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10.1.10

GUERRA DA SUCESSÃO FAZ DO PROGRAMA DE DIREITOS HUMANOS UM ALVO

Dica de filme para o presidente Lula...

Mal entrou 2010, a campanha presidencial foi deflagrada para valer.

Não se iludam: é isto que está por trás do bombardeio contra a 3ª versão do Programa Nacional dos Direitos Humanos.

E os litigantes também acabam de ficar totalmente definidos. A verdadeira disputa não se vai travar entre Dilma Rousseff, José Serra, Marina Silva ou quem quer que seja.

Será entre o campo da direita, que detém o poder real -- o econômico --, traduzido na absoluta tendenciosidade com que a indústria cultural hoje aborda os tatos políticos, expressando sempre os interesses dominantes e invariavelmente mandando às favas a apuração e a disponibilização da verdade; e o campo da esquerda, que tenta contrabalançar a inferioridade de forças magnificando seus trunfos, quais sejam o fato de geralmente estar defendendo o bem comum contra a ganância predatória e a desumanidade capitalistas, a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as ações do Governo Federal e a capacidade de mobilização dos movimentos sociais.

As escaramuças dos dois últimos anos já prenunciavam uma guerra cruenta. Duas delas, principalmente: o Caso Cesare Battisti e a polêmica sobre a punição dos torturadores do regime militar.

Em ambas, o fato gerador foi deturpado e superdimensionado ao extremo, em função do propósito obsessivo da direita de impor derrota contundente ao que há de mais representativo da esquerda no Governo Lula.

Daí o tratamento editorial de parcialidade absoluta, grita histérica e rolo compressor goebbeliano que a grande imprensa adotou, revelando, ademais, indisfarçado empenho em direcionar os acontecimentos, tangendo-os na direção contrária dos direitos humanos e das práticas civilizadas.

Agora, é para valer: a preliminar acabou e já estamos na partida principal.

Os primeiros a contestar o PNDH-3 foram os que estão na linha de frente do esquema direitista: comandantes militares que até hoje defendem a barbárie protagonizada por seus colegas de farda durante a ditadura de 1964/85.

UMA VELA PARA DEUS, OUTRA PARA O DIABO

Como no passado, os representantes dos interesses mais espúrios e retrógrados continuam acendendo uma vela para Deus e outra para o diabo: sonham com o êxito eleitoral, mas não descartam uma virada de mesa se vierem a sofrer a terceira derrota consecutiva.

Daí a insistência com que tentam atrelar a caserna aos seus propósitos de conquista do poder, exatamente como faziam durante os governos de Getúlio Vargas, Jânio Quadros e João Goulart.

As forças democráticas, entretanto, rechaçaram firmemente a pressão descabida que eles tentaram exercer sobre o comandante supremo das Forças Armadas -- o que, aliás, deveria ter-lhes valido (e também ao seu ancião de recados) a imediata destituição, como insubmissos que atropelaram a hierarquia e se manifestaram sobre o que está fora de sua alçada nas democracias.

Lula perdeu uma boa oportunidade para esmagar o ovo da serpente, mas não deu mostras de que se vergaria ao blefe militar: simplesmente postergou qualquer decisão por prazo indefinido (alguns disseram que se posicionaria quando voltasse de suas férias, outros em abril, mas poderia também ser nunca...).

Quando sua blitzkrieg atolou na indiferença presidencial, o Estado-Maior direitista lançou uma segunda ofensiva, no último dia 7, mobilizando uma constelação de efetivos secundários, mas fortes ao serem utilizados em conjunto.

O toque de clarim para o ataque, como sempre, foi dado pelo Jornal Nacional; as evidências de ação orquestrada saltaram aos olhos.

Enquanto os eternos golpistas nem sequer enrubeceram ao tentarem vender como uma tentativa de golpe o que não passou de ingenuidade canhestra do secretário especial de Direitos Humanos Paulo Vannuchi, coube ao comentarista político Fernando de Barros e Silva dissipar a cortina de fumaça:
"...o documento (...) prevê iniciativas em praticamente todas as esferas de governo.

