Celso Lungaretti (*)
A tropa de choque da Polícia Militar paulista certamente vai aparecer com destaque no noticiário do próximo dia 2 de outubro, quando o massacre do Carandiru completará 15 anos. A invasão intempestiva e desnecessária de um presídio deixou um saldo de 111 presos assassinados, num dos episódios mais escabrosos da História recente brasileira.
Comprovando que esqueceu completamente as leituras e os ideais da mocidade, o governador José Serra parece ansioso por fazer com que São Paulo receba outra vez a mesma lição. Acabará conseguindo.
Na madrugada de quarta-feira (22), a PM invadiu desnecessariamente a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo para desalojar à força 400 manifestantes que lá estavam desde a tarde do dia anterior e sairiam naquele mesmo dia -- ou, o mais tardar, na 6ª feira, quando acontecerá o principal ato em SP da Semana de Jornada de Lutas, movimento nacional pela melhora do ensino promovido por 40 entidades, inclusive a União Nacional dos Estudantes.
Ou seja, para a retirada de jovens que ficariam lá pouquíssimo tempo e não impediam o prosseguimento das aulas, o ex-presidente da UNE colocou seres humanos em risco e igualou-se aos inimigos de outrora, como o famigerado secretário de Segurança Pública responsável pela invasão da PUC, exatamente em 22 de setembro de 1977.
Então, nas duas efemérides negativas que se aproximam, Serra deverá ser comparado, respectivamente, ao ex-secretário Erasmo Dias e ao ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho. E, convenhamos, fez por merecer.
* * *
A novela sem fim em que se transformou o caso de Renan Calheiros desmoraliza a democracia brasileira. Como qualquer cidadão, ele tem todo direito de se defender das gravíssimas acusações que lhe são feitas. Como presidente do Senado, ele jamais deveria permanecer nessa posição enquanto se procede, com lentidão exasperante, a apuração desses episódios.
Se Renan se respeitasse e quisesse fazer-se respeitar, tomaria a iniciativa de licenciar-se não só da presidência do Senado, como do próprio mandato, até que não pairassem dúvidas sobre sua honestidade.
Se o Senado se respeitasse e quisesse fazer-se respeitar, manteria Renan fora da presidência enquanto pairassem dúvidas sobre sua honestidade e o reconduziria a essa posição na remotíssima eventualidade de ele ser inocentado.
* * *
Chamado de “pistoleiro” por Zé Dirceu, Diogo Mainardi reagiu, na Veja de 22/08/2007, utilizando sua coluna inteira para apresentar e discutir os dados de uma agenda telefônica do desafeto. Publicou nomes, datas, algarismos de telefones e anotações, para daí extrair conclusões policialescas.
Disse apenas ter recebido a agenda, sem esclarecer como e de quem. Zé Dirceu, no seu blog, garante que se trata de “acesso ilegal que [Mainardi] teve a dados que foram enviados à CPI”.
Tenha ele bisbilhotado o conteúdo de uma agenda perdida por (ou roubada de) Zé Dirceu, ou sido municiado por algum parlamentar que jamais poderia lhe repassar dados sigilosos de uma CPI, o certo é que Mainardi atropelou a ética jornalística, comportando-se como um reles araponga. Deveria mudar de profissão.
* * *
A imprensa exumou o caso do mensalão, por conta da apreciação, por parte do Supremo Tribunal Federal, da denúncia que o procurador-geral da República apresentou contra a “organização criminosa" que atuava para "desviar dinheiro público e comprar apoio político".
Moralmente, a aceitação da denúncia e conseqüente abertura de ação penal contra os 40 mensaleiros significará muito.
Em termos práticos, quase nada. Eles vão ter de pagar advogados caros e comparecer a algumas audiências tediosas, mas é quase certo que seus casos se arrastarão inconclusos por tanto tempo quanto os de Paulo Maluf.
Ou se criam mecanismos para evitar que os ricos e poderosos abusem de recursos protelatórios para escapar das grades, ou continuaremos sendo o país terrivelmente injusto e até anedótico no qual só os pobres vão para a prisão.
* * *
No dia seguinte à tragédia de Congonhas, eu já escrevia que a responsabilidade maior era das empresas aéreas e sua ganância criminosa: “Dinheiro é mais importante do que seres humanos, na lógica capitalista levada às últimas conseqüências”.
Houve, como sempre, os que me acusaram de parcial e tendencioso. E as minúcias e irrelevâncias foram discutidas ad nauseam pela imprensa, bombardeando os cidadãos comuns com um tal volume de informações que a maioria acabou não conseguindo separar o joio do trigo. A mídia atordoante cumpriu seu papel de promover espetacularização e propiciar catarse, mas não esclarecimento.
