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25.7.10

COMPRIMIR CÉREBROS, AMOLDANDO-OS AO CAPITALISMO: ESTE É O OBJETIVO

Comecei a estudar no Cursinho do Grêmio em 1968, mas a participação nos movimentos contestatórios acabou prevalecendo sobre os projetos de conquistar um lugar ao sol na sociedade capitalista.

Decidi que queria mesmo era meu lugar ao sol num Brasil solidário e justo, que o capitalismo jamais propiciaria.


Fiquei, entretanto, tempo suficiente naquela instituição -- cujos proprietários e professores eram estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP -- para constatar que sua prioridade era formar cidadãos conscientes e dotados de espírito crítico, capazes de vencer os desafios da vida e não apenas de transpor a barreira do vestibular.

Finda minha sofrida passagem pela luta armada, quando juntava os cacos para seguir vivendo após meus sonhos maiores terem sido postergados por décadas, sem que sequer se vislumbrasse a luz no fim do túnel, fui buscar no Equipe Vestibulares o necessário para ingressar numa faculdade de Jornalismo.

Cisão do Cursinho do Grêmio, também o Equipe incutia nos alunos o interesse em irem muito além do estritamente necessário para o vestibular. Não era só o como que importava, havia uma infinidade de porquês sendo colocados, discutidos, aprofundados.

Contra essa visão do ensino como instrumental para a compreensão do mundo e participação crítica na sociedade, vicejou uma outra, utilitária, mesquinha, castradora: a linha de montagem de robozinhos chamada Curso Objetivo.

Usando e abusando de recursos da nascente informática, o Objetivo sistematizou o levantamento do que já havia caído em vestibulares e a projeção do que provavelmente cairia no seguinte, martelando na cabeça dos alunos esses retalhos de conhecimento por meio de shows-aulas, com os recursos audiovisuais e as performances canastrônicas dos professores servindos para tornar menos intragável a chatice. Decoreba modernizada, enfim.

Esta didática que desvirtuava a Educação foi alavancada pela redução do vestibular a um mero exercício de fincar cruzinhas em questões de múltipla escolha.

A ditadura sabia a quem lhe convinha facilitar o ingresso no curso superior: as chances dos c.d.f., dos esforçados mas não brilhantes, eram maximizadas por esses exames grotescos, em detrimento da capacidade de raciocínio e da criatividade -- as quais, não por acaso, eram características marcantes dos insatisfeitos com o regime.

E, como o Objetivo tinha bons resultados quantitativos para trombetear, sua metodologia Frankenstein ocupou espaços cada vez maiores no mercado, aplicada por si e pelos outros cursinhos que a copiaram.

Depois de alguns anos, entretanto, o ensino superior começou a despertar desse pesadelo, reintroduzindo questões dissertativas no vestibular, para preencher suas salas de aula com algo mais do que laranjas mecânicas.

O tempo passou, o país se redemocratizou, vivemos uma nova realidade, mas o leopardo não perde as pintas, nem o Objetivo deixa de corporificar a pior mentalidade capitalista aplicada ao ensino.

Assim é que, em anúncios de página inteira veiculados neste domingo (25) nos jornalões, crava: Objetivo cria escola só para bons alunos.

E, em letras garrafais, reproduz citações de uma daquelas matérias jornalísticas louvaminhas que são contratadas e detalhadas nos Departamentos Comerciais da grande imprensa, chegando às redações como tarefas a serem cumprida seguindo as especificações da bula.

É fácil identificá-las, pelo inconfundível estilo levanta-a-bola-do-enfocado, inclusive fornecendo dados que direcionem a clientela ao paraíso retratado:
"O Objetivo criou uma escola apenas para bons alunos. O Colégio Integrado Objetivo tem o mesmo endereço da tradicional unidade Paulista (avenida Paulista, 900) (...)

"A mensalidade (cerca de R$ 1.600) e a carga horária não mudam. A diferença é que no Colégio Integrado, criado em 2008, só entra aluno com nota alta. Além disso, ele oferece aulas extras para os alunos no período da tarde e os professores são 'especiais'."
O ridículo chega a ponto de o texto citado apresentar como verdades irrefutáveis as alegações do Objetivo sobre os motivos de tão prodigioso colégio, que se propõe a isolar os geniozinhos para melhor moldá-los como raça superior, não figurar bem no Enem.

Lendo esse repulsivo informe publicitário, veio-me à lembrança a apresentação de Cruz de Ferro (1977), monumento cinematográfico de Sam Peckinpah, conjugando ótimas imagens de arquivo do III Reich com uma musiquinha nazista cantada por crianças...

23.7.10

TRIBUTO DE LULA A DOIS HERÓIS NACIONAIS: MARIGHELLA E BEZERRA












Dois dos vultos mais emblemáticos da resistência tanto à ditadura dos generais quanto à getulista, Carlos Marighella e Gregório Bezerra, foram reverenciados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que os colocou no mesmo patamar de Tiradentes, Joana Angélica, Gregório de Matos, Maria Quitéria e Zumbi dos Palmares, como heróis brasileiros que ajudaram o País a conquistar sua independência.

Discursando nesta 5ª feira (22) em Salvador, onde recebeu a Grã-Cruz da Ordem dos Libertadores da Bahia, Lula disse que muitos heróis nacionais foram esquecidos ou apresentados como bandidos: "Isso é um equívoco histórico que foi incutido na nossa cabeça pela doutrina da elite dominante”.

Daí a necessidade, frisou Lula, de resgatar suas histórias e lutas, reconhecendo o que fizeram pelo País e o povo. E acrescentou:
“Nós ficamos às vezes martelando muito mais no castigo a quem matou do que em enaltecer a imagem das pessoas que morreram acreditando numa coisa.

