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19.1.13

O WESTERN ITALIANO, QUE FLERTAVA COM A REVOLUÇÃO...

Clint Eastwood no clássico
"Três homens em conflito"
Um dos gêneros cinematográficos que mais falou da revolução para platéias amplas foi o western italiano. Poucos, hoje, sabem disso.

Nascido em meados da década de 1960, o spaghetti-western foi também muito caro para a minha geração noutro aspecto: lavou a alma de todos que gostávamos dos bangue-bangues, mas não da caretice dos estadunidenses.

Teve surpreendente sucesso nas bilheterias: O Dólar Furado (1), p. ex., chegou a ficar em cartaz durante cerca de um ano num cinema de São Paulo. Isto se deveu não só a ter ocupado um espaço vazio, já que os norte-americanos haviam deixado de fazer westerns, como também a haver trazido um novo enfoque e uma nova moldura para o gênero.

Tirando obras de exceção como Matar ou Morrer (2), Sem Lei e Sem Alma (3), O Matador (4), Estigma da Crueldade (5) e Rastros do Ódio (6), os faroestes made in USA de até então tinham o insuportável defeito de tentarem nos impingir aquela ladainha da luta eterna do Bem contra o Mal -- um tédio!

O mocinho não fumava, não bebia, não praguejava e nem trepava. A mocinha era recatada donzela. O xerife, pachorrento mas digno. Os índios, selvagens bestiais que tinham de ser tirados do caminho para não atrapalharem o progresso. Os mexicanos, beberrões subumanos.

Mesmo no mato, conduzindo boiada, o mocinho tinha a decência de manter-se sempre limpo e escanhoado. Bah!

O western italiano surgiu meio por acaso. A indústria cinematográfica italiana conseguira nos anos anteriores faturar uma boa grana com filmes épicos e mitológicos. Hércules, Maciste, Ursus, Golias, fundação de Roma, guerra de Tróia, etc. O filão, entretanto, estava esgotando-se e a Cinecittà saiu à cata de um novo produto.

Sergio Leone, então com 34 anos, tinha começado a carreira no neo-realismo italiano (como assistente de direção e diretor de segunda unidade), mas não conseguira alçar-se à direção. Era difícil abrir um espaço entre mestres como Vittorio De Sica, Lucchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, etc.

Então, entre atuar eternamente à sombra dos medalhões do cinema de arte ou mostrar seu trabalho no cinema dito comercial, escolheu a segunda opção. Depois de dirigir os épicos Os Últimos Dias de Pompéia (7) e O Colosso de Rodes (8), teve a sorte de estar no lugar certo, no momento exato, para dar o pontapé de partida num novo ciclo.

Adaptou para o Oeste a história de Yojimbo (9), um filme de Akira Kurosawa sobre samurai que açula a discórdia entre dois senhores feudais para prestar-lhes serviço alternadamente, sem que percebam seu jogo duplo. O que Leone fez em Por Um Punhado de Dólares (10), basicamente, foi mudar a ambientação e colocar um pistoleiro caça-prêmios no lugar do samurai.

O protagonista também teve aí seu grande golpe de sorte. Clint Eastwood não emplacara em Hollywood como mocinho, ficando relegado a séries de TV e a filminhos classe “B” e “C”.

Leone percebeu nele um bom anti-herói. Compôs seu personagem (o Estranho Sem Nome) com barba rala, chapéu sobre os olhos, charuto na boca, fala arrastada e um poncho. Com isto, acabou alçando-o ao estrelato e fazendo jus à homenagem que depois Eastwood lhe prestaria, ao dedicar-lhe sua obra-prima Os Imperdoáveis (11).

O que diferenciou o western italiano foi exatamente ter sido feito por cineastas bem diferentes dos tarefeiros hollywoodescos (os ditos artesãos, que se limitavam ao feijão-com-arroz artístico que lhes garantisse o dito cujo gastronômico).

