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18.7.16

PARA EMPRESÁRIOS E BANQUEIROS, AS DOAÇÕES DO BNDES; PARA O AGRONEGÓCIO, A MARACUTAIA DA TRANSPOSIÇÃO...

Um dos aspectos mais chocantes do período em que o Partido dos Trabalhadores impôs sua hegemonia sobre a esquerda brasileira foi a passividade com a qual esta aceitou o entrelaçamento de interesses com os mais predatórios segmentos da burguesia e com os mais repulsivos inimigos da liberdade. 

Práticas que, quando adotadas pelos adversários de direita, eram denunciadas como emblemáticas de sua condição de inimigos do povo, passaram a ser copiadas descaradamente pelos mandatários do PT e toleradas pela companheirada como um preço a ser pago pela governabilidade.

Duas delas foram esmiuçadas pelos jornalões paulistas neste final de semana. O Estado de S. Paulo, em editorial do sábado (16), constatou que vultosos recursos públicos foram generosamente doados pelos governos petistas não apenas para os companheiros empresários, mas também para os camaradas banqueiros:
"Sabia-se que as centenas de bilhões de reais que, entre 2009 e 2015, o Tesouro repassou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar investimentos não estimularam o crescimento, mas beneficiaram muitas empresas escolhidas pelo governo do PT, daí o programa ter sido chamado de bolsa-empresário, uma ajuda financeira do poder público para grupos empresariais preferidos do Palácio do Planalto. 
O que pesquisas recentes demonstram é que não foram apenas as empresas selecionadas pela administração petista que ganharam com esse imenso desperdício de dinheiro público. Mesmo dispondo de condições bastante favoráveis para administrar os recursos do Tesouro (que assumiu os subsídios implícitos nas operações), o BNDES ficou com uma parcela reduzida dos resultados desses financiamentos. Os bancos comerciais que realizaram as operações em seu nome se apropriaram de mais de 80% dos rendimentos. O programa transformou-se, também, numa espécie de bolsa-banqueiro 
...o Tesouro emitiu títulos de dívida pública para transferir R$ 520 bilhões ao BNDES. Esses recursos deveriam ser utilizados no financiamento de máquinas e equipamentos, de modo a estimular a produção e, assim, reativar a economia. O PSI [Programa de Sustentação do Investimento] deveria durar um ano, mas foi sendo renovado seguidamente até o fim do ano passado, quando o governo petista resolveu enterrá-lo.
Foi de grande valia para um grupo de empresas, mas, apesar de sua longa duração, de sete anos, e, sobretudo, do montante que envolveu, não teve resultados expressivos para o País. A economia não se recuperou e, desde meados de 2014, está em recessão...
...Levantamento feito pelo economista José Roberto Afonso, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, mostra que os bancos comerciais (...) se apropriaram de mais de R$ 8 bilhões dos R$ 10 bilhões de spreads que as operações geraram. O BNDES, assim, ficou com menos de R$ 2 bilhões".
E, na Folha de S. Paulo dominical, ficamos sabendo que o malfadado projeto de transposição do rio São Francisco, uma descarada maracutaia em benefício do progressista agronegócio, continua detonando orçamentos e prazos:
"Sérias dúvidas sobre a capacidade do rio São Francisco de gerar água suficiente para a bilionária obra da transposição fizeram o governo lançar um novo programa de revitalização do rio.
Batizado de Novo Chico, (...) o programa visa terminar obras de saneamento nas cidades na bacia do rio, desassorear o leito e recuperar mananciais, entre outras intervenções. Estão acertados gastos de, no mínimo, R$ 10 bilhões até 2026. 
Mas o valor vai aumentar porque o governo ainda trabalha no orçamento de algumas intervenções, como dragagem, e também pedirá aos Estados da região que invistam mais recursos no projeto...
...quase dez anos depois [do lançamento do programa], o governo já gastou R$ 10 bilhões na obra dos canais e R$ 2,2 bilhões na revitalização, e nenhuma delas está pronta. Além disso, em ambas há suspeitas de desvio de recursos, corrupção e ineficiência. A construção dos canais é alvo da Lava Jato".
Admito, humildemente, que passei batido pela bolsa-empresário e pela bolsa-banqueiro no momento em que deveriam ter sido contundentemente denunciadas e combatidas. Mea maxima culpa.