"Vamos pegar por exemplo o Gregório Bezerra que foi arrastado pelas ruas de Recife. Ao invés de nós ficarmos querendo saber quem arrastou Gregório Bezerra, nós precisamos valorizar o significado do sacrifício a que ele foi submetido.

"Poderíamos pegar Marighella que é aqui desta terra. Ao invés da gente ficar querendo condenar eternamente o [seu assassino, delegado Sérgio] Fleury, vamos valorizar as razões pelas quais Marighella fez o que fez.

"E assim a gente iria construindo mais heróis neste País. Iríamos construindo mais gente que pudesse servir de exemplo".
MARIGHELLA: "COMPROMISSO INABALÁVEL
COM AS LUTAS DO NOSSO POVO"
Filho de imigrante italiano e de uma negra baiana, Carlos Marighella (1911-1969) ingressou jovem no PCB e já em 1932 era detido por protestar contra o interventor da ditadura getulista na Bahia, Juracy Magalhães.

Foi atuar como organizador do partido no RJ e novamente preso em 1936, quando a polícia política de Filinto Muller o torturou bestialmente.

Incluído na anistia de 1945, elegeu-se deputado em 1946, foi cassado em 1948 e se tornou, na clandestinidade, um dos principais dirigentes do PCB. Preso novamente em 1964, conseguiu reconquistar a liberdade por decisão judicial, em 1965.

Convertido às teses guerrilheiras, organizou a ALN e participou de ações armadas como o sequestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick, que resultou na libertação de 15 presos políticos.

Para evocar Carlos Marighella, nada melhor do que os parágrafos iniciais do manifesto divulgado quando do 40º aniversário de sua morte, sete meses atrás:
"Carlos Marighella tombou na noite de 4 de novembro de 1969, em São Paulo, numa emboscada chefiada pelo mais notório torturador do regime militar. Revolucionário destemido, morreu lutando pela democracia, pela soberania nacional e pela justiça social.

"Da juventude rebelde, como estudante de Engenharia, em Salvador, às brutais torturas sofridas nos cárceres do Estado Novo; da militância partidária disciplinada, às poesias exaltando a liberdade; da firme intervenção parlamentar como deputado comunista na Constituinte de 1946, à convocação para a resistência armada, toda a sua vida esteve pautada por um compromisso inabalável com as lutas do nosso povo".
GREGÓRIO BEZERRA, EXIBIDO COMO TROFÉU
E TORTURADO EM PRAÇA PÚBLICA
Gregório Bezerra (1900-1983) foi uma lenda viva no seu tempo.

Nascido no Agreste pernambucano, começou a trabalhar na lavoura de cana com a idade de quatro anos, perdeu os pais antes dos dez, migrou para o Recife, trabalhou como carregador de bagagens e ajudante de obras, paupérrimo a ponto de dormir nas catacumbas de um cemitério.


Já em 1917, como jornaleiro, participou de manifestações de apoio à Revolução Bolchevique e de greves por direitos trabalhistas, sendo condenado a cinco anos de prisão.

Depois ingressou no Exército, alfabetizou-se e, já como militante comunista, liderou em Recife a chamada Intentona de 1935, que lhe acarretou uma sentença de 28 anos de prisão.

Anistiado ao final da ditadura getulista, elegeu-se como o deputado constituinte de maior votação em Pernambuco. Teve seu mandato cassado em 1948 e passou nove anos na clandestinidade, organizando núcleos sindicais.

Preso imediatamente após o golpe de 1964, foi não só torturado em Recife, como arrastado em praça pública com uma corda no pescoço; além disto, colocaram seus pés em solução de bateria de carro, deixando-os em carne viva. Tal espetáculo, exibido pelas televisões locais, provocou protestos em escala mundial.

Permaneceu prisioneiro até 1969, quando foi resgatado no sequestro do embaixador estadunidense. Voltou ao Brasil em 1979, com a anistia.

É frequentemente comparado a Nelson Mandella, pelo longo tempo de prisão por motivos políticos: 22 anos, cinco a menos do que o grande líder africano.

22.7.10

DE RECUO EM RECUO, PROGRAMA DE DILMA VIRA PLACEBO

Meu saudoso pai, que trabalhou 46 anos em fábrica, tinha uma frase curta e grossa para criticar quem faz concessões em demasia: "Quanto mais se curva, mais mostra o rabo"

Os responsáveis pela campanha de Dilma Rousseff, depois de descaracterizarem seu programa eleitoral registrado no TSE sob vara da grande imprensa, agora fazem a candidata dar declarações que equivalem a rendições.

Nesta 4ª feira (21), Dilma disse que, apesar de ter assinado embaixo, discorda do controle social da mídia, da taxação das grandes fortunas e da redução obrigatória da jornada de trabalho.

Sobre a primeira, afirmou:
"O único controle que existe é o controle remoto, na mão do telespectador, porque ele muda de canal. Sou contrária ao controle do conteúdo. No que se refere a controle social é impreciso. Não existe controle social que não seja público".
Também não concordo com a proposta de controle social da mídia, mas nunca adotaria o discurso que Dilma fez ontem, repetindo o do inimigo para o tranquilizar:
"É inadmissível a censura à imprensa, ao conteúdo, à critica. Sou rigorosamente contrária ao controle da imprensa".
A pecha de censores, que ela assim lançou sobre petistas há muito defensores de tal proposta, é extremamente injusta: antes de liberticidas, são, isto sim, idealistas indignados com a parcialidade, a tendenciosidade e a unilateralidade da indústria cultural que, sob o capitalismo putrefato, cumpre a função de bovinizar seus públicos por meio da manipulação ideológica dos acontecimentos.

