Celso Lungaretti (*)
Mais uma vez o ex-capitão do Exército Ailton Guimarães Jorge freqüenta o noticiário policial, agora como um dos 25 contraventores cuja prisão foi pedida pela Polícia Federal, sob a acusação de explorarem jogos de azar no País, inclusive subornando membros do Executivo, Legislativo e Judiciário.
O presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro já havia sido condenado em 1993 por envolvimento com o jogo-do-bicho, ao lado de outros 13 banqueiros, pela juíza Denise Frossard. Sabia-se que eles todos eram responsáveis por, pelo menos, 53 mortes.
Pegaram seis anos de prisão cada, a pena máxima por formação de quadrilha. Mas, em dezembro de 1996 estavam todos de volta às ruas, beneficiados por liberdade condicional ou indultos.
Mas, não são só os crimes atuais que fazem do Capitão Guimarães um personagem emblemático do que há de pior neste país. Ele é o mais notório exemplo vivo do banditismo inerente aos órgãos de repressão da ditadura militar.
A outra celebridade capaz de rivalizar com ele nesse quesito já morreu, ao que tudo indica como um arquivo apagado pelos próprios cúmplices: o delegado Sérgio Paranhos Fleury, em cujo benefício os militares chegaram até a criar uma lei, com o único objetivo de mantê-lo fora das grades.
O Capitão Guimarães atuava na II seção (Inteligência) da PE da Vila Militar, que, como todas as equipes de torturadores da ditadura, auferia ganhos substanciais ao capturar ou matar militantes revolucionários.
Tudo que era apreendido com os resistentes e tivesse algum valor, virava butim a ser rateado entre aqueles rapinantes. Jamais cogitavam, p. ex., devolver o dinheiro aos bancos que haviam sido expropriados pelos guerrilheiros urbanos. Numerário, veículos, armas e até objetos de uso pessoal iam sempre para a caixinha do bando. De mim, até os óculos roubaram.
Havia também as recompensas oferecidas pelos empresários direitistas, bem expressivas. Eles definiram inclusive uma tabela com os órgãos de repressão: dirigente revolucionário preso valia tanto; integrante de grupo de fogo, um pouco menos, e assim por diante.
Ocorre que, em novembro de 1969, morreu como conseqüência das torturas aplicadas por Ailton Guimarães Jorge e seus comparsas o estudante Chael Charles Schreier. O episódio repercutiu pessimamente no mundo inteiro e no próprio Brasil, onde a revista Veja fez uma matéria-de-capa histórica sobre a tortura.
As Forças Armadas decidiram, então, proibir que cada unidade de Inteligência de cada Arma fosse à caça por sua própria conta. Unificaram o combate à luta armada no quartel da PE da rua Barão de Mesquita (Tijuca), que passou a ser a sede do DOI-Codi, integrado por oficiais da II Seção do Exército, do Serviço de Informações da Aeronáutica (Sisa) e do Centro de Informações da Marinha (Cenimar), mais investigadores da polícia civil.
A equipe do Ailton Guimarães Jorge, até como punição pela morte do Schreier, foi alijada desse vantajoso esquema. Então, quando cheguei preso lá, em junho de 1970, aqueles rapinantes estavam desesperados com a falta de grana.
Tinham se habituado a um padrão de vida mais elevado e já não conseguiam subsistir apenas com o soldo. Tentavam de todas as maneiras convencer seus superiores de que mereciam ser readmitidos no combate à luta armada, em vão.
Foi por isso que, em 1974, a equipe de torturadores da PE da Vila Militar envolveu-se com contrabandistas, para obter a renda adicional que tanto lhe fazia falta. O Exército acabou descobrindo e instaurando um Inquérito Policial-Militar contra soldados, cabos, sargentos e quatro oficiais, inclusive o tenente Ailton Joaquim (um dos 10 piores torturadores do período, segundo o Tortura Nunca Mais) e o capitão Aílton Guimarães Jorge.
Justiça poética – As investigações foram conduzidas com o método que o Exército invariavelmente utilizava. Então, aqueles notórios torturadores acabaram conhecendo na própria pele a tortura. Houve até caso de assédio sexual à esposa de um dos acusados, por parte dos seus próprios colegas de farda...
Como o Élio Gaspari relata em A Ditadura Escancarada, o caso acabou, entretanto, em pizza:
– Todos os indiciados disseram em juízo que o coronel do 1PM lhes extorquira as confissões. A maioria deles sustentou que, surrados, assinaram os papéis sem lê-los. Num procedimento inédito, os oficiais do Conselho de Justiça decidiram que o processo tramitaria em segredo. Durante o julgamento a promotoria jogou a toalha, e, em maio de 1979, os 21 acusados foram absolvidos. O caso voltou ao STM, cinco ministros recusaram-se a relatá-lo, e, por unanimidade, confirmou-se a absolvição. A sentença baseou-se num só argumento: ‘Tudo o que se apurou nestes autos, o foi, exclusivamente, através de confissões, declarações e depoimentos extrajudiciais, retratados e desmentidos posteriormente em juízo, sob a alegação de violências e ameaças praticadas durante o IPM”.
Ora, todos os IPMs instaurados contra os resistentes poderiam ser anulados pelos mesmíssimos motivos. Dois pesos, duas medidas.
A carreira militar do Capitão Guimarães, ficou, entretanto, comprometida. Nos quartéis, ele seria sempre visto como ovelha negra e tratado com má vontade. Então, pediu baixa e foi capitanear o jogo-do-bicho, conforme narra o Gaspari:
– Coube ao bicheiro Tio Patinhas consertar a vida de Ailton Guimarães Jorge. (...) O processo do contrabando ainda tramitava (...) quando ele se transferiu formalmente para a contravenção, levando a patente por apelido e diversos colegas como colaboradores. Começou como gerente do banqueiro Guto, sob cujo controle estavam quatro municípios fluminenses. Um dia três visitantes misteriosos tiraram Guto de casa e sumiram com ele. (...) Tio Patinhas passou-lhe a banca. Em três anos o Capitão Guimarães foi de tenente a general, sentando-se no conselho dos sete grandes do bicho, redigindo as atas das reuniões, delimitando as zonas dos pequenos banqueiros. Seu território estendeu-se de Niterói ao Espírito Santo. Seguindo a etiqueta de legitimação social de seus pares, apadrinhou a escola de samba Unidos de Vila Isabel e virou a maior autoridade do Carnaval, presidindo a liga das escolas do Rio de Janeiro. Rico e famoso, adquiriu uma aparência de árvore de Natal pelas cores de suas roupas e pelo ouro de seus cordões. Tornou-se um dos mais conhecidos comandantes da contravenção carioca. Do seu tempo da PE ficou-lhe o guarda-costas, um imenso ex-cabo que, como ele, começara no crime organizado da repressão política.
Esse cabo, Polvarelli, pesava 140 quilos e lutava judô. No final de 1969, ao tentar prender meu companheiro Eremias Delizoicov, que tinha apenas 18 anos, foi por ele atingido com um disparo no braço. Polvarelli e os outros torturadores/meliantes retalharam então o Eremias com 35 tiros, tornando impossível até sua identificação (só souberam quem era pelas digitais).
Depois, em junho de 1970, unicamente por ter sabido que eu era amigo do Eremias desde a infância, ele fez questão de vingar-se em mim pelo final prematuro de sua carreira de judoca: estourou meu tímpano com um fortíssimo tapa de mão aberta. Nunca mais tive audição normal, apesar das três cirurgias por que passei.
Eram essas as pessoas de quem a ditadura servia-se para combater os heróis e mártires da resistência.
* jornalista, escritor e ex-preso político. Outros artigos: http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
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19.4.07
12.4.07
FILHOS DE GOEBBELS
Celso Lungaretti (*)
Ao aproximar-se o 43º aniversário do golpe militar que colocou nosso País à margem da civilização durante 21 longos anos, decidi alinhavar, num artigo, algumas características básicas do totalitarismo à brasileira versão 1964.
Por se tratarem de acontecimentos sobre os quais o veredito da História já foi inapelavelmente dado, eu não esperava que o texto “Há 43 Anos o País Entrava nas Trevas” tivesse grande repercussão.
Quis, no entanto, repassar aos jovens informações que são lugares-comuns para quem atravessou esse terrível período com percepção crítica e acompanhou o intenso trabalho de resgate da verdade nas décadas de 1980 e 1990, quando os pesquisadores deixaram de ser tolhidos pela censura e intimidações.
Surpreendentemente, “Há 43 anos...” deflagrou discussões exacerbadas nas comunidades do Orkut, fazendo-me lembrar a frase de Oscar Wilde sobre “a raiva de Calibã ao ver sua face no espelho”. Os calibãs da extrema-direita detestaram sua imagem sem retoques e tentaram quebrar o espelho.
Minhas intervenções nos debates virtuais acabaram reunidas num novo artigo, “O Ovo da Serpente”. Aí, sem argumentos para desqualificarem minhas posições, os neo-integralistas da Internet tentaram desqualificar-me pessoalmente, como antigo terrorista. Ou seja, o que eu fiz aos 18/19 anos, na limitadíssima visão dessa gente, constituiria motivo suficiente para eu não ser levado a sério aos 56 anos.
Fui obrigado, então, a esclarecer de uma vez por todas quem foi e quem não foi terrorista durante os anos de chumbo. E isto acabou servindo de base para este terceiro e último artigo da trilogia sobre o período mais brutal e vergonhoso da história brasileira recente.
A PROPAGANDA ARMADA - O terrorismo foi uma prática característica da segunda metade do século XIX, quando revoltosos impotentes para conduzir seus povos à tomada de poder decidiram intimidar os governantes, atentando contra suas vidas.
Então, em vez de conquistar as massas para a revolução, eles optaram por tornar impossível à classe dominante continuar governando. Tentavam criar o caos. O termo terrorista definia com exatidão a atuação política desses cidadãos.
Os terroristas mais característicos foram os narodniks da Rússia, que cometeram um sem-número de atentados contra o czar e seus ministros, à bala e com bombas.
Já os movimentos de resistência aos regimes militares latino-americanos, tanto quanto os que combateram o nazi-fascismo na Europa, sempre objetivaram conquistar o apoio das massas para sua causa. Nunca quiseram criar o caos. Designavam suas ações com uma expressão que fala por si mesma: propaganda armada.
Expropriavam bancos para manter a luta e sustentar militantes nas condições de rigorosa clandestinidade. Seqüestravam diplomatas para trocá-los pelos resistentes que estavam presos e sofrendo torturas atrozes. Ocupavam estações de rádio para obrigar a colocação no ar de seus manifestos. Tomavam supermercados e convidavam os trabalhadores a saqueá-los. Seqüestravam empresários e condicionavam sua libertação à distribuição de gêneros alimentícios em favelas. Criavam guerrilhas na esperança de que se tornassem o embrião de um exército de libertação.
Como em toda luta desse tipo, houve um ou outro excesso, como a bomba contra o jornal O Estado de S. Paulo (que só chamuscou o mural) e o atentado contra o QG do II Exército (que vitimou um recruta e foi criticadíssimo pela própria esquerda).
No entanto, o Comando de Caça aos Comunistas (organização paramilitar consentida pela ditadura), sozinho, cometeu muito mais ações caracteristicamente terroristas do que todos os grupos de esquerda juntos.
Idem, os integrantes dos órgãos de segurança da ditadura que tentaram sabotar a abertura de Geisel, com bombas, atentados e agressões covardes aos jornaleiros que ousavam vender veículos alternativos (suas bancas eram incendiadas!).
Centenas, talvez milhares, de inocentes teriam morrido no Riocentro, se o feitiço não houvesse virado contra o feiticeiro.
E, claro, que moral tinha a ditadura militar brasileira para rotular alguém de terrorista?! Com absoluto desprezo pelos direitos humanos, cometeu atrocidades que incluíram o seqüestro e a execução de opositores, capturados com vida e levados a centros clandestinos de tortura, para sofrerem suplícios terríveis e depois receberem o tiro de misericórdia; e a ocultação de seus cadáveres, tanto que, até hoje, famílias continuam em busca dos restos mortais dos seus entes queridos.
Quem levou a grau extremo a prática do terrorismo de estado não deveria nem sequer tocar nesse assunto...
