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5.10.10

SÓ A MILITÂNCIA IDEALISTA DO PT SALVARÁ ESTA ELEIÇÃO

O   day after  foi melancólico.

De um lado, os demotucanos estão sendo bem persuasivos nas tentativas para convencer Marina Silva a suicidar-se politicamente.

Tomara que ela não ouça o canto dessas sereias -- como as mitológicas, carnívoras.

Se fizer uma composição com os representantes da ganância capitalista exacerbada e sem limites, ajudará a devolver o poder à pior direita brasileira.

Em termos ambientais, será um desastre.

E, claro, isto lhe seria cobrado adiante: sua responsabilidade pessoal num grave retrocesso histórico.

Iria virar uma morta sem sepultura, como o ex-Gabeira.

Voltar à esfera de influência do PT para receber um Ministério mais importante desta vez? É pouco para a dimensão que ela atingiu. Só se lhe oferecerem bem mais.

O pior é que seu partido já não é mais verde: amadureceu e apodreceu. Está traindo o compromisso assumido de combater as práticas ambientais predatórias, ao aliar-se com quem as encarna.

Então, Marina está numa sinuca de bico.

Como a decisão de a quem apoiar no 2º turno é impostergável, a sabedoria política manda que fique neutra, liberando o voto do seu eleitorado.

Assim, conservará intacto o patrimônio político que acumulou como terceira via, preservando-se para passos mais ambiciosos no futuro.

Depois, com mais vagar, vai ter de escolher um partido para o  projeto 2014, já que o PV virou mera linha auxiliar da direitona.

Aliás, a única afirmação reveladora de Marina nesta 2ª feira, desconsiderado o blablablá convencional sobre as consultas que fará antes de anunciar sua decisão, foi esta:
"O resultado que tivemos de aprovação ao projeto meu e do [vice] Guilherme [Leal] é muito maior que o nosso partido".
Corretíssimo. Ela precisará de um partido mais adequado para suas pretensões vindouras, nem que tenha de criar um, como Fernando Collor fez (PRN).

Suas próximas decisões determinarão se ela é uma estrela que veio para ficar ou uma supernova que logo irá perdendo o brilho, como Heloísa Helena.

FASCINADOS PELO ABISMO

Já as avaliações que petistas fizeram do resultado frustrante foi mais frustrante ainda: aconselharam a campanha de Dilma a perseverar nos erros.

Uns falam em  esclarecer  melhor a questão do aborto, no sentido de tentar iludir o eleitorado, martelando sem parar que, desde criancinha, ela nega às mulheres o direito de opção.

Cogitam até a retirada da descriminalização do aborto do plano de governo de Dilma.

Então, estamos conversados: se filmes repulsivos como Tropa de Elite conseguirem convencer contingente expressivo do eleitorado de que a tortura é válida, o PT correrá a apoiar a tortura...

O recuo em questão só servirá para fazê-la parecer oportunista e falsa, pois o que disse no passado está publicado e será relembrado ad nauseam  pelos antagonistas.

Outros dirigentes petistas recomendam a insistência nas comparações entre os governos de Lula e de FHC, quando a comparação a ser feita é bem outra: entre um projeto político esquerdista, sintonizado com a justiça social, e um projeto político direitista, sintonizado com a desigualdade e a exclusão inerentes ao capitalismo.

Caso seja necessário, ilustrarei com desenhos: O PT NÃO VAI GANHAR ESTA ELEIÇÃO SEM SUA MILITÂNCIA IDEALISTA, AQUELA QUE SÓ SE MOBILIZARÁ POR MUDANÇAS EM PROFUNDIDADE E NÃO POR RETOQUES COSMÉTICOS NA FACE MONSTRUOSA DO CAPITALISMO.

Para esvaziar a ofensiva ideológica direitista, terá de guinar à esquerda.

Se continuar em cima do muro, ambíguo e cauteloso, alienará seus apoios naturais e nem sequer vai conquistar o eleitorado conservador de classe média, que sempre se colocará na trincheira contrária.

Trata-se da receita infalível para ser inapelavelmente batido, jogando no ralo uma eleição que estava 99% ganha.

4.10.10

É MAIS FÁCIL SUPERAR SERRA DO QUE O DESENCANTO

O espírito que 
faltou no 1º turno

Dilma Rousseff foi a grande vencedora do 1º turno da eleição presidencial 2010, com mais de 47 milhões de votos.

Isto é o que a imprensa teria de noticiar, caso não houvesse a perspectiva de liquidação da fatura já neste domingo.

Por conta do clima de  já ganhou!, a vitória acabou tendo sabor de derrota. E vai ser assim que os adversários a apresentarão.

No entanto, a vantagem de Dilma sobre José Serra superou 14 milhões de votos. Em termos eleitorais, um colosso. Nada indica que será revertida.

São dois candidatos sem carisma, mas Dilma se beneficia da lenda e popularidade de Lula.

Já Serra, coitado, nasceu sem os dons da simpatia e da fala agradável. Parece sempre um mestre-escola ensinando uma matéria tediosa.

Por mais que disfarce, percebe-se que considera os ouvintes um bando de retardados, aos quais crê ser necessário explicar tudo tintim por tintim. Comunicação pior, impossível.

Mostrou toda sua impotência no final da campanha: incapaz de evitar a vitória imediata de Dilma, limitou-se a rezar para que Marina Silva fizesse o que ele jamais conseguiria fazer.

A candidata do PV, aliás, estava certíssima ao afirmar que ela era a única capaz de enfrentar Dilma de igual para igual no 2º turno.

Mas, em política como no futebol, convém nunca subestimar-se um azarão. Ainda mais quando a imprensa faz o papel de  juiz ladrão, fabricando factóide em cima de factóide para prejudicar a candidata oficial.

Então, Lula, Dilma e o PT deveriam dar uma boa olhada nos resultados do domingo. Principalmente nas abstenções, nulos e brancos: foram nada menos que 34 milhões de votos jogados no ralo!

Ou seja, maior do que o universo de eleitores de Serra foi o conjunto dos que não deram importância ao pleito.

Então, além de irem à caça dos votos dados a Marina (o que certamente farão), os petistas deveriam oferecer alguma motivação a esse imenso contingente entregue à negatividade.

Por exemplo, o compromisso de seguir estas diretrizes:
"É preciso que o Estado se torne a expressão da sociedade, o que só será possível quando se criarem condições de livre intervenção dos trabalhadores nas decisões dos seus rumos.

"Por isso, o PT pretende chegar ao governo e à direção do Estado para realizar uma política democrática, do ponto de vista dos trabalhadores, tanto no plano econômico quanto no plano social.

"O PT buscará conquistar a liberdade para que o povo possa construir uma sociedade igualitária, onde não haja explorados nem exploradores".
Isto, claro, se ainda conseguirem localizar o manifesto de fundação do PT, que deve estar acumulando pó em algum canto do arquivo morto.
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