A saturação sobreveio e a atenção da maioria silenciosa se voltou para outras atrações, de forma que só a minoria esclarecida está acompanhando a elucidação do crime: um aeroporto inseguro foi colocado em operação por força do poder de persuasão que as empresas aéreas exerceram sobre a Infraero e a Anac, a ponto da diretora da agência reguladora haver mentido à Justiça para agilizar a liberação da pista.
Mandantes, lobbistas e funcionários do Estado que se deixaram subornar deveriam todos ser acusados de homicídio culposo e punidos exemplarmente, para as 199 mortes não terem sido em vão.
* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
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24.8.07
21.5.07
CARTA ABERTA A UMA REVISTA TENDENCIOSA, MANIPULADORA...
...E ARROGANTE
Ao Diretor de Redação, VEJA:
Envio-lhe esta terceira mensagem porque o Sr. olimpicamente ignorou as duas anteriores, embora fosse minha a posição correta, em termos jornalísticos e éticos. Então, para ter a certeza de que os leitores da Veja poderão ter acesso ao "outro lado" -- o qual lhes vem sendo sistematicamente sonegado pela revista --, faço desta uma carta aberta.
Na edição de 09/05/2007, a Veja publicou no espaço informativo a matéria "Um perigo chamado MR-8", sobre o mesmo assunto e com o mesmíssimo enfoque alarmista da coluna semanal de Diogo Mainardi, o que, em si, já seria ridículo para qualquer veículo da grande imprensa, à qual cabe fazer jornalismo e não proselitismo.
Nos dois textos, uma afirmação obscura do jornal de um pequeno partido serviu como pretexto para a delirante acusação de que se trataria de uma exortação ao assassinato de Mainardi. Em nenhum momento a Veja ressalvou que a frase comportava outras interpretações, como a de que seu colunista, além do dinheiro que perdeu ao ser condenado pela Justiça como caluniador, poderia ser privado também da liberdade por um juiz de "alma pia".
O tratamento parcial e bombástico dado à pretensa ameaça de morte no texto "informativo" foi reforçado pela coleta de depoimentos de apoio junto a personalidades que têm óbvios motivos para preferirem continuar nas boas graças da Veja.
Cabe a pergunta: se o MR-8 cometeu crime tão grave como o de incentivar um homicídio, porque Mainardi e a Veja não o denunciaram à Justiça? A resposta, claro, é serem eles os primeiros a saber que se tratou apenas de uma tempestade em copo d’água e que nenhum tribunal do mundo condenaria alguém a partir de uma afirmação tão ambígua e inconclusiva. Então, optaram por tentar obter dos leitores uma condenação que jamais conseguiriam dos juízes.
Isto tem nome: manipulação da opinião pública. E caracteriza abuso de poder de uma grande revista contra um pequeno jornal.
Como leitor e cidadão, até aqui eu já teria motivos de sobra para indignar-me com as más práticas jornalísticas da Veja. Mas, a revista foi além: em suas tortuosas tentativas de tornar crível que o MR-8 representasse algum perigo para Mainardi, acusou esse partido de “terrorista no passado” e de haver, junto com a ALN, promovido “seqüestros, roubos a banco e atos de intimidação".
Omitiu que o MR-8 original foi massacrado pela repressão da ditadura em 1969. Já estava extinto quando a Dissidência Estudantil da Guanabara, ao seqüestrar (juntamente com a ALN) o embaixador dos EUA Charles Elbrick, co-assinou o manifesto como MR-8, apenas para desmoralizar os militares, que haviam alardeado a vitória sobre esse grupo de resistência.
Em seu afã de usar acontecimentos de quase 40 anos atrás como prova de periculosidade atual, a Veja omitiu também que, afora os próprios detentores da sigla, pouquíssimas pessoas na esquerda brasileira consideram o MR-8 atual como legítimo herdeiro daquele que confrontou heroicamente o despotismo.
Mas, o pior de tudo foi a Veja ter exumado um termo -- “terrorista” -- que, no auge da guerra suja por eles travada contra os combatentes da liberdade, os serviços de guerra psicológica das Forças Armadas resolveram aplicar indevidamente aos resistentes, seguindo a máxima goebbeliana de que uma mentira martelada ao infinito acaba passando por verdade.
Hoje em dia, só a extrema-direita utiliza esse jargão falacioso e aponta como negativos os atos praticados no exercício do direito de resistência à tirania. A Veja, que jamais se referiu aos militares que usurparam o poder e praticaram em larga escala o terrorismo de estado como “déspotas” ou “genocidas”, não teve pejo de adotar os conceitos e a terminologia das viúvas da ditadura, igualando-se aos Brilhantes Ustras da vida. Descumpriu o dever jornalístico de isenção e equanimidade, tomando partido... e justamente ao lado daqueles que os historiadores conceituados e o próprio Estado brasileiro reconhecem como os vilãos do período!