ROLO COMPRESSOR - O rótulo de terrorista, portanto, não passou de uma deturpação da História com fins propagandísticos. Assim como chamavam de terroristas quem não o era e nunca foi, os militares brasileiros chegaram até a distribuir por todo o País cartazes acusando de assassinos pessoas que jamais haviam matado uma mosca -- como eu.
Era, sim, a mais vil e infame aplicação, no Brasil, dos conceitos de Goebbels: repetir tantas vezes uma mentira até que ela passasse por verdade.
Tudo isso ficou para trás quando os historiadores esclareceram a verdade sobre os anos de chumbo, os juristas reconheceram que a ação dos grupos armados se deu em conformidade com o princípio de resistência à tirania e o Estado brasileiro admitiu e começou a reparar sua culpa pelos maus feitos da turba de delinqüentes que agiu em seu nome durante 21 anos.
No entanto, a extrema-direita se reagrupou e passou a desenvolver uma propaganda avassaladora e massacrante, principalmente na internet. E voltou a tratar os resistentes como terroristas, exumando o velho clichê propagandístico, que já estava desmoralizado e banido do debate civilizado.
Não tenta mudar conceitos no ambiente acadêmico, pois sabe que seria exposta ao ridículo. Seu alvo preferencial, ao buscar prosélitos, são os incultos, os fracassados, os medíocres, os frustrados e os ressentidos -- a mesmíssima escória que respaldou a ascensão de Mussolini e Hitler.
Aproveitando a justa indignação contra o Governo Lula -- que é tudo, menos um governo de esquerda --, desenvolve uma pregação totalitária sem sutileza nenhuma. Se a justiça fosse séria no Brasil, muitos néo-integralistas já estariam presos por pregarem ostensivamente o fim da democracia.
Essa corja atua como rolo compressor, intimidando as pessoas equilibradas, que acabam deixando de participar dos fóruns de discussão política na internet para não terem de enfrentar uma malta de adversários que não hesita em recorrer a intimidações e grosserias.
Ou seja, fazem na internet o que os primeiros fascistas e nazistas faziam nas ruas: amedrontavam as pessoas de bem, para que não reagissem à escalada do arbítrio.
Como devemos nos comportar?
Não é próprio dos seres humanos decentes ficarmos discutindo com seres tão destituídos de humanidade, solidariedade, compaixão e, até, compostura. Pessoas capazes de vituperar de forma demagógica e virulenta o que um grande homem como o rabino Henry Sobel fez em decorrência de uma moléstia, só nos causam o mais profundo asco.
Mas, quem deixar o terreno livre para os obscurantistas será cúmplice de todos os retrocessos que vierem a ocorrer. Então, não podemos nos acovardar nem continuar cedendo terreno.
Tampando o nariz, devemos reagir. Marcar posição. Afirmar nossa crença na civilização e nosso repúdio à barbárie.
Pois eles, com suas mentiras e calúnias, são muito mais fracos do que nós, com nossos ideais e verdades. Podemos expulsá-los de volta para as trevas das quais nunca deveriam ter saído.
Lembrem-se: é fácil esmagar o ovo da serpente, mas muito difícil matar a víbora depois.
* jornalista, escritor e ex-preso político. Os outros artigos desta trilogia, “Há 43 Anos o País Entrava nas Trevas” e “O ovo da Serpente”, estão em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
Ao aproximar-se o 43º aniversário do golpe militar que colocou nosso País à margem da civilização durante 21 longos anos, decidi alinhavar, num artigo, algumas características básicas do totalitarismo à brasileira versão 1964.
Por se tratarem de acontecimentos sobre os quais o veredito da História já foi inapelavelmente dado, eu não esperava que o texto “Há 43 Anos o País Entrava nas Trevas” tivesse grande repercussão.
Quis, no entanto, repassar aos jovens informações que são lugares-comuns para quem atravessou esse terrível período com percepção crítica e acompanhou o intenso trabalho de resgate da verdade nas décadas de 1980 e 1990, quando os pesquisadores deixaram de ser tolhidos pela censura e intimidações.
Surpreendentemente, “Há 43 anos...” deflagrou discussões exacerbadas nas comunidades do Orkut, fazendo-me lembrar a frase de Oscar Wilde sobre “a raiva de Calibã ao ver sua face no espelho”. Os calibãs da extrema-direita detestaram sua imagem sem retoques e tentaram quebrar o espelho.
Minhas intervenções nos debates virtuais acabaram reunidas num novo artigo, “O Ovo da Serpente”. Aí, sem argumentos para desqualificarem minhas posições, os neo-integralistas da Internet tentaram desqualificar-me pessoalmente, como antigo terrorista. Ou seja, o que eu fiz aos 18/19 anos, na limitadíssima visão dessa gente, constituiria motivo suficiente para eu não ser levado a sério aos 56 anos.
Fui obrigado, então, a esclarecer de uma vez por todas quem foi e quem não foi terrorista durante os anos de chumbo. E isto acabou servindo de base para este terceiro e último artigo da trilogia sobre o período mais brutal e vergonhoso da história brasileira recente.
A PROPAGANDA ARMADA - O terrorismo foi uma prática característica da segunda metade do século XIX, quando revoltosos impotentes para conduzir seus povos à tomada de poder decidiram intimidar os governantes, atentando contra suas vidas.
Então, em vez de conquistar as massas para a revolução, eles optaram por tornar impossível à classe dominante continuar governando. Tentavam criar o caos. O termo terrorista definia com exatidão a atuação política desses cidadãos.
Os terroristas mais característicos foram os narodniks da Rússia, que cometeram um sem-número de atentados contra o czar e seus ministros, à bala e com bombas.
Já os movimentos de resistência aos regimes militares latino-americanos, tanto quanto os que combateram o nazi-fascismo na Europa, sempre objetivaram conquistar o apoio das massas para sua causa. Nunca quiseram criar o caos. Designavam suas ações com uma expressão que fala por si mesma: propaganda armada.
Expropriavam bancos para manter a luta e sustentar militantes nas condições de rigorosa clandestinidade. Seqüestravam diplomatas para trocá-los pelos resistentes que estavam presos e sofrendo torturas atrozes. Ocupavam estações de rádio para obrigar a colocação no ar de seus manifestos. Tomavam supermercados e convidavam os trabalhadores a saqueá-los. Seqüestravam empresários e condicionavam sua libertação à distribuição de gêneros alimentícios em favelas. Criavam guerrilhas na esperança de que se tornassem o embrião de um exército de libertação.
Como em toda luta desse tipo, houve um ou outro excesso, como a bomba contra o jornal O Estado de S. Paulo (que só chamuscou o mural) e o atentado contra o QG do II Exército (que vitimou um recruta e foi criticadíssimo pela própria esquerda).
No entanto, o Comando de Caça aos Comunistas (organização paramilitar consentida pela ditadura), sozinho, cometeu muito mais ações caracteristicamente terroristas do que todos os grupos de esquerda juntos.
Idem, os integrantes dos órgãos de segurança da ditadura que tentaram sabotar a abertura de Geisel, com bombas, atentados e agressões covardes aos jornaleiros que ousavam vender veículos alternativos (suas bancas eram incendiadas!).
Centenas, talvez milhares, de inocentes teriam morrido no Riocentro, se o feitiço não houvesse virado contra o feiticeiro.
E, claro, que moral tinha a ditadura militar brasileira para rotular alguém de terrorista?! Com absoluto desprezo pelos direitos humanos, cometeu atrocidades que incluíram o seqüestro e a execução de opositores, capturados com vida e levados a centros clandestinos de tortura, para sofrerem suplícios terríveis e depois receberem o tiro de misericórdia; e a ocultação de seus cadáveres, tanto que, até hoje, famílias continuam em busca dos restos mortais dos seus entes queridos.
Quem levou a grau extremo a prática do terrorismo de estado não deveria nem sequer tocar nesse assunto...
ROLO COMPRESSOR - O rótulo de terrorista, portanto, não passou de uma deturpação da História com fins propagandísticos. Assim como chamavam de terroristas quem não o era e nunca foi, os militares brasileiros chegaram até a distribuir por todo o País cartazes acusando de assassinos pessoas que jamais haviam matado uma mosca -- como eu.
Era, sim, a mais vil e infame aplicação, no Brasil, dos conceitos de Goebbels: repetir tantas vezes uma mentira até que ela passasse por verdade.
Tudo isso ficou para trás quando os historiadores esclareceram a verdade sobre os anos de chumbo, os juristas reconheceram que a ação dos grupos armados se deu em conformidade com o princípio de resistência à tirania e o Estado brasileiro admitiu e começou a reparar sua culpa pelos maus feitos da turba de delinqüentes que agiu em seu nome durante 21 anos.
No entanto, a extrema-direita se reagrupou e passou a desenvolver uma propaganda avassaladora e massacrante, principalmente na internet. E voltou a tratar os resistentes como terroristas, exumando o velho clichê propagandístico, que já estava desmoralizado e banido do debate civilizado.
Não tenta mudar conceitos no ambiente acadêmico, pois sabe que seria exposta ao ridículo. Seu alvo preferencial, ao buscar prosélitos, são os incultos, os fracassados, os medíocres, os frustrados e os ressentidos -- a mesmíssima escória que respaldou a ascensão de Mussolini e Hitler.
Aproveitando a justa indignação contra o Governo Lula -- que é tudo, menos um governo de esquerda --, desenvolve uma pregação totalitária sem sutileza nenhuma. Se a justiça fosse séria no Brasil, muitos néo-integralistas já estariam presos por pregarem ostensivamente o fim da democracia.
Essa corja atua como rolo compressor, intimidando as pessoas equilibradas, que acabam deixando de participar dos fóruns de discussão política na internet para não terem de enfrentar uma malta de adversários que não hesita em recorrer a intimidações e grosserias.
Ou seja, fazem na internet o que os primeiros fascistas e nazistas faziam nas ruas: amedrontavam as pessoas de bem, para que não reagissem à escalada do arbítrio.
Como devemos nos comportar?
Não é próprio dos seres humanos decentes ficarmos discutindo com seres tão destituídos de humanidade, solidariedade, compaixão e, até, compostura. Pessoas capazes de vituperar de forma demagógica e virulenta o que um grande homem como o rabino Henry Sobel fez em decorrência de uma moléstia, só nos causam o mais profundo asco.
Mas, quem deixar o terreno livre para os obscurantistas será cúmplice de todos os retrocessos que vierem a ocorrer. Então, não podemos nos acovardar nem continuar cedendo terreno.
Tampando o nariz, devemos reagir. Marcar posição. Afirmar nossa crença na civilização e nosso repúdio à barbárie.
Pois eles, com suas mentiras e calúnias, são muito mais fracos do que nós, com nossos ideais e verdades. Podemos expulsá-los de volta para as trevas das quais nunca deveriam ter saído.
Lembrem-se: é fácil esmagar o ovo da serpente, mas muito difícil matar a víbora depois.
* jornalista, escritor e ex-preso político. Os outros artigos desta trilogia, “Há 43 Anos o País Entrava nas Trevas” e “O ovo da Serpente”, estão em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
EM ABRIL, CABRAL DESCOBRE... OS QUARTÉIS!
Celso Lungaretti (*)
Militares adoram relembrar os poucos episódios excitantes que ocorrem em sua carreira de robotizada rotina. Então, como preso político em unidades do Exército nos anos de chumbo, eu passei mais de dois meses sofrendo torturas propriamente ditas e os nove meses seguintes submetido à tortura psicológica de ter de escutar seus relatos escabrosos.
Um deles foi tão chocante que nunca me saiu da lembrança. Os sentinelas de um quartel paulistano surpreenderam um estuprador em ação contra um menino. Sem autoridade para tanto – deveriam apenas entregá-lo à polícia civil –, levaram-no para a caserna e começaram a discutir qual seria sua punição.
Um velho sargento solucionou a questão. Fez com que lhe aplicassem vigorosas pancadas na sola do pé, com uma palmatória. Depois, obrigou-o a correr. Mais pancadas. Mais corridas. Mais pancadas. Ele já não conseguia nem andar, era arrastado à força pelos recrutas. Até que o sargento se deu por satisfeito e mandou atirá-lo numa solitária. Morreu gangrenado, em meio a sofrimentos atrozes.