Em lutas como a que travo em defesa do escritor e perseguido político Cesare Battisti, constatei o abandono brutal das boas práticas jornalísticas no Brasil.

A isenção e o equilíbrio foram para o lixo, a ponto de declaração de intelectual de renome mundial (pró Cesare) ser olimpicamente ignorada, enquanto se destaca qualquer irrelevância proveniente de vítima profissional ou inspetor de quarteirão (contra). Direito de resposta e de expressão do
outro lado viraram letras mortas.

Então, da Dilma que conheci durante a resistência à ditadura militar eu esperava que destacasse o fato de não estar existindo liberdade de imprensa propriamente dita, mas sim uma liberdade de desinformação, da qual a burguesia usa e abusa no seu afã de tanger os cidadãos para a aceitação passiva, acrítica e conformista do
status quo.

Só discordo do remédio proposto: o de usar-se a força do Estado para fazer com que a mídia volte a respeitar os limites entre informação, interpretação e opinião, ao invés de ideologizar as duas primeiras, deturpando-as para que se amoldem à opinião que os veículos já têm sobre o assunto enfocado.

Para mim, a verdadeira luta se trava nas ruas, não nos gabinetes do poder.

E não é para retocarmos aspectos do estado burguês sob o capitalismo, tentando torná-lo menos excludente, manipulador, injusto, predatório, parasitário, etc., etc.

É para substituirmos um sistema calcado na ganância, no privilégio e na competição zoológica entre os trabalhadores, por outro fundado no atendimento das necessidades humanas, na igualdade de oportunidades e na solidariedade universal.

Então, não se trata de moralizarmos a atuação da imprensa, mas de fazermos a revolução. Curto e grosso, como meu pai gostava.

A MAIS-VALIA É INTOCÁVEL?

No tocante às grandes fortunas, também vale tudo que eu disse acima; justiça social só haverá quando adotarmos um modelo de sociedade que a priorize, e não ao seu contrário.

Mas, vendo esse nosso povo sofrido dos grotões, socorrido por programas assistenciais que só lhe dão fôlego para continuar vegetando mais do que sobrevivendo, não consigo conter minha indignação e repulsa ao saber que há brasileiros com patrimônios pessoais na casa de US$ 27 bilhões (Elke Batista), US$ 11,5 bilhões (Jorge Paulo Lemann), US$ 10 bilhões (Joseph Safra)...

A liberdade de imprensa é sagrada para nós, revolucionários, sim!

Mas não a liberdade de empreender (no dizer dos propagandistas do capitalismo), de construir fortunas imorais e escandalosas como essas a partir da mais-valia expropriada dos trabalhadores (assim dizemos nós).

Então, abdicar da proposta de taxação das grandes fortunas equivale a uma capitulação ao inimigo. Curto e grosso.

Já foi difícil aceitarmos o recuo da revolução para a reforma. Que dizer do recuo da reforma para a conivência com os aspectos mais aberrantes e desumanos do capitalismo?!

NEM SEQUER 4 HORAS A MENOS?!

Por último, a redução da jornada de trabalho, que Dilma agora reduz a uma “questão de negociar entre patrões e empregados”.

Será que ela esqueceu tudo? Nosso bê-a-bá, as leituras de Marx (O Capital), Lênin (Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo) e tantos que tais?

Lutamos para conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização, dentre outros motivos, porque o capitalismo desperdiça criminosamente as possibilidades ora existentes de redução da jornada de trabalho a uma fração da atual, permitindo aos homens libertarem-se dos grilhões da necessidade e desenvolverem plenamente suas potencialidades.

Para produzir-se aquilo de que os seres humanos realmente precisam para uma sobrevivência digna – sendo, claro, extintas atividades nocivas, parasitárias e inúteis como as desenvolvidas pelos bancos –, menos da metade da jornada de trabalho atual seria mais do que suficiente.

E Dilma remete a mísera diminuição de 44 para 40 horas semanais a entendimentos com os patrões, como se as duas partes tivessem poder de fogo equivalente!

Sua campanha abusa do fato de a alternativa demotucana ser execrável a tal ponto de qualquer coisa, mesmo esse programa desfigurado e cúmplice do capitalismo, ainda representar mal menor.

Não teremos desculpa nem coragem para olhar no espelho se deixarmos de engendrar uma opção realmente satisfatória para 2014.

Chega de sermos obrigados a engolir a menos pior... ainda que, como no caso presente, tenha todas as características de um enorme batráquio!


20.7.10

O ANTIGO ZORRO E O CERTAMENTE TONTO

O professor Olavo
de Carvalho tem um
novo discípulo...

Os dois jornalões paulistas, inimigos históricos hoje irmanados nas cruzadas reacionárias, manchetearam, eufóricos, a reação do presidenciável José Serra às críticas que cidadãos equilibrados de vários partidos fizeram às declarações destrambelhadas e abestalhadas do seu vice Índio da Costa contra Dilma Rousseff e o PT.
O Estado de S.Paulo: 'Todo mundo sabe que o PT é ligado às Farc', diz Serra

Folha de S.Paulo: "Serra sai em apoio ao vice e aponta ligação de PT e Farc

Eias o que declarou Serra em Belo Horizonte:
"A ligação do PT é com as Farc. Isso todo mundo sabe, tem muitas reportagens, tem muita coisa. Apenas isso. Agora, as Farc são uma força ligada ao narcotráfico, isso não significa que o PT faça o narcotráfico".
O próprio Índio da Costa, devidamente adestrado pelos caras pálidas, também recuou da acusação que nenhum demotucano pode provar, refugiando-se no abrigo seguro das insinuações:
"PT não faz narcotráfico. As Farc, sim".
Interessante o Serra repetir o todo mundo sabe da frase indefensável do seu vice que deflagrou esta polêmica ("Todo mundo sabe que o PT é ligado às Farc, ao narcotráfico, ao que há de pior").