James Coburn e Rod Steiger em "Quando explode a vingança"
Damiano Damiani, Carlo Lizzani e Sergio Corbucci eram outros talentos com a cabeça feita pelo cinema de arte, assim como o superlativo roteirista Sergio Donatti (aliás, até os grandes diretores Bernardo Bertolucci e Dario Argento chegaram a escrever histórias para westerns).

Então, não se limitaram a realizar filmes com muita ação e nenhuma vida inteligente; fizeram questão de deixar sua marca, passando mensagens cifradas, dando toques, propondo outra abordagem para o gênero.

Em vez de um palco em que o Bem vence sempre o Mal, o bangue-bangue italiano mostrou o  velho Oeste como uma terra de ninguém, primitiva e selvagem, em que todos perseguem seus objetivos como podem.
Evidentemente, há muito mais verossimilhança nesse enfoque do que no norte-americano. O Oeste do século 19 seria algo como o garimpo de Serra Pelada no seu apogeu. Um grotão selvagem onde prevalecia a lei do mais forte.

No lugar do herói, o western italiano consagrou o anti-herói: barbudo, desgrenhado, com roupas sinistras, muitas vezes um caça-prêmios, quase sempre um mau-caráter. No fundo, só se diferenciando dos bandidos por agir sozinho enquanto os outros atuam em bando.

Lembrem-se: era a década de 1960, quando havia um imenso desencanto com a ordem estabelecida. Rebeldes eram tudo que queríamos ver. Não suportávamos mais os heroizinhos c.d.f. de Hollywood, daí termos sido imediatamente cativados pela alternativa européia, os Djangos, Sabatas e Sartanas (os únicos mocinhos nos moldes estadunidenses eram os protagonizados por Giuliano Gemma).

E, enquanto os poderosos viraram vilãos, os índios e os peões mexicanos passaram a ser mostrados como vítimas e heróis. Afinal, vários cineastas italianos tinham inclinações revolucionárias, mas não havia nada revolucionário para destacar nos EUA do século 19.

A solução foi transferir a ação para o efervescente México, como em Quando Explode a Vingança (12), Gringo (13), Reze a Deus e Cave Sua Sepultura (14), Réquiem Para Matar (15), Os Violentos Vão Para o Inferno (16), Companheiros (17),  O Dia da Desforra (18) e Tepepa (19).

Franco Nero como Keoma: de arrepiar!
Toques esquerdistas, sim, eles podiam inserir em filmes cuja ação transcorria nos EUA:
  • o próprio Django (20), no qual os vilãos são flagrantemente inspirados na Ku-Klux-Khan;
  • Quando os Brutos Se Defrontam (21), reflexão sobre a gênese de líderes oportunistas;
  • O Especialista (22), que coloca jovens rebeldes (referência às barricadas francesas de 1968) em ação no Oeste;
  • O Vingador Silencioso (23), denunciando o massacre de Johnson Country, quando centenas de imigrantes eslavos foram dizimados pelos barões de gado do Wyoming – o mesmo episódio histórico que seria depois retratado na superprodução O Portal do Paraíso (24);
  • e o extraordinário Três Homens em Conflito (25), com algumas das mais marcantes seqüências antibelicistas do cinema em todos os tempos.

Uma última característica notável foi libertar a trilha musical da tirania do country. Não mais o que realmente existia nos EUA do século retrasado, como violões, violinos, banjos, gaitas e sanfonas, mas também flauta, saxofone, órgão, sintetizadores, castanholas -- tudo que se harmonizasse com o clima daquela seqüência, pouco importando se tais instrumentos eram encontrados ou não no velho Oeste.

Para completar, o uso criativo de sinos, caixas de música, assobios e outros achados. Morricone é, com certeza, o melhor criador de trilhas musicais de todos os tempos.

FILMES INESQUECÍVEIS

Quando Explode a Vingança está entre os melhores filmes do Leone. É, na verdade, o segundo da trilogia era uma vez, que inclui Era Uma Vez No Oeste (26) e Era Uma Vez Na América (27). Deveria ter-se chamado Era Uma Vez a Revolução, mas acabou com um título que em italiano significa "abaixe a cabeça" e, nos EUA, "agache-se, otário!".

