PESQUISAR ESTE BLOGUE

Mostrando postagens com marcador dissidentes cubanos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dissidentes cubanos. Mostrar todas as postagens

19.7.10

MAIS UMA FALHA DA 'FOLHA': SUAS INTRIGAS DÃO NA VISTA...

Saiu na Folha de S. Paulo da última 6ª feira (16): Ex-prisioneiros cubanos criticam Lula.

Numa entrevista coletiva dos dissidentes recém libertados, a colaboradora da Folha em Madri recebeu a tarefa de indagar qual a sua opinião sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O jornal apostou em que ainda estariam indignados com a posição de Lula face à greve de fome que culminou na morte de Orlando Zapata. Não deu outra.
"Em Madri, [os dissidentes libertados] chamaram o presidente de populista e afirmaram que ele podia ter salvado a vida do preso político Orlando Zapata, que morreu por greve de fome no dia em que Lula visitava Cuba.

'Só que o Lula se aliou ao crime e não à justiça', declarou o dissidente cubano Omar Rodríguez.

"As críticas, feitas ontem em entrevista coletiva..."
A forma como a Folha apresentou o assunto me levou a comentar, num artigo que redigi de batepronto ainda na madrugada do dia 16, que os ex-presos tinham se deixado levar pela emoção, incorrendo num desabafo compreensível, mas também num exagero: não havia como, honestamente, responsabilizar Lula por uma morte ocorrida no próprio dia de sua visita.

Ele e todos os outros presidentes e premiês do mundo, além do Papa, deixaram de intervir em tempo hábil, apelando por Zapata enquanto sua salvação ainda era possível; na enésima hora não adiantaria fazer mais nada. E também não era Lula o único governante estrangeiro capaz de influenciar decisões dos irmãos Castro.

Depois, entretanto, fiquei sabendo que não era bem isso que Omar Rodrigues Saludes havia dito, mas sim:
“[Lula] aliou-se ao crime e não à Justiça. Orlando Zapata podia ter tido, mesmo que remotas [grifo meu], possibilidades de sobreviver se Lula tivesse intercedido pessoal e publicamente por ele”.
Ou seja, a Folha fez parecer que Saludes e os outros opositores de consciência haviam responsabilizado integralmente Lula pelo desfecho trágico da greve de fome de Zapata, quando, na verdade, o dissidente reconheceu sensatamente que, fosse qual fosse a atitude do nosso presidente, as chances de sobrevivência eram ínfimas -- conforme eu destaquei no meu artigo.

É de se supor que os demais tenham igualmente feito ressalvas, não incorporadas na notícia da Folha; e que não tenham sido todos que qualificaram Lula de "populista", mas apenas um deles.

COMPARAÇÃO INDEFENSÁVEL

Na verdade, a greve de fome de Zapata não chamava atenção até o desfecho fatal, mesmo porque vem sendo um recurso utilizado em demasia pelos opositores de consciência cubanos. Deveriam preservá-lo para situações extremas.

Então, o mais provável é que Lula nem sequer soubesse de sua existência.

O grande pecado do nosso presidente foi, ao ser surpreendido por um acontecimento imprevisto, deitar falação sobre o que não lhe dizia respeito:
"A greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para libertar pessoas. Imagina se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade!"
Deveria, simplesmente, alegar que se tratava de assunto interno cubano, sobre o qual não lhe cabia se manifestar.

"Pessoalmente, admiro Lula e sua trajetória. Mas foi infeliz na comparação com os detentos de São Paulo e nos deve desculpas", disse outro dissidente, Pablo Pacheco. Corretíssimo.

A Folha também foi à caça, por telefone, de um desabafo do Guilherme Fariñas, que deve ser o recordista mundial em quantidade e duração de greves de fome (nunca imaginei que cubanos se igualassem em determinação aos militantes do IRA...).

Com todo respeito que sua luta merece, ele também deu exemplo de incontinência verbal:
"O Lula é um mal-agradecido. Esqueceu-se de sua essência humana. Sorte para o povo brasileiro que já não pode mais ser eleito".
São palavras ofensivas para o "povo brasileiro", pois dão a entender que este faria a escolha errada se não tivesse a "sorte" de Lula não poder mais ser reeleito.

É outro que deitou falação sobre o que não lhe diz respeito.