Essa é a maneira como os militares gostam de resolver as coisas: direta, sem levar em conta as perfumarias jurídicas. É claro que, durante a ditadura, tudo ficava mais fácil. Agora, vez por outra, são pilhados abusando do seu poder. Mas, passada a onda inicial, tudo acaba sendo abafado.
Quando o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, manda ofício ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedindo a ajuda das Forças Armadas para “assegurar a lei e a ordem na região metropolitana do Rio”, o que ele pretende, afinal?
Se ele é incapaz de cumprir as atribuições do seu cargo, melhor seria renunciar de uma vez. E, se lhe faltam recursos para combater com eficiência o crime organizado, o que deve solicitar são verbas, não tropas.
Até prova em contrário, fica a impressão de que Cabral quer mesmo é a utilização de métodos menos ortodoxos contra os comandos de marginais. As Forças Armadas entram em ação com as simpatias da população exasperada, obtêm alguns resultados mediante o uso de força excessiva e, quando os inevitáveis episódios chocantes começarem a provocar indignação pública, já terão golpeado duramente os bandidos.
Isto não seria, claro, uma verdadeira solução. Os criminosos se rearticulariam e, adiante, o problema reapareceria. É a chamada mágica besta, boa apenas para dar aos cidadãos mais simplórios a impressão de que o governador tem muque.
Se a polícia estadual está corroída pela corrupção, a obrigação de Cabral é saneá-la, o quanto antes. Depois, dotá-la de efetivos suficientes para o bom cumprimento de suas tarefas, de treinamento e de equipamento adequados.
Como os integrantes dos comandos criminosos se ocultam entre a população dos morros, sua captura tem de ser confiada a unidades de elite, que consigam atingir seus objetivos com precisão cirúrgica – e não mandando bala a torto e a direito. O Estado não tem o direito de dispor a bel-prazer da vida dos favelados inocentes.
Este é, aliás, um grande problema da participação das Forças Armadas em operações policiais. A cultura militar é de responder sempre ao fogo inimigo. Se o inimigo está oculto no meio de civis, estes acabam levando as sobras.
Outro problema, obviamente, é que a Inteligência militar só funciona a contento com a aplicação indiscriminada de torturas. É inadmissível que, para enfrentarmos o desafio do crime organizado, tenhamos de abrir mão dos valores civilizados. Isto seria um mal maior ainda do que o mal que se pretende combater.
Por último, deixar que as Forças Armadas venham para as ruas é sempre um perigo. Da última vez, levamos 21 anos para fazê-las voltar aos quartéis.
Políticos do tipo de Lula e Cabral têm memória curta e só levam em conta seus interesses imediatos. Azar nosso. Quem não aprende com as lições da História, está condenado a repetir os erros... e colher os mesmos resultados.
* jornalista, escritor e ex-preso político. Outros artigos: http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
Militares adoram relembrar os poucos episódios excitantes que ocorrem em sua carreira de robotizada rotina. Então, como preso político em unidades do Exército nos anos de chumbo, eu passei mais de dois meses sofrendo torturas propriamente ditas e os nove meses seguintes submetido à tortura psicológica de ter de escutar seus relatos escabrosos.
Um deles foi tão chocante que nunca me saiu da lembrança. Os sentinelas de um quartel paulistano surpreenderam um estuprador em ação contra um menino. Sem autoridade para tanto – deveriam apenas entregá-lo à polícia civil –, levaram-no para a caserna e começaram a discutir qual seria sua punição.
Um velho sargento solucionou a questão. Fez com que lhe aplicassem vigorosas pancadas na sola do pé, com uma palmatória. Depois, obrigou-o a correr. Mais pancadas. Mais corridas. Mais pancadas. Ele já não conseguia nem andar, era arrastado à força pelos recrutas. Até que o sargento se deu por satisfeito e mandou atirá-lo numa solitária. Morreu gangrenado, em meio a sofrimentos atrozes.
Essa é a maneira como os militares gostam de resolver as coisas: direta, sem levar em conta as perfumarias jurídicas. É claro que, durante a ditadura, tudo ficava mais fácil. Agora, vez por outra, são pilhados abusando do seu poder. Mas, passada a onda inicial, tudo acaba sendo abafado.
Quando o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, manda ofício ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedindo a ajuda das Forças Armadas para “assegurar a lei e a ordem na região metropolitana do Rio”, o que ele pretende, afinal?
Se ele é incapaz de cumprir as atribuições do seu cargo, melhor seria renunciar de uma vez. E, se lhe faltam recursos para combater com eficiência o crime organizado, o que deve solicitar são verbas, não tropas.
Até prova em contrário, fica a impressão de que Cabral quer mesmo é a utilização de métodos menos ortodoxos contra os comandos de marginais. As Forças Armadas entram em ação com as simpatias da população exasperada, obtêm alguns resultados mediante o uso de força excessiva e, quando os inevitáveis episódios chocantes começarem a provocar indignação pública, já terão golpeado duramente os bandidos.
Isto não seria, claro, uma verdadeira solução. Os criminosos se rearticulariam e, adiante, o problema reapareceria. É a chamada mágica besta, boa apenas para dar aos cidadãos mais simplórios a impressão de que o governador tem muque.
Se a polícia estadual está corroída pela corrupção, a obrigação de Cabral é saneá-la, o quanto antes. Depois, dotá-la de efetivos suficientes para o bom cumprimento de suas tarefas, de treinamento e de equipamento adequados.
Como os integrantes dos comandos criminosos se ocultam entre a população dos morros, sua captura tem de ser confiada a unidades de elite, que consigam atingir seus objetivos com precisão cirúrgica – e não mandando bala a torto e a direito. O Estado não tem o direito de dispor a bel-prazer da vida dos favelados inocentes.
Este é, aliás, um grande problema da participação das Forças Armadas em operações policiais. A cultura militar é de responder sempre ao fogo inimigo. Se o inimigo está oculto no meio de civis, estes acabam levando as sobras.
Outro problema, obviamente, é que a Inteligência militar só funciona a contento com a aplicação indiscriminada de torturas. É inadmissível que, para enfrentarmos o desafio do crime organizado, tenhamos de abrir mão dos valores civilizados. Isto seria um mal maior ainda do que o mal que se pretende combater.
Por último, deixar que as Forças Armadas venham para as ruas é sempre um perigo. Da última vez, levamos 21 anos para fazê-las voltar aos quartéis.
Políticos do tipo de Lula e Cabral têm memória curta e só levam em conta seus interesses imediatos. Azar nosso. Quem não aprende com as lições da História, está condenado a repetir os erros... e colher os mesmos resultados.
* jornalista, escritor e ex-preso político. Outros artigos: http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
5.4.07
O OVO DA SERPENTE
Celso Lungaretti (*)
"Que a comemoração de mais um aniversário do vitorioso movimento de 64 possa servir de alerta a aqueles (sic) que ainda têm esperança de implantar, no Brasil, um retrógrado regime bolchevista. Que não tentem isso novamente, porque o povo e as Forças Armadas, mais uma vez, irão às últimas conseqüências para evitar que tal aventura tenha sucesso.”
Esta afirmação encerra uma nota do presidente do Clube de Aeronáutica, tenente-brigadeiro da reserva Ivan Frota, criticando a atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na condução da crise aérea. Trata-se de mais uma bravata de militar de pijama inconformado em só servir hoje para levar os netinhos ao playground... ou devemos temer algo mais sério?
Não foi só ele, evidentemente, que olhou para os acontecimentos dos últimos dias com esperança ou apreensão. Coincidências costumam ser encaradas como presságios. E houve a simultaneidade entre o transcurso dos 43 anos do golpe militar e mais uma lambança do Governo Federal, desautorizando a solução que o comando da Aeronáutica pretendeu dar à rebelião dos controladores de vôo.
Em 1964, na verdade, só houve uma “aventura”: o desfecho vitorioso da conspiração que vinha sendo urdida há pelo menos uma década por núcleos de militares direitistas.
A grande maioria da oficialidade relutava em rasgar a Constituição que prometera respeitar; preferia manter-se afastada da política, cumprindo seus deveres profissionais. No entanto, os movimentos de sargentos, cabos e soldados das Forças Armadas acabaram por atirar os oficiais nos braços dos conspiradores.
Eram, principalmente, reivindicatórios e anti-autoritários. Os subalternos pediam algumas melhoras e protestavam contra os exageros disciplinares de seus superiores.
Como militante da Vanguarda Popular Revolucionária em 1969/70, conversei muito sobre esses episódios com o ex-sargento José Raimundo da Costa, um dos líderes dos marujos. Ele me garantiu que, mesmo após a Revolta da Chibata, continuavam existindo, sub-reptícios, os castigos físicos na Marinha.
Deixo isto como registro, pois não tenho como confirmar a informação. Mas, plausível ela é, pois, em pleno século 21, continuam pipocando no noticiário denúncias de maus-tratos a subalternos nas Forças Armadas.
O certo é que a oficialidade da Marinha era a mais aristocrática e arrogante das três Armas, o que explica a maior abrangência e radicalismo dos protestos de marinheiros.
Uma discussão que perdura até hoje é se esses movimentos foram instigados pelos militares conspiradores.
De concreto, há o fato de que foram eles os principais beneficiados. Os oficiais prezam, acima de tudo, a hierarquia. Ao serem desacatados pelos subalternos (alguns deles -- suprema humilhação! -- chegaram a ser atirados ao mar pelos comandados), bandearam-se em massa para o lado dos golpistas.
Especula-se também sobre quando, exatamente, José Anselmo dos Santos (o notório cabo Anselmo) passou a servir à direita. Durante a resistência à ditadura, ele atraiçoou os companheiros da organização a que pertencia, atraindo-os para emboscadas fatais, até que sua adesão ao inimigo se tornou conhecida.
No entanto, seus ex-colegas da marujada garantem que ele era um provocador a serviço da direita golpista desde antes de 1964, mesmo porque fazia sempre os discursos mais radicais nas assembléias de marinheiros.
Os paralelos entre esses acontecimentos e a atual insubordinação dos controladores de vôo têm sido destacados na imprensa e na Internet. Tudo leva a crer que a conduta vacilante do Governo Lula haja mesmo aumentado o número de oficiais simpáticos às posições direitistas.
Mas, ainda estamos muito longe da ante-sala do novo golpe, alardeado pelos alarmistas de plantão.
PROPAGANDA ENGANOSA – A extrema-direita é forte, sobretudo, entre os militares da reserva e na Internet, em que mantém vários sites com esquemas os mais opulentos, evidenciando que recursos materiais não lhes faltam.
Produz vastíssimo material de propaganda -- artigos capciosos montados com mentiras, meias-verdades e conclusões delirantes -- que suas tropas de choque pressurosamente recortam e colam como posts nas comunidades e fóruns de discussão política, História, direitos humanos, etc.
Com isto, consegue fazer a cabeça de muitos jovens, convencendo-os de que a ditadura foi light (Lula endossa esta falácia!) e botou ordem na casa, trazendo prosperidade e segurança. Os resistentes, pelo contrário, são apresentados como ladrões de banco, seqüestradores, terroristas e assassinos, que estariam agora recebendo indenizações mirabolantes do Estado brasileiro.
Todo esse besteirol é facilmente refutável. Mas, como ensinava o ministro de Propaganda de Hitler, Josef Goebels, "qualquer mentira repetida à exaustão acaba por se tornar uma verdade".
Os democratas se deram por satisfeitos vendo a verdade sobre os anos de chumbo incorporada à História. Subestimaram, entretanto, o poder da propaganda enganosa, ainda mais quando exercida de forma tão massacrante, como um rolo compressor.
Deveriam, atualmente, preocupar-se em tornar as verdades históricas mais acessíveis às novas gerações, como antídoto às pregações totalitárias.
ANÃOS MORAIS – Há uma diferença fundamental entre 1964 e 2007. Os Estados Unidos e parte do empresariado brasileiro favoreciam a conspiração, naquele contexto de guerra fria. Hoje, entretanto, salta aos olhos que o Governo Lula está perfeitamente afinado com os banqueiros e os capitalistas.