Na visão do Leone, os verdadeiros heróis da revolução são os anônimos homens do povo, enquanto os líderes acabam sempre traindo a causa -- seja no México (o médico interpretado por Romolo Valli) ou na Irlanda (o dirigente do IRA que é amigo do John/James Coburn).

Foi feito em 1971, quando os movimentos revolucionários pipocavam na Itália, radicalizando-se progressivamente. Parece expressar o desencanto do Leone com o Partido Comunista Italiano e ser um alerta de que as Brigadas Vermelhas e congêneres teriam destino trágico.

Um lance interessante é mostrar de forma totalmente desumanizada o comandante das forças contra-revolucionárias: ele é visto escovando repulsivamente os dentes, chupando um ovo, olhando pelo binóculo. Leone não lhe concede sequer a dignidade da fala. De sua forma sutil, expressa o desprezo absoluto que tinha pela direita troglodita.

Thomas Milian e Lee Van Cleef no cult "O Dia da Desforra"
Outra grande sacada do Leone é ressaltar que a História nunca fixa a versão correta dos fatos. A frase que o Irlandês sempre repete, sobre "os grandes e gloriosos heróis da revolução", é um primor de sarcasmo.

* * *

Três Homens em Conflito foi, claramente, o divisor de águas na carreira de Sergio Leone, o momento em que ele mostrou ser muito mais do que um (brilhante) artesão.

Até então, em Por um Punhado de Dólares ele introduzira a figura do anti-herói no centro da trama; a amoralidade básica dos tipos e das situações; a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação; a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, o pistoleiro oportunista interpretado por Clint Eastwood.

Depois, em Por Uns Dólares a Mais (28), todas essas características foram desenvolvidas e aprimoradas. É um filme muito melhor do que o anterior, mas, paradoxalmente, não apresentou novidades significativas.

A única que vale a pena citar é a colocação de dois personagens em destaque, em vez de um. A partir daí, os filmes de Leone trariam sempre essa dupla de anti-heróis ocupando o espaço dos antigos mocinhos.

Depois dos personagens interpretados por Clint Eastwood/Lee Van Cleef em Por Uns Dólares a Mais, tivemos Clint Eastwood/Eli Walash (Três Homens em Conflito), Charles Bronson/Jason Robards (Era Uma Vez no Oeste), Rod Steiger/James Coburn (Quando Explode a Vingança) e Robert De Niro/James Woods (Era Uma Vez na América).


Aí, finalmente, estava pronto para seu tour-de-force: Três Homens em Conflito foi a obra em que Leone definiu e afirmou seu estilo, embutindo no cinema de ação discussões mais profundas, sem prejuízo do entretenimento propriamente dito. É um tipo de obra em camadas. De acordo com sua sensibilidade, o espectador pode se divertir apenas com o básico ou captar os muitos toques subjacentes.

E é grandiosa a crítica que Leone fez ao belicismo, com algumas das seqüências mais comoventes que o cinema já apresentou: o oficial bêbado sem coragem para destruir a ponte, a orquestra do campo de prisioneiros tocando para abafar os ruídos da tortura, o jovem soldado agonizante a quem o Estranho Sem Nome dá seu charuto.

Gian-Maria Volonté (centro) como bandido mexicano em "Gringo"
Nos três filmes seguintes ele dissecaria a lenda (vinganças) e a realidade (construção da ferrovia) no Velho Oeste; as verdades e mentiras de uma revolução; e a transição da época glamourosa do aventureirismo para a hegemonia insípida das corporações.

Foi o cineasta que conseguiu ir mais longe na proposta de mesclar entretenimento e reflexão, saindo-se tão bem nas bilheterias quanto em termos de qualidade cinematográfica.

* * *

Keoma (29) foi o canto do cisne do western italiano. E encerrou o ciclo com extrema dignidade. Trata-se daquela única obra-prima que, às vezes, um diretor convencional faz na vida, como que para provar que tinha talento para voos maiores.