O OUTRO LADO

Por último, os leitores devem ter estranhado o parágrafo final:
"Ouvido pela Folha, o Palácio do Planalto afirmou que não irá se manifestar sobre as declarações dos ex-presos".
Dá impressão de falta, ou de profissionalismo, ou de argumentos para responder às acusações. Mas, omitiu-se um detalhe importante: o Planalto foi "ouvido" quando e como?

No tempo em que eu trabalhava na Coordenadoria de Imprensa do Governo paulista, o serviço propriamente dito acabava por volta das 21h, mas sempre um de nós ficava de plantão até mais tarde, para qualquer eventualidade.

Acontecia de jornalistas ligarem no fim da noite, querendo saber a posição do governador face a qualquer notícia ou declaração adversa, para publicação na edição que estava fechando.

Era pura má fé: sabiam que não havia a menor chance de obtermos um retorno do governador em tempo hábil.

Meus colegas de trabalho respondiam que era impossível atender a essa solicitação e o repórter, satisfeito, colocava na matéria que o Palácio dos Bandeirantes não tinha se manifestado.

Eu era mais ousado: de tanto processar entrevistas do governador, estava careca de saber qual seria sua reação face ao que estava sendo perguntado.

Então, não só transmitia ao repórter a posição "do Palácio dos Bandeirantes", como o fazia, vingativamente, da forma mais vagarosa possível, saboreando a aflição do jornalista do outro lado da linha, ansioso por entregar o quanto antes sua matéria...

16.7.10

AS REINAÇÕES DO JORNALZINHO

Está na Folha de S. Paulo desta 6ª feira: Ex-prisioneiros cubanos criticam Lula.

Numa entrevista coletiva dos dissidentes recém libertados, a colaboradora da Folha em Madri recebeu a tarefa de indagar qual a sua opinião sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O jornal apostou em que ainda estariam indignados com a posição de Lula face à greve de fome que culminou na morte de Orlando Zapata. Não deu outra.

"O Lula se aliou ao crime e não à justiça", declarou Omar Rodríguez.

Outros o secundaram, afirmando que Lula poderia ter salvado a vida de Zapata.

Exageraram: não há como, honestamente, responsabilizá-lo por uma morte ocorrida no próprio dia de sua visita.

Ele e todos os outros presidentes e premiês do mundo, além do Papa, deixaram de intervir em tempo hábil, apelando por Zapata enquanto sua salvação ainda era possível; na enésima hora não adiantaria fazer mais nada.

Também não é Lula o único governante estrangeiro capaz de influenciar decisões dos irmãos Castro.

Na verdade, a greve de fome de Zapata não chamava atenção até o desfecho fatal, mesmo porque vem sendo um recurso utilizado em demasia pelos opositores de consciência cubanos. Deveriam preservá-lo para situações extremas.

Então, o mais provável é que Lula nem sequer soubesse de sua existência.

O grande pecado do nosso presidente foi, ao ser surpreendido por um acontecimento imprevisto, deitar falação sobre o que não lhe dizia respeito:
"A greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para libertar pessoas. Imagina se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade!"
Deveria, simplesmente, alegar que se tratava de assunto interno cubano, sobre o qual não lhe cabia se manifestar.


"Pessoalmente, admiro Lula e sua trajetória. Mas foi infeliz na comparação com os detentos de São Paulo e nos deve desculpas", disse outro dissidente, Pablo Pacheco. Corretíssimo.

A Folha também foi à caça, por telefone, de um desabafo do Guilherme Fariñas, que deve ser o recordista mundial em quantidade e duração de greves de fome (nunca imaginei que cubanos se igualassem em determinação aos militantes do IRA...).

Com todo respeito que sua luta merece, ele também deu exemplo de incontinência verbal:
"O Lula é um mal-agradecido. Esqueceu-se de sua essência humana. Sorte para o povo brasileiro que já não pode mais ser eleito".
São palavras ofensivas para o "povo brasileiro", pois dão a entender que este faria a escolha errada se não tivesse a "sorte" de Lula não poder mais ser reeleito.

É outro que deitou falação sobre o que não lhe diz respeito.

O OUTRO LADO

Por último, os leitores certamente estranharão o parágrafo final:
"Ouvido pela Folha, o Palácio do Planalto afirmou que não irá se manifestar sobre as declarações dos ex-presos".
Dá impressão de falta, ou de profissionalismo, ou de argumentos para responder às acusações. Mas, omitiu-se um detalhe importante: o Planalto foi "ouvido" quando e como?

