, os torturadores da ditadura militar escapariam incólumes da merecida punição, estando fadada ao fracasso a tentativa de desatar o nó na Justiça. Acertei na mosca.

Então, propus que trocássemos o foco, da exigência de uma punição penal para a de uma punição moral:
  • "o reconhecimento oficial, por parte do Estado brasileiro, de que houve usurpação do poder em 1964, tendo os governos ilegítimos que se sucederam até 1985 cometido crimes generalizados e de extrema gravidade;
  • que, portanto, todos aqueles que ordenaram, autorizaram, cometeram, concorreram para ou foram coniventes com esses crimes, são criminosos aos olhos da História e da Nação brasileira".
O Estado, que só se lembrou de suas obrigações 23 anos após a redemocratização, deixaria de encarcerar ou impor penas pecuniárias a tais criminosos, primeiramente por ter sido omisso no cumprimento do dever; depois, por não fazer sentido infernizar a vida de velhos com o pé na cova. Foram monstruosos, mas jamais deveríamos tornarmo-nos menores do que somos, desumanos como não somos, só para dar-lhes o troco.

A CNV foi mais ou menos isto: o Estado abdicou da punição, mas passou a produzir uma versão oficial dos terríveis episódios dos anos de chumbo, para que as novas gerações pudessem saber, inequivocamente, o que ocorreu e por culpa de quem.    

Quais seriam suas tarefas? Basicamente duas:
  • investigar o que se passou e continuava sendo encoberto pelos criminosos, seus cúmplices e seus discípulos;
  • sistematizar tal conhecimento --o que a própria Comissão apurasse e o que já se sabia--, disponibilizando-o num relatório exemplar e eloquente.
Macaco velho, logo percebi que precisaria haver alguém com vontade de ferro no colegiado, para peitar os militares quando estes tentassem enredar a CNV num cipoal burocrático ou lográ-la com manobras dispersivas, a fim de que os esqueletos jamais saíssem dos armários; caso do Araguaia, onde, sempre que necessário, encenam belos espetáculos de busca daquilo que não querem encontrar.

Infelizmente, bravos guerreiros da sociedade civil como o D. Paulo Evaristo Arns são raros hoje em dia; e o próprio já consumiu todas as suas energias nas lutas passadas.

Então, avaliei que só ex-resistentes estariam à altura do desafio, até por conhecerem muito bem o inimigo com o qual estariam pelejando e já terem ousado enfrentá-lo uma vez. 

Foi o que me levou a apresentar minha anticandidatura à CNV, sabendo antecipadamente que não resultaria, mas apostando na possibilidade de que servisse para alavancar uma opção com verdadeira chance de tornar-se consensual: o Ivan Seixas, o companheiro que lutou como um leão para que as ossadas de Perus fossem resgatadas (cumprindo o papel de uma ponta de iceberg que levou o cidadão comum a inteirar-se de duas das práticas mais hediondas da ditadura, as execuções a sangue-frio de prisioneiros indefesos e o ocultamento de seus cadáveres).

A presidenta Dilma Rousseff, contudo, honrou a promessa que fizera às bancadas evangélicas, de não indicar antigos combatentes da luta armada para a CNV  Foi uma opção pragmática --esses novos reacionários, se sua chantagem fosse rechaçada, atrapalhariam mesmo a aprovação da lei que instituía o colegiado--, mas magoou profundamente os que lutaram contra a tirania mais bestial que o Brasil conheceu.

Vínhamos há uma eternidade combatendo a falácia dos devotos da ditadura que, não podendo negar as atrocidades perpetradas pelo regime militar, saíam pela tangente, alegando que os resistentes também incorreram em excessos. Ao excluir da CNV tanto militares quanto ex-guerrilheiros, Dilma, inadvertidamente, avalizou tal falácia.

Senti-me oficialmente colocado sob suspeição, como se fosse incapaz de realizar um trabalho desses serenamente, sem revanchismo; e como se fosse tacanho a ponto de fornecer ao outro lado trunfos para nos desqualificarem a todos. Pelo contrário, certamente seria o membro mais escrupuloso da CNV, excluindo tudo que não tivesse como provar cabalmente.