É risível atribuir-lhe “esperança de implantar, no Brasil, um retrógrado regime bolchevista”, como faz o tenente-brigadeiro Frota no seu aviãozinho retórico de vôo curto. E as tentativas de associar Lula às Farc ou aos planos maquiavélicos de Chavez simplesmente não colam. O máximo de que se pode acusá-lo, com alguma verossimilhança, é de continuísmo enrustido.
Então, a direita troglodita pôde contribuir um pouco para a vitória do “não” no plebiscito sobre o comércio de armas, tem enorme presença virtual e promove desagravos ao torturador-símbolo do País. Mas, por enquanto, não conta com o aval dos EUA e do grande capital para tentar nova quartelada.
Não se deve subestimá-la, contudo. Mesmo porque é, qualitativamente, pior ainda que a de 1964.
Naquele tempo, havia cidadãos seriamente convencidos do perigo comunista e/ou da conveniência de o Brasil ser sócio minoritário dos EUA. Não foram apenas os despóticos e os oportunistas que se colocaram do lado errado.
Hoje, os Bolsonaros, Passarinhos, Olavos de Carvalho e Ustras lideram um contingente de genocidas incomodados com seu papel na História e ansiosos por reescrevê-la à base da força bruta; políticos ambiciosos buscando atalhos para o poder; e uma massa informe de pessoas pouco brilhantes, frustradas e rancorosas, praticamente idênticas à escória urbana que respaldou a ascensão de Hitler e Mussolini.
Esses pseudo-moralistas estão sempre prontos a recriminar pequenas maracutaias, supostas ou reais, mas nada têm a dizer sobre os lucros imorais do sistema financeiro e a ganância criminosa das grandes empreiteiras.
Têm inveja dos cidadãos que supõem terem sido mais bem sucedidos do que eles em “espertezas” das quais eles próprios adorariam ser os beneficiários, mas mantêm um respeito servil em relação aos empresários mais predatórios.
Gostariam de ver a criminalidade erradicada à bala, desde que a “limpeza” ficasse a cargo de outrem, pois não têm coragem de agir pessoalmente como justiceiros.
Em suma, não passam de anãos morais, desprezíveis individualmente mas que podem se tornar perigosos como turba.
Nunca a expressão ovo da serpente foi tão apropriada.
* jornalista, escritor e ex-preso político. Outros artigos: http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
"Que a comemoração de mais um aniversário do vitorioso movimento de 64 possa servir de alerta a aqueles (sic) que ainda têm esperança de implantar, no Brasil, um retrógrado regime bolchevista. Que não tentem isso novamente, porque o povo e as Forças Armadas, mais uma vez, irão às últimas conseqüências para evitar que tal aventura tenha sucesso.”
Esta afirmação encerra uma nota do presidente do Clube de Aeronáutica, tenente-brigadeiro da reserva Ivan Frota, criticando a atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na condução da crise aérea. Trata-se de mais uma bravata de militar de pijama inconformado em só servir hoje para levar os netinhos ao playground... ou devemos temer algo mais sério?
Não foi só ele, evidentemente, que olhou para os acontecimentos dos últimos dias com esperança ou apreensão. Coincidências costumam ser encaradas como presságios. E houve a simultaneidade entre o transcurso dos 43 anos do golpe militar e mais uma lambança do Governo Federal, desautorizando a solução que o comando da Aeronáutica pretendeu dar à rebelião dos controladores de vôo.
Em 1964, na verdade, só houve uma “aventura”: o desfecho vitorioso da conspiração que vinha sendo urdida há pelo menos uma década por núcleos de militares direitistas.
A grande maioria da oficialidade relutava em rasgar a Constituição que prometera respeitar; preferia manter-se afastada da política, cumprindo seus deveres profissionais. No entanto, os movimentos de sargentos, cabos e soldados das Forças Armadas acabaram por atirar os oficiais nos braços dos conspiradores.
Eram, principalmente, reivindicatórios e anti-autoritários. Os subalternos pediam algumas melhoras e protestavam contra os exageros disciplinares de seus superiores.
Como militante da Vanguarda Popular Revolucionária em 1969/70, conversei muito sobre esses episódios com o ex-sargento José Raimundo da Costa, um dos líderes dos marujos. Ele me garantiu que, mesmo após a Revolta da Chibata, continuavam existindo, sub-reptícios, os castigos físicos na Marinha.
Deixo isto como registro, pois não tenho como confirmar a informação. Mas, plausível ela é, pois, em pleno século 21, continuam pipocando no noticiário denúncias de maus-tratos a subalternos nas Forças Armadas.
O certo é que a oficialidade da Marinha era a mais aristocrática e arrogante das três Armas, o que explica a maior abrangência e radicalismo dos protestos de marinheiros.
Uma discussão que perdura até hoje é se esses movimentos foram instigados pelos militares conspiradores.
De concreto, há o fato de que foram eles os principais beneficiados. Os oficiais prezam, acima de tudo, a hierarquia. Ao serem desacatados pelos subalternos (alguns deles -- suprema humilhação! -- chegaram a ser atirados ao mar pelos comandados), bandearam-se em massa para o lado dos golpistas.
Especula-se também sobre quando, exatamente, José Anselmo dos Santos (o notório cabo Anselmo) passou a servir à direita. Durante a resistência à ditadura, ele atraiçoou os companheiros da organização a que pertencia, atraindo-os para emboscadas fatais, até que sua adesão ao inimigo se tornou conhecida.
No entanto, seus ex-colegas da marujada garantem que ele era um provocador a serviço da direita golpista desde antes de 1964, mesmo porque fazia sempre os discursos mais radicais nas assembléias de marinheiros.
Os paralelos entre esses acontecimentos e a atual insubordinação dos controladores de vôo têm sido destacados na imprensa e na Internet. Tudo leva a crer que a conduta vacilante do Governo Lula haja mesmo aumentado o número de oficiais simpáticos às posições direitistas.
Mas, ainda estamos muito longe da ante-sala do novo golpe, alardeado pelos alarmistas de plantão.
PROPAGANDA ENGANOSA – A extrema-direita é forte, sobretudo, entre os militares da reserva e na Internet, em que mantém vários sites com esquemas os mais opulentos, evidenciando que recursos materiais não lhes faltam.
Produz vastíssimo material de propaganda -- artigos capciosos montados com mentiras, meias-verdades e conclusões delirantes -- que suas tropas de choque pressurosamente recortam e colam como posts nas comunidades e fóruns de discussão política, História, direitos humanos, etc.
Com isto, consegue fazer a cabeça de muitos jovens, convencendo-os de que a ditadura foi light (Lula endossa esta falácia!) e botou ordem na casa, trazendo prosperidade e segurança. Os resistentes, pelo contrário, são apresentados como ladrões de banco, seqüestradores, terroristas e assassinos, que estariam agora recebendo indenizações mirabolantes do Estado brasileiro.
Todo esse besteirol é facilmente refutável. Mas, como ensinava o ministro de Propaganda de Hitler, Josef Goebels, "qualquer mentira repetida à exaustão acaba por se tornar uma verdade".
Os democratas se deram por satisfeitos vendo a verdade sobre os anos de chumbo incorporada à História. Subestimaram, entretanto, o poder da propaganda enganosa, ainda mais quando exercida de forma tão massacrante, como um rolo compressor.
Deveriam, atualmente, preocupar-se em tornar as verdades históricas mais acessíveis às novas gerações, como antídoto às pregações totalitárias.
ANÃOS MORAIS – Há uma diferença fundamental entre 1964 e 2007. Os Estados Unidos e parte do empresariado brasileiro favoreciam a conspiração, naquele contexto de guerra fria. Hoje, entretanto, salta aos olhos que o Governo Lula está perfeitamente afinado com os banqueiros e os capitalistas.
É risível atribuir-lhe “esperança de implantar, no Brasil, um retrógrado regime bolchevista”, como faz o tenente-brigadeiro Frota no seu aviãozinho retórico de vôo curto. E as tentativas de associar Lula às Farc ou aos planos maquiavélicos de Chavez simplesmente não colam. O máximo de que se pode acusá-lo, com alguma verossimilhança, é de continuísmo enrustido.
Então, a direita troglodita pôde contribuir um pouco para a vitória do “não” no plebiscito sobre o comércio de armas, tem enorme presença virtual e promove desagravos ao torturador-símbolo do País. Mas, por enquanto, não conta com o aval dos EUA e do grande capital para tentar nova quartelada.
Não se deve subestimá-la, contudo. Mesmo porque é, qualitativamente, pior ainda que a de 1964.
Naquele tempo, havia cidadãos seriamente convencidos do perigo comunista e/ou da conveniência de o Brasil ser sócio minoritário dos EUA. Não foram apenas os despóticos e os oportunistas que se colocaram do lado errado.
Hoje, os Bolsonaros, Passarinhos, Olavos de Carvalho e Ustras lideram um contingente de genocidas incomodados com seu papel na História e ansiosos por reescrevê-la à base da força bruta; políticos ambiciosos buscando atalhos para o poder; e uma massa informe de pessoas pouco brilhantes, frustradas e rancorosas, praticamente idênticas à escória urbana que respaldou a ascensão de Hitler e Mussolini.
Esses pseudo-moralistas estão sempre prontos a recriminar pequenas maracutaias, supostas ou reais, mas nada têm a dizer sobre os lucros imorais do sistema financeiro e a ganância criminosa das grandes empreiteiras.
Têm inveja dos cidadãos que supõem terem sido mais bem sucedidos do que eles em “espertezas” das quais eles próprios adorariam ser os beneficiários, mas mantêm um respeito servil em relação aos empresários mais predatórios.
Gostariam de ver a criminalidade erradicada à bala, desde que a “limpeza” ficasse a cargo de outrem, pois não têm coragem de agir pessoalmente como justiceiros.
Em suma, não passam de anãos morais, desprezíveis individualmente mas que podem se tornar perigosos como turba.
Nunca a expressão ovo da serpente foi tão apropriada.
* jornalista, escritor e ex-preso político. Outros artigos: http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
25.3.07
HÁ 43 ANOS O PAÍS ENTRAVA NAS TREVAS
Celso Lungaretti (*)
Muitos atos de repúdio à ditadura militar de 1964 estão sendo programados, no País inteiro, para marcar a passagem dos 43 anos da quartelada, a se completarem no próximo dia 31. Em São Paulo, a iniciativa é do Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo e a manifestação terá lugar na Câmara Municipal paulistana (Viaduto Jacareí, 100), a partir das 19 horas do dia 3 de abril.
Lembrar o que realmente aconteceu nos anos de chumbo é muito relevante neste momento em que, aproveitando o esquecimento dos idosos e a desinformação dos que vieram depois, a direita troglodita tenta reabilitar a imagem da ditadura, com propaganda enganosa na base do "naquele tempo era tudo melhor".
Nas comunidades políticas do Orkut e em sites como o Terrorismo Nunca Mais, Mídia Sem Máscara e Usina de Letras, constata-se que essa gente está bem organizada, tem muitos recursos e vem fazendo intenso proselitismo. Atua como rolo compressor na internet, fez campanha pelo "não" no plebiscito sobre o comércio de armas e promove desagravos militares ao notório torturador Brilhante Ustra (numa tentativa pouco sutil de intimidar a Justiça). É a serpente se engendrando no ovo.
Eu tinha 13 anos quando os milicos deram o golpe. Depois, como militante estudantil a partir dos 16 anos, li e absorvi muita informação sobre esse assunto. E, ao ingressar na Vanguarda Popular Revolucionária, passei a conviver com pessoas que tiveram participação importante nos eventos de 1964. Curioso (já tinha espírito de jornalista), conversei muito com elas sobre o que haviam vivido e presenciado.
Mais tarde, em 1989, atuando na imprensa, fui incumbido pela Agência Estado de preparar uma série de matérias históricas sobre a quartelada, que estava completando 25 anos. Pesquisei, revirei arquivos, li brazilianistas, entrevistei personagens.
