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| Crime... |
O
parto da montanha foi um rato: depois de haver investigado, "nos
últimos seis meses, os casos de justiçamento na esquerda durante a
ditadura", a
Folha de S. Paulo só encontrou quatro para exibir. Decerto esperava desencavar um número bem maior.
O
lado 'dark' da resistência (vide
aqui) foi a matéria principal do
caderno
Ilustríssima do último domingo (17). Veio somar-se a outro
recente exercício de igualação implícita dos resistentes a seus algozes, que
comentei no artigo
Jornal da ditabranda vende o mesmo peixe podre pela
2ª vez (vide
aqui).
Aquele trombeteava pela enésima vez a queixa de Orlando Lovecchio Filho, que teve a perna amputada após
ser atingido pela explosão de uma bomba no estacionamento do Conjunto
Nacional, sede do consulado estadunidense na capital paulista.
Como vem fazendo
desde 1968, Lovecchio culpou apenas a esquerda, que programou o atentado
para a madrugada exatamente para, sem ferir ninguém, manifestar seu
inconformismo com a ditadura militar e com os EUA, grandes instigadores da
quartelada e apoiadores do regime de exceção. Foi um acaso infeliz ele estar passando por lá naquele horário improvável.
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| ...e castigo. |
Mas, numa polêmica travada nas própria páginas da
Folha em 2008,
já ficara esclarecido que Lovecchio só perdeu a perna porque o atendimento
médico foi interrompido pela repressão, que o quis interrogar
imediatamente, suspeitando que se tratasse de um carbonário atingido pela
própria bomba. Horas depois, quando foi devolvido aos médicos, a perna
gangrenara.
A
informação de que Lovecchio, exatamente por tal motivo, foi derrotado no
processo que moveu na Justiça contra um dos autores do atentado, então publicada
pela Folha na marra (ou seja, por obrigação de conceder direito
de resposta), foi sonegada de novo dos leitores em 2012...
OS CHILIQUES DO PODEROSO CHEFINHO
Na
nova investida para desacreditar as vítimas da ditadura e, por
extensão, a Comissão da Verdade, o mais estarrecedor é o jornal ter
mantido um repórter debruçado sobre os casos reais ou supostos de
justiçamentos durante seis longos meses!
Quantos
episódios mais significativos e com maior relevância na atualidade não
teriam sido esclarecidos caso este exercício de jornalismo investigativo
se voltasse noutras direções! Até porque tal reportagem, dark sobretudo nas
intenções, decididamente não fará de Lucas Ferraz um novo Bob Woodward
ou Carl Bernstein...
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| Uma histérica edição histórica |
O
motivo de tamanha obstinação, claro, é a ojeriza extremada, beirando a
histeria, que os antigos resistentes despertam no diretor de redação da
Folha, Otávio Frias Filho. Um jornalista que trabalhou ao lado do
poderoso chefinho garante que bastava alguém aludir a antigos
guerrilheiros para ele se alterar e, aos berros, fazer afirmações do
tipo "quero que toda essa corja da luta armada se f...!".
Freud
veria aí mais uma confirmação da sua teoria de que pessoas imaturas,
incapazes de lidar com seus remorsos, convertem a melancolia em
agressividade, voltando sua energia destrutiva para o exterior. Ou
seja, como alternativa à autodestruição, destroem os outros,
principalmente aqueles diante dos quais sentem-se culpadas.
Tem
tudo a ver com o herdeiro de uma empresa que, no auge do
terrorismo de Estado, colaborava abjetamente com os torturadores,
conforme a própria
Folha já admitiu (vide
aqui).
De
aproveitável há a constatação de que "militares reformados e da reserva
usam essas mortes para tentar justificar sua própria violência e inflam
os casos de justiçamento, pondo na conta da esquerda assassinatos
cometidos pelas forças da repressão". Daí eu sempre denunciar a
propaganda enganosa dos sites e redes virtuais de extrema-direita.
O
que não impediu, contudo, Lucas Ferraz de explicitamente acolher como verdadeira uma
versão extraída do Projeto Orvil --o chamado livro negro da repressão,
que a Inteligência das Forças Armadas produziu para contrapor ao Brasil:
nunca mais, de D. Paulo Evaristo Arns e equipe. Parece ignorar que o
Orvil não passa de uma sistematização das conclusões a que os
torturadores chegaram a partir das bestiais torturas a que submeteram
milhares de brasileiros. Há
sangue em suas páginas.
E também uma infinidade de disparates, pois os
torturados embaralhávamos os fatos tanto quanto podíamos e os
torturadores nunca se notabilizaram pelo brilhantismo ao tentarem juntar
as peças dos quebra-cabeças. Eu, p. ex., sou apontado como juiz de um
tribunal revolucionário que nem sequer sabia ter existido.
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| O humor do horror |
Quanto
ao fulcro da questão, os justiçamentos de agentes infiltrados sempre
embutiram o risco de erro na escolha do alvo; e os de militantes que
fraquejaram, são simplesmente indefensáveis e indesculpáveis.
Ademais, execuções, sejam de quem
forem, não devem constituir motivo de orgulho para revolucionário
nenhum, jamais! Estarrece-me a insensibilidade de algumas declarações.
Mas, devem ser levadas em conta as condições dramáticas nas quais confrontávamos o
aparelho repressivo da ditadura. A desigualdade de forças era extrema e
o inimigo, totalmente inescrupuloso.
Ao despertarmos, nunca sabíamos se
chegaríamos vivos à manhã seguinte. Acabarmos, mais dia, menos dia, sendo presos e torturados era
quase uma certeza; e mortos, forte possibilidade.
Infiltrados
como o cabo Anselmo devassavam nossas organizações. Tínhamos até medo
de abrir os jornais, pois era quase certo encontrarmos a noticia da
queda ou óbito de um companheiro estimado.