No tempo em que eu trabalhava na Coordenadoria de Imprensa do Governo paulista, o serviço propriamente dito acabava por volta das 21h, mas sempre um de nós ficava de plantão até mais tarde, para qualquer eventualidade.

Acontecia de jornalistas ligarem no fim da noite, querendo saber a posição do governador face a qualquer notícia ou declaração adversa, para publicação na edição que estava fechando.

Era pura má fé: sabiam que não havia a menor chance de obtermos um retorno do governador em tempo hábil.

Meus colegas de trabalho respondiam que era impossível atender a essa solicitação e o repórter, satisfeito, colocava na matéria que o Palácio dos Bandeirantes não tinha se manifestado.

Eu era mais ousado: de tanto processar entrevistas do governador, estava careca de saber qual seria sua reação face ao que estava sendo perguntado.

Então, não só transmitia ao repórter a posição "do Palácio dos Bandeirantes", como o fazia, vingativamente, da forma mais vagarosa possível, saboreando a aflição do jornalista do outro lado da linha, ansioso por entregar o quanto antes sua matéria...

15.3.10

SOLIDARIEDADE PARA COM UM CUBANO E SEIS IRANIANOS

Quando comecei a espalhar meus textos na internet, percebi que nela o recurso à falsidade, à demagogia, à calúnia, à injúria, à difamação e à manipulação partiam de todas as coordenadas do espectro político.

Não havia mais escrúpulos, nem equilíbrio, nem mesmo respeito pela verossimilhança. Valia tudo para satanizar os inimigos e endeusar os amigos.

Então, tomei a decisão de preservar sempre meu compromisso com a verdade, minha independência de análise e meus princípios, até porque nunca me vi como integrante de hordas e rolos compressores. Sou psicologicamente incapaz de cometer injustiças e/ou avalizar mentiras convenientes, seja lá contra quem for e em nome de que causa for.

Ademais, percebi claramente que a falácia de um dia é jogada no dia seguinte na cara de quem com ela compactuou, pois as situações são dinâmicas; daí eu repetir sempre que a rua é de duas mãos.

[Em seu "Samba Chorado", Billy Blanco disse tudo: "O que dá pra rir dá pra chorar/ Questão só de peso e medida/ Problema de hora e lugar/ Mas tudo são coisas da vida"...]

Essa postura muito me valeu nos debates públicos sobre o Caso Battisti. O primeiro ataque dos linchadores era sempre alegando minha suposta incoerência, por estar defendendo o Cesare e não haver feito o mesmo pelos pugilistas cubanos, despachados a toque de caixa para a ilha. Davam como favas contadas que eu teria me omitido ou aprovado os trâmites açodados que o governo adotou.

Eu quebrava as pernas dos reacionários ao informar que, antes mesmo do senador Eduardo Suplicy, havia me posicionado publicamente contra o descumprimento do ritual a ser seguido nesses casos, para proteção dos direitos humanos dos envolvidos, pouco importando sua grandeza ou pequenez (aqueles boxeadores estavam muito longe de merecer admiração como seres humanos!).

Aí entrava, também, minha convicção de que certos princípios, institutos e entidades devem ser defendidos em toda e qualquer circunstância pelos revolucionários, pois podem significar a diferença entre a vida e a morte para os militantes das causas justas:
  • asilo político;
  • habeas corpus (mesmo que quem o conceda seja um vil serviçal dos poderosos e que quem o tente contornar com novo mandado de prisão esteja moralmente certo, pois o precedente da avacalhação do HC poderá ser aproveitado pelos gorilas e vitimar nossos companheiros adiante);
  • greves de fome como a do bispo do São Francisco e a de Orlando Zapata, pois não podemos jamais desacreditar uma forma de luta que, na grande maioria dos casos, é adotada por idealistas (trata-se de uma opção de homens, não de garotinhos);
  • organismos e ONGs que defendem os direitos humanos.
Quanto ao último item, no fundo, o que importa mesmo é se a denúncia em questão procede, não o encaminhamento dado a qualquer outro episódio.

A esquerda autoritária, ao defender governos transgressores dos direitos humanos, frequentemente tenta desqualificar os acusadores, alegando que não mostram o mesmo empenho quando as violações provêm do outro lado.