De tudo isso extraí algumas conclusões, que exponho como tópicos:
* há controvérsias sobre se a articulação da UDN com setores das Forças Armadas para derrubar o presidente Getúlio em 1954 desembocaria numa ditadura, caso o suicídio e a carta de Vargas não tivessem virado o jogo;
* mas, é incontestável que militares vinham tentando tomar o poder sob pretextos anticomunistas desde fevereiro de 1956, duas semanas após a posse de JK, com a revolta de Jacareacanga. Os oficiais da FAB repetiram a dose em outubro de 1959, com a também fracassada revolta de Aragarças. E, em agosto de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, as Forças Armadas vetaram a posse do vice-presidente João Goulart, só voltando atrás diante da resistência do governador Leonel Brizola (RS) e do apoio por ele recebido do comandante do III Exército, gerando a ameaça de uma guerra civil;
* apesar das bravatas de Luiz Carlos Prestes e dos "grupos dos 11" brizolistas, não havia em 1964 uma possibilidade real de conquista do poder pela esquerda. Não existiu o tal "contragolpe preventivo", mas, pura e simplesmente, um golpe para usurpar o poder, derrubando um governo eleito, fechando o Congresso, cassando mandatos legítimos e extinguindo entidades da sociedade civil;
* a esquerda só voltou para valer às ruas em 1968, mas as manifestações de massa foram respondidas pelo uso cada vez mais brutal da força, por parte de instâncias da ditadura e dos efetivos paramilitares que atuavam sem freios de nenhuma espécie, promovendo atentados e intimidações. Até que, com a edição do AI-5, em dezembro de 1968, a resistência pacífica se tornou inviável. Foi quando a vanguarda armada, insignificante até então, ascendeu ao primeiro plano, acolhendo os militantes que antes se dedicavam aos movimentos de massa;
* as organizações guerrilheiras conseguiram surpreender a ditadura no 1º semestre de 1969, mas já no 2º semestre as Forças Armadas começaram a levar vantagem no plano militar, introduzindo novos métodos repressivos e maximizando a prática da tortura, a partir de lições recebidas de oficiais estadunidenses;
* em 1970 os militares assumiram a dianteira também no plano político, aproveitando o boom econômico e a euforia da conquista do tricampeonato mundial de futebol, que lhes trouxeram o apoio da classe média;
* nos anos seguintes, com a guerrilha nos estertores, as Forças Armadas partiram para o extermínio sistemático dos militantes, que, mesmo quando capturados com vida, eram depois executados;
* o "milagre brasileiro", fruto da reorganização econômica empreendida pelos ministros Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões, bem como de uma enxurrada de investimentos estadunidenses em 1970 (quando aqui entraram tantos dólares quanto nos 10 anos anteriores somados), teve vida curta e em 1974 a maré já virou, ficando muitas contas para as gerações seguintes pagarem;
* as ciências, as artes e o pensamento eram cerceados por meio de censura, perseguições policiais e administrativas, pressões políticas e econômicas, e dos atentados e espancamentos praticados pelos grupos paramilitares consentidos pela ditadura;
* corrupção, havia tanta quanto agora, mas a imprensa era impedida de noticiar o que acontecia, p. ex., nos projetos faraônicos como a Transamazônica, Ferrovia do Aço, Itaipu e Paulipetro (muitos dos quais malograram);
* a arrogância e impunidade com que agiam as forças de segurança causou muitas vítimas inocentes, cujas famílias nem sequer obtinham o reconhecimento da culpa do Estado e respectiva indenização. E integrantes dos efetivos policiais chegavam a acumpliciar-se com traficantes, executando seus rivais a pretexto de justiçar bandidos (Esquadrões da Morte);
* o aparato repressivo criado para combater a guerrilha propiciava a seus integrantes uma situação privilegiadíssima. Não só recebiam dos empresários fascistas vultosas recompensas por cada revolucionário preso ou morto, como se apossavam de tudo que encontravam de valor com os militantes. Acostumaram-se a um padrão de vida muito superior ao que o soldo lhes proporcionaria;
* daí terem resistido encarniçadamente à disposição do presidente Geisel de desmontar essa engrenagem de terrorismo de estado, no momento em que ela se tornou desnecessária. Mataram pessoas inofensivas como Vladimir Herzog, promoveram atentados contra pessoas e instituições (inclusive o do Riocentro, que, se não tivesse falhado, provocaria um morticínio em larga escala) e chegaram a conspirar contra o próprio Geisel, que foi obrigado a destituir sucessivamente o comandante do II Exército e o próprio ministro do Exército.
Em suma: é o último filme do mundo a merecer reprise. Com todos os seus defeitos e mares de lama, a democracia ainda é menos pior. Deve ser preservada, custe o que custar. E, claro, moralizada e aperfeiçoada.
* jornalista, escritor e ex-preso político. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
Muitos atos de repúdio à ditadura militar de 1964 estão sendo programados, no País inteiro, para marcar a passagem dos 43 anos da quartelada, a se completarem no próximo dia 31. Em São Paulo, a iniciativa é do Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo e a manifestação terá lugar na Câmara Municipal paulistana (Viaduto Jacareí, 100), a partir das 19 horas do dia 3 de abril.
Lembrar o que realmente aconteceu nos anos de chumbo é muito relevante neste momento em que, aproveitando o esquecimento dos idosos e a desinformação dos que vieram depois, a direita troglodita tenta reabilitar a imagem da ditadura, com propaganda enganosa na base do "naquele tempo era tudo melhor".
Nas comunidades políticas do Orkut e em sites como o Terrorismo Nunca Mais, Mídia Sem Máscara e Usina de Letras, constata-se que essa gente está bem organizada, tem muitos recursos e vem fazendo intenso proselitismo. Atua como rolo compressor na internet, fez campanha pelo "não" no plebiscito sobre o comércio de armas e promove desagravos militares ao notório torturador Brilhante Ustra (numa tentativa pouco sutil de intimidar a Justiça). É a serpente se engendrando no ovo.
Eu tinha 13 anos quando os milicos deram o golpe. Depois, como militante estudantil a partir dos 16 anos, li e absorvi muita informação sobre esse assunto. E, ao ingressar na Vanguarda Popular Revolucionária, passei a conviver com pessoas que tiveram participação importante nos eventos de 1964. Curioso (já tinha espírito de jornalista), conversei muito com elas sobre o que haviam vivido e presenciado.
Mais tarde, em 1989, atuando na imprensa, fui incumbido pela Agência Estado de preparar uma série de matérias históricas sobre a quartelada, que estava completando 25 anos. Pesquisei, revirei arquivos, li brazilianistas, entrevistei personagens.
De tudo isso extraí algumas conclusões, que exponho como tópicos:
* há controvérsias sobre se a articulação da UDN com setores das Forças Armadas para derrubar o presidente Getúlio em 1954 desembocaria numa ditadura, caso o suicídio e a carta de Vargas não tivessem virado o jogo;
* mas, é incontestável que militares vinham tentando tomar o poder sob pretextos anticomunistas desde fevereiro de 1956, duas semanas após a posse de JK, com a revolta de Jacareacanga. Os oficiais da FAB repetiram a dose em outubro de 1959, com a também fracassada revolta de Aragarças. E, em agosto de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, as Forças Armadas vetaram a posse do vice-presidente João Goulart, só voltando atrás diante da resistência do governador Leonel Brizola (RS) e do apoio por ele recebido do comandante do III Exército, gerando a ameaça de uma guerra civil;
* apesar das bravatas de Luiz Carlos Prestes e dos "grupos dos 11" brizolistas, não havia em 1964 uma possibilidade real de conquista do poder pela esquerda. Não existiu o tal "contragolpe preventivo", mas, pura e simplesmente, um golpe para usurpar o poder, derrubando um governo eleito, fechando o Congresso, cassando mandatos legítimos e extinguindo entidades da sociedade civil;
* a esquerda só voltou para valer às ruas em 1968, mas as manifestações de massa foram respondidas pelo uso cada vez mais brutal da força, por parte de instâncias da ditadura e dos efetivos paramilitares que atuavam sem freios de nenhuma espécie, promovendo atentados e intimidações. Até que, com a edição do AI-5, em dezembro de 1968, a resistência pacífica se tornou inviável. Foi quando a vanguarda armada, insignificante até então, ascendeu ao primeiro plano, acolhendo os militantes que antes se dedicavam aos movimentos de massa;
* as organizações guerrilheiras conseguiram surpreender a ditadura no 1º semestre de 1969, mas já no 2º semestre as Forças Armadas começaram a levar vantagem no plano militar, introduzindo novos métodos repressivos e maximizando a prática da tortura, a partir de lições recebidas de oficiais estadunidenses;
* em 1970 os militares assumiram a dianteira também no plano político, aproveitando o boom econômico e a euforia da conquista do tricampeonato mundial de futebol, que lhes trouxeram o apoio da classe média;
* nos anos seguintes, com a guerrilha nos estertores, as Forças Armadas partiram para o extermínio sistemático dos militantes, que, mesmo quando capturados com vida, eram depois executados;
* o "milagre brasileiro", fruto da reorganização econômica empreendida pelos ministros Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões, bem como de uma enxurrada de investimentos estadunidenses em 1970 (quando aqui entraram tantos dólares quanto nos 10 anos anteriores somados), teve vida curta e em 1974 a maré já virou, ficando muitas contas para as gerações seguintes pagarem;
* as ciências, as artes e o pensamento eram cerceados por meio de censura, perseguições policiais e administrativas, pressões políticas e econômicas, e dos atentados e espancamentos praticados pelos grupos paramilitares consentidos pela ditadura;
* corrupção, havia tanta quanto agora, mas a imprensa era impedida de noticiar o que acontecia, p. ex., nos projetos faraônicos como a Transamazônica, Ferrovia do Aço, Itaipu e Paulipetro (muitos dos quais malograram);
* a arrogância e impunidade com que agiam as forças de segurança causou muitas vítimas inocentes, cujas famílias nem sequer obtinham o reconhecimento da culpa do Estado e respectiva indenização. E integrantes dos efetivos policiais chegavam a acumpliciar-se com traficantes, executando seus rivais a pretexto de justiçar bandidos (Esquadrões da Morte);
* o aparato repressivo criado para combater a guerrilha propiciava a seus integrantes uma situação privilegiadíssima. Não só recebiam dos empresários fascistas vultosas recompensas por cada revolucionário preso ou morto, como se apossavam de tudo que encontravam de valor com os militantes. Acostumaram-se a um padrão de vida muito superior ao que o soldo lhes proporcionaria;
* daí terem resistido encarniçadamente à disposição do presidente Geisel de desmontar essa engrenagem de terrorismo de estado, no momento em que ela se tornou desnecessária. Mataram pessoas inofensivas como Vladimir Herzog, promoveram atentados contra pessoas e instituições (inclusive o do Riocentro, que, se não tivesse falhado, provocaria um morticínio em larga escala) e chegaram a conspirar contra o próprio Geisel, que foi obrigado a destituir sucessivamente o comandante do II Exército e o próprio ministro do Exército.
Em suma: é o último filme do mundo a merecer reprise. Com todos os seus defeitos e mares de lama, a democracia ainda é menos pior. Deve ser preservada, custe o que custar. E, claro, moralizada e aperfeiçoada.
* jornalista, escritor e ex-preso político. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
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...memória não morrerá,
ditadura
21.3.07
...E A BARBÁRIE CONTINUA NOS RONDANDO
Há quatro semanas, expus no artigo “A Barbárie Que Nos Ronda” algumas considerações sobre o banditismo e, principalmente, sobre sua demonização, orquestrada pelos inocentes úteis da mídia e pelos culpados inúteis da extrema-direita – estes, sempre à procura de bandeiras demagógicas para sua cruzada regressiva, tentando levar-nos de volta às trevas medievais.
As discussões que esse texto suscitou em comunidades do Orkut e outros espaços virtuais comprovaram que se trata de um dos temas mais polêmicos da atualidade. Eu já avaliava a conveniência de voltar a ele, quando duas mensagens me convenceram de vez.
Uma foi o spam com que um advogado panfleteou a Internet, derramando lágrimas hipócritas sobre o sofrimento de mais uma vítima dos monstros que o capitalismo engendrou e atribuindo a responsabilidade por esse crime aos defensores dos direitos humanos, com destaque para D. Paulo Evaristo Arns, alvo principal de sua sórdida catilinária.
Tendo renunciado ao posto de arcebispo de São Paulo em 1996, ao atingir a idade-limite de 75 anos, por que D. Paulo desperta até hoje sentimentos tão exacerbados nesses direitistas fanáticos?