Por último, a Veja ignorou o dever de abrir espaço para o “outro lado” na edição de 16/05/2007, publicando apenas oito cartas de leitores favoráveis à sua posição e jogando no cesto todas as contrárias. E sepultou o assunto de vez na edição de 23/05/2007, alheia à indignação dos ex-presos políticos e suas famílias, vítimas da ditadura e cidadãos com espírito de justiça, expressa em dezenas de mensagens encaminhadas à redação.
O patrimônio mais valioso para qualquer publicação é a credibilidade, cuja perda logo desencadeia a debandada de leitores e anunciantes. Temo, Sr. Diretor de Redação, que esse processo já esteja avançado na Veja, após ter passado boa parte de 2005 tentando alavancar o impeachment do presidente Lula e boa parte de 2006 tentando impedir sua reeleição, numa atuação que, independentemente da justeza ou não dos fins perseguidos, atropelou de forma flagrante os princípios jornalísticos.
Se sua revista quer se tornar um veículo partidário como o Hora do Povo, que o faça. Tendo, pelo menos, a decência de informar antes os leitores, para que eles deixem de ser enganados como estão sendo agora, ao procurarem informação isenta nas páginas da Veja.
CELSO LUNGARETTI
Ao Diretor de Redação, VEJA:
Envio-lhe esta terceira mensagem porque o Sr. olimpicamente ignorou as duas anteriores, embora fosse minha a posição correta, em termos jornalísticos e éticos. Então, para ter a certeza de que os leitores da Veja poderão ter acesso ao "outro lado" -- o qual lhes vem sendo sistematicamente sonegado pela revista --, faço desta uma carta aberta.
Na edição de 09/05/2007, a Veja publicou no espaço informativo a matéria "Um perigo chamado MR-8", sobre o mesmo assunto e com o mesmíssimo enfoque alarmista da coluna semanal de Diogo Mainardi, o que, em si, já seria ridículo para qualquer veículo da grande imprensa, à qual cabe fazer jornalismo e não proselitismo.
Nos dois textos, uma afirmação obscura do jornal de um pequeno partido serviu como pretexto para a delirante acusação de que se trataria de uma exortação ao assassinato de Mainardi. Em nenhum momento a Veja ressalvou que a frase comportava outras interpretações, como a de que seu colunista, além do dinheiro que perdeu ao ser condenado pela Justiça como caluniador, poderia ser privado também da liberdade por um juiz de "alma pia".
O tratamento parcial e bombástico dado à pretensa ameaça de morte no texto "informativo" foi reforçado pela coleta de depoimentos de apoio junto a personalidades que têm óbvios motivos para preferirem continuar nas boas graças da Veja.
Cabe a pergunta: se o MR-8 cometeu crime tão grave como o de incentivar um homicídio, porque Mainardi e a Veja não o denunciaram à Justiça? A resposta, claro, é serem eles os primeiros a saber que se tratou apenas de uma tempestade em copo d’água e que nenhum tribunal do mundo condenaria alguém a partir de uma afirmação tão ambígua e inconclusiva. Então, optaram por tentar obter dos leitores uma condenação que jamais conseguiriam dos juízes.
Isto tem nome: manipulação da opinião pública. E caracteriza abuso de poder de uma grande revista contra um pequeno jornal.
Como leitor e cidadão, até aqui eu já teria motivos de sobra para indignar-me com as más práticas jornalísticas da Veja. Mas, a revista foi além: em suas tortuosas tentativas de tornar crível que o MR-8 representasse algum perigo para Mainardi, acusou esse partido de “terrorista no passado” e de haver, junto com a ALN, promovido “seqüestros, roubos a banco e atos de intimidação".
Omitiu que o MR-8 original foi massacrado pela repressão da ditadura em 1969. Já estava extinto quando a Dissidência Estudantil da Guanabara, ao seqüestrar (juntamente com a ALN) o embaixador dos EUA Charles Elbrick, co-assinou o manifesto como MR-8, apenas para desmoralizar os militares, que haviam alardeado a vitória sobre esse grupo de resistência.
Em seu afã de usar acontecimentos de quase 40 anos atrás como prova de periculosidade atual, a Veja omitiu também que, afora os próprios detentores da sigla, pouquíssimas pessoas na esquerda brasileira consideram o MR-8 atual como legítimo herdeiro daquele que confrontou heroicamente o despotismo.
Mas, o pior de tudo foi a Veja ter exumado um termo -- “terrorista” -- que, no auge da guerra suja por eles travada contra os combatentes da liberdade, os serviços de guerra psicológica das Forças Armadas resolveram aplicar indevidamente aos resistentes, seguindo a máxima goebbeliana de que uma mentira martelada ao infinito acaba passando por verdade.