"Da taxação de grandes fortunas à descriminalização do aborto, do enquadramento dos planos de saúde ao financiamento público de campanha (...) tem-se a impressão de que nesse programa tudo pode porque, no fundo, nada é para valer...

"Abrindo tantas frentes sem que de fato se comprometa com nenhuma, o ministro Paulo Vannuchi passa por promotor de eventos. O decreto que Lula assinou é um documento oficial, mas, sem efeito prático, confunde-se com uma carta de intenções."
Ao incluir nessa colcha de retalhos problemas que não são cacterísticos ou exclusivos da área de direitos humanos, Vannuchi parece não ter levado em conta o magnífico trunfo que concedia, de mão beijada, ao inimigo, na batalha para formar opinião.

Multiplicou e imantou os adversários, colocando a todos sob o comando dos inimigos ideológicos.

Ou seja, propiciou a formação de uma coalisão contrária praticamente invencível.

LUTA EM VÁRIAS FRENTES: PÉSSIMA ESTRATÉGIA

O quadro se delineava tão desastroso que nem me animei a fazer comentário para público mais amplo. Restringi a avaliação ao meu blogue:
"Lutarmos em todas essas frentes ao mesmo tempo é péssima estratégia. Não sabemos nem por onde começar.

"O que essa gente quer é o aval do Lula para retalhar e desfigurar todo o PNDH, inclusive a importantíssima instituição da Comissão Nacional da Verdade.

"Se eu estivesse no lugar do Paulo Vanucchi, nem tentaria resistir a esse rolo compressor. Abriria mão de algumas medidas, para retirar do campo de batalha parte dessas forças (algumas não passam de adversárias circunstanciais, as outras são inimigas figadais).

E fincaria pé na manutenção das que realmente importam..."
Talvez seja presunção acreditar que Vannuchi esteja seguindo o meu conselho, mas foi exatamente a linha de defesa que ele escolheu, ao condicionar sua permanência no governo ao não desvirtuamento da proposta realmente importante do PNDH-3, a instituição da Comissão Nacional da Verdade.

Sua tomada de posição é manchete (principal chamada de capa) da Folha de S. Paulo deste domingo (10): Vannuchi ameaça demissão se plano punir torturados. Eis os principais trechos:
"...Paulo Vannuchi, disse ontem à Folha que (...) pedirá demissão caso o terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos seja alterado para permitir a investigação de militantes da esquerda armada durante a ditadura militar (1964-1985), como exigem o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e as Forças Armadas.

"...'o que não posso admitir é transformarem o plano num monstrengo político único no planeta, sem respaldo da ONU nem da OEA', disse.

"Ele condena a tentativa de colocarem no mesmo nível torturadores e torturados. Uns agiram ilegalmente, com respaldo do Estado, os outros já foram julgados, presos, desaparecidos e mortos, comparou o secretário, citando o próprio presidente Lula, que foi julgado e condenado a três anos (pena depois revista) por liderar greves no ABC."
CAPITULAÇÃO ENSEJARIA DERROTAS AINDA PIORES

Foi o que eu afirmei no meu artigo de domingo passado:
"...o imperativo é que não se desvirtue a nova versão do PNDH.

"Que haja mesmo uma Comissão da Verdade, incumbida de levantar o véu que ainda encobre muitas práticas hediondas da ditadura.

"E que nem sequer se cogite a concessão da contrapartida que os militares estariam exigindo: a apuração simultânea dos excessos eventualmente cometidos pelos resistentes.

"Pois há uma diferença fundamental entre o que fizeram agentes do Estado por determinação de um governo golpista e o que fizeram cidadãos no curso de uma luta de resistência à tirania, travada em condições dramáticas e de extrema desigualdade de forças.

"O certo é que essa pretensa isonomia vem sendo há muito reivindicada nos sites de extrema-direita como o Ternuma, A Verdade Sufocada e Mídia Sem Máscara; nas tribunas virtuais dos militares, tipo Coturno Noturno; pelos eternos conspiradores do Grupo Guararapes; pelos remanescentes da ditadura (Jarbas Passarinho), da repressão (Brilhante Ustra), etc.