HOLOFOTES E COGUMELOS

Fiquei tão desencantado que pouco tenho escrito sobre a CNV desde a sua instalação.

No entanto, o que se pode depreender do noticiário tem sido tão deprimente que resolvi fazer, pelo menos aqui no blogue, uma avaliação sincera. Torcendo para que, de alguma forma, ajude na correção de rumos.

Como eu previa, ficou mesmo faltando um membro com vontade de ferro e com a autoridade moral de quem arriscou a vida no bom combate. Se lá estivesse alguém com tal perfil, talvez as disputas de egos não se desencadeassem com tamanha virulência, comprometendo uma missão muitíssimo maior do que as pessoas dela incumbidas.

E, claro, provavelmente haveria reação à altura quando os militares desafiassem a CNV, como fizeram no último mês de fevereiro, quando da morte do coronel Júlio Miguel Molinas, ex-chefe do DOI-Codi do Rio de Janeiro: INVADIRAM sua residência e SEQUESTRARAM seus arquivos secretos, só entregando ao colegiado, posteriormente, aquilo que bem entenderam!!!

Nunca foi tão necessário o chamado  murro na mesa, para afirmar a autoridade da CNV. Mas não havia ninguém para o dar.

Ao aparente fracasso em trazer à tona algo além do que já se sabia e de entregar às famílias os restos mortais dos seus entes queridos, soma-se, segundo uma reportagem do jornal da  ditabranda (vide aqui), uma perspectiva pouco animadora com relação ao impacto do relatório final.

É que Comissões da Verdade estão brotando como cogumelos, já tendo sido instituídas, pelo menos, 75, "em Assembleias Legislativas, Câmaras Municipais, universidades e até institutos ambientais".

O risco é repetir-se o que aconteceu com os grandes festivais da Música Popular Brasileira dos anos 60: quando, aos que realmente contavam (o da Record e o FIC da Globo), somaram-se dezenas de outros, desde o de música carnavalesca até o de presidiários, a saturação levou ao esvaziamento e ao desinteresse do público.

Essas dezenas de comissões menores deveriam apenas subsidiar a CNV, deixando a divulgação de seus relatórios específicos para depois que a dita cuja já tivesse lançado o ÚNICO com reais chances de repercutir intensamente.

No fundo, a finalidade mais nobre do trabalho ora desenvolvido é a de fazer novos e significativos contingentes se interessarem pelos acontecimentos dos anos de chumbo --primeiro passo para conscientizarem-se de que é imperativo precavermo-nos contra as recaídas na barbárie.

Mas, como a renúncia às satisfações de ego é pouco frequente nesta melancólica sociedade do espetáculo, na qual todos creem ser merecedores de alguns minutinhos de fama, temo que haverá, isto sim, uma competição incessante pelos holofotes.

Daí a importância de que o relatório final da CNV tenha uma redação exemplar: essencializada e capaz de informar com rigor, mas também com emoção. Se for um volume de mil páginas em tipo miúdo, escrito no linguajar árido e distanciado dos scholars, com uma infinidade de minúcias desnecessárias, só será lido por historiadores e pelos familiarizados com o assunto.

Tive boas experiências, no sentido de tornar agradável a leitura de peças de comunicação governamental, quando trabalhava na Imprensa do Palácio dos Bandeirantes. Coordenava a confecção do balanço anual de atividades do Governo paulista, desde a coleta das informações em cada Secretaria e órgão até sua consolidação num todo homogêneo. E valorizava os textos mais importantes, redigindo-os eu mesmo ou os copidescando.

Consegui convencer meus superiores que palavras demais significavam leitores de menos; os relatórios feitos no meu esquema foram os mais sintéticos até então produzidos; e, não por acaso, os mais notados e apreciados.

É algo assim que deveria ser feito pela CNV: encarar a publicação principal como uma peça de comunicação que não deve -- jamais!-- enfadar e afugentar os leitores.