Todo mundo sabe, p. ex., que ele é um ex-presidente da UNE e teve de fugir do Brasil para não ser encarcerado pela ditadura militar.

Todo mundo sabe, também, que ele deveu sua liberdade e talvez sua vida às gestões solidárias de companheiros de vários países, quando prisioneiro de Pinochet.

E daí? Hoje o Serra coloca a tropa de choque da PM no campus da USP e nega solidariedade a Cesare Battisti.

Então, a insistência do antigo Zorro e do certamente Tonto num tema tão ao gosto do alarmista/fantasista Olavo de Carvalho e dos sites neointegralistas faz temer o pior.

Esta campanha presidencial começa a assumir os contornos de uma briga de foice no escuro, com tentativas desesperadas das aves de mau agouro e dos sempre demoníacos, no sentido de gerarem, artificialmente, um clima similar ao de 1964.

Com a única diferença de que as fileiras obscurantistas foram quantitativamente reforçadas pela adesão de José Serra.

Mas, para quem dá mais valor à qualidade e à integridade, não houve prejuízo nenhum.


19.7.10

MAIS UMA FALHA DA 'FOLHA': SUAS INTRIGAS DÃO NA VISTA...

Saiu na Folha de S. Paulo da última 6ª feira (16): Ex-prisioneiros cubanos criticam Lula.

Numa entrevista coletiva dos dissidentes recém libertados, a colaboradora da Folha em Madri recebeu a tarefa de indagar qual a sua opinião sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O jornal apostou em que ainda estariam indignados com a posição de Lula face à greve de fome que culminou na morte de Orlando Zapata. Não deu outra.
"Em Madri, [os dissidentes libertados] chamaram o presidente de populista e afirmaram que ele podia ter salvado a vida do preso político Orlando Zapata, que morreu por greve de fome no dia em que Lula visitava Cuba.

'Só que o Lula se aliou ao crime e não à justiça', declarou o dissidente cubano Omar Rodríguez.

"As críticas, feitas ontem em entrevista coletiva..."
A forma como a Folha apresentou o assunto me levou a comentar, num artigo que redigi de batepronto ainda na madrugada do dia 16, que os ex-presos tinham se deixado levar pela emoção, incorrendo num desabafo compreensível, mas também num exagero: não havia como, honestamente, responsabilizar Lula por uma morte ocorrida no próprio dia de sua visita.

Ele e todos os outros presidentes e premiês do mundo, além do Papa, deixaram de intervir em tempo hábil, apelando por Zapata enquanto sua salvação ainda era possível; na enésima hora não adiantaria fazer mais nada. E também não era Lula o único governante estrangeiro capaz de influenciar decisões dos irmãos Castro.

Depois, entretanto, fiquei sabendo que não era bem isso que Omar Rodrigues Saludes havia dito, mas sim:
“[Lula] aliou-se ao crime e não à Justiça. Orlando Zapata podia ter tido, mesmo que remotas [grifo meu], possibilidades de sobreviver se Lula tivesse intercedido pessoal e publicamente por ele”.
Ou seja, a Folha fez parecer que Saludes e os outros opositores de consciência haviam responsabilizado integralmente Lula pelo desfecho trágico da greve de fome de Zapata, quando, na verdade, o dissidente reconheceu sensatamente que, fosse qual fosse a atitude do nosso presidente, as chances de sobrevivência eram ínfimas -- conforme eu destaquei no meu artigo.

É de se supor que os demais tenham igualmente feito ressalvas, não incorporadas na notícia da Folha; e que não tenham sido todos que qualificaram Lula de "populista", mas apenas um deles.

COMPARAÇÃO INDEFENSÁVEL

Na verdade, a greve de fome de Zapata não chamava atenção até o desfecho fatal, mesmo porque vem sendo um recurso utilizado em demasia pelos opositores de consciência cubanos. Deveriam preservá-lo para situações extremas.

Então, o mais provável é que Lula nem sequer soubesse de sua existência.

O grande pecado do nosso presidente foi, ao ser surpreendido por um acontecimento imprevisto, deitar falação sobre o que não lhe dizia respeito:
"A greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para libertar pessoas. Imagina se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade!"
Deveria, simplesmente, alegar que se tratava de assunto interno cubano, sobre o qual não lhe cabia se manifestar.

"Pessoalmente, admiro Lula e sua trajetória. Mas foi infeliz na comparação com os detentos de São Paulo e nos deve desculpas", disse outro dissidente, Pablo Pacheco. Corretíssimo.

A Folha também foi à caça, por telefone, de um desabafo do Guilherme Fariñas, que deve ser o recordista mundial em quantidade e duração de greves de fome (nunca imaginei que cubanos se igualassem em determinação aos militantes do IRA...).

Com todo respeito que sua luta merece, ele também deu exemplo de incontinência verbal:
"O Lula é um mal-agradecido. Esqueceu-se de sua essência humana. Sorte para o povo brasileiro que já não pode mais ser eleito".
São palavras ofensivas para o "povo brasileiro", pois dão a entender que este faria a escolha errada se não tivesse a "sorte" de Lula não poder mais ser reeleito.

É outro que deitou falação sobre o que não lhe diz respeito.