Isto, no fundo, equivale a uma admissão de culpa. E, sendo revolucionários, não podemos usar os pecados alheios como atenuante para nossos atos. O que Hitler fez, p. ex., nós não podemos fazer. Estamos aqui para libertar a humanidade, não para agrilhoá-la de outra maneira.

* * *

Por último: independentemente de quaisquer outras considerações, temos o compromisso moral de nos alinharmos com o cubano Guillermo Fariñas em sua HERÓICA luta pela liberdade de outros dissidentes.

Quem passa o que ele está passando, não o faz por dinheiro ou motivos indignos. Mercenários não são solidários. Só não vê quem não quer.

E temos também a obrigação de tudo fazermos para que não sejam ASSASSINADOS os seis manifestantes que acabam de ser condenados à morte no Irã como "inimigos de Deus".

Fanáticos religiosos, obscurantistas e ultraconservadores, os mandatários iranianos consideram que o protesto pacífico desses pobres coitados merece pena capital por haver ocorrido no dia em que os muçulmanos relembram o martírio do neto de Maomé.

Pelo mesmíssimo critério, os futuros Pinochets poderão condenar à morte quem fizer passeata na 6ª Feira Santa ou no Natal.

13.3.10

FIM DA POLÊMICA: BRASIL SE DECLARA DEFENSOR INTRANSIGENTE DOS DH

O caso mais célebre de dissidente político que morreu em greve de fome: o irlandês Bob Sands, em 1981. Aguentou 66 dias.


Esqueçam o exemplo desastrado que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu para ilustrar sua posição de que não se pode libertar todo e qualquer detento que faça greve de fome.

Se ele acrescentasse que cada caso é um caso, a ser abordado de acordo com suas especificidades, ninguém estaria reclamando.
Os bandidos paulistas é que não tinham nada a ver com este assunto. Errou Lula ao misturar alhos com bugalhos.

A posição oficial do Governo Lula foi dada nesta 6ª feira (12) pelo assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, em coletiva à imprensa. Ele esclareceu que:
  • as polêmicas declarações foram "laterais" (ou seja, referem-se a aspectos secundários e não ao âmago da questão) e "não refletem a posição do Brasil e nem do Lula sobre os direitos humanos";
  • "o regime de Cuba não é paradigma para o nosso", em matéria de DH;
  • o Brasil faz defesa "intransigente" dos DH, mas só debate "nos fóruns multilaterais";
  • como os cubanos não dialogam "na base da exigência", criticá-los seria "contraproducente", daí Lula preferir tratar do assunto com "discrição".
Assim, segundo Garcia, o Brasil se dissocia do enfoque cubano dos direitos humanos, pois os DH são defendidos de forma intransigente por nosso país (e, depreende-se, não o são pelo regime dos irmãos Castro).

Mais: Cuba infringe mesmo os DH dos opositores de consciência, mas se manterá intransigente diante de pressões externas para rever suas práticas. Então, Lula acredita que uma atuação discreta seja mais adequada para atingir-se tal objetivo.

Colocada nestes termos, é uma posição defensável e equilibrada, após os excessos cometidos de parte a parte nesta polêmica desfocada: de um lado a grande imprensa, tendenciosamente, conferiu importância demasiada a uma fala distraída de Lula; do outro, os defensores de Cuba satanizaram uma vítima, negando-lhe até a condição de perseguido político, embora ele fosse reconhecido como tal pela Anistia Internacional desde janeiro de 2004 (vide aqui).

Quanto à decisão de ignorar os apelos dos dissidentes cubanos, porque "o governo brasileiro não é uma ONG" e só se relaciona com outros governos, formalmente é inatacável, mas isto não a impede de ser chocante ao extremo para quem tem nossas tradições humanitárias e compassivas.

Caberia melhor, p. ex., para anglo-saxões, que colocam a lei acima de tudo (às vezes, até do espírito de justiça).

Gente como a dama de ferro Margareth Thatcher.

12.3.10

A NAU DOS INSENSATOS


Num extremo a imprensa burguesa, manipulando grotescamente o seu público ao derivar as mais sinistras implicações da frase infeliz do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre os dissidentes cubanos, como se ele fosse um circunspecto pensador acadêmico e não um intuitivo que improvisa suas falas, empolga-se com os aplausos e frequentemente cai em ridículo por dizer a primeira coisa que lhe vem à cabeça.