"No fundo, o que os comandantes militares estão querendo é munição propagandística para, contando com a conivência de setores da imprensa, tentarem diminuir o impacto das atrocidades da ditadura que deverão vir à tona.

"Daí ser fundamental que o Governo rejeite cabalmente tal pretensão."
Colocada a questão como Vannuchi acaba de colocar, temos de lhe dar total apoio e respaldo. O PNDH pode ser alterado em outros pontos, há penduricalhos passíveis de serem removidos, mas do que ele tem de essencial não devemos abrir mão, em nenhuma hipótese!

Mais: mesmo Vannuchi sendo, como admitiu, "um fusível removível", jamais deverá deixar o Ministério antes daqueles que estão no governo para melhor fazerem oposição ao governo, como os ministros da Defesa e da Agricultura.

Capitular ante um desafio tão frontal como o que a direita lhe lançou é pavimentar o terreno para muitas outras derrotas, até a derrocada final -- que o presidente Lula tenha isto bem claro na sua mente.

27.10.08

ELEIÇÕES SEM NADA

Cantei a bola nos dois artigos que escrevi antes do 1º turno: foram eleições sem opções e sem esperanças.

Só havia candidatos do sistema. Fernando Gabeira acabou sendo o único que pareceu remotamente vir na contramão, devido à desigualdade de recursos que fez lembrar as antigas campanhas de "o tostão contra o milhão".

Mas, com seus elogios ao capitalismo, seus recuos das antigas posições "radicais" e as médias que andou fazendo junto aos mercadores da fé e aos senhores da guerra, logo dissipou as tênues esperanças que restavam.

Não era mais Gabeira, embora continuasse usando o rótulo. Virou Qualquer-Coisa. E, como Fernando Qualquer-Coisa, perdeu.

Assim como Marta deixou de ser Suplicy há muito tempo, mas continua usando o sobrenome que hoje não passa de rótulo.

Foi como Suplicy que ela venceu uma vez -- e tão-somente porque escondeu do eleitorado que já deixara de sê-lo, na verdade.

Sem o digno sobrenome, o que sobra? Uma sexóloga de TV com todo jeitão de dondoca daslu. Que nunca seria candidata petista no tempo em que o partido era ideológico. E, agora, mostrou ser uma mala sem alça até mesmo para o PT fisiológico...

Os analistas da imprensa destacam a cristalização de uma nova direita em São Paulo, abarcando o que restou do velho udenismo, do adhemarismo, do janismo, do quercismo e do malufismo, em amálgama nauseabundo com forças de esquerda que guinaram à direita (o velho PCB, o tucanato...).

O certo é que a costura desses restos mortais numa nova criatura política, com Serra no papel de Dr. Frankenstein, foi muito facilitada pela extremada rejeição da classe média paulistana a Marta Qualquer-Coisa e ao próprio petismo.

Pesam contra Marta os estigmas de introdutora de taxas extremamente antipáticas, como a do lixo; de construtora de dois túneis unanimemente tidos como superfaturados, mal concebidos e mal executados; e de arrogante quando criticada, como da vez em que destratou uma dentista cujo consultório fora inundado pelas enchentes e da outra vez em que mandou os torturados pela espera infinita nos aeroportos relaxarem e gozarem.

O PT, por sua vez, carrega o desgaste do mensalão e da traição a suas bandeiras históricas, como a de repúdio aos bancos e ao grande capital. Em vez de governar para os pobres e para a classe média, como prometera, está governando para os muito pobres (que lhe dão votos) e os muito ricos (que lhe garantem poder).

Nada a estranhar, portanto, em que tenha transformado em inimiga a classe média mais encorpada e influente do País, a de São Paulo.

O quadro, depois das eleições municipais, é desalentador.

De um lado o PT reformista/assistencialista, sem a mais remota veleidade de romper as amarras de um modelo econômico que perpetua a desigualdade e a exclusão social.