Hoje em dia, só a extrema-direita utiliza esse jargão falacioso e aponta como negativos os atos praticados no exercício do direito de resistência à tirania. A Veja, que jamais se referiu aos militares que usurparam o poder e praticaram em larga escala o terrorismo de estado como “déspotas” ou “genocidas”, não teve pejo de adotar os conceitos e a terminologia das viúvas da ditadura, igualando-se aos Brilhantes Ustras da vida. Descumpriu o dever jornalístico de isenção e equanimidade, tomando partido... e justamente ao lado daqueles que os historiadores conceituados e o próprio Estado brasileiro reconhecem como os vilãos do período!
Por último, a Veja ignorou o dever de abrir espaço para o “outro lado” na edição de 16/05/2007, publicando apenas oito cartas de leitores favoráveis à sua posição e jogando no cesto todas as contrárias. E sepultou o assunto de vez na edição de 23/05/2007, alheia à indignação dos ex-presos políticos e suas famílias, vítimas da ditadura e cidadãos com espírito de justiça, expressa em dezenas de mensagens encaminhadas à redação.
O patrimônio mais valioso para qualquer publicação é a credibilidade, cuja perda logo desencadeia a debandada de leitores e anunciantes. Temo, Sr. Diretor de Redação, que esse processo já esteja avançado na Veja, após ter passado boa parte de 2005 tentando alavancar o impeachment do presidente Lula e boa parte de 2006 tentando impedir sua reeleição, numa atuação que, independentemente da justeza ou não dos fins perseguidos, atropelou de forma flagrante os princípios jornalísticos.
Se sua revista quer se tornar um veículo partidário como o Hora do Povo, que o faça. Tendo, pelo menos, a decência de informar antes os leitores, para que eles deixem de ser enganados como estão sendo agora, ao procurarem informação isenta nas páginas da Veja.
CELSO LUNGARETTI
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Veja O ABUSO DE PODER DA GRANDE...
...IMPRENSA CONTRA UM PEQUENO JORNAL
Celso Lungaretti (*)
Uma batalha de opinião pública contra a revista Veja está sendo travada pelos ex-presos políticos, suas famílias, amigos e cidadãos imbuídos de espírito de justiça. Mas, longe de esgotar-se na luta para que os veteranos da resistência à ditadura recebem tratamento digno por parte da grande imprensa, o episódio encerra muitas lições, justificando uma reconstituição e abordagem mais aprofundada.
Tudo começou quando o colunista da Veja Diogo Mainardi foi condenado a indenizar o ex-guerrilheiro, jornalista e atual ministro da Comunicação Social Franklin Martins, por tê-lo caluniado.
Inconformado, Mainardi dedicou sua coluna semanal na Veja de 25/04/2007 à tentativa de desmoralizar a sentença, inclusive alegando que um antigo assessor de Lula teria publicado uma nota no Folha OnLine em que antecipava a decisão do juiz. E fez uma comparação revoltante: “Eu sou o Bacuri do petismo”.
Martírio interminável – Para quem não sabe, sua referência é a um dos episódios mais chocantes dos anos de chumbo. Eduardo Leite, o Bacuri, comandante de um pequeno grupo de resistência denominado Rede Democrática, foi preso no dia 21 de agosto de 1970 e passou pelo Cenimar/RJ, DOI-Codi/RJ, por um centro de torturas clandestino no RJ, por um distrito policial paulistano, pela Oban e pelo Deops/SP – sempre sendo barbaramente torturado.
Quando suas torturas causaram a morte de Joaquim Câmara Ferreira, a repressão noticiou que o aparelho desse dirigente da ALN teria sido delatado por Bacuri, e que este aproveitara a confusão para escapar. Enquanto isto, Bacuri estava preso no Deops, em condições tão lastimáveis que não conseguia nem manter-se em pé.
Sabendo que se tramava o assassinato de Bacuri, os outros presos montaram um esquema de vigia permanente. Assim, viram-no sendo arrastado da cela na madrugada do dia 27 de setembro, desfigurado e mutilado pelas torturas. De nada adiantaram os gritos e protestos desesperados em toda a ala.
A ditadura reconheceu oficialmente a morte de Bacuri no dia 8 de dezembro, para evitar que fosse um dos presos políticos trocados pelo embaixador suíço. Justificativa? Resistência à prisão. Seu corpo, além de hematomas, escoriações, cortes profundos e queimaduras, apresentava dentes arrancados, orelhas decepadas e os olhos vazados.
Garoto de programa – Uma afirmação tão pretensiosa e descabida como essa não poderia passar em branco. Ecoando a indignação de quantos sabem quem foi o Bacuri e quem é o Mainardi, o jornal do MR-8, Hora do Povo, publicou uma matéria com um trecho polêmico:
“Condenado com seus patrões da Veja a pagar 30.000 reais ao ministro Franklin Martins, em processo por calúnia, o garoto de programa Diego Mainardi houve por bem se auto-intitular ‘o Bacuri do petismo’. Bacuri foi martirizado por 109 dias seguidos no Deops e perdeu a vida em 1970 por negar-se a revelar aos algozes informações que pudessem prejudicar o andamento da luta revolucionária contra a ditadura. Foi um herói na plena acepção da palavra. Já o pequeno canalha perdeu apenas algum dinheiro. Sabemos o que o vil metal significa para certo tipo de pessoa. Ainda assim, ao que tudo indica ele está pedindo para perder algo mais. Pode ficar tranqüilo. Não faltarão almas pias para fazer a sua vontade”.