Já que a massa de informações coletadas deverá ser enorme, talvez caiba detalhá-las em publicações secundárias, direcionadas a historiadores, estudiosos, pesquisadores, etc. E/ou disponibilizá-las na web, seguindo o exemplo do projeto Brasil: Nunca Mais.

Aliás, o livro-síntese daquele magnífico projeto poderá servir como paradigma para o relatório final da CNV. Inclusive quanto ao volume de informações que suas 312 páginas continham: só 5% de tudo que os grupos de trabalho reuniram.

O interesse despertado foi tão grande que até hoje existem leitores se inteirando dos 95% restantes.

13.6.12

MILITARES RUGEM, GOVERNO MIA

Nada que o Governo Dilma Rousseff venha a fazer doravante me surpreenderá, pois dele nada mais espero.

Várias vezes já se havia constatado que os militares estão dificultando de todas as maneiras o acesso a informações sobre seus crimes e seus podres do período 1964/85.

Os tais arquivos secretos nunca aparecem quando requisitados pelo Governo ou pela Justiça, mas são dia e noite utilizados na elaboração de peças falaciosas e difamatórias difundidas na internet pelos remanescentes do arbítrio e seus discípulos.

A queima de documentação comprometedora nos quartéis já foi denunciada até pelo Fantástico (episódio da Base Aérea de Salvador, 2005).

É um acinte a  operação  desenvolvida no Araguaia, de enrolação e despiste, negando às famílias dos guerrilheiros executados pela ditadura militar até mesmo os restos mortais do seus entes queridos!

E, agora, a reação do Governo a uma burla desmascarada da Lei de Acesso à Informação foi simplesmente ridícula.

Militares montaram um mutirão para, na véspera da entrada da lei em vigor, reclassificarem documentos, de forma a permanecerem mais cinco anos interditados.

Não foi só uma molecagem, apesar do  modus operandi  patético em se tratando de adultos.

Numa questão de tal gravidade, o termo apropriado é outro: sabotagem. À lei, às autoridades constituídas, ao ministro da Defesa, à comandante suprema das Forças Armadas, à democracia brasileira.

E o que faz o governo daquela que um dia esteve entre as vítimas do despotismo?

Comprova que Dilma passou para o outro lado; agora integra o bloco dos que apaziguam os militares recalcitrantes, mesmo quando têm sua autoridade frontalmente atingida.

Igualzinha ao Lula, que engoliu até ultimato do alto comando do Exército, quando a atitude obrigatória para um presidente da República naquela situação era a de exonerar imediatamente os insubmissos (saiba mais sobre este episódio de 2007 clicando aqui).

Da mesma forma, a resposta a quem utiliza seu posto no Governo para tramar acobertamentos o tempo todo e agir na calada da noite contra o próprio e contra as leis da Nação foi a mais pífia e pusilânime possível: o Ministério da Defesa soltou nota comunicando que a ordem administrativa era em sentido contrário e que fará eventuais correções.

Nenhuma palavra, nada, zero, sobre punições aos sabotadores enquistados na própria Pasta.

Fez-me lembrar as sucessivas concessões que os países europeus fizeram a Hitler, permitindo-lhe conquistas na esperança de apaziguá-lo, com o único resultado de estimular agressões mais graves aos povos livres e tornar mais difícil o futuro confronto com o celerado.

9.5.11

GENOÍNO CONDECORADO PELO EXÉRCITO: UMA EXPLICAÇÃO CABÍVEL

A Folha de S. Paulo informa, numa notinha desta 2ª feira, que José Genoino ganha medalha do Exército:
"José Genoino foi condecorado pelo Exército ontem, no Rio, com a Medalha da Vitória. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, disse que a escolha foi sua e que foi a primeira vez que um ex-guerrilheiro do Araguaia recebeu a distinção.
Réu no processo do mensalão no STF, Genoino não se reelegeu deputado federal e foi nomeado neste ano assessor especial de Jobim.
Ele estava na primeira fila entre os 284 condecorados com a medalha, criada para homenagear os que contribuem para 'difundir a atuação do Brasil em defesa da liberdade e da paz mundial' e que prestaram serviços relevantes ao Ministério da Defesa".
Não tenho nenhuma  informação de cocheira, mas, desde que Genoíno foi nomeado, fiquei com a impressão de que uma investidura tão esdrúxula só poderia ter uma explicação: a de ele ter sido escolhido para assumir a pasta da Defesa, quando Jobim entregar o cargo, no meio do ano.