Do outro, o novo bloco conservador capitaneado pelo PSDB, com o DEM reduzido a coadjuvante de luxo.

E o velho centrão, com o PMDB à frente, barganhando seu apoio no atacado e no varejo.

Pior do que isto, só mesmo o boato de que Lula estaria prestes a desembarcar do PT e vestir uma fantasia de tucano, para ajudar a eleger Serra em 2010, com a contrapartida de ser ele o candidato presidencial em 2014.

Só o fato de que esta hipótese hoje não choca ninguém já é um atestado eloquente do descrédito dos políticos, sem exceção, aos olhos do cidadão comum.

Se consumada, será a ignomínia suprema.

6.10.08

2008: ELEIÇÕES SEM ESPERANÇAS

Houve eleições municipais neste domingo. Sabemos disso porque fomos obrigados a ir votar, ficamos sem o futebol dominical e não pudemos tomar umas e outras nos botecos.

Mas, faltava algo nas ruas: esperança. Ninguém dava mostras de acreditar que algo mudaria, fosse quem fosse eleito.

Menos, é claro, os feios, sujos e malvados que disputaram vagas na Câmara Municipal, movidos quase todos por ambições mesquinhas. Estes se atiraram à luta com a sofreguidão de quem vê uma chance única de subir na vida ou (os que buscavam a reeleição) manter-se num patamar muito acima do facultado por seus reais talentos.

O desfile dessas figuras grotescas no horário eleitoral gratuito parecia show de aberrações em mafuás da periferia. Pouquíssimos sugeriam a mais remota possibilidade de servirem ao povo, já que saltava aos olhos sua escassa competência e a escassez ainda maior de caráter. Mal conseguiam dissimular que queriam mesmo é servir-se do povo, dos cofres públicos e das inesgotáveis benesses do poder.

A principal conclusão a tirar-se dessas eleições já se sabia na véspera: a fisiologia impera, não existindo mais nenhum grande partido movido por ideologia. O PT, última tentativa nessa direção, hoje não vê pecado nenhum em coligar-se com o PPS em 20,3% dos municípios brasileiros, com o PSDB em 19,7% e com o DEM em 17,2%.

Se associar-se aos dois primeiros já embaça as distinções que deveria haver entre situação e oposição, as alianças com o DEM constituíram verdadeira ignomínia: o PT, que nasceu da resistência à ditadura de 1964/85, irmanando-se ao partido herdeiro da Arena, criada pelos militares para dar aparência de legalidade ao jugo da força bruta.

De resto, ficou comprovado que o patrimônio político de Lula é pessoal e intransferível. Sua popularidade sobe aos píncaros, mas não se transmite ao PT e seus aliados, que tiveram desempenho apenas razoável em grandes capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, além de amargarem derrotas sofridas em Curitiba e no Rio de Janeiro (onde o prejuízo foi total, pois perdeu ao lado do pior dos candidatos, depois que uma tentativa espúria de beneficiá-lo terminou em tragédia) .

As freqüentes comparações entre Lula e Getúlio Vargas omitem um dado importante: o segundo inspirava verdadeira devoção nos trabalhadores, tanto que foi capaz de eleger até um poste (Eurico Gaspar Dutra), quando impedido de disputar a eleição presidencial.

Já Marta Suplicy, peça-chave no tabuleiro de Lula, ficou exatamente no seu índice habitual de trinta e pouco por cento, apesar de todo apoio presidencial.

Pior: a arrancada de Gilberto Kassab em setembro indica que, quando o eleitorado paulistano passou a interessar-se pelo pleito, inclinou-se na direção do atual prefeito.

Será dificílimo, quase impossível, reverter essa tendência. Não é à toa que dirigentes petistas já aconselham Lula a evitar um comprometimento excessivo com a campanha de Marta no 2º turno.

Finalmente, evidenciou-se que está bloqueado o caminho para outro partido repetir a trajetória do PT -- seja porque o otimismo da década de 1980 cedeu lugar ao conformismo atual, seja por conta da decepção causada pelo próprio PT, ao frustrar as esperanças que despertou.