Noutro, uma esquerda obtusa (vide alguns comentários neste site, p. ex.) que pensa servir à causa revolucionária negando aquilo que todos sabem ser verdade -- postura cujo único resultado concreto é fazer-nos perder credibilidade junto a quem ainda consegue separar fatos de propaganda política.

No meio, eu e o Carlos Lungarzo, mantendo a fidelidade à proposta original do marxismo e anarquismo, que nasceram ambos libertários.

É claro que os dois rolos compressores prevalecem sobre nós, em termos de volume de textos espalhados e de pessoas atingidas.

Mas, o importante é oferecermos, aos poucos que chegam a ler nossos artigos, uma alternativa a esses enfoques de tempo de guerra, em que grassa a mentira como terra.

"Cada verso é uma semente/ no deserto do meu tempo", disse o grande Sérgio Ricardo.

Incrivelmente, o deserto ficou mais árido depois de escorraçada a ditadura militar e do próprio fim da guerra fria. Esta última parece ter se transferido para a internet, que virou terreno minado onde só conseguem sobreviver exércitos.

Isenção, equilíbrio e espírito de justiça viraram palavrões e os que ainda os preservam são taxados de agentes inimigos. [Vide meu caso: os direitistas me apontam como lulista atrás de uma boquinha, enquanto os stalinistas garantem estar a serviço da CIA qualquer um que dê ouvidos às entidades defensoras dos direitos humanos, inclusive eu.]

É estressante ir contra a corrente, sendo vítima da incompreensão e, frequentemente, das mais vis calúnias? É.

Mas, ao contrário da música célebre do Chico Buarque, não vejo roda-viva a que não poderei resistir. Já passei pelas piores imagináveis e conservei meus ideais. Enquanto estiver vivo, continuarei denunciando o primarismo político da direita putrefata e da esquerda troglodita.

Um precedente histórico que sempre me vem à lembrança é o da República de Weimar. Os nazistas a atacavam pela direita e os comunistas, temerariamente, o faziam pela esquerda. Alcunhavam os sociais-democratas, seus aliados naturais, de "sociais-fascistas".

Apostaram todas as suas fichas em que, contribuindo para a derrubada do governo democrático, seriam eles a conquistar o poder, vencendo a batalha subsequente contra os nazistas.

Mas perderam, condenando a Alemanha à barbárie hitlerista e os outros povos aos horrores da II Guerra Mundial.

Quem não aprende com as lições da História, tende a cometer novamente os mesmos erros. Quase sempre trágicos.

11.3.10

A ESCORREGADELA DE LULA

Nem sempre eu encontro o enfoque certo para abordar um assunto que está no noticiário.

Na 4ª feira (10/03), lendo a declaração em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva parecia comparar dissidentes cubanos com bandidos de São Paulo, percebi que não era bem isso o que ele tinha em mente.

O fato é que Lula, em função da simpatia que nutre pelo regime dos irmãos Castro, assumiu a difícil tarefa de defender uma posição indefensável. E, claro, raciocínios tortuosos acabam levando a escorregadelas ideológicas.

A mim me pareceu que ele quis, simplesmente, dizer que não se podem abrir as portas das prisões para todo e qualquer detento que fizer greve de fome. E não soube expressar esta idéia, recorrendo ao exemplo errado para ilustrar seu pensamento.

Vai daí que, para não somar minha voz à grita ensurdecedora dos reacionários da grande imprensa, mas também para não deixar de manifestar meu inconformismo com a estranha prática de se defender algozes em lugar das vítimas, reproduzi e endossei o artigo com o qual Carlos Lungarzo dignamente rebateu a descaracterização do personagem Orlando Zapata.

Um dia se passou e as lágrimas de crocodilo dos jornalões só fizeram aumentar: editoriais, colunas, artigos, notícias e charges martelam a idéia de que Lula não só é cúmplice das ditaduras de esquerda, como gostaria de implantar uma dessas no Brasil.

O exagero salta aos olhos, assim como é evidente que alguém na posição de Lula não deve conceder, de mão beijada, tais trunfos aos inimigos. Cala-te, boca!

E eu acabei encontrando o enfoque certo para a questão: aquele a que o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony chegou em sua coluna, avaliando a declaração infeliz de Lula como uma pisada de bola.

