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25.10.10

AFINAL, POR QUE NÃO EXTIRPARMOS O DEM?

Quem acompanha meu trabalho, sabe muito bem que não faço parte da claque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Eu o critico ou elogio caso a caso, submetendo o que ele diz e faz ao crivo dos valores da minha geração revolucionária (a de 1968), que continuo tendo como bússola.

Então, quando ele afirmou, p. ex., que a polícia tem de subir o morro para bater em quem merece apanhar e proteger quem merece ser defendido, eu virei um caminhão de melancias em cima de V. Exa.

Polícia, para quem veio das correntes ideológicas das quais nós dois viemos, não tem como função bater em ninguém, ponto final. O título do meu post disse tudo: Por que não te calas, Lula?.

Mas, estarei também sempre pronto a denunciar a má fé com que a mídia golpista carrega nas tintas em tudo que se refira ao Lula.

P. ex, a frase "precisamos extirpar o DEM da política brasileira", tão vituperada quanto distorcida, é pertinente, válida e nem um pouco antidemocrática. Subscrevo-a e aplaudo.

Em nenhum momento ele falou em exterminar fisicamente os adversários, como alegam os exegetas de nenhuma sutileza e indisfarçável tendenciosidade. A afirmação é claríssima: trata-se de livrar a política brasileira de uma de suas piores ervas daninhas.

De onde essa gente derivou, afinal, a conclusão de que isto se faria por métodos truculentos e não, simplesmente, pelo voto?

Foi, aliás, bem o que ocorreu em 3 de outubro. Os  demônios  estão sendo exorcizados, alvíssaras!

PARTIDO DO "SIM, AMÉM, COMO QUEIRA, SENHOR!"

A facção militar que usurpou o poder em 1964, quis porque quis impor-nos um quadro político semelhante ao dos EUA, com apenas dois grandes partidos.

Então, extinguiu todas as agremiações até então existentes e deixou que se erguessem sobre os escombros apenas um partido do  sim, amém, como queira, senhor!  e outro do não concordo mas só me resta aceitar, senhor!.

A Arena foi cúmplice do arbítrio, dos descalabros e das atrocidades, pois a tudo concedeu seu aval apriorístico e automático, na farsa que se encenava para dar aos néscios a impressão de que as instituições ainda vigiam no Brasil.

O MDB, quase sempre manietado e reduzido à impotência, pelo menos resmungava sua desaprovação. E, cada vez que tentava fazer algo além disto, era colocado de volta no seu lugar: os déspotas fechavam o Congresso e promoviam expurgos ("cassações") na bancada emedebista.

E, claro, eram os da Arena que se beneficiavam das negociatas e das boquinhas do poder. Os porcos eram convenientemente cevados, em troca dos seus serviços sujos.

Quando a ditadura caía de podre, os mais finórios  arenosos  (o nome do partido já era outro, PDS, mas pouco importa...) conspiraram com Tancredo Neves para se conservarem no poder mesmo com o País voltando à civilização.

Como?

Primeiramente, votando em massa contra a Emenda Dante de Oliveira, que restituiria ao povo brasileiro o direito de eleger seu presidente da República pela via direta. Numa eleição de verdade, o franco favorito era o Brizola.

Depois, desertando do partido oficial e concedendo a Tancredo os votos de que ele necessitava para derrotar Paulo Maluf no Colégio Eleitoral.

Como prêmio pelos seus préstimos, o novo partido por eles constituído, PFL, passou a ser o sócio do PMDB no comando da chamada  Nova República.

Até a sorte os favoreceu: um dos piores dentre eles, José Sarney, viu o poder cair-lhe no colo com a morte de Tancredo.

Também pouco importa que Sarney tivesse preferido pular para o galho do PMDB ao invés de filiar-se ao PFL. Por passado, personalidade e caráter, ele sempre pertenceu ao segundo. Rótulo, no seu caso, era o de menos.

Vai daí que, com presença tão marcante de ex-arenosos nos postos-chave, a Nova República foi extremamente tímida em eliminar o entulho autoritário e nada fez para punir os torturadores  Como esperar que os cúmplices do arbítrio assumissem para valer a alardeada missão de  passar o Brasil a limpo

Desde então, o PFL, depois DEM, foi se definindo como o que há de mais próximo de uma direita ideológica na política brasileira, principalmente porque o Partido Liberal -- que, em termos teóricos, teria mais afinidade com tal papel -- não vingou.

O componente fisiológico também existe e é forte no DEM, claro.

Mas, o principal de sua identidade é dado, de um lado, pelos adeptos da  modernidade  capitalista, os supostamente civilizados; e do outro, pelos ansiosos por um novo totalitarismo, as  viúvas da ditadura  e seus filhotes neofascistas, enfim, os que não conhecem sequer o significado do substantivo  civilização...