A classe média, capaz de mobilizar-se por ideais, mostra-se amarga e descrente. Por enquanto, o assistencialismo e o clientelismo estão sendo suficientes para garantir apoios que contrabalançam o êxodo dos melhores seres humanos.

Mas, já sem apelo para corações e mentes, Lula e o PT dependerão do que puderem oferecer para as barrigas. Enquanto proporcionarem melhoras materiais, mesmo que ínfimas, têm chance de perpetuarem-se no poder.

Se a crise cíclica do capitalismo atingir um estágio mais agudo, entretanto, já não haverá como manter essa sustentação, em última análise, comprada.

Aí vai lhes fazer muita falta a ardorosa militância que sustentava o partido nos tempos difíceis e foi trocada pelos interesseiros sempre em busca de partidos que os sustentem.

30.9.08

2008: ELEIÇÕES SEM OPÇÕES

O Brasil tem 5.563 municípios.

O PT marcha para as eleições de domingo coligado ao PSDB em 1.095 deles (19,7%).

Ao DEM, em 957 cidades (17,2%).

E ao PPS, em 1.129 (20,3%).

Ou seja, em 3.181 municípios brasileiros (57,2%), o PT selou alianças com um dos principais partidos de oposição: os tucanos, os democratas ou o satélite de ambos.

Mais da metade das cidades do País já vive a era dos partidos indiferenciados: são todos farinha do mesmo saco.

Esta é outra explicação para a popularidade-recorde de Lula. Quando os partidos nada mais significam, os cidadãos apostam todas as suas esperanças em pessoas.

Seria interessante fazerem outra pesquisa de opinião, que aferisse a popularidade do PT. Com certeza, não atingiria nem a metade da lulesca.

Mas, homens providenciais morrem ou desabam do pedestal. E, quando isto acontece, nada deixam atrás de si, além de um povo órfão.

Partidos têm vida longa. Cabe-lhes manter a continuidade da luta por bandeiras históricas.

Quando se tornam gelatinosos, como os brasileiros, implodem as pontes entre passado, presente e futuro.

Aqui não há partidos no sentido tradicional do termo, com posturas ideológicas definidas e diferenciadas.

Há apenas o partido dos que estão no poder e tudo fazem para não deixarem entrar os que estão fora do poder, pois querem conservar as benesses do poder apenas para si.

E o partido dos que estão fora do poder e tudo fazem para terem acesso ao poder e suas benesses.

Hoje, a única referência que ainda imanta o povo brasileiro é um sexagenário.

Adiante, uma incógnita.

E os justificados temores de que estejamos decaindo sem nunca termos atingido o apogeu.

14.1.07

RESCALDO DA ELEIÇÃO (nov/2006)

A Arena era o maior partido do Brasil. Foi perdendo influência nos estados pujantes e acabou sobrevivendo por uns tempos graças as grotões, onde se trocam votos por esmolas.

Virou PDS, dividiu-se em dois (os direitistas convictos ficaram com o Maluf e os fisiológicos formaram o PFL), foi decaindo miseravelmente.

Depois foi a vez de dois partidos que começaram na esquerda e, quanto mais poder foram conquistando, mais para a direita descambaram: PMDB e PT.

O trágico não é o PT ter saído destas eleições como o novo partido dos grotões e dos estados que vivem pendurados nas tetas do governo federal; mas sim o fato de que o tucanato, quem diria, se tornou a opção progressista. Os auto-suficientes votaram em Alckmin, os eternos dependentes votaram em Lula. Que tristeza!

Desde o ano passado eu vinha advertindo que a esquerda ética precisava se tornar a alternativa ao "neoliberalismo com formação de quadrilha" corporificado no PT. Não conseguiu. À falta de melhor opção, o Brasil dinâmico acabou alinhado com os tucanos. O Brasil do atraso ficou com o Lula.