O subtexto é riquíssimo:
  • a briga entre os quatro irmãos remete, evidentemente, a Freud e suas teorias sobre a horda primitiva;
  • o nascimento da criança num estábulo é um paralelo bíblico, assim como a crucificação do herói;
  • a presença da velha índia nos momentos culminantes do filme vem da mitologia grega, ela é um tipo de deusa do destino;
  • o herói errante em busca de um desígnio que justifique sua vida também tem inspiração mitológica;
  • a peste se constituiu num elemento bíblico e mitológico ao mesmo tempo, além de estabelecer uma ponte com o escritor Albert Camus (A Peste, O Estrangeiro), cujas obras são uma óbvia referência no delineamento do personagem principal;
  • finalmente, Castellari reverencia seus mitos cinematográficos -- Keoma é filho de Shane, o herói protagonizado por Alan Ladd em Os Brutos Também Amam (30), enquanto a presença de Woody Strode no elenco constitui uma homenagem a John Ford, de quem era um dos atores prediletos.
E não foi só Castellari quem se superou, atingindo uma qualidade de que ninguém o suporia capaz. A dupla de compositores Guido e Maurizio de Angelis fez uma trilha musical extraordinária, capaz de rivalizar com as melhores de Morricone. O contraste do baixo com a soprano chega a nos arrepiar, as letras se casam maravilhosamente com o filme.

Em suma: trata-se de um clássico ainda não reconhecido.

Filmes citados:
  1. Un Dollaro Bucato, 1965, d. Giorgio Ferroni
  2. High Noon, 1952, d. Fred Zinneman
  3. Gunfight at O.K. Corral, 1957, d. John Sturges
  4. The Gunfighter, 1950, d. Henry King
  5. The Bravados, 1958, d. Henry King
  6. The Searchers, 1956, d. John Ford
  7. Gli Ultimi Giorni di Pompei, 1959, creditado, entretanto, a Mario Bonnard
  8. Il Colosso di Rodi, 1961, d. Sergio Leone
  9. Yojimbo, 1961, d. Akira Kurosawa
  10. Per un Pugno di Dollari, 1964
  11. Unforgiven, 1992, d. Clint Eastwood
  12. Giù la Testa, 1971, d. Sergio Leone
  13. El Chuncho, Quién Sabe?, 1967, d. Damiano Damiani
  14. Prega Dio... e scavati la fossa, 1968, d. Edoardo Mulagia
  15. Requiescant, 1967, d. Carlo Lizzani
  16. Il Mercenario, 1968, d. Sergio Corbucci
  17. Vamos a Matar, Compañeros, 1970, d. Sergio Corbucci
  18. La Resa dei Conti, 1966, d. Sergio Sollima
  19. Tepepa,  1969, d. Giulio Petroni
  20. Django, 1966, d. Sergio Corbucci
  21. Faccia a Faccia, 1967, d. Sergio Sollima
  22. Gli Specialisti, 1969, d. Sergio Corbucci
  23. Il Grande Silenzio, 1968, d. Sergio Corbucci
  24. Heaven’s Gate, 1980, d. Michael Cimino
  25. Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, 1966, d. Sergio Leone
  26. C’Era Uma Volta il West, 1968, d. Sergio Leone
  27. Once Upon a Time in América, 1984, d. Sergio Leone
  28. Per Qualche Dollaro in Più, 1965, d. Sergio Leone
  29. Keoma, 1976, d. Enzo G. Castellari
  30. Shane, 1953, d. George Stevens

15.9.12

A ELEIÇÃO PAULISTANA ESTÁ SENDO UM TRIÂNGULO DAS BERMUDAS

O quadro eleitoral em São Paulo é desalentador.

O cavalo de Tróia das  empresas  (ou seria melhor dizer  gangues?) que atuam no mercado religioso encaminha-se para o 2º turno, já que as duas máquinas políticas mais poderosas desistiram de o tentarem derrubar desde já.

vira-casaca  e o  bebê de proveta  lançam sua munição mais pesada um contra o outro, apostando nas muitas vulnerabilidades do  explorador da fé acidental. Acreditam que, chegando lá, o vencerão facilmente no confronto final.