Seria ingenuidade supor que sua postura cristã em defesa dos excluídos tenha motivado tamanho rancor. Na verdade, a direita troglodita tenta colocar D. Paulo na berlinda porque foi um dos maiores nomes da resistência à ditadura militar, salvando dezenas de presos políticos da morte e da tortura.
Vilificar D. Paulo e outros defensores dos direitos humanos atende a um objetivo propagandístico maior da direita troglodita: fazer uma ponte entre os opositores da ditadura e a escalada do banditismo.
Os neo-integralistas cansam, p. ex., de acusar a esquerda armada de haver ensinado técnicas guerrilheiras ao Comando Vermelho, o que a faria responsável pelo estágio ora atingido pelo crime organizado.
Esquecem de mencionar que foi um abuso cometido pela ditadura militar contra os presos políticos o motivo da aproximação de dois universos que deveriam ser mantidos estanques.
Pretendendo humilhar e denegrir os militantes revolucionários, os tribunais de exceção passaram a condenar também presos comuns com base na Lei de Segurança Nacional. Queriam passar à opinião pública a imagem de que todos os assaltantes de bancos não passavam de meros bandidos, independentemente de suas motivações.
Para sustentar essa falácia, não hesitaram em colocar os condenados todos juntos na galeria B do presídio da Ilha Grande, entre 1969 e 1975. Depois de alguns conflitos, os dois contingentes acabaram chegando a um modus vivendi.
E os presos comuns, admirados com a organização, disciplina e companheirismo dos revolucionários, começaram a seguir seu exemplo, unindo-se para reagir aos abusos das autoridades carcerárias e implantando normas de convivência (como a proibição de ataques, roubos ou violência física e sexual entre os presos).
Não se podem culpar os presos políticos por servirem de modelo, nem os presos comuns por imitarem-nos, trocando a lei do cão pelos rudimentos do respeito mútuo, a violência cega pelo planejamento.
A ditadura é que criou esse monstro, ao deixar que os objetivos propagandísticos falassem mais alto do que o bom senso e as lições de episódios passados (presos políticos já haviam liderado os comuns numa fuga do Presídio Frei Caneca).
E a propaganda direitista continua enganosa, contando essa história pela metade e omitindo que os principais vilões foram exatamente os tiranos e verdugos por ela cultuados.
APOLOGIA DO EXTERMÍNIO - A outra mensagem marcante foi a de um admirador de Carlos Lamarca e Che Guevara, que numa comunidade do Orkut defendeu o fuzilamento dos marginais como única forma de erradicar a violência. Sem perceber, adota uma postura que convém a seus piores “inimigos de classe”.
É triste e inquietante ver o sonho de uma sociedade igualitária e justa desembocar em pregações tão brutais e primitivas.
O capitalismo condena desnecessariamente parcela substancial da população economicamente ativa ao desemprego e ao subemprego. Depois, demoniza os excluídos que se tornam bandidos, utilizando-os como espantalhos para assustar a classe média e fazê-la ansiar por soluções autoritárias.
É claro que, depois de transporem alguns dos limites que nos separam da horda primitiva, esses indivíduos se tornam mesmo irrecuperáveis, nocivos para si próprios e para a sociedade. No entanto, de que adianta encarcerá-los ou executá-los, se as condições degradantes a que nosso povo é submetido proverão imediatamente seus substitutos? O circulo vicioso será eterno.
Então, piores criminosos do que essas bestas-feras são os cidadãos educados e bem vestidos que zelam pela manutenção do status quo. Pois foram suas decisões e suas omissões que levaram esses outros seres humanos à desumanização extrema, como almas penadas que só existem para sofrer e para causar sofrimento aos demais. Na Ópera dos Três Vinténs, de Brecht, há uma frase lapidar: "O que é o roubo de um banco comparado com a fundação de um banco?".
A repressão jamais eliminará o banditismo, que é intrínseco ao capitalismo. Mas, certamente, vai fazer secar o que há de mais belo e digno em nós.
Temos de voltar a pensar em soluções estruturais, em vez de cedermos à tentação do mero revide, que nada deixa como saldo, se não motivos para novas retaliações, gerando uma espiral de violência que tornará tudo cada vez pior para todos.
As discussões que esse texto suscitou em comunidades do Orkut e outros espaços virtuais comprovaram que se trata de um dos temas mais polêmicos da atualidade. Eu já avaliava a conveniência de voltar a ele, quando duas mensagens me convenceram de vez.
Uma foi o spam com que um advogado panfleteou a Internet, derramando lágrimas hipócritas sobre o sofrimento de mais uma vítima dos monstros que o capitalismo engendrou e atribuindo a responsabilidade por esse crime aos defensores dos direitos humanos, com destaque para D. Paulo Evaristo Arns, alvo principal de sua sórdida catilinária.
Tendo renunciado ao posto de arcebispo de São Paulo em 1996, ao atingir a idade-limite de 75 anos, por que D. Paulo desperta até hoje sentimentos tão exacerbados nesses direitistas fanáticos?
Seria ingenuidade supor que sua postura cristã em defesa dos excluídos tenha motivado tamanho rancor. Na verdade, a direita troglodita tenta colocar D. Paulo na berlinda porque foi um dos maiores nomes da resistência à ditadura militar, salvando dezenas de presos políticos da morte e da tortura.
Vilificar D. Paulo e outros defensores dos direitos humanos atende a um objetivo propagandístico maior da direita troglodita: fazer uma ponte entre os opositores da ditadura e a escalada do banditismo.
Os neo-integralistas cansam, p. ex., de acusar a esquerda armada de haver ensinado técnicas guerrilheiras ao Comando Vermelho, o que a faria responsável pelo estágio ora atingido pelo crime organizado.
Esquecem de mencionar que foi um abuso cometido pela ditadura militar contra os presos políticos o motivo da aproximação de dois universos que deveriam ser mantidos estanques.
Pretendendo humilhar e denegrir os militantes revolucionários, os tribunais de exceção passaram a condenar também presos comuns com base na Lei de Segurança Nacional. Queriam passar à opinião pública a imagem de que todos os assaltantes de bancos não passavam de meros bandidos, independentemente de suas motivações.
Para sustentar essa falácia, não hesitaram em colocar os condenados todos juntos na galeria B do presídio da Ilha Grande, entre 1969 e 1975. Depois de alguns conflitos, os dois contingentes acabaram chegando a um modus vivendi.
E os presos comuns, admirados com a organização, disciplina e companheirismo dos revolucionários, começaram a seguir seu exemplo, unindo-se para reagir aos abusos das autoridades carcerárias e implantando normas de convivência (como a proibição de ataques, roubos ou violência física e sexual entre os presos).
Não se podem culpar os presos políticos por servirem de modelo, nem os presos comuns por imitarem-nos, trocando a lei do cão pelos rudimentos do respeito mútuo, a violência cega pelo planejamento.
A ditadura é que criou esse monstro, ao deixar que os objetivos propagandísticos falassem mais alto do que o bom senso e as lições de episódios passados (presos políticos já haviam liderado os comuns numa fuga do Presídio Frei Caneca).
E a propaganda direitista continua enganosa, contando essa história pela metade e omitindo que os principais vilões foram exatamente os tiranos e verdugos por ela cultuados.
APOLOGIA DO EXTERMÍNIO - A outra mensagem marcante foi a de um admirador de Carlos Lamarca e Che Guevara, que numa comunidade do Orkut defendeu o fuzilamento dos marginais como única forma de erradicar a violência. Sem perceber, adota uma postura que convém a seus piores “inimigos de classe”.
É triste e inquietante ver o sonho de uma sociedade igualitária e justa desembocar em pregações tão brutais e primitivas.
O capitalismo condena desnecessariamente parcela substancial da população economicamente ativa ao desemprego e ao subemprego. Depois, demoniza os excluídos que se tornam bandidos, utilizando-os como espantalhos para assustar a classe média e fazê-la ansiar por soluções autoritárias.
É claro que, depois de transporem alguns dos limites que nos separam da horda primitiva, esses indivíduos se tornam mesmo irrecuperáveis, nocivos para si próprios e para a sociedade. No entanto, de que adianta encarcerá-los ou executá-los, se as condições degradantes a que nosso povo é submetido proverão imediatamente seus substitutos? O circulo vicioso será eterno.
Então, piores criminosos do que essas bestas-feras são os cidadãos educados e bem vestidos que zelam pela manutenção do status quo. Pois foram suas decisões e suas omissões que levaram esses outros seres humanos à desumanização extrema, como almas penadas que só existem para sofrer e para causar sofrimento aos demais. Na Ópera dos Três Vinténs, de Brecht, há uma frase lapidar: "O que é o roubo de um banco comparado com a fundação de um banco?".
A repressão jamais eliminará o banditismo, que é intrínseco ao capitalismo. Mas, certamente, vai fazer secar o que há de mais belo e digno em nós.
Temos de voltar a pensar em soluções estruturais, em vez de cedermos à tentação do mero revide, que nada deixa como saldo, se não motivos para novas retaliações, gerando uma espiral de violência que tornará tudo cada vez pior para todos.
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13.3.07
MOLUSCO, CAMALEÃO OU PARASITA?
O Governo Lula pretende limitar o direito de greve dos funcionários públicos que atuam em serviços tidos como essenciais – casos do INSS e dos controladores de vôo, exemplificou o ministro do Planejamento. Segundo declarações de Paulo Bernardo publicadas na Folha de S. Paulo, as paralisações dos servidores devem ser usadas para pressionar a União, mas não para “desgraçar a população”.
Não menos enfática foi a mea culpa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Há abusos em greves, não apenas no setor público, mas em outras categorias. Agora cada um de nós paga um preço pelos exageros que cometemos. Seja no governo, seja no movimento sindical".
É curioso que, enquanto Lula intitula as posições que ele e o PT defendiam em passado não muito distante de “exageros”, Bernardo rotula de “besteiras” as críticas que os defensores dessas mesmas posições fazem agora à intenção governamental de disciplinar as greves. “Nós” apenas exagerávamos. “Eles” não passam de umas bestas.
Lula repetiu, assim, seu malabarismo retórico e ideológico de dezembro, quando, na confraternização de fim de ano do Clube Militar, qualificou de problemáticos os sexagenários que mantêm seus ideais de esquerda.
O sensato velhinho também mudou sua maneira de encarar Bush e os Estados Unidos, conforme notou o analista político Clóvis Rossi: “...a visita de George Walker Bush a São Paulo e, dentro de três semanas, a do próprio Lula a Washington, acabam representando a descida do muro por parte do presidente brasileiro, para ficar do lado do que seus antigos aliados do Fórum Social chamam de globalização corporativa”.
Vale ressalvar que, bem vistas as coisas, tem de haver mesmo algum limite às greves em serviços públicos essenciais, igualar esquerdismo com juvenilismo não passa de um clichê reacionário e a identificação com o país-símbolo do capitalismo e com seu presidente truculento e desmoralizado é um grave erro.
Mas, o que há de comum nesses três casos é a impudência com que Lula queima as bandeiras do passado. Faz lembrar o ditador Figueiredo, pedindo que o esquecessem.
Na mesma linha, Lula poderia muito bem afirmar: “Esqueçam o que eu dizia antes, vale só o que eu digo hoje”.
Enganam-se, entretanto, os que chamam Lula de “incoerente” e até de “aburguesado” ou “vendido”. Ele continua o que sempre foi: pragmático e amoral. Adota as teses mais apropriadas para a defesa dos seus interesses em cada momento e as descarta assim que perdem a serventia.
Não é de esquerda nem direita, democrata nem autoritário, a favor do socialismo ou do capitalismo. Será sempre, unicamente, aquilo que mais convier para si próprio.
O chocante é tão poucos haverem percebido que, sob o apelido moluscóide, o que havia era um camaleão – ou, pior ainda, um parasita que se adapta a todos os ambientes e situações, utilizando-se de qualquer organismo para dele extrair a energia vital, de forma a fortalecer-se enquanto o parasitado se torna exangue (caso do PT).
Como atenuante, havia aquele velho sonho marxista de que o operariado industrial assumisse a vanguarda da revolução. A esquerda festiva vibrou quando surgiu um metalúrgico, barbudo como Marx, que parecia corporificar essa esperança. Viu apenas aquilo que queria ver. E agora se recrimina amargamente por ter deixado de perceber o óbvio.