O OUTRO LADO

Por último, os leitores devem ter estranhado o parágrafo final:
"Ouvido pela Folha, o Palácio do Planalto afirmou que não irá se manifestar sobre as declarações dos ex-presos".
Dá impressão de falta, ou de profissionalismo, ou de argumentos para responder às acusações. Mas, omitiu-se um detalhe importante: o Planalto foi "ouvido" quando e como?

No tempo em que eu trabalhava na Coordenadoria de Imprensa do Governo paulista, o serviço propriamente dito acabava por volta das 21h, mas sempre um de nós ficava de plantão até mais tarde, para qualquer eventualidade.

Acontecia de jornalistas ligarem no fim da noite, querendo saber a posição do governador face a qualquer notícia ou declaração adversa, para publicação na edição que estava fechando.

Era pura má fé: sabiam que não havia a menor chance de obtermos um retorno do governador em tempo hábil.

Meus colegas de trabalho respondiam que era impossível atender a essa solicitação e o repórter, satisfeito, colocava na matéria que o Palácio dos Bandeirantes não tinha se manifestado.

Eu era mais ousado: de tanto processar entrevistas do governador, estava careca de saber qual seria sua reação face ao que estava sendo perguntado.

Então, não só transmitia ao repórter a posição "do Palácio dos Bandeirantes", como o fazia, vingativamente, da forma mais vagarosa possível, saboreando a aflição do jornalista do outro lado da linha, ansioso por entregar o quanto antes sua matéria...

UM ÍNDIO QUE NÃO SERVE PARA CACIQUE

Quando o deputado federal Índio da Costa (DEM/RJ) foi anunciado como vice de José Serra, andou se falando que o motivo seria a notoriedade supostamente adquirida como relator da Lei da Ficha Limpa.

Para mim continuava um desconhecido, e bem pouco ilustre. Tive de buscar informações sobre ele nos Googles e Yahoos da vida. O mais significativo foramsuas contribuições ao folclore político:
  • discursou na Câmara Federal pedindo a proibição de coxinhas e pirulitos em cantinas escolares;
  • apresentou na Câmara Municipal carioca projeto de lei para que fossem multados os cidadãos que dessem esmola a pedintes;
  • tentou proibir o comércio ambulante nas ruas do Rio, o que eliminaria da paisagem carioca os tradicionais vendedores de mate e biscoito de polvilho.
Logo conclui que não passava de um novo Enéas Carneiro.

Aliás, a tal Lei da Ficha Limpa é uma besteirinha digna do barbudo que berrava "meu nome é Enéas!": apenas vai tumultuar o processo eleitoral e desperdiçar espaços do noticiário com escaramuças inócuas e inúteis. [Para quem quiser saber mais, recomendo meu artigo O povo como objeto, não sujeito, das mudanças; e o de Ana Helena Tavares, Quando a limpeza não cheira bem.]

Também cheguei a escrever que o tal Índio da Costa não passava de um Fernando Collor em miniatura.

No fundo, isso me ocorreu mais por causa do visual jovem e dinâmico -- na minha avaliação, o fator determinante de sua inclusão na chapa de Serra.

Por quê? Porque o ex-presidente da UNE, pessoalmente, dá a impressão de que hoje só serve para presidir asilo.

Fiquei chocado com sua entrada na sabatina da Folha de S. Paulo: caminhando meio encurvado, sisudo, parecia bem mais acabado e, até mesmo, fisicamente menor do que imagina quem o vê na TV.

O público, cuja grande maioria era de seus admiradores, demorou alguns constrangedores segundos para decidir se era ele mesmo, Serra, quem tinha adentrado o palco. Aí começaram a soar, timidamente, os aplausos.

Então, para contrabalançar a aparência nada exuberante nem vigorosa do Serra, colocaram ao lado dele um sujeito com jeitão de surfista Zona Sul do Rio. Fica parecendo um papai bem gasto com um filho garotão.

Será que vai funcionar? Na sociedade do espetáculo e da falsidade, tudo é possível.

Só que os caras pálidas esqueceram de contar ao Índio o que dele se esperava: exibir a estampa que o Grande Espírito lhe deu e nada dizer além de obviedades e platitudes, porque tirocínio político Tupã não lhe concedeu.

Numa entrevista ao portal Mobiliza PSDB, entretanto, ele quis mostrar-se um vice de verdade -- e, verdadeiramente, fez pensarmos num aspirante a Mussolini ou Salazar dos trópicos.

É mesmo um Collor em miniatura -- mais direitista ainda do que o original.

Acusou o PT de ligação com o narcotráfico, com a guerrilha das Farc e com o que "há de pior", expondo-se a uma óbvia interpelação judicial que o obrigaria a provar as afirmações ou reconhecer tê-las feito levianamente.

E, como se tivesse uma bola de cristal que não apresentou ao distinto público, antecipou que Dilma Rousseff, uma vez eleita, vai apoiar-se em remanescentes do escândalo do mensalão (leia-se Zé Dirceu). Eis as frases:
"Quem nos garante que no dia seguinte à eleição ela não vai fazer o que no Brasil é comum entre criatura e criador? Dá um chute no Lula e vai governar sozinha, com as garras do PT por trás dela."

"Em janeiro, se a Dilma é [sic] eleita, o Lula volta para casa. Mas o PT fica, com todos aqueles mensaleiros. O Lula tem poder sobre eles, mas eles têm muito poder sobre a Dilma."
Finalmente, como moleque exibido a vangloriar-se de proezas imaginárias, disse que, durante visita a Cuba, fazia questão de mostrar a todos uma revista provocativa (qual, a Veja?):
"Ia para tudo que era canto com ela debaixo do braço. Até queria ser preso, para ver como é que era lá em Cuba essa história que tanto falam. Mas é um horror aquilo. Vocês não podem imaginar. Coitado do cubano!"
As bobagens prosseguiram no Twiter, com Índio da Costa assim reagindo à observação de Dilma de que ele seria "um vice caído do céu":
"Para uma atéia, deve ser duro ter um adversário que cai do céu".
Também a acusou de "dissimular sobre religião". E o melhor veio no fim:
"Ela nem consegue olhar nos olhos do eleitor. É uma esfínge [sic] do pau oco."
Para devorá-lo, a esfinge não precisaria nem propor um enigma difícil. Pedir-lhe que decifrasse a expressão "santo do pau oco" já seria suficiente...