É uma aposta arriscada e que, no passado, muitas vezes teve resultados catastróficos --como catastrófica indubitavelmente seria a afirmação dos neopentecostais como força política de primeira grandeza, consequência óbvia se o tiro sair pela culatra.

A última chance de escaparmos deste  triângulo das Bermudas  são os debates eleitorais.

Se algum dos restantes sair-se muito bem, poderá atropelar na reta final, aproveitando a evidente falta de entusiasmo do eleitorado com o  bobo, o  mau  e o  feio  (a identificação com o filme famoso de Sergio Leone só não é total porque nem mesmo na acepção sarcástica do mestre do bangue-bangue à italiana o Fernando Haddad poderia ser considerado  bom, embora caia como uma luva quanto à maldade do Russomanno e à feiúra do Serra...).

Torço para que o companheiro Carlos Giannazi assuma-se como o candidato realmente antípoda do  sistema, a exemplo do Lula dos bons tempos. Assim, na pior das hipóteses, deixará sua marca impressa em cores vivas; e, para nós, a luta não acabará em outubro nem em novembro. Trata-se apenas de uma batalha e o que queremos é ganhar a guerra.

Que Giannazi, enfim, marque a diferença em termos ideológicos, pois jamais vai conseguir grande destaque numa disputa de quem virá a ser o melhor administrador em termos convencionais. Aí prevalecem inevitavelmente os que têm mais tempo no horário eleitoral e maior exposição na mídia.

A chance que lhe resta é uma só: convencer os eleitores de que se trata do único capaz de resgatar São Paulo das garras dos poderosos, evitando que a administração municipal continue priorizando negócios & negociatas em detrimento dos cidadãos.

Para quem sabe das coisas, trata-se do óbvio ululante. Os debates serão a última oportunidade para o Giannazi tornar o eleitorado ciente disto.

12.5.12

AS RUAS ME DÃO TESÃO

Passei 1968 inteiro fazendo movimento estudantil. Distribuía panfletos, participava de assembléias e passeatas, parei meu colégio, estive na primeira ocupação de faculdade em SP, tive de correr da polícia algumas vezes, fazia reuniões com os novos recrutas, dava-lhes cursos de marxismo e os levava para assistirem a filmes  educativos  tipo Os Companheiros do Mario Monicelli, etc.

Foi, no mínimo, pitoresco unir as pontas da vida, voltando a fazer aos 61 anos o que fazia no comecinho da jornada. Volver a los 17 después de vivir un siglo...

Nesta 6ª feira (11), ajudei a companheirada do PSOL a distribuír folhetos e discursar com megafone na esquina da avenida Paulista com a rua Augusta.

Foi um protesto contra o caos no transporte público da cidade --"O metrô é de lata, mas o povo não é sardinha"--, daí ter sido realizado próximo a uma entrada do Metrô Consolação, do meio-dia em diante.

Não gostei do mastro flexível em demasia da bandeira, verga com o vento, tornando difícil o manejo.

Já a idade me favorecia na panfletagem: muitos transeuntes apressados, depois de esquivarem-se dos companheiros mais jovens, ficavam sem graça de dizer não a um senhor grisalho. Dei boa contribuição para que o estoque de folhetos zerasse em pouco mais de uma hora.

Fiquei um tanto desacorçoado ao falar para um público que não queria me ouvir. Desacostumei-me a isto. Mas,  macacos velhos, eu e os outros oradores nos desincumbimos razoavelmente da tarefa.

O deputado Carlos Giannazi, escolhido na pré-convenção do PSOL para ser o candidato a prefeito da capital, também enfrentou dignamente a indiferença da grande maioria dos que passavam.

Lembrei-me de um trecho marcante da obra-prima de Sergio Leone, Era uma vez na América: o gângster que almeja ser chefão do crime organizado (James Woods) recrimina seu sócio (Robert De Niro) por continuar sendo pouco ambicioso, um "bandidinho de rua". Ao que este responde: "É assim que quero ser, as ruas me dão tesão".