Numa comparação com os estadunidentes, foi como se o Sul escravagista tivesse vencido o Norte industrializante. Naquela guerra civil, os EUA escolheram ter um futuro grandioso (independentemente da avaliação que façamos do seu papel como potência - a minha é a mais negativa possível). O Brasil acaba de decidir que continuará mais quatro anos patinando sem sair do lugar. Outra década perdida à vista!

Há quem me recrimine por dar como certos e definitivos os eventos que ainda vão acontecer. No entanto, o raciocínio é simples:
* Como poderia o Brasil voltar a crescer tanto quanto precisa, ou seja, pelo menos 8% ao ano? Reduzindo os juros, claro!
* O que impede a redução dos juros? Os débitos do passado e a continuidade da gastança desenfreada do setor público. Nestas condições, os juros estratosféricos são o único freio que, reprimindo o consumo, impede uma disparada da inflação.
* Alguém vê em Lula o líder capaz de confrontar os credores externos e internos, propondo uma alternativa a essa engrenagem que tritura as esperanças do povo brasileiro? Fala sério! Arroubos retóricos à parte, ele nada fez até agora que verdadeiramente incomodasse os poderosos do mundo.
* Alguém considera que Lula seja capaz de dar um basta ao uso e abuso do estado por interesses privados, que tornou a nossa carga tributária uma das maiores do mundo? Fala sério! Quem fez Ministérios brotarem como cogumelos, para acomodar todos os interesses fisiológicos, não vai se regenerar da noite para o dia.

O que teremos, obviamente, é a manutenção da política econômica neoliberal praticada nos dois governos de FHC e no primeiro mandato de Lula. Aliás, mal acabava de vencer as eleições, ele correu a desmentir que a ortodoxia palocciana seria enterrada junto o próprio. Para tranqüilizar os banqueiros, rentistas e grandes empresários, Lula não hesitou em jogar um balde de água fria nos que ainda sonhavam com alguma melhora.

Assim, este segundo mandato de Lula será apenas um fim de feira. Com o agravante de que, já não ambicionando uma reeleição, ele resistirá menos ainda (se isto é possível!) ao assalto aos cofres públicos por parte dos "bons companheiros".

Incapaz de imprimir um novo rumo à sua administração, até porque já não conta com os quadros petistas de esquerda que lhe davam alguma consistência política, Lula tende à inércia. É o prognóstico que a Folha de S. Paulo fez em editorial; subscrevo-o.

Quanto a nós, que ainda não abrimos mão dos ideais de justiça social e de comprometimento ético na política, teremos um trabalho imenso pela frente. Sabendo, desde já, que à putrefação do lulismo provavelmente vai seguir-se uma nova ascensão tucana -- pois é o setor dinâmico que, mais dia ou menos dia, acaba sempre prevalecendo. O lulismo aguentará mais uns tempos representando o Brasil do atraso e depois vai para a lata de lixo da História.

Nesse meio tempo, cabe-nos reconstruir a esquerda. Precisamos juntar os cacos e empurrar a pedra de novo para o topo da montanha -- se quisermos ser a alternativa ao tucanato na próxima década.

De resto, temos de fazer até o impossível para evitar que, com suas delinqüências e ilegitimidade, o Governo Lula dê ensejo a uma nova ditadura. Pois não existe melhor pretexto para a escalada da direita troglodita do que o mar de lama em que chafurdam as instituições.

E este seria um péssimo momento para entrarmos em confronto com os fascistas, já que estamos enfraquecidos pela traição do PT e pela desmoralização por ele acarretada à esquerda como um todo.

Temos de preservar a democracia, custe o que custar. E colocar como prioridade máxima a reconquista do respeito da população.

SAIR DO LODAÇAL OU CHAFURDAR DE VEZ? (set/2006)

A atual campanha eleitoral está sendo a mais insossa desde o fim da ditadura. Não fossem as molecagens de última hora dos meninos do Lula, assistiríamos à reeleição em 1º turno de um presidente totalmente amoral e inapto. Talvez nem mesmo esse novo e gravíssimo escândalo evite o pior.

Os bem pensantes atribuem o sentimento difuso de apatia e desalento à inexistência real de opções para mudarmos a sociedade por meio da política. A lógica do capitalismo globalizado se impõe com força total, só restando aos governantes poder de decisão sobre paliativos e ninharias.