A reação da Veja veio em dose cavalar, na edição de 09/05/2007. O episódio foi tema tanto da coluna do Mainardi quanto de uma notícia, complementada por declarações de apoio ao ameaçado, arrancadas de várias celebridades ansiosas por continuarem nas boas graças da revista.
No subtítulo dessa notícia, a Veja acusou o MR-8 de ser “terrorista no passado” e no presente. E, no texto, acrescentou: “O MR-8 e a ALN foram duas das organizações esquerdistas que, sob a bandeira da luta contra o regime militar, promoveram seqüestros, roubos a banco e atos de intimidação".
Finalmente, na edição de 16/05/2007, a revista ignorou a minha mensagem de protesto, bem como a de todos os leitores indignados com a posição por ela assumida, publicando apenas oito cartas de leitores favoráveis a ela e ao Mainardi.
Desinformação e arrogância – A revista cometeu três graves pecados jornalísticos:
· publicar um texto informativo e um opinativo, na mesma edição, sobre o mesmo assunto e na mesmíssima linha, praticando antes proselitismo do que jornalismo;
· encampar, no espaço informativo, conceitos e terminologia da extrema-direita, que é apenas uma fração do espectro político, quando a obrigação da imprensa é tratar com equanimidade todas as frações, mantendo-se isenta e eqüidistante;
· não conceder espaço para o “outro lado”.
Ademais, o estardalhaço que a revista fez em torno de uma hipotética exortação ao assassinato de Diogo Mainardi nem de longe se justifica, se lermos com mais atenção a frase que lhe deu pretexto. Em nenhum lugar se afirma que o “algo mais” que Mainardi está sujeito a perder seja a vida. Por que não a liberdade? Afinal, um juiz de “alma pia” poderá concluir que, como criança pirracenta, ele calunia os outros por inconscientemente querer que os adultos lhe imponham limites...
O certo é que incitamento ao homicídio é uma acusação gravíssima, em termos legais. Por que a Veja e Mainardi não apresentaram queixa à Justiça? Simplesmente por estarem cientes de que nenhum juiz condenaria o Hora do Povo a partir de uma frase tão ambígua.
Então, tentou obter junto à opinião pública uma condenação moral do MR-8, num caso em que jamais conseguiria uma condenação judicial. Para mim, parece muito claro que se trata de um abuso de poder de uma grande revista contra um pequeno jornal.
Então, o protesto contra as más práticas jornalísticas da Veja, além de se constituir num desagravo aos combatentes e vítimas da ditadura militar, tem uma dimensão maior, ao ramificar-se com a eterna luta dos humildes e dos vilipendiados contra a arrogância dos poderosos.
* Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político.
Celso Lungaretti (*)
Uma batalha de opinião pública contra a revista Veja está sendo travada pelos ex-presos políticos, suas famílias, amigos e cidadãos imbuídos de espírito de justiça. Mas, longe de esgotar-se na luta para que os veteranos da resistência à ditadura recebem tratamento digno por parte da grande imprensa, o episódio encerra muitas lições, justificando uma reconstituição e abordagem mais aprofundada.
Tudo começou quando o colunista da Veja Diogo Mainardi foi condenado a indenizar o ex-guerrilheiro, jornalista e atual ministro da Comunicação Social Franklin Martins, por tê-lo caluniado.
Inconformado, Mainardi dedicou sua coluna semanal na Veja de 25/04/2007 à tentativa de desmoralizar a sentença, inclusive alegando que um antigo assessor de Lula teria publicado uma nota no Folha OnLine em que antecipava a decisão do juiz. E fez uma comparação revoltante: “Eu sou o Bacuri do petismo”.
Martírio interminável – Para quem não sabe, sua referência é a um dos episódios mais chocantes dos anos de chumbo. Eduardo Leite, o Bacuri, comandante de um pequeno grupo de resistência denominado Rede Democrática, foi preso no dia 21 de agosto de 1970 e passou pelo Cenimar/RJ, DOI-Codi/RJ, por um centro de torturas clandestino no RJ, por um distrito policial paulistano, pela Oban e pelo Deops/SP – sempre sendo barbaramente torturado.
Quando suas torturas causaram a morte de Joaquim Câmara Ferreira, a repressão noticiou que o aparelho desse dirigente da ALN teria sido delatado por Bacuri, e que este aproveitara a confusão para escapar. Enquanto isto, Bacuri estava preso no Deops, em condições tão lastimáveis que não conseguia nem manter-se em pé.