Era como me sentia no jornalismo. Ao contrário dos colegas que tudo faziam para ascenderem à posição de editores, chefes de reportagem, articulistas, editorialistas, críticos, etc., eu nunca deixei totalmente de ser repórter. Mesmo exercendo as ditas  funções mais elevadas, dava um jeito de, vez por outra, ir buscar a notícia onde ela brota. Não me conformava em ser tão somente um burocrata de redação, processando a informação que outros colhiam.

Mais  estranho no ninho  ainda me sentia nos gabinetes do poder, o financeiro e o político. Adotava postura seca e profissional, fechando a porta a qualquer aproximação dos poderosos. E, olhando para trás, não lamento nenhuma das chances que descartei. Tinha talento suficiente para que quisessem me cooptar, mas preferiria virar mendigo a tornar-me igual a eles.

As ruas me dão tesão. Até hoje.

2.1.10

TAGARELA, ATARANTADO, TARANTINO - VOL. 2

Glauber Rocha tinha "uma idéia na cabeça e uma câmara na mão". Tarantino, só a câmara...

No último mês de abril, em dia tão sem notícias impactantes como hoje, escrevi sobre meus recuerdos da fase em que tentara estabelecer-me como crítico de cinema: O crítico acidental.

Foi entre 1979 e 1984. Há exatos 25 anos, a crise do papel expulsou-me das pequenas editoras em que conseguia garantir meu sustento sem fazer tantas concessões ao sistema.

Ou seja, o preço do papel subiu muito e a editora na qual eu trabalhava fixo precisou extinguir metade das revistas sob meu comando.

Com as restantes eu não conseguiria pagar minhas contas. E os frilas também estavam escasseando, naquela fase de vacas magras.

Então, tive de dar uma guinada de 180º na minha carreira, deixando de fazer o que gostava para fazer o que remunerava (razoavelmente). No caso, jornalismo econômico, que sempre me causou urticária...

Vez por outra, continuava publicando uma ou outra crítica por aí.

E me lembro de que em 1994, quando Quentin Tarantino virou o xodó dos novos bárbaros que posavam de críticos na grande imprensa, escrevi o que deveria ser escrito sobre ele.

Tagarela, atarantado, Tarantino foi o título. O Jornal da Tarde (SP) aproveitou, mas num espaço para crônicas, que eu esporadicamente frequentava.

O motivo foi o filme que ergueu a carreira até então medíocre de Tarantino e reergueu a de John Travolta: Pulp Fiction.

Simplesmente detestei que, pretextando homenagear as velhas e boas novelas policiais do passado, ele as apresentasse como o que não eram. David Goodis ficaria horrorizado.

Seus gangstêres falavam mais palavras numa única sequência do que os gangstêres da verdadeira pulp fiction no livro inteiro. Era um blablablá interminável, que me deixou com a bunda doendo: não encontrava posição na poltrona do cinema que me satisfizesse, tal o desagrado que me causaram os 154 minutos desse filme não havia nem sequer 90' aproveitáveis.

Fã de carteirinha dos policiais franceses das décadas de 1960 e 1970, dirigidos por cineastas de verdade como Robert Enrico e René Clement, detestei a abordagem espalhafatosa e intelectualóide de Tarantino.

A graça do gênero estava em ser lacônico, seco, despojado. E, nas mãos de um Jose Giovanni, p. ex., não dar a mínima para juízos de ordem moral.

FRANCESES DESCARTAVAM
MANIQUEÍSMO HOLLYWOODESCO

Ou seja, o cinema estadunidense sempre apresentara as histórias de gangstêres sob ótica puritana e maniqueísta. As forças da ordem enfrentando os agentes da desordem. No final, o gângster morre e os videotas têm sua ansiada catarse (agora é o terrorista quem morre, na tralha hollywoodesca típica).

Já os melhores policiais franceses (como os muitos derivados das novelas de Giovanni, que ele próprio adaptou para o cinema) interessavam-se apenas em esmiuçar as características dos dois tipos de profissionais que se opunham.

Desde o antológico O Samurai (1968), de Jean-Pierre Melville, esta passou a ser a tônica: o gângster não como uma aberração (os mad dogs do cinema estadunidense), mas como um ser humano com defeitos e também virtudes, só que dedicado a um ofício diferente.