O Cony tem minha irrestrita admiração até a década de 1960. Mas, quando as perseguições da ditadura militar o conduziram à rua da amargura, não se conformou com a omissão dos amigos e companheiros de ideais, que realmente deixaram de estender-lhe a mão no momento em que mais necessitava.

Tornou-se um homem amargo e até egoísta, como se viu em 2004, quando não só furou a fila da sopa dos pobres (a anistia federal), como usou sua influência para receber um prato bem melhor do que os pobres recebiam.

Lá com seus botões, talvez considere dispensável ser solidário com aqueles que não se solidarizaram às suas agruras. Mas, grandes homens são os que conseguem superar tais mágoas.

A escorregadela -- no caso de Cony, moral -- incide sobre sua biografia, mas não sobre sua capacidade intelectual. Continua sendo um de nossos mais brilhantes homens de texto, como se pode constatar na coluna desta 5ª feira, na qual nem compactua com o deslize de Lula, nem o superdimensiona:
"Que Lula pisou na bola, pisou. Sua declaração a propósito da greve de fome de um dissidente cubano foi infeliz - e, além de infeliz, oportunista e contrária à sua própria biografia.

"Infeliz porque se espera de Lula uma coerência mínima com o seu passado, passado de luta na oposição. Ele próprio chegou a ser um preso político e sabe melhor do que ninguém a diferença entre um deles e o preso comum.

"A greve de fome é antes de mais nada um recurso à propaganda contra um regime ou contra as condições subumanas das prisões. É um recurso válido até mesmo para os presos comuns, e muito mais para os presos políticos.

"O oportunismo de Lula está claro: as suas relações com o regime cubano são estridentes e até louváveis, pois, de certa forma, sem o apelo à violência, a cartilha do petismo não é tão diferente da cartilha castrista, seja ela administrada por Fidel ou por Raul.

"Ele sabe compensar essa predileção pelos governos de esquerda indo visitar amistosamente velhos ditadores de direita, o que lhe dá uma aura de equidistante, de cidadão do mundo.

"Mas condenar a greve de fome de um dissidente de um regime antidemocrático, como o de Cuba, é ir além da imagem que ele procura firmar, de político mais importante do mundo.

"A comparação que ele fez também foi infeliz. Se os presos comuns de São Paulo fizessem greve de fome, não deveriam ser soltos, mas atendidos em suas exigências de tratamento carcerário, que, como sabemos, não é lá essas coisas.

"Em resumo: a declaração de Lula sobre o dissidente cubano mostra que cada vez mais ele se afasta de suas origens pessoais e políticas, tornando-se não um preso comum, mas um político comum".

10.3.10

A SATANIZAÇÃO DOS DISSIDENTES CUBANOS

"A liberdade é, sempre e fundamentalmente, a liberdade de quem discorda de nós." (Rosa Luxemburgo)

Cuba tem carradas de razão ao protestar contra o embargo comercial estadunidense, que asfixia sua economia há décadas.

Mas, com sua insistência em manter um estado policial tipicamente stalinista, praticando violações grosseiras dos direitos humanos de dissidentes e insatisfeitos de todos tipos, afugenta os homens justos que tenderiam a simpatizar com sua causa, dando um ruinoso tiro no pé.

As perdas irreparáveis que sofre na batalha pela conquista dos corações e mentes, ao fornecer de mão beijada trunfos valiosíssimos à propaganda inimiga, nem de longe são justificadas por um perigo real que as vítimas dessas perseguições e arbitrariedades estivessem causando.

Então, não vejo proveito nenhum em ajudar a vender gato por lebre, satanizando um Orlando Zapata para livrar a cara dos desatinados que causaram sua morte e dão má fama à revolução em escala mundial, fazendo-a passar por liberticida.

Lamentavelmente, vilificar a vítima para inocentar o algoz é o que boa parte dos esquerdistas virtuais está fazendo.

Eu me coloco inteiramente ao lado do bravo companheiro Carlos Lungarzo e das entidades que, no cumprimento de sua missão de defender os direitos humanos em todo mundo, posicionam-se consistentemente contra os excessos repressivos de Cuba.