Sabendo que se tramava o assassinato de Bacuri, os outros presos montaram um esquema de vigia permanente. Assim, viram-no sendo arrastado da cela na madrugada do dia 27 de setembro, desfigurado e mutilado pelas torturas. De nada adiantaram os gritos e protestos desesperados em toda a ala.
A ditadura reconheceu oficialmente a morte de Bacuri no dia 8 de dezembro, para evitar que fosse um dos presos políticos trocados pelo embaixador suíço. Justificativa? Resistência à prisão. Seu corpo, além de hematomas, escoriações, cortes profundos e queimaduras, apresentava dentes arrancados, orelhas decepadas e os olhos vazados.
Garoto de programa – Uma afirmação tão pretensiosa e descabida como essa não poderia passar em branco. Ecoando a indignação de quantos sabem quem foi o Bacuri e quem é o Mainardi, o jornal do MR-8, Hora do Povo, publicou uma matéria com um trecho polêmico:
“Condenado com seus patrões da Veja a pagar 30.000 reais ao ministro Franklin Martins, em processo por calúnia, o garoto de programa Diego Mainardi houve por bem se auto-intitular ‘o Bacuri do petismo’. Bacuri foi martirizado por 109 dias seguidos no Deops e perdeu a vida em 1970 por negar-se a revelar aos algozes informações que pudessem prejudicar o andamento da luta revolucionária contra a ditadura. Foi um herói na plena acepção da palavra. Já o pequeno canalha perdeu apenas algum dinheiro. Sabemos o que o vil metal significa para certo tipo de pessoa. Ainda assim, ao que tudo indica ele está pedindo para perder algo mais. Pode ficar tranqüilo. Não faltarão almas pias para fazer a sua vontade”.
A reação da Veja veio em dose cavalar, na edição de 09/05/2007. O episódio foi tema tanto da coluna do Mainardi quanto de uma notícia, complementada por declarações de apoio ao ameaçado, arrancadas de várias celebridades ansiosas por continuarem nas boas graças da revista.
No subtítulo dessa notícia, a Veja acusou o MR-8 de ser “terrorista no passado” e no presente. E, no texto, acrescentou: “O MR-8 e a ALN foram duas das organizações esquerdistas que, sob a bandeira da luta contra o regime militar, promoveram seqüestros, roubos a banco e atos de intimidação".
Finalmente, na edição de 16/05/2007, a revista ignorou a minha mensagem de protesto, bem como a de todos os leitores indignados com a posição por ela assumida, publicando apenas oito cartas de leitores favoráveis a ela e ao Mainardi.
Desinformação e arrogância – A revista cometeu três graves pecados jornalísticos:
· publicar um texto informativo e um opinativo, na mesma edição, sobre o mesmo assunto e na mesmíssima linha, praticando antes proselitismo do que jornalismo;
· encampar, no espaço informativo, conceitos e terminologia da extrema-direita, que é apenas uma fração do espectro político, quando a obrigação da imprensa é tratar com equanimidade todas as frações, mantendo-se isenta e eqüidistante;
· não conceder espaço para o “outro lado”.
Ademais, o estardalhaço que a revista fez em torno de uma hipotética exortação ao assassinato de Diogo Mainardi nem de longe se justifica, se lermos com mais atenção a frase que lhe deu pretexto. Em nenhum lugar se afirma que o “algo mais” que Mainardi está sujeito a perder seja a vida. Por que não a liberdade? Afinal, um juiz de “alma pia” poderá concluir que, como criança pirracenta, ele calunia os outros por inconscientemente querer que os adultos lhe imponham limites...
O certo é que incitamento ao homicídio é uma acusação gravíssima, em termos legais. Por que a Veja e Mainardi não apresentaram queixa à Justiça? Simplesmente por estarem cientes de que nenhum juiz condenaria o Hora do Povo a partir de uma frase tão ambígua.
Então, tentou obter junto à opinião pública uma condenação moral do MR-8, num caso em que jamais conseguiria uma condenação judicial. Para mim, parece muito claro que se trata de um abuso de poder de uma grande revista contra um pequeno jornal.
Então, o protesto contra as más práticas jornalísticas da Veja, além de se constituir num desagravo aos combatentes e vítimas da ditadura militar, tem uma dimensão maior, ao ramificar-se com a eterna luta dos humildes e dos vilipendiados contra a arrogância dos poderosos.
* Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político.
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10.5.07
UM PERIGO CHAMADO VEJA
Celso Lungaretti (*)
No final de 1969, numa matéria-de-capa histórica, a Veja se posicionou contra o assassinato, sob tortura, do militante da VAR-Palmares Chael Charles Schreier. Como ilustração, uma gravura medieval mostrando os suplícios do tempo da Inquisição: a donzela-de-ferro, a roda, os ferros em brasa, etc. Marcou época.