E houve também os que, como Zé Dirceu, captaram de imediato as gritantes limitações do Lula, mas pensaram que, exatamente por isso, poderiam servir-se dele como cavalo de Tróia para chegarem ao poder. Quem cavalga um tigre acaba sendo devorado pela fera, diz um provérbio chinês.
Para a esquerda, o saldo acabou sendo desastroso: forneceu à direita o líder popular que ela seria incapaz de criar sozinha e é identificada pelo cidadão comum com a podridão e os desatinos do Governo Lula.
Além de haver contribuído para um dos maiores estelionatos eleitorais da História, ao ajudar a eleger um homem que nega hoje quase tudo que pregava antes de chegar ao poder – esquecido de que foi em nome do seu suposto compromisso com essas posições que os partidários continuaram apoiando-o fervorosamente, mesmo depois das derrotas na eleição para o governo de São Paulo e em três pleitos presidenciais consecutivos.
Não menos enfática foi a mea culpa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Há abusos em greves, não apenas no setor público, mas em outras categorias. Agora cada um de nós paga um preço pelos exageros que cometemos. Seja no governo, seja no movimento sindical".
É curioso que, enquanto Lula intitula as posições que ele e o PT defendiam em passado não muito distante de “exageros”, Bernardo rotula de “besteiras” as críticas que os defensores dessas mesmas posições fazem agora à intenção governamental de disciplinar as greves. “Nós” apenas exagerávamos. “Eles” não passam de umas bestas.
Lula repetiu, assim, seu malabarismo retórico e ideológico de dezembro, quando, na confraternização de fim de ano do Clube Militar, qualificou de problemáticos os sexagenários que mantêm seus ideais de esquerda.
O sensato velhinho também mudou sua maneira de encarar Bush e os Estados Unidos, conforme notou o analista político Clóvis Rossi: “...a visita de George Walker Bush a São Paulo e, dentro de três semanas, a do próprio Lula a Washington, acabam representando a descida do muro por parte do presidente brasileiro, para ficar do lado do que seus antigos aliados do Fórum Social chamam de globalização corporativa”.
Vale ressalvar que, bem vistas as coisas, tem de haver mesmo algum limite às greves em serviços públicos essenciais, igualar esquerdismo com juvenilismo não passa de um clichê reacionário e a identificação com o país-símbolo do capitalismo e com seu presidente truculento e desmoralizado é um grave erro.
Mas, o que há de comum nesses três casos é a impudência com que Lula queima as bandeiras do passado. Faz lembrar o ditador Figueiredo, pedindo que o esquecessem.
Na mesma linha, Lula poderia muito bem afirmar: “Esqueçam o que eu dizia antes, vale só o que eu digo hoje”.
Enganam-se, entretanto, os que chamam Lula de “incoerente” e até de “aburguesado” ou “vendido”. Ele continua o que sempre foi: pragmático e amoral. Adota as teses mais apropriadas para a defesa dos seus interesses em cada momento e as descarta assim que perdem a serventia.
Não é de esquerda nem direita, democrata nem autoritário, a favor do socialismo ou do capitalismo. Será sempre, unicamente, aquilo que mais convier para si próprio.
O chocante é tão poucos haverem percebido que, sob o apelido moluscóide, o que havia era um camaleão – ou, pior ainda, um parasita que se adapta a todos os ambientes e situações, utilizando-se de qualquer organismo para dele extrair a energia vital, de forma a fortalecer-se enquanto o parasitado se torna exangue (caso do PT).
Como atenuante, havia aquele velho sonho marxista de que o operariado industrial assumisse a vanguarda da revolução. A esquerda festiva vibrou quando surgiu um metalúrgico, barbudo como Marx, que parecia corporificar essa esperança. Viu apenas aquilo que queria ver. E agora se recrimina amargamente por ter deixado de perceber o óbvio.
E houve também os que, como Zé Dirceu, captaram de imediato as gritantes limitações do Lula, mas pensaram que, exatamente por isso, poderiam servir-se dele como cavalo de Tróia para chegarem ao poder. Quem cavalga um tigre acaba sendo devorado pela fera, diz um provérbio chinês.
Para a esquerda, o saldo acabou sendo desastroso: forneceu à direita o líder popular que ela seria incapaz de criar sozinha e é identificada pelo cidadão comum com a podridão e os desatinos do Governo Lula.
Além de haver contribuído para um dos maiores estelionatos eleitorais da História, ao ajudar a eleger um homem que nega hoje quase tudo que pregava antes de chegar ao poder – esquecido de que foi em nome do seu suposto compromisso com essas posições que os partidários continuaram apoiando-o fervorosamente, mesmo depois das derrotas na eleição para o governo de São Paulo e em três pleitos presidenciais consecutivos.
8.3.07
GEORGE W. BUSH, O PANACA-MOR
Os anjos estão pelas ruas, tentando cravar suas flamejantes lanças retóricas no coração da fera: o dragão da maldade George W. Bush, 43º presidente dos Estados Unidos.
É gratificante ver a juventude começar de novo a mobilizar-se em função de questões maiores. Será que vão queimar bandeiras dos EUA, como fazíamos nas manifestações estudantis de 1968? Haverá bonecos Bush para serem malhados como Judas em sábado de Aleluia? Ou isso não pegaria bem nestes tempos politicamente corretos?
Só uma coisa me incomoda: o alvo é insignificante demais.
No século passado, os dirigentes das nações eram gigantes como Roosevelt, Churchill, De Gaulle, Hitler, Mussolini, Lênin, Stalin, Mao, Perón, Getúlio Vargas. Independentemente de como avaliemos a posição política e os feitos de cada um deles, é inegável que cravaram uma marca pessoal no destino de seus países. Fizeram História, no bom e no mau sentidos.
Desde a transição para a sociedade de massas, entretanto, quem dá as cartas é o “sistema”, com os governantes atuando mais como relações-públicas de suas administrações do que tomando decisões transcendentais. Então, chegamos à atual fornada de mediocridades eleitas a partir de sua semelhança com o homem comum.
O “sistema” oferece aos eleitores algumas opções de panacas em quem eles possam espelhar-se. Os eleitores escolhem aquele panaca que lhes pareça mais próximo do que eles são ou do que eles gostariam de ser. E depois o “sistema” fornece ao panaca escolhido todo o staff de que necessita para desempenhar a contento sua função de rainha da Inglaterra, enquanto o "governo invisível" trabalha.
George W. Bush é exatamente isto: o panaca-mor.
Sem o mínimo carisma, parece o gerente subalterno de uma agência bancária interiorana. Teve desempenho escolar ridículo e sua vida, antes da política, era um tédio só.
O único “feito” marcante, até então, havia sido o artifício utilizado para escapar da Guerra do Vietnã: aproveitando a influência familiar, alistou-se na Guarda Aérea Nacional do Texas e pôs-se a salvo de ser enviado para o sudeste asiático, embora defendesse a intervenção militar dos EUA naquela região.
Sua plataforma na disputa presidencial de 2000 foi a de governar como um “conservador com compaixão”. Prometeu, acredite quem quiser, avanços educacionais e inclusão social...
E teve uma vitória das mais contestadas, pois o fiel da balança foi o estado da Flórida, governado por seu irmão; houve muitas acusações de fraude e uma interminável recontagem dos votos.
Os atentados contra o WTC, no nono mês de mandato, forneceram a seu esquema político um mote providencial para fidelizar a classe média dos EUA: a luta contra o terrorismo.
O Governo Bush ordenou invasões desnecessárias do Afeganistão e do Iraque, derrubou a bel-prazer os mandatários desses países e tripudiou da forma mais arrogante sobre um inimigo vencido, fazendo (por meio de fantoches) condenar e executar Saddam Hussein.
É difícil relacionar a imagem do estudante sofrível e do poltrão que driblou a guerra com esses eventos repulsivos. Acreditar que o banho de sangue no Iraque se deva à vontade de um panaca tão panaca.
Hitler parecia mesmo um destruidor de nações. Bush, não. Tudo faz crer que seja apenas um boneco de ventríloquo nas mãos dos falcões (militaristas convictos).
Ou, talvez, nem mesmo falcões, mas tão-somente canalhas calculistas que consideram demonstrações de força no 3º Mundo um preço válido a pagar pelas vitórias eleitorais no 1º mundo.
Então, é preciso um esforço de imaginação para odiarmos George W. Bush. Temos de nos repetir, a cada instante, que ele é a face visível de um “sistema” que infelicita a humanidade e ameaça destruí-la com o aquecimento global; que massacra populações do 3º Mundo e que ajuda a manter a maioria dos brasileiros em condições subumanas.
Mas, com a cara de completo panaca que ele tem, haja imaginação!
É gratificante ver a juventude começar de novo a mobilizar-se em função de questões maiores. Será que vão queimar bandeiras dos EUA, como fazíamos nas manifestações estudantis de 1968? Haverá bonecos Bush para serem malhados como Judas em sábado de Aleluia? Ou isso não pegaria bem nestes tempos politicamente corretos?
Só uma coisa me incomoda: o alvo é insignificante demais.
No século passado, os dirigentes das nações eram gigantes como Roosevelt, Churchill, De Gaulle, Hitler, Mussolini, Lênin, Stalin, Mao, Perón, Getúlio Vargas. Independentemente de como avaliemos a posição política e os feitos de cada um deles, é inegável que cravaram uma marca pessoal no destino de seus países. Fizeram História, no bom e no mau sentidos.
Desde a transição para a sociedade de massas, entretanto, quem dá as cartas é o “sistema”, com os governantes atuando mais como relações-públicas de suas administrações do que tomando decisões transcendentais. Então, chegamos à atual fornada de mediocridades eleitas a partir de sua semelhança com o homem comum.
O “sistema” oferece aos eleitores algumas opções de panacas em quem eles possam espelhar-se. Os eleitores escolhem aquele panaca que lhes pareça mais próximo do que eles são ou do que eles gostariam de ser. E depois o “sistema” fornece ao panaca escolhido todo o staff de que necessita para desempenhar a contento sua função de rainha da Inglaterra, enquanto o "governo invisível" trabalha.
George W. Bush é exatamente isto: o panaca-mor.
Sem o mínimo carisma, parece o gerente subalterno de uma agência bancária interiorana. Teve desempenho escolar ridículo e sua vida, antes da política, era um tédio só.
O único “feito” marcante, até então, havia sido o artifício utilizado para escapar da Guerra do Vietnã: aproveitando a influência familiar, alistou-se na Guarda Aérea Nacional do Texas e pôs-se a salvo de ser enviado para o sudeste asiático, embora defendesse a intervenção militar dos EUA naquela região.
Sua plataforma na disputa presidencial de 2000 foi a de governar como um “conservador com compaixão”. Prometeu, acredite quem quiser, avanços educacionais e inclusão social...
E teve uma vitória das mais contestadas, pois o fiel da balança foi o estado da Flórida, governado por seu irmão; houve muitas acusações de fraude e uma interminável recontagem dos votos.
Os atentados contra o WTC, no nono mês de mandato, forneceram a seu esquema político um mote providencial para fidelizar a classe média dos EUA: a luta contra o terrorismo.
O Governo Bush ordenou invasões desnecessárias do Afeganistão e do Iraque, derrubou a bel-prazer os mandatários desses países e tripudiou da forma mais arrogante sobre um inimigo vencido, fazendo (por meio de fantoches) condenar e executar Saddam Hussein.
É difícil relacionar a imagem do estudante sofrível e do poltrão que driblou a guerra com esses eventos repulsivos. Acreditar que o banho de sangue no Iraque se deva à vontade de um panaca tão panaca.
Hitler parecia mesmo um destruidor de nações. Bush, não. Tudo faz crer que seja apenas um boneco de ventríloquo nas mãos dos falcões (militaristas convictos).
Ou, talvez, nem mesmo falcões, mas tão-somente canalhas calculistas que consideram demonstrações de força no 3º Mundo um preço válido a pagar pelas vitórias eleitorais no 1º mundo.
Então, é preciso um esforço de imaginação para odiarmos George W. Bush. Temos de nos repetir, a cada instante, que ele é a face visível de um “sistema” que infelicita a humanidade e ameaça destruí-la com o aquecimento global; que massacra populações do 3º Mundo e que ajuda a manter a maioria dos brasileiros em condições subumanas.