Daí fazer minha a argumentação de Lungarzo no seu digno artigo Os Argumentos Oficiais Contra Zapata, cujos principais trechos reproduzo em seguida:
"...a simples falsidade dos pró-americanos garante a sinceridade dos antiamericanos?

"Esta pergunta veio à tona quando assisti a um vídeo que exibe uma matéria de
Cuba InformaçãoTV, na qual se refuta que a morte de Orlando Zapata Tamayo fosse uma violação dos DH...

"Entre os primeiros 47 segundos e o 1:03 minuto, o locutor adverte sobre as exigências de Zapata, que pretendia ter 'fogão, televisor e telefone em sua cela', que ele qualifica como impensáveis em qualquer prisão do mundo. Curiosamente, o governo cubano nunca tinha denunciado que estas eram as reivindicações de Zapata e só as fez públicas agora. Entretanto, mesmo em países como Brasil, onde o sistema carcerário é truculento, alguns presos (e nem sempre os abastados) possuem algumas facilidades que lhes permitem telefonar e assistir TV, mesmo que não seja através de um aparelho exclusivo em sua cela.

"O segundo argumento contra Zapata é mais grave. Ele seria pintado pela imprensa capitalista como um bom proletário, mas na realidade, seria um 'violento delinqüente comum' processado a partir de 1993 por violação de domicílio, estelionato, e lesões (1:04-1:30). Não se indica a exata índole das lesões, mas apenas que eram graves, pelas quais foi condenado a 3 anos. Essa pena foi estendida para 24 anos por agressão violenta aos guardas prisionais (1:30-1:35). Não falemos de provas, mas o apresentador nem mesmo dá detalhes de como foram estas agressões nem os nomes das vítimas.

"Informa-se depois (1:35-1:50) que Zapata não aparece entre os 75 detidos em março de 2003 por alegados contatos com os Estados Unidos, nem foi apresentado como prisioneiro político no relatório do Departamento de Estado americano desse ano, onde se faz um balanço da situação dos DH em Cuba. Este argumento é usado pela fonte cubana para afirmar que os Estados Unidos não o consideravam um preso político, mas apenas um criminoso comum, que depois teria sido utilizado pelos dissidentes.

"Vale a pena observar que, no relatório sobre DH em Cuba em 2003 (sem julgar sobre a qualidade da informação) o Departamento de Estado apresenta um panorama geral dividido por itens, mas NÃO FAZ UMA LISTA dos 75 presos. É claro que Zapata não está na lista de presos, porque, simplesmente, NÃO HÁ LISTA DE PRESOS. O relatório apenas menciona aqueles mais conhecidos, como Lorenzo Copello Castillo, Barbaro Sevilla Garcia e Jorge Martinez Isaac, os três que foram executados pela tentativa de assaltar uma barca.

"Também é mencionado Manuel Vazquez Portal por ter apresentado uma queixa sobre sua situação prisional. Outros mencionados são: Luis Enrique Ferrer Garcia; Martha Beatriz Roque Cabello; Oscar Elias Biscet; Pedro Pablo Alvarez Ramos; Antonio Diaz; Regis Iglesias Ramirez; Raul Rivero; Marcelo Manuel Lopez Banobre; Manuel Vazquez Portal; Oscar Mario Gonzalez. Destes, alguns eram jornalistas, outros líderes de oposição e alguns outros militantes destacados de oposição.

"Observe que só são mencionados 14 detentos, sobre um total de 75. Pessoas que eram simples aderentes ou simpatizantes provavelmente não foram tidas em conta pelo Departamento de Estado. Estados Unidos nunca se preocupou por vítimas de qualquer natureza, salvo que tivessem relevância para seus projetos. Então, Zapata não foi citado porque era pouco interessante para os Estados Unidos.

"É CURIOSO QUE O GOVERNO CUBANO CONSIDERE UM ELEMENTO CONTRA ZAPATA O FATO DE QUE SEU MAIOR INIMIGO, OS ESTADOS UNIDOS, NÃO O MENCIONE...

"Entretanto, Anistia Internacional, que acredita que os DH são iguais para todos, menciona claramente Zapata ao conceder-lhe o status de prisioneiro de consciência. No seguinte site, você pode conferir a ficha redigida por AI em relação com Orlando Zapata:
Orlando Zapata Tamayo
Data de prisão: 20 de Março 2003
Sentença: Sem julgamento ainda, indiciado por “desacato”, “desordem pública” e “desobediência”.