Hoje, infelizmente, a Veja se entrega à mais rasteira demagogia, como na matéria "Um Perigo chamado MR-8", publicada na edição de 09/05/2007. A revista cometeu graves pecados jornalísticos em sua reação ao texto infeliz do jornal A Hora do Povo, que a um observador isento sugere menos uma uma exortação ao assassinato de Diogo Mainardi do que um gracejo malfeito: "...o pequeno canalha perdeu apenas algum dinheiro [ao ser condenado por caluniar Franklin Martins]. Sabemos o que o vil metal significa para certo tipo de pessoas. Ainda assim, ao que tudo indica, ele está pedindo para perder algo mais. Pode ficar tranqüilo. Não faltarão almas pias para fazer a sua vontade".
Logo no subtítulo, a Veja qualificou o MR-8 de "terrorista na ditadura", endossando um termo tendenciosamente aplicado pelos especialistas em guerra psicológica das Forças Armadas aos efetivos da resistência contra a ditadura que travaram a luta armada. Ou seja, a Veja encampou a propaganda enganosa da linha-dura militar de outrora e dos néo-integralistas atuais. Ficou na honrosa companhia de Brilhante Ustra...
Independentemente de que, hoje, só a extrema-direita insiste nessa terminologia falaciosa, há o fato de que o MR-8 foi aniquilado pela repressão em 1969 e nada tem a ver com os atuais detentores da sigla.
O MR-8 original ficou conhecido principalmente por ter em seus quadros o bancário Jorge Medeiros Valle (apelidado de o bom burguês), que desviou cerca de US$ 2 milhões para a guerrilha; e por haver planejado libertar presos políticos de uma ilha-presídio com um esquema mirabolante, que incluía mergulhadores.
Depois que seus integrantes foram presos, a repressão se vangloriou, pela imprensa, de ter acabado com o MR-8. Em represália, a Dissidência Universitária da Guanabara, ao participar junto com a ALN do sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, co-assinou o manifesto como MR-8.
O inusitado desse episódio fez com que ele ficasse na lembrança das pessoas... e, principalmente, dos jornalistas, claro. Então, a Veja não tem como ignorar que inexiste relação de continuidade entre o MR-8 original e o que hoje ela exageradamente acusa de ameaçar a vida de Mainardi.
Além do subtítulo indefensável, a Veja continuou ecoando a retórica das viúvas da ditadura no texto, ao afirmar que "o MR-8 e a ALN foram duas das organizações esquerdistas que, sob a bandeira da luta contra o regime militar, promoveram seqüestros, roubos a banco e atos de intimidação".
Em carta à redação da Veja, aprofundei essa questão, como ex-preso político que sou. Já houve tempo em que a ditadura afixava cartazes em logradouros públicos do País inteiro, com minha foto e meu nome, acusando-me falsamente de terrorista e assassino. É absolutamente inaceitável que continuemos a ser tratados dessa maneira em plena democracia. Então, espero que a revista tenha a decência de publicar esse desagravo, a mim e a todos os companheiros insultados por sua matéria:
"O regime militar foi fruto da usurpação do poder por um grupo direitista que vinha conspirando contra a democracia desde os anos JK e já fizera várias tentativas golpistas (a principal delas quando quase impediu a posse de João Goulart). Ao conseguir êxito em 1964, rasgou a Constituição e governou sob terrorismo de estado. Então, os heróis e mártires que ousaram enfrentar o arbítrio, em situação de terrível desigualdade de forças, nada mais fizeram do que exercer o direito de resistência à tirania, que nos foi legado pela civilização grega, tanto quanto a democracia.
"Os verdadeiros terroristas eram aqueles niilistas do século XIX que, incapazes de conduzir o povo à revolução, tentavam, com balas e bombas, criar o caos e impedir que a classe dominante governasse. Os movimentos de resistência ao nazi-fascismo e às ditaduras militares latino-americanos jamais quiseram criar o caos, mas sim conscientizar as massas e organizá-las para a derrubada dos tiranos.
"Os seqûestros de diplomatas serviram para salvar presos políticos da morte e das torturas mais atrozes. As expropriações de bancos, para sustentar militantes clandestinos nas condições de rigorosa clandestinidade. E nenhum ato de intimidação porventura cometido pelos idealistas (sempre há excessos em conflitos desse tipo) equivale à prática sistemática da tortura por parte dos militares, atingindo dezenas de milhares de brasileiros, ou à política de extermínio por eles adotada a partir de 1971, quando passaram a levar os resistentes aprisionados diretamente para centros clandestinos de tortura, nos quais os massacravam e depois executavam, dando sumiço até em seus restos mortais."
* Jornalista, escritor e ex-preso político, Celso Lungaretti é autor de "Náufrago da Utopia".
No final de 1969, numa matéria-de-capa histórica, a Veja se posicionou contra o assassinato, sob tortura, do militante da VAR-Palmares Chael Charles Schreier. Como ilustração, uma gravura medieval mostrando os suplícios do tempo da Inquisição: a donzela-de-ferro, a roda, os ferros em brasa, etc. Marcou época.