Mas, quanto à bolsa-agronegócio, esta foi objeto de uma infinidade de artigos, principalmente durante a greve de fome do bispo Flávio Cappio, com a qual me solidarizei. Em dezembro de 2007, cobrei incisivamente uma postura mais digna e combativa por parte da esquerda:
"Passamos a vida recriminando a sordidez da política oficial e as negociatas que colocam recursos públicos a serviço de interesses privados. Como procedemos, no entanto, quando um bispo sexagenário ousa confrontar os abutres que saqueiam uma das regiões mais miseráveis do País e arrisca a vida em defesa do seu rebanho? O que estamos fazendo para apoiar esse altaneiro desafio às práticas viciadas e viciosas de nossa democracia? Pouco, quase nada".
E, em carta aberta a Lula, botei o dedo na ferida:
"A relutância extrema do seu governo em discutir a interligação das águas do rio São Francisco é evidência gritante de que tal projeto não sobreviveria a um debate franco. E reforça as suspeitas de que haja interesses escusos envolvidos. 
Cidadãos de reconhecida competência e credibilidade apontam falhas de todo tipo: concepção equivocada, relação custo/benefício muitíssimo pior que a de projetos alternativos, danos ecológicos que podem se tornar catastróficos. Por que tanta insistência, a ponto de tocar a obra com soldados, evocando os tempos sinistros da ditadura militar?"
Hoje salta aos olhos que os opositores do faraônico projeto sempre estiveram certos. E que as suspeitas por eles levantadas tinham tudo a ver, pois tal elefante branco, inicialmente orçado em R$ 4,6 bilhões, já consumiu R$ 12,2 bilhões e agora somos informados de que vai exigir, pelo menos, outros R$ 10 bilhões. Ou seja, o estouro se encaminha para a casa de 400% e nada nos garante que ficará por aí...

Esta fase do amoralismo petista no poder será lembrada pela verdadeira esquerda como motivo de terrível vergonha e como anos totalmente perdidos para a revolução brasileira.

Antônio Conselheiro não viu realizada sua profecia de que sertão viraria mardestacada na obra-prima de Glauber Rocha (clique aqui 
assista-a na íntegra). Lula também dificilmente a verá...

29.6.11

GOVERNO FEDERAL APÓIA MONOPOLIZAÇÃO DO MERCADO VAREJISTA

Teoricamente, o BNDES é uma empresa pública federal, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, que tem como objetivo apoiar empreendimentos capazes de contribuir para o desenvolvimento do Brasil.

De sua ação deveriam resultar a melhora da competitividade da economia brasileira e a elevação da qualidade de vida da sua população.

Só que, conforme o bordão do Joelmir Beting, na prática a teoria é outra.

Eis que o BNDES, por meio de seu braço de investimento (BNDESPar), comprometeu-se a aportar R$ 3,91 bilhões (85% DO MONTANTE TOTAL DA TRANSAÇÃO!!!) para viabilizar a compra das operações do Carrefour no Brasil por parte do empresário Abílio Diniz.

A justificativa retórica é que a incorporação do Carrefour pelo Pão de Açúcar criará um "campeão nacional" do varejo supermercadista.

E daí? Desde quando o avanço da monopolização de um setor da economia conduz ao "desenvolvimento do Brasil", à "melhora da competitividade da economia brasileira" e à "elevação da qualidade de vida da sua população"?

Muito pelo contrário. Mal foi anunciado o negócio, os bem informados já cantaram a bola:
  • perderão os fornecedores, que vão ter seu poder de barganha reduzido;
  • perderão os consumidores, pois o gigante varejista imporá seus preços a bel prazer, sem a pressão de concorrentes à altura; e
  • perderão os funcionários, pois muitas lojas serão fechadas e muitas atividades concentradas, daí resultando os inevitáveis passaralhos.
Quem ganhará? Os de sempre: os bilionários que comandam as empresas e os (geralmente) bilionários ou milionários que nelas investem. Previsivelmente, as ações do Pão de Açúcar valorizaram, de imediato, 12,6%. 

Faz quase um século que Lênin já disse tudo (1):
"...o desenvolvimento do capitalismo chegou a um ponto tal que, ainda que a produção mercantil continue 'reinando' como antes, e seja considerada a base de toda a economia, na realidade encontra-se já minada e os lucros principais vão para os 'gênios' das maquinações financeiras. Estas maquinações e estas trapaças têm a sua base na socialização da produção, mas o imenso esforço da humanidade, que redundou nessa socialização, acaba beneficiando ... os especuladores".
Lembra, Dilma? Você, eu, todos os companheiros, o que nós queríamos era tirar dos ricos e dar para os pobres. Este belo sonho foi um dos motivos para termos assumido tantos riscos e sofrido tanto no início de nossa trajetória.

Será muito chato se você, na outra ponta da vida, comportar-se segundo o figurino do sistema, como Robin Hood às avessas...
  1. Imperialismo, fase superior do capitalismo, 1916 

INFÂMIA VIRTUAL

http://youtu.be/ja_Q3Ngnldc - este endereço continua dando acesso a um grotesco vídeo difamatório, que ataca, da maneira mais vil, a memória de Carlos Lamarca, herói do povo brasileiro. 

Até quando seremos tão ingratos com os que entregaram sua vida na luta contra a tirania?
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