Cinema não é púlpito, para nos impingir sermões. Deve contar histórias e nos deixar as conclusões, ao invés de embutí-las no viés adotado.

O atarantado Tarantino, no fundo, foi aclamado pelos pseudocríticos de uma época que baniu o pensamento crítico. Como o conteúdo dos seus filmes era raso como uma poça d'água, sobressaía mesmo a embalagem extravagante, copiadas dos mestres.

O que são os dois Kill Bill, se não uma mistura indigesta dos westerns de Sergio Leone com as fitas de artes marciais estreladas por Bruce Lee?

Pior: seus duelos coreografados não têm uma centelha sequer do gênio de Bruce Lee, e o visual chupado de Leone nos deixa saudades das reflexões que o mestre italiano embutia em seus filmes de ação.

A grandeza de Leone reside em ter conseguido realizar fitas atraentes para o grande público, mas que falavam muito mais aos que conseguiam fazer uma leitura mais aprofundada.

Assim, Três Homens em Conflito é um verdadeiro líbelo contra as guerras, Era Uma Vez o Oeste disseca magnificamente a relação entre mito e realidade, Quando Explode a Vingança nos ensina muito sobre as revoluções e Era Uma Vez na América se constitui numa das mais grandiosas abordagens cinematográficas da transição da sociedade aventureiresca da primeira metade do século passado para o subsequente primado insípido das grandes organizações.

Tarantino me faz lembrar uma ótima frase do Paulo Francis: você olha para um ator francês como o Philippe Noiret e vê toda uma civilização atrás dele, mas se você olha para um ator estadunidense típico, nada vislumbra além do vazio.

Sérgio Leone desenvolveu uma forma caprichadíssima, com ênfase no aproveitamento impecável das músicas de Ennio Morricone, para atrair os espectadores e tentar motivá-los a refletirem sobre temas importantes.

Tarantino copiou essa forma caprichadíssima, inclusive usando e abusando dos mesmíssimos temas de Morricone, apenas para agregar a si próprio uma aura de sofisticação. Atrás de um Pulp Fiction e de um Kill Bill nada há além do vazio.

UMA ANTI-DECLARAÇÃO
DOS DIREITOS HUMANOS


Pior, muito pior, é seu recente Bastardos Inglórios. Trata-se de um filme que faz apologia de bestialidades a um nível que Tropa de Elite nem chega perto.

Apresenta como justificáveis os assassinatos mais cruéis e o escalpelamento das vítimas, desde que estas sejam nazistas. Direitos humanos só existem para as pessoas, com as não-pessoas tudo é permitido.

Enganam-se os que relevam a desumanidade intrínseca do filme por considerá-lo apenas uma farsa (afinal, os acontecimentos históricos são deturpados a ponto de Tarantino dar a Hitler uma morte diferente da que ele teve).

Esta lavagem cerebral hollywoodesca vem de longe e intensificou-se ao máximo após o atentado contra o WTC. Quer incutir em cada videota do planeta a noção de que vale tudo para defender a sociedade dos seus descontentes. É a anti-Declaração dos Direitos Humanos.

Ao engajar-se nessa empreitada fascistóide, Tarantino reafirmou uma velha verdade: o vazio acaba sempre sendo preenchido pela força dominante.

Então, ele está agora ecoando a ideologia do capitalismo em sua fase de putrefação, quando não tem mais valores positivos a oferecer e só tenta manter os cidadãos apavorados diante da mera possibilidade de alteração do status quo, de maneira que não se dêem conta do quanto o status quo é irracional e injusto.

Ao constatar que a mediocríssima crítica cinematográfica atual aclamou em uníssono um filme tão nocivo e desumano quanto Bastardos Inglórios, pude dimensionar para onde a indústria cultural nos está levando, como vanguarda do retrocesso que sucedeu as jornadas gloriosas de 1968: para vários séculos atrás na história da civilização, cancelando até o Iluminismo.

O horror, o horror!
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