Então, para preparar o terreno, Jobim estaria agora aproximando o antigo guerrilheiro rendido dos antigos executores de guerrilheiros rendidos. [Genoíno teve a sorte de ser capturado logo no início das hostilidades no Araguaia, quando os militares ainda não haviam decidido eliminar todos os militantes do PCdoB encontrados na região.]

Caso o roteiro seja este mesmo, a única dúvida é: quem vai engolir o batráquio mais indigesto, Genoíno ou as Forças Armadas?

Em breve saberemos se minha intuição foi boa.

2.4.11

OLAVO, EREMIAS, JUAREZ E OS OUTROS MÁRTIRES NOS LEGARAM UMA MISSÃO

No dia da mentira, fui chamado a dizer algumas palavras sobre a grande mentira que impingiram ao povo brasileiro há 47 anos.

O ato teve lugar na sede da Apeoesp, no centro velho de São Paulo.

Os companheiros da Liga Estratégia Revolucionária - Quarta Internacional convidaram expoentes de várias tendências da esquerda, adotando uma postura ecumênica que sempre me agradou.

Somos pessoas empenhadas em mudar o mundo e é natural que façamos o possível e o impossível para unirmos nossas forças, em nome dos objetivos comuns; quem compete encarniçadamente pelo  mercado  são os burgueses e pequenos-burgueses...
Olavo:  suicidado

Foi gratificante ouvir a companheira Criméia Almeida -- que era dirigente do PCdoB no tempo da Guerrilha do Araguaia, mas estava fora da área quando a repressão foi desencadeada e não conseguiu reentrar, o que lhe salvou a vida -- relatar sua luta incansável para levar os carrascos da ditadura aos tribunais, culminando com a sentença favorável do tribunal da OEA.

Falaram também o sociólogo Chico de Oliveira; Claudionor Brandão, dirigente sindical dos funcionários da USP que o governo tucano, arbitrariamente, demitiu da universidade; o professor Márcio Barbio e o ex-preso político Gilson Dantas, entre outros.

Dantas fez uma tocante evocação do mártir trotskista Olavo Hanssen, preso ao distribuir panfletos no 1º de maio de 1970 e torturado com a betialidade habitual.

Os Torquemadas da ditadura encaminharam-no para o Hospital Militar com os rins em frangalhos, mas não resistiu.
Eremias: desfigurado

Depois, montaram um cenário de suicídio, devidamente avalizado por médico infame, que deu como  causa mortis a ingestão de inseticida (nunca deixado ao alcance de presos políticos em lugar nenhum!), desconsiderando as inconfundíveis marcas das sevícias.

Por minha vez, destaquei o exemplo de companheiros como Eremias Delizoicov (morto e desfigurado por 35 disparos aos 18 anos de idade) e Juarez Guimarães de Brito (professor que abandonou uma posição consolidada no meio acadêmico para ensinar uma lição muito mais necessária a seus discípulos) e enfatizei a necessidade de continuarmos lutando para concretizar os objetivos pelos quais sacrificaram a vida.

Foi reconfortante ver o auditório lotado de jovens, incluindo uma delegação de operários e estudantes da cidade de Franca (SP)..
Juarez: sacrifício extremo

Pois é deles que dependerá a continuidade de nossos esforços para a construção de uma sociedade que concretize os ideais supremos da humanidade: a liberdade e a justiça social

E eu saí de lá com a mesma sensação de quando visitei a primeira ocupação da reitoria da USP nesta nova fase do movimento estudantil iniciada em 2007: a de que as novas gerações de idealistas assumirão a missão e darão o melhor de si para a cumprir.

Como nós fizemos, nos tempos sombrios de 1964/85 e nestes tempos exasperantes de redemocratização sob total controle da burguesia.

A luta continua.