Mas, com a cara de completo panaca que ele tem, haja imaginação!
28.2.07
ANOS REBELDES x DÉCADAS APÁTICAS
Estudantes politizados de ontem e de hoje olham com desalento o movimento estudantil da atualidade, procurando os motivos de tamanha perda de consistência e representatividade, desde as jornadas gloriosas de 1968.
A partir de então, a maioria conclui, só houve picos de mobilização em algumas situações concretas, como as diretas-já e os protestos contra Collor. Em seguida, entretanto, voltou-se à apatia anterior, como se nada tivesse acontecido.
A dificuldade para avaliar essa trajetória aumenta em função da nostalgia com que os contemporâneos olham para trás e da visão romantizada que foi passada aos que vieram depois por produtos da indústria cultural como a minissérie "Anos Rebeldes". Então, vale a pena tentarmos discutir com mais profundidade o ontem e o hoje.
O final da década de 1960 marca a transição da sociedade rígida e patriarcal característica da fase da industrialização para o amoralismo da sociedade de consumo, em que tudo e todos devem estar disponíveis para o mercado.
Então, de certa forma, a contestação à autoridade de reitores, sacerdotes, "doutores" disso e daquilo, dos luminares da sociedade em geral, convinha ao próprio capitalismo, que estava passando da fase das grandes individualidades para a da "liderança participativa". O foco passaria a ser "o consumidor", o cidadão comum, em lugar do "grande homem", o expoente da elite.
Respirava-se anti-autoritarismo. As artes passavam por um momento de ousadias e experimentalismo no mundo inteiro, a imprensa se modernizava a olhos vistos, a liberalização de costumes e a liberação sexual entravam com força total.O movimento estudantil, estimulado pelos ventos de mudança, foi fundo na tarefa de "derrubar as prateleiras, as estátuas, as estantes, as vidraças" (como pediu Caetano Veloso em "É Proibido Proibir").
E, no hiato entre a etapa capitalista que terminava e a que ia começar, muitos jovens sonharam com algo maior: uma sociedade sem classes, em que não existisse a exploração do homem pelo homem e na qual a economia se voltasse para a satisfação das necessidades humanas em vez de ser regida pela ganância.
As três bandeiras principais do ME em 1968 foram:
* a rejeição do acordo firmado pelas autoridades educacionais brasileiras e estadunidenses (o Acordo MEC-Usaid), que, na avaliação das lideranças estudantis, levaria à tecnicização e privatização do ensino, colocando-o inteiramente a serviço das empresas;
* a exigência de participação dos estudantes na definição dos rumos do ensino universitário, por meio de comissões paritárias;
* a solidariedade aos movimentos contestatórios que aconteciam no Brasil e no mundo, com ênfase no repúdio à Guerra do Vietnã.Essa conjugação de fatores fez com que o ME fosse tão expressivo em 1968.
Mas, a repressão brutal desencadeada pela ditadura, principalmente após a assinatura do AI-5, inviabilizou a mudança maior que muitos pretendiam. Então, sobre a terra arrasada, o que brotou foi mesmo a sociedade de consumo.
A classe média, eufórica com o milagre brasileiro, tratou é de enriquecer. E a esquerda estava tão debilitada pela perda de seus melhores quadros que pouco pôde fazer contra a conjugação de boom econômico e terrorismo de estado.
O ME de 1968 foi, portanto, resultado de circunstâncias especiais e únicas. Não pode ser comparado com o de hoje, quando os jovens, ademais, têm de esforçar-se no limite de suas forças para começarem bem uma carreira, daí acabarem desinteressando-se por quase todo o resto.
No entanto, essa própria dificuldade insana que encontram para afirmar-se profissionalmente deveria levá-los a refletir sobre as distorções da sociedade atual. A competição canibalesca que aborta talentos e condena tanta gente a não desenvolver seu potencial é um dos horrores do capitalismo globalizado, em que há sempre mais postulantes do que vagas no mercado.
Talvez seja o momento dos estudantes se indagarem sobre a validade de se continuar nesse funil perverso, passando por cima dos despojos dos que tombarem no caminho.
Lembrando mais uma canção marcante dos festivais de MPB de outrora ("A Estrada e o Violeiro"), a alternativa é a postura altaneira que Sidney Miller pregou: "Se esse rumo assim foi feito,/ sem aprumo e sem destino,/ saio fora desse leito,/ desafio e desafino./ Mudo a sorte do meu canto,/ mudo o norte desta estrada,/ que, em meu povo, não há santo,/ não há força e não há forte,/ não há morte nem há nada/ que me faça sofrer tanto".
A partir de então, a maioria conclui, só houve picos de mobilização em algumas situações concretas, como as diretas-já e os protestos contra Collor. Em seguida, entretanto, voltou-se à apatia anterior, como se nada tivesse acontecido.
A dificuldade para avaliar essa trajetória aumenta em função da nostalgia com que os contemporâneos olham para trás e da visão romantizada que foi passada aos que vieram depois por produtos da indústria cultural como a minissérie "Anos Rebeldes". Então, vale a pena tentarmos discutir com mais profundidade o ontem e o hoje.
O final da década de 1960 marca a transição da sociedade rígida e patriarcal característica da fase da industrialização para o amoralismo da sociedade de consumo, em que tudo e todos devem estar disponíveis para o mercado.
Então, de certa forma, a contestação à autoridade de reitores, sacerdotes, "doutores" disso e daquilo, dos luminares da sociedade em geral, convinha ao próprio capitalismo, que estava passando da fase das grandes individualidades para a da "liderança participativa". O foco passaria a ser "o consumidor", o cidadão comum, em lugar do "grande homem", o expoente da elite.
Respirava-se anti-autoritarismo. As artes passavam por um momento de ousadias e experimentalismo no mundo inteiro, a imprensa se modernizava a olhos vistos, a liberalização de costumes e a liberação sexual entravam com força total.O movimento estudantil, estimulado pelos ventos de mudança, foi fundo na tarefa de "derrubar as prateleiras, as estátuas, as estantes, as vidraças" (como pediu Caetano Veloso em "É Proibido Proibir").
E, no hiato entre a etapa capitalista que terminava e a que ia começar, muitos jovens sonharam com algo maior: uma sociedade sem classes, em que não existisse a exploração do homem pelo homem e na qual a economia se voltasse para a satisfação das necessidades humanas em vez de ser regida pela ganância.
As três bandeiras principais do ME em 1968 foram:
* a rejeição do acordo firmado pelas autoridades educacionais brasileiras e estadunidenses (o Acordo MEC-Usaid), que, na avaliação das lideranças estudantis, levaria à tecnicização e privatização do ensino, colocando-o inteiramente a serviço das empresas;
* a exigência de participação dos estudantes na definição dos rumos do ensino universitário, por meio de comissões paritárias;
* a solidariedade aos movimentos contestatórios que aconteciam no Brasil e no mundo, com ênfase no repúdio à Guerra do Vietnã.Essa conjugação de fatores fez com que o ME fosse tão expressivo em 1968.
Mas, a repressão brutal desencadeada pela ditadura, principalmente após a assinatura do AI-5, inviabilizou a mudança maior que muitos pretendiam. Então, sobre a terra arrasada, o que brotou foi mesmo a sociedade de consumo.
A classe média, eufórica com o milagre brasileiro, tratou é de enriquecer. E a esquerda estava tão debilitada pela perda de seus melhores quadros que pouco pôde fazer contra a conjugação de boom econômico e terrorismo de estado.
O ME de 1968 foi, portanto, resultado de circunstâncias especiais e únicas. Não pode ser comparado com o de hoje, quando os jovens, ademais, têm de esforçar-se no limite de suas forças para começarem bem uma carreira, daí acabarem desinteressando-se por quase todo o resto.
No entanto, essa própria dificuldade insana que encontram para afirmar-se profissionalmente deveria levá-los a refletir sobre as distorções da sociedade atual. A competição canibalesca que aborta talentos e condena tanta gente a não desenvolver seu potencial é um dos horrores do capitalismo globalizado, em que há sempre mais postulantes do que vagas no mercado.
Talvez seja o momento dos estudantes se indagarem sobre a validade de se continuar nesse funil perverso, passando por cima dos despojos dos que tombarem no caminho.
Lembrando mais uma canção marcante dos festivais de MPB de outrora ("A Estrada e o Violeiro"), a alternativa é a postura altaneira que Sidney Miller pregou: "Se esse rumo assim foi feito,/ sem aprumo e sem destino,/ saio fora desse leito,/ desafio e desafino./ Mudo a sorte do meu canto,/ mudo o norte desta estrada,/ que, em meu povo, não há santo,/ não há força e não há forte,/ não há morte nem há nada/ que me faça sofrer tanto".
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27.2.07
A EXTREMA-DIREITA TENTA RENASCER
(respondendo à pergunta de um internauta na comunidade "Palpiteiros do Orkut")
O reagrupamento da extrema-direita é visível, em sites como o Terrorismo Nunca Mais, o Usina de Letras e o Mídia Sem Máscara; na campanha pelo "não" no plebiscito sobre o comércio de armas; na enxurrada de artigos e matérias negativas plantadas na mídia quando do 25º aniversário da Lei da Anistia; nas manifestações de apoio ao torturador Brilhante Ustra, etc.
O mar-de-lama petista deu um forte argumento a essa gente. E a esquerda ficou no pior dos mundos possíveis: não tem mais qualquer ascendência sobre o PT, mas acaba levando a fama por tudo que o partido faz de errado (ou supostamente errado). Acusam Lula de querer transformar o Brasil numa nova Cuba... imaginem!
Depois que a resistência popular, encabeçada pelo Brizola, frustrou o ensaio-geral do golpe militar em 1961, a esquerda subestimou o inimigo e deixou de destruir o ovo da serpente enquanto isso era possível. O resultado foi trágico.
A serpente está novamente sendo engendrada. E o perigo está sendo novamente subestimado.
Os bem-pensantes avaliam que, sendo o Governo Lula tão submisso ao grande capital, por que os poderosos haveriam de apoiar um golpe de remanescentes do DOI-Codi e da TFP, mais os novos extremistas que eles formaram?
Ocorre que, exatamente por ser incapaz de corresponder às esperanças que despertou (o "espetáculo do crescimento" e tantas outras), Lula acabará perdendo o controle dos "aloprados", como o MST.
E chegará o momento em que a falta de autoridade do governo e o esfacelamento social poderão levar os poderosos a repetirem a opção de 1964. Todo cuidado é pouco.
O reagrupamento da extrema-direita é visível, em sites como o Terrorismo Nunca Mais, o Usina de Letras e o Mídia Sem Máscara; na campanha pelo "não" no plebiscito sobre o comércio de armas; na enxurrada de artigos e matérias negativas plantadas na mídia quando do 25º aniversário da Lei da Anistia; nas manifestações de apoio ao torturador Brilhante Ustra, etc.
O mar-de-lama petista deu um forte argumento a essa gente. E a esquerda ficou no pior dos mundos possíveis: não tem mais qualquer ascendência sobre o PT, mas acaba levando a fama por tudo que o partido faz de errado (ou supostamente errado). Acusam Lula de querer transformar o Brasil numa nova Cuba... imaginem!
Depois que a resistência popular, encabeçada pelo Brizola, frustrou o ensaio-geral do golpe militar em 1961, a esquerda subestimou o inimigo e deixou de destruir o ovo da serpente enquanto isso era possível. O resultado foi trágico.
A serpente está novamente sendo engendrada. E o perigo está sendo novamente subestimado.
Os bem-pensantes avaliam que, sendo o Governo Lula tão submisso ao grande capital, por que os poderosos haveriam de apoiar um golpe de remanescentes do DOI-Codi e da TFP, mais os novos extremistas que eles formaram?
Ocorre que, exatamente por ser incapaz de corresponder às esperanças que despertou (o "espetáculo do crescimento" e tantas outras), Lula acabará perdendo o controle dos "aloprados", como o MST.
E chegará o momento em que a falta de autoridade do governo e o esfacelamento social poderão levar os poderosos a repetirem a opção de 1964. Todo cuidado é pouco.
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