Hoje, infelizmente, a Veja se entrega à mais rasteira demagogia, como na matéria "Um Perigo chamado MR-8", publicada na edição de 09/05/2007. A revista cometeu graves pecados jornalísticos em sua reação ao texto infeliz do jornal A Hora do Povo, que a um observador isento sugere menos uma uma exortação ao assassinato de Diogo Mainardi do que um gracejo malfeito: "...o pequeno canalha perdeu apenas algum dinheiro [ao ser condenado por caluniar Franklin Martins]. Sabemos o que o vil metal significa para certo tipo de pessoas. Ainda assim, ao que tudo indica, ele está pedindo para perder algo mais. Pode ficar tranqüilo. Não faltarão almas pias para fazer a sua vontade".
Logo no subtítulo, a Veja qualificou o MR-8 de "terrorista na ditadura", endossando um termo tendenciosamente aplicado pelos especialistas em guerra psicológica das Forças Armadas aos efetivos da resistência contra a ditadura que travaram a luta armada. Ou seja, a Veja encampou a propaganda enganosa da linha-dura militar de outrora e dos néo-integralistas atuais. Ficou na honrosa companhia de Brilhante Ustra...
Independentemente de que, hoje, só a extrema-direita insiste nessa terminologia falaciosa, há o fato de que o MR-8 foi aniquilado pela repressão em 1969 e nada tem a ver com os atuais detentores da sigla.
O MR-8 original ficou conhecido principalmente por ter em seus quadros o bancário Jorge Medeiros Valle (apelidado de o bom burguês), que desviou cerca de US$ 2 milhões para a guerrilha; e por haver planejado libertar presos políticos de uma ilha-presídio com um esquema mirabolante, que incluía mergulhadores.
Depois que seus integrantes foram presos, a repressão se vangloriou, pela imprensa, de ter acabado com o MR-8. Em represália, a Dissidência Universitária da Guanabara, ao participar junto com a ALN do sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, co-assinou o manifesto como MR-8.
O inusitado desse episódio fez com que ele ficasse na lembrança das pessoas... e, principalmente, dos jornalistas, claro. Então, a Veja não tem como ignorar que inexiste relação de continuidade entre o MR-8 original e o que hoje ela exageradamente acusa de ameaçar a vida de Mainardi.
Além do subtítulo indefensável, a Veja continuou ecoando a retórica das viúvas da ditadura no texto, ao afirmar que "o MR-8 e a ALN foram duas das organizações esquerdistas que, sob a bandeira da luta contra o regime militar, promoveram seqüestros, roubos a banco e atos de intimidação".
Em carta à redação da Veja, aprofundei essa questão, como ex-preso político que sou. Já houve tempo em que a ditadura afixava cartazes em logradouros públicos do País inteiro, com minha foto e meu nome, acusando-me falsamente de terrorista e assassino. É absolutamente inaceitável que continuemos a ser tratados dessa maneira em plena democracia. Então, espero que a revista tenha a decência de publicar esse desagravo, a mim e a todos os companheiros insultados por sua matéria:
"O regime militar foi fruto da usurpação do poder por um grupo direitista que vinha conspirando contra a democracia desde os anos JK e já fizera várias tentativas golpistas (a principal delas quando quase impediu a posse de João Goulart). Ao conseguir êxito em 1964, rasgou a Constituição e governou sob terrorismo de estado. Então, os heróis e mártires que ousaram enfrentar o arbítrio, em situação de terrível desigualdade de forças, nada mais fizeram do que exercer o direito de resistência à tirania, que nos foi legado pela civilização grega, tanto quanto a democracia.
"Os verdadeiros terroristas eram aqueles niilistas do século XIX que, incapazes de conduzir o povo à revolução, tentavam, com balas e bombas, criar o caos e impedir que a classe dominante governasse. Os movimentos de resistência ao nazi-fascismo e às ditaduras militares latino-americanos jamais quiseram criar o caos, mas sim conscientizar as massas e organizá-las para a derrubada dos tiranos.
"Os seqûestros de diplomatas serviram para salvar presos políticos da morte e das torturas mais atrozes. As expropriações de bancos, para sustentar militantes clandestinos nas condições de rigorosa clandestinidade. E nenhum ato de intimidação porventura cometido pelos idealistas (sempre há excessos em conflitos desse tipo) equivale à prática sistemática da tortura por parte dos militares, atingindo dezenas de milhares de brasileiros, ou à política de extermínio por eles adotada a partir de 1971, quando passaram a levar os resistentes aprisionados diretamente para centros clandestinos de tortura, nos quais os massacravam e depois executavam, dando sumiço até em seus restos mortais."
* Jornalista, escritor e ex-preso político, Celso Lungaretti é autor de "Náufrago da Utopia".
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