Orlando Zapata Tamayo é membro do Movimento Alternativa Republicana e membro do Conselho Nacional de Resistência Cívica.


Foi preso várias vezes no passado. Por exemplo, foi temporariamente detido em 03/07/2002 e em 28/10/2002. Em novembro de 2002, depois de fazer parte numa oficina sobre DH no Parque Central de Havana, José Marti, ele e outros 8 opositores foram arrestados e depois libertados. Ele foi também preso em 06/12/2002, junto como Oscar Biscet, mas foi libertado no dia 08/03/2003.
"Segundo o relato da TV cubana, sendo Zapata um criminoso vulgar e um sujeito sem ideologia nenhuma, teria sido facilmente cooptado por Oswaldo Payá Sardinhas e Marta Roque, dois dirigentes de movimentos opositores, que o teriam convencido da importância de sua causa e lhe teriam conseguido uma boa pensão para sua família, paga pela máfia que apóia os cubanos de Miami. (1:56-2:26).

"Antes que Zapata se tornasse conhecido, as informações sobre ele o indicavam como um militante de base da oposição. Assim sendo, o que Roque e Payá poderiam ter feito era apenas estabelecer uma aliança, no sentido de que Zapata trabalhasse para seu movimento. Até aí, tudo pode ser verdadeiro. Também pode ser verdade que sua família recebesse uma pensão da máfia. Como todos sabem, é difícil saber nos Estados Unidos qual é a origem do dinheiro. Por outro lado, é ridículo pensar que uma família miserável que tem um parente preso rejeitaria uma pensão, percebendo que a prisão de Orlando era uma aberração e não um ato de justiça.

"A afirmação mais curiosa aparece entre os instantes 2:27 e 2:58. Aí, o locutor disse que os verdadeiros opositores convenceram a este homem (que, segundo se pode inferir das insinuações do relato, estaria grato pela ajuda dada a sua família) para fazer greve de fome.

"Em seguida, se menciona que REJEITOU TODA ASSISTÊNCIA MÉDICA, e se destaca a solidariedade dos médicos do governo que em nenhum momento o abandonaram.

"A atenção médica recebida deve ter sido real. Entretanto, chama a atenção que um criminoso sem ideais políticos fizesse GREVE DE FOME POR UM DEVER DE CONSCIÊNCIA PARA COM SEUS PROTETORES. Aliás, no site de Payá na Internet, o blogueiro estimula a todos os opositores cubanos a preservar suas vidas, e não fazer greve de fome.

"Então, será que ZAPATA ERA TÃO SIMPLES QUE NÃO SABIA QUE UMA PESSOA PRECISA COMER PARA VIVER???

"Até pode ser verdade que ele tenha resistido a receber assistência médica no começo, mas, quando percebeu que estava morrendo, SERÁ QUE ALGUM IDEAL OU PRINCÍPIO ÉTICO O ANIMOU A CONTINUAR???

"...Segundo a descrição feita pela TV cubana, Zapata seria um lumpen sem valor que se venderia a qualquer um. Então, como uma pessoa assim pode ser convencida a morrer por uma causa? Até onde se conhecem as greves de fome, não há nenhum caso de alguém que não tivesse uma motivação, social, ética ou religiosa muito clara; correta ou errada, mas clara.

"A idéia de ser subornado pelos agentes americanos coloca esta pergunta: subornado a troco de que? O que faria ele com algum dinheiro depois de morto?

"A única hipótese possível, mesmo aceitando a explicação da TV Cubana é que Zapata se deixou morrer por desespero. Fosse apenas um lumpen (existem lumpen em Cuba depois de 50 anos de Revolução???), ou um agente da CIA, ou qualquer outra coisa, é natural que um homem condenado a penas crescentes de prisão (no último momento atingiam os 36 anos), sem a menor possibilidade de defesa nem de julgamento limpo, só pense em morrer.

"Acima de qualquer outra idéia (cuja existência não negamos) em valores éticos ou sociais, seu desespero face uma morte lenta conduz naturalmente ao desejo de uma morte mais rápida. Como disse o senador Cristóvão Buarque, a morte por greve de fome é muito mais cruel que a morte por fuzilamento. Acrescentemos, porém, que é bem mais macia que uma agonia de décadas."
Related Posts with Thumbnails

Arquivo do blog