17.7.10

HÁ 41 MESES O BRASIL TEM UM PRESO POLÍTICO

O escritor italiano Cesare Battisti está preso desde fevereiro/2007 no Brasil por causa de crimes ocorridos há mais de três décadas na Itália e já prescritos (o tendencioso relator do processo de extradição no STF, Cezar Peluso, distorceu os cálculos...).

Crimes de que não foi acusado no primeiro julgamento, em julho de 1979, quando recebeu a exageradíssima sentença de 12 anos de prisão, por mera subversão contra o Estado italiano.

Crimes que lhe foram jogados nas costas quando o processo, já transitado em julgado, foi reaberto em 1987 por conta das delações premiadas de Pietro Mutti, o líder do grupo de ultraesquerda do qual Battisti havia participado.

Mutti -- que foi acusado, pelo juiz de outro processo, de mentir sistematica e descaradamente à Justiça, distribuindo culpas "de acordo com suas conveniências" -- inculpou Battisti por quatro assassinatos.

Pateticamente, a acusação teve de ser reescrita pelos promotores quando se constatou que dois desses episódios haviam ocorrido com um intervalo de tempo insuficiente para que Cesare pudesse ter se locomovido de uma a outra cidade.

Em vez de jogarem esse amontoado de mentiras no lixo, inventaram que Battisti teria sido
o autor intelectual de um desses homicídios. Poderiam também ter-lhe atribuído o dom da ubiquidade, por que não? As fábulas aceitam tudo...

Com o único respaldo de outros interessados em favores da Justiça italiana, cujos depoimentos
magicamente se casaram com os de Mutti, Battisti foi condenado em 1987 à prisão perpétua.

Depois ficou indiscutivelmente provado que, foragido no México, ele esteve representado nesse julgamento por advogados que não constituíra para tanto, os quais fraudaram procurações para apresentarem-se como seus defensores (embora houvesse conflito de interesses entre Battisti e os co-réus que eles também defendiam).

Nem sequer isto foi levado em conta pela Justiça italiana, que lhe nega o direito líquido e certo a novo julgamento, como qualquer sentenciado à pena máxima cuja condenação tenha se dado à revelia.

O quadro se completa com as pressões políticas e caríssimas campanhas de mídia que a Itália desenvolveu para convencer a França a renegar o compromissso solene que assumira com os perseguidos políticos italianos, de deixá-los residir e trabalhar em paz, desde que se abstivessem de interferir na política de sua pátria.

E com as descabidas pressões políticas sobre o governo brasileiro, depois que este, soberanamente, concedeu refúgio a Battisti.

Além da interferência exorbitante nos trâmites do caso no STF, com o servil consentimento de Cezar Peluso, que em momento algum mostrou a isenção inerente a um relator, tomando invariavelmente partido pela posição italiana contra Battisti e contra o ministro da Justiça do Brasil (que sempre deu e deveria continuar dando a última palavra nos casos de asilo político e refúgio humanitário).

ITÁLIA MENTE: NÃO TEM COMO
REDUZIR PENA DE BATTISTI


Peluso desconsiderou, inclusive, um ponto fundamental levantado pelo maior jurista brasileiro vivo, Dalmo de Abreu Dallari, que alertou para a impossibilidade legal de a Itália cumprir a promessa feita ao Brasil, de reduzir a pena de Battisti para o máximo permitido pela Lei brasileira.

Foi uma promessa feita com má fé, como involuntariamente admitiu o próprio ministro da Justiça italiano em reunião com uma associação de vítimas da ultraesquerda, sem imaginar que suas palavras seriam publicadas pelo jornal
Corrieri della Sera.

Num julgamento ideologizado ao extremo, o Supremo decidiu, por 5 votos contra 4, apreciar um caso de refúgio já decidido pelo Executivo -- o que, segundo a jurisprudência consolidada em vários casos anteriores, impedia o prosseguimento do processo de extradição; e, pelo mesmo placar,
autorizou a extradição de Battisti.

A tentativa aberrante de usurpar do presidente da República a prerrogativa de dar a última palavra acabou sendo, entretanto, rechaçada, também por 5x4.

O julgamento foi encerrado em novembro/2009 e o acórdão publicado em abril/2010, quando o caso passou para a alçada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está aguardando um parecer da Advocacia Geral da União para tomar sua decisão.

O certo é que se consumiram quase três anos e meio da vida de Cesare Battisti, cidadão que já foi mais do que punido pelo que realmente fez, mas tentaram transformar em bode expiatório do que não fez, como um símbolo do triunfo da pior direita européia sobre os ideais de 1968.

TARSO GENRO QUESTIONA ATUAÇÃO DA MÍDIA NO CASO BATTISTI

Nas eleições para o Executivo, minha postura em relação a candidatos oriundos ou pertencentes ao campo da esquerda é sempre a de elogiar sua coerência com os princípios revolucionários ou reprovar-lhes o abandono dos ideais de outrora.
Não entro em tiroteios eleitorais, nem me interessa a forma como cada um deles se propõe a gerir o estado burguês; só a contribuição que eventualmente se proponham ou não a dar para o advento de um estágio superior de civilização.