O sistema funciona a contento mesmo que a rainha da Inglaterra de plantão consinta com a formação de uma quadrilha para assaltar os cofres públicos, desviando recursos para o projeto de criação de um Reich companheiro de mil anos. Afinal, para os banqueiros e grandes empresários, o custo da taxa da corrupção é largamente compensado pelo benefício de contarem com um presidente pai dos pobres avalizando e acobertando seus lucros estratosféricos – indecentes mesmo num país capitalista!

E o pior é que os três principais opositores de Lula não parecem oferecer uma alternativa real.

Geraldo Alckmin propõe um capitalismo de sonhos, com políticas voltadas para o desenvolvimento econômico e social. Como se a atual prevalência avassaladora do capital financeiro dependesse da vontade das autoridades econômicas e pudesse ser mudada por decreto: a partir de agora, nada de parasitismo e tudo para os investimentos produtivos. Soa bem.

Mas, não foi assim que o outro tucano agiu em seus oito anos de mandato. E nada indica que Alckmin agirá assim, pois não se percebe nele o estofo de um líder capaz de confrontar o poder real do grande capital. Quanto muito, podemos esperar uma moralização das práticas políticas, que no Governo Lula descambaram para o puro gangsterismo.

Heloísa Helena é outra que empunha a bandeira da ética. Fiel ao ideário esquerdista pré-queda do muro, ainda não se convenceu de que o Estado brasileiro não está aí para realizar a justiça social, muito pelo contrário. Então, acredita ela, se forem desalojadas as máfias que se apossaram do aparelho do Estado, este poderá, ao menos, minorar a situação dramática em que vegeta a maioria do povo brasileiro. O socialismo fica para depois.

Pessoalmente íntegra, não lhe ocorre que, nem mesmo após uma revolução heróica como a de 1917 e contando com líderes da envergadura de Lênin e Trotsky, a União Soviética conseguiu manter seu Estado a serviço dos trabalhadores. Menos de uma década depois, o poder já fora transferido para a nomenklatura.

Quanto a Cristovam Buarque, ele oferece a educação como panacéia, sem entrar num debate bem mais complexo e espinhoso: como fazer com que o ensino se volte novamente para a formação de verdadeiros cidadãos e não apenas para a dos apertadores de parafusos requeridos pelo mercado?

Faz parte da lógica perversa do capitalismo globalizado o direcionamento da educação para a formação de profissionais especializados e não de homens com conhecimentos amplos e diversificados, dotados de espírito crítico, capazes de entender o mundo em que vivem e atuar sobre ele.

E é exatamente essa ausência de espírito crítico que colocou o Brasil diante da ameaça de reeleição de um presidente enlameado até o último fio de cabelo. Já não existem elites e formadores de opinião capazes de conduzir as grandes massas à compreensão de que um país governado pelos mandantes de aloprados se condena às turbulências e à insignificância.

Mas, mesmo que Geraldo Alckmin, Heloísa Helena e Cristovam Buarque não sejam capazes de entregar o Brasil que prometem, é simplesmente inconcebível permanecermos mais quatro anos sem auto-respeito nem esperanças.

A reeleição de Lula significaria coonestarmos o banditismo político e esse coronelismo reciclado que aposta nos grotões como o fator decisivo de uma eleição presidencial.

Em 1970, os brasileiros abriram mão da liberdade em troca de uma bolha de consumo que logo estourou, deixando dívidas para pagar e um país por reconstruir.

Hoje, as migalhas dos programas assistenciais podem manter no poder um governante cujas políticas foram fundamentais para que os pobres permanecessem pobres, incapazes de sair por si próprios de sua situação degradante e eternamente necessitados de esmolas.

E, o que é pior: o País inteiro acordaria no dia 2 de outubro com má consciência, sabendo que trocou os valores nobres pelas vantagens mesquinhas. O lodaçal em que o Governo Lula transformou Brasília tragaria o Brasil inteiro.
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