1.4.11

ANTIGO TORTURADOR CONFIRMA EXECUÇÃO DE GUERRILHEIROS DO ARAGUAIA

Lucena: "O sujeito amarrado, algemado e
o executor puxava o gatilho e matava"
Definitivamente, não foi o aniversário com que sonhavam as  viúvas da ditadura.

Se já não bastasse a Folha de S. Paulo haver desencavado diretrizes da Marinha ordenando a eliminação dos guerrilheiros do Araguaia, o SBT levou ao ar uma entrevista-bomba do antigo torturador João Lucena Leal, concedida a Roberto Cabrini.

Para quem não assistiu, um bom relato é o da longa reportagem do site Tudo Rondônia: Advogado de Rondônia choca o Brasil com depoimento sobre torturas e mortes das quais ele próprio participou

Eis alguns trechos mais impactantes:
"Na entrevista, Lucena descreveu, com tranqüilidade e frieza, o que viu e o que fez com os adversários políticos do regime. 'O sujeito amarrado, algemado e o executor puxava o gatilho e matava', disse ele ao narrar uma das cenas entre as inúmeras das quais presenciou e participou.

...informou ter apenas um remorso. Foi quando viu o corpo de uma moça de 17 anos morta pelos militares. 'Peguei no corpo dela e ainda estava quente. A moça não tinha ideologia nenhuma'.

Em Rondônia, Lucena ficou rico como advogado de traficantes e de notórios assassinos, como o fazendeiro Darli Alves, que matou a tiros, no Acre, o líder seringueiro Chico Mendes.
Preso nesta semana por porte ilegal de
arma, Curió não ficou nem um dia detido
 Mostrando profundo conhecimento no assunto, o advogado disse que, na sua época, o método mais utilizado era o pau de arara, nas suas palavras, 'um instrumento cruel, devastador, que deixa seqüelas. Tem muita gente que não resiste meia hora e conta tudo. Às vezes, é só mostrar o instrumento e ele (a vítima) abre'.
Lucena afirmou ter visto de dez a 15 execuções de guerrilheiros do PC do B no Araguaia, entre elas, a morte de uma jovem identificada por ele como 'Sônia', que foi assassinada pelo hoje major reformado do Exército Sebastião Curió.

Tanto Curió quanto Lucena participaram das investigações e prisão da hoje presidente Dilma Rousseff, então militante política. 'Ela (Dilma) era uma menina de 17 ou 18 anos de idade que foi presa e levada para a Operação Bandeirantes e entregue ao delegado Fleury (Sérgio Paranhos Fleury, notório torturador)'."
Aparentemente, a "moça de 17 anos morta pelos militares", que "não tinha ideologia nenhuma", seria moradora da região e não guerrilheira.

Quanto à  Sônia, Lucena pode estar se referindo a Lúcia Maria de Souza, estudante de medicina do RJ que chegou a prestar serviços médicos aos habitantes do Araguaia e a fazer partos.

Emboscada por uma patrulha do Exército em outubro/1973, quando estava em curso o extermínio de todos os guerrilheiros localizados, levou tiros mas, sem que que os militares percebessem, tombou em cima de sua arma.
Sônia: "Guerrilheira não tem nome,
seu fdp. Eu luto pela liberdade"

Ao perguntarem seu nome, ela deu a resposta célebre: "Guerrilheira não tem nome, seu fdp, eu luto pela liberdade!".

E, puxando o revolver de sob o corpo, atirou neles, atingindo no braço o (então) major Lício Maciel e  na barriga o capitão Sebastião Alves de Moura.

Foi em seguida metralhada e seu corpo, abandonado insepulto na mata.

O capitão Sebastião se tornou mais conhecido com a patente que adquiriu depois (major) e o apelido de Curió. Na reserva, ele é, na verdade, coronel.

Pensava-se que, ferido, não tivesse sido ele um dos executores de Sônia. Agora, Lucena pode ter lançado  uma nova luz sobre o episódio.

O chefão do Serviço Nacional de Informações e futuro ditador João Baptista Figueiredo chegou a citar numa entrevista a reação de  Sônia  como exemplo do "fanatismo" dos guerrilheiros...
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