Ignoro como os primeiros conseguem suportar tão bem o mau hálito dos segundos. Usarão máscaras contra gases?

Também não sei qual a correlação interna de forças -- se podemos considerar concludente o fato de que tenham escolhido para vice de José Serra um de seus brucutus mais emblemáticos, tão tosco nos seus valores quanto em matéria de conhecimentos gerais (ou, mais precisamente, falta de).

Mas, do que não tenho nenhuma dúvida é o seguinte: tal erva daninha não deixaria nenhuma saudade e merece mesmo ser extirpada e atirada o quanto antes na lixeira da História.

6.10.08

2008: ELEIÇÕES SEM ESPERANÇAS

Houve eleições municipais neste domingo. Sabemos disso porque fomos obrigados a ir votar, ficamos sem o futebol dominical e não pudemos tomar umas e outras nos botecos.

Mas, faltava algo nas ruas: esperança. Ninguém dava mostras de acreditar que algo mudaria, fosse quem fosse eleito.

Menos, é claro, os feios, sujos e malvados que disputaram vagas na Câmara Municipal, movidos quase todos por ambições mesquinhas. Estes se atiraram à luta com a sofreguidão de quem vê uma chance única de subir na vida ou (os que buscavam a reeleição) manter-se num patamar muito acima do facultado por seus reais talentos.

O desfile dessas figuras grotescas no horário eleitoral gratuito parecia show de aberrações em mafuás da periferia. Pouquíssimos sugeriam a mais remota possibilidade de servirem ao povo, já que saltava aos olhos sua escassa competência e a escassez ainda maior de caráter. Mal conseguiam dissimular que queriam mesmo é servir-se do povo, dos cofres públicos e das inesgotáveis benesses do poder.

A principal conclusão a tirar-se dessas eleições já se sabia na véspera: a fisiologia impera, não existindo mais nenhum grande partido movido por ideologia. O PT, última tentativa nessa direção, hoje não vê pecado nenhum em coligar-se com o PPS em 20,3% dos municípios brasileiros, com o PSDB em 19,7% e com o DEM em 17,2%.

Se associar-se aos dois primeiros já embaça as distinções que deveria haver entre situação e oposição, as alianças com o DEM constituíram verdadeira ignomínia: o PT, que nasceu da resistência à ditadura de 1964/85, irmanando-se ao partido herdeiro da Arena, criada pelos militares para dar aparência de legalidade ao jugo da força bruta.

De resto, ficou comprovado que o patrimônio político de Lula é pessoal e intransferível. Sua popularidade sobe aos píncaros, mas não se transmite ao PT e seus aliados, que tiveram desempenho apenas razoável em grandes capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, além de amargarem derrotas sofridas em Curitiba e no Rio de Janeiro (onde o prejuízo foi total, pois perdeu ao lado do pior dos candidatos, depois que uma tentativa espúria de beneficiá-lo terminou em tragédia) .

As freqüentes comparações entre Lula e Getúlio Vargas omitem um dado importante: o segundo inspirava verdadeira devoção nos trabalhadores, tanto que foi capaz de eleger até um poste (Eurico Gaspar Dutra), quando impedido de disputar a eleição presidencial.

Já Marta Suplicy, peça-chave no tabuleiro de Lula, ficou exatamente no seu índice habitual de trinta e pouco por cento, apesar de todo apoio presidencial.

Pior: a arrancada de Gilberto Kassab em setembro indica que, quando o eleitorado paulistano passou a interessar-se pelo pleito, inclinou-se na direção do atual prefeito.

Será dificílimo, quase impossível, reverter essa tendência. Não é à toa que dirigentes petistas já aconselham Lula a evitar um comprometimento excessivo com a campanha de Marta no 2º turno.

Finalmente, evidenciou-se que está bloqueado o caminho para outro partido repetir a trajetória do PT -- seja porque o otimismo da década de 1980 cedeu lugar ao conformismo atual, seja por conta da decepção causada pelo próprio PT, ao frustrar as esperanças que despertou.

A classe média, capaz de mobilizar-se por ideais, mostra-se amarga e descrente. Por enquanto, o assistencialismo e o clientelismo estão sendo suficientes para garantir apoios que contrabalançam o êxodo dos melhores seres humanos.

Mas, já sem apelo para corações e mentes, Lula e o PT dependerão do que puderem oferecer para as barrigas. Enquanto proporcionarem melhoras materiais, mesmo que ínfimas, têm chance de perpetuarem-se no poder.

Se a crise cíclica do capitalismo atingir um estágio mais agudo, entretanto, já não haverá como manter essa sustentação, em última análise, comprada.

Aí vai lhes fazer muita falta a ardorosa militância que sustentava o partido nos tempos difíceis e foi trocada pelos interesseiros sempre em busca de partidos que os sustentem.
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