Então, de uma entrevista de Tarso Genro ao jornal virtual
Sul 21, reproduzirei o que considero relevante transmitir a meus leitores, sem entrar no mérito de sua candidatura pelo PT ao governo do Rio Grande do Sul.

Já o enalteci e recriminei muito. Desta vez, a serenidade das suas colocações me impressionou. Leiam e avaliem.


CASO BATTISTI

"Essa é uma questão que foi ideologizada de má fé pela grande mídia. Então é natural que as pessoas fiquem confusas sobre o assunto.

"Eu só agi de acordo com os tratados internacionais sobre refugiados e direitos humanos. Isso foi escondido pela maioria da mídia.

"Inclusive as minhas decisões relacionadas ao caso Battisti foram fundamentadas em decisões anteriores do Supremo Tribunal Federal sobre o mesmo assunto. O STF já não havia permitido a extradição de quatro ex-brigadistas italianos que tinham se refugiado no Brasil. Não foi dado o devido peso, na divulgação do caso Battisti, a estas decisões anteriores do Supremo.

"Fui criticado como se tivesse tomado uma decisão inédita, e isso constitui uma fraude informativa. Inédita foi, na verdade, a mudança de decisão do Supremo sobre o tema.

"Mas o STF manteve, afinal, uma posição de princípio, que é remeter ao presidente da República a solução do caso. Seria muito grave se isso mudasse. E isso foi mantido por cinco votos a quatro. Está nas mãos do presidente a decisão do Battisti".
ANISTIA DOS TORTURADORES
"Na verdade, existe uma dubiedade para tratar deste assunto. Paira sobre a imprensa ainda o fantasma do poder militar no Brasil.

"Quando a imprensa divulga os processos contra torturadores no Uruguai e na Argentina, ela divulga de uma maneira mais isenta, mais livre, com menos espanto, com menos medo, me parece. E mostra os julgamentos que estão acontecendo lá.

"Quando é aqui no Brasil, parece que há uma espécie de temor dos formadores de opinião, de se chocarem com os porões da Operação Bandeirante, que estão todos soltos, produzindo blogues e vivendo normalmente. São os que mataram, assassinaram ou torturaram.

"Já os presos políticos, estes foram processados, cumpriram pena, foram presos, muitos torturados, depois foram anistiados.

"Então, eu acho que é uma espécie de temor reverencial à ditadura, que leva essas pessoas a divulgar de maneira tão deformada essa questão da punibilidade dos torturadores aqui no Brasil.

"Nós temos que compreender isso dentro de um processo político, de uma transição política difícil, que no Brasil foi conciliada. Foi conciliada a tal ponto que o presidente do partido que dava suporte à ditadura militar se transformou no primeiro presidente da República que fez a transição para a democracia.

"Acho que esta questão da tortura vai voltar no Brasil. E essa lamentável decisão do STF, com o voto espantoso para todos nós do ministro Eros Grau, ela um dia vai cair aqui no Brasil e o STF fará justiça.

"Isso não significa colocar ninguém na cadeia, nem perseguir generais que foram presidentes. Significa você ter o registro, na justiça, de que pessoas que cometeram barbáries possam ser julgadas pelo Estado de Direito. Apenas isso".

16.7.10

AS REINAÇÕES DO JORNALZINHO

Está na Folha de S. Paulo desta 6ª feira: Ex-prisioneiros cubanos criticam Lula.

Numa entrevista coletiva dos dissidentes recém libertados, a colaboradora da Folha em Madri recebeu a tarefa de indagar qual a sua opinião sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O jornal apostou em que ainda estariam indignados com a posição de Lula face à greve de fome que culminou na morte de Orlando Zapata. Não deu outra.

"O Lula se aliou ao crime e não à justiça", declarou Omar Rodríguez.

Outros o secundaram, afirmando que Lula poderia ter salvado a vida de Zapata.

Exageraram: não há como, honestamente, responsabilizá-lo por uma morte ocorrida no próprio dia de sua visita.

Ele e todos os outros presidentes e premiês do mundo, além do Papa, deixaram de intervir em tempo hábil, apelando por Zapata enquanto sua salvação ainda era possível; na enésima hora não adiantaria fazer mais nada.

Também não é Lula o único governante estrangeiro capaz de influenciar decisões dos irmãos Castro.

Na verdade, a greve de fome de Zapata não chamava atenção até o desfecho fatal, mesmo porque vem sendo um recurso utilizado em demasia pelos opositores de consciência cubanos. Deveriam preservá-lo para situações extremas.

Então, o mais provável é que Lula nem sequer soubesse de sua existência.

O grande pecado do nosso presidente foi, ao ser surpreendido por um acontecimento imprevisto, deitar falação sobre o que não lhe dizia respeito:
"A greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para libertar pessoas. Imagina se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade!"
Deveria, simplesmente, alegar que se tratava de assunto interno cubano, sobre o qual não lhe cabia se manifestar.


"Pessoalmente, admiro Lula e sua trajetória. Mas foi infeliz na comparação com os detentos de São Paulo e nos deve desculpas", disse outro dissidente, Pablo Pacheco. Corretíssimo.

A Folha também foi à caça, por telefone, de um desabafo do Guilherme Fariñas, que deve ser o recordista mundial em quantidade e duração de greves de fome (nunca imaginei que cubanos se igualassem em determinação aos militantes do IRA...).

Com todo respeito que sua luta merece, ele também deu exemplo de incontinência verbal:
"O Lula é um mal-agradecido. Esqueceu-se de sua essência humana. Sorte para o povo brasileiro que já não pode mais ser eleito".
São palavras ofensivas para o "povo brasileiro", pois dão a entender que este faria a escolha errada se não tivesse a "sorte" de Lula não poder mais ser reeleito.

É outro que deitou falação sobre o que não lhe diz respeito.

O OUTRO LADO

Por último, os leitores certamente estranharão o parágrafo final:
"Ouvido pela Folha, o Palácio do Planalto afirmou que não irá se manifestar sobre as declarações dos ex-presos".
Dá impressão de falta, ou de profissionalismo, ou de argumentos para responder às acusações. Mas, omitiu-se um detalhe importante: o Planalto foi "ouvido" quando e como?

No tempo em que eu trabalhava na Coordenadoria de Imprensa do Governo paulista, o serviço propriamente dito acabava por volta das 21h, mas sempre um de nós ficava de plantão até mais tarde, para qualquer eventualidade.

Acontecia de jornalistas ligarem no fim da noite, querendo saber a posição do governador face a qualquer notícia ou declaração adversa, para publicação na edição que estava fechando.

Era pura má fé: sabiam que não havia a menor chance de obtermos um retorno do governador em tempo hábil.

Meus colegas de trabalho respondiam que era impossível atender a essa solicitação e o repórter, satisfeito, colocava na matéria que o Palácio dos Bandeirantes não tinha se manifestado.

Eu era mais ousado: de tanto processar entrevistas do governador, estava careca de saber qual seria sua reação face ao que estava sendo perguntado.

Então, não só transmitia ao repórter a posição "do Palácio dos Bandeirantes", como o fazia, vingativamente, da forma mais vagarosa possível, saboreando a aflição do jornalista do outro lado da linha, ansioso por entregar o quanto antes sua matéria...

15.7.10

A AMORALIDADE COMO NORMA

Se os Nardoni fossem inocentes, que
chance teriam de ser absolvidos
após a satanização midiática?
Quando eu estava começando a formar minhas convicções, aos 15 anos, assisti a uma peça de teatro amador sobre Galileu Galilei que trazia, destacada nos cartazes e no programa, uma fala que me marcou para sempre:
“Há um mínimo de dignidade que não se pode negociar. Nem mesmo em troca da liberdade. Nem mesmo em troca do sol”.
Referia-se ao recuo tático do grande físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano, que renegou sua convicção de que o Sol (e não a Terra) era o centro de nosso Universo, para obter a clemência da Inquisição.

Doente e quase cego, o septuagenário Galileu fez esta concessão ao obscurantismo religioso para que sua pena de exílio fosse convertida no que hoje chamamos de prisão domiciliar.

Os homens têm enfrentado, ao longo dos séculos, o dilema moral de escolherem entre o que é certo e o que é conveniente. Às vezes, em situações ainda mais dramáticas, como a que os relatos lendários sobre a Guerra de Tróia atribuem ao rei Agamenon, quando a partida de sua monumental frota estava sendo impedida pela calmaria e um vidente lhe revelou que a deusa Ártemis exigia a vida de sua filha Ifigênia como contrapartida de ventos favoráveis.


Mas, dificilmente as opções negativas são feitas por motivos tão extremos. E, nas situações prosaicas do cotidiano, o ensinamento de Jesus Cristo continua apontando o único caminho verdadeiramente ético: “Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma?” (Mateus, 16:26).


Neste melancólico século 21, pouquíssimos hesitam em trocar a alma por dinheiro, status e poder. O capitalismo, erigindo a privilégio e a ganância em valores supremos da vida social, transforma os homens em fiéis devotos do bezerro de ouro.


A amoralidade virou norma. E existem até os que a justificam com argumentação sofisticada, como os advogados: ao representarem os piores canalhas, eles alegam que assim procedem em nome da democracia, de forma a assegurar o direito a defesa que até os nitidamente culpados têm.


Por coincidência, os piores canalhas tendem a ser os clientes que melhor remuneram os serviços advocatícios. E nunca é lembrado que todo advogado tem o direito de recusar uma causa que repugne à sua consciência, posto que outro advogado a acabará defendendo; em último caso, o juiz designará um defensor de ofício, que atuará por obrigação e não por mercenarismo.


Estas divagações me ocorreram ao ler a rebuscada historinha que os defensores de Bruno Fernandes pretendem apresentar ao tribunal: a de uma armação de Sérgio Rosa Sales para se vingar do goleiro.


Culpado ou não do
presumível assassinato de Eliza Samudio, salta aos olhos que Bruno é um péssimo ser humano.

Mas, se mesmo assim optaram por defendê-lo, por que não o fazem com as alegações corretas?


O certo é que, inexistindo cadáver, a morte de Eliza continuará sendo só uma hipótese.


E é também certo que uma investigação conduzida como um espetáculo circense, com violação sistemática do segredo de justiça, não pode colocar ninguém na prisão.


A impugnação de inquérito franqueado à bisbilhotice pública já deveria ter sido tentada em outros casos, como o recente do Casal Nardoni.


Até quando os advogados coonestarão esses linchamentos legalizados, em vez de arguirem o ponto fundamental de que não se faz justiça passando como um rolo compressor sobre os direitos dos acusados,
POR PIORES QUE ESTES SEJAM?

Se o preço para condenarmos monstros é avalizarmos práticas monstruosas, não vale a pena.


Pois a cumplicidade de policiais e promotores obcecados por holofotes com jornalistas ambiciosos praticamente destruiu a vida dos proprietários da Escola-Base. E os mesmíssimos erros e abusos não deixaram de se repetir a cada episódio rumoroso desde então.


Continuo acreditando que evitar a condenação de inocentes tem precedência sobre evitar a impunidade de culpados.



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