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19.9.10

ALÉM DA CREDIBILIDADE, A 'FOLHA' PERDEU O SENSO DE RIDÍCULO

Na última 4ª feira (15), certo de que a Folha de S. Paulo continuaria escamoteando as boas práticas jornalísticas, postei e divulguei o artigo Caso Battisti: a 'Folha' driblará de novo o direito de resposta?.
Resumindo:
  • o jornal publicara na 2ª feira um panfletinho canhestro, de viés escrachadamente direitista, perpetrado por uma nada ilustre desconhecida para pressionar o presidente Lula a decidir de maneira injusta e indigna o caso da extradição do perseguido político italiano Cesare Battisti;
  • no mesmo dia o companheiro Carlos Lungarzo detonou tal falácia parágrafo por parágrafo, produzindo uma refutação exemplar e enviando-a à Folha lá pela hora do almoço;
  • o pasquim da  ditabranda  começou a enrolar o Lungarzo na própria 2ª e continuou na 3ª, com o editor de Opinião finalmente prometendo uma resposta... para a 5ª, quando o assunto estaria frio como um iceberg;
  • antes disto, na 4ª, publicou no Painel do Leitor uma refutação do advogado Barroso, fiel à sua prática de fornecer tribuna privilegiada para as piores aberrações e relegar as contestações à seção de leitores, que o Paulo Francis apropriadamente definia como "muro das lamentações";
  • cantei a bola no meu artigo, antecipando que este seria o pretexto utilizado pela Folha para não publicar o artigo do Lungarzo, negando-lhe o direito de resposta no mesmo espaço e com o mesmo destaque, como era praxe no jornalismo de verdade, mas deixou de sê-lo quando os jornais ficaram submetidos a banqueiros credores ou a filhinhos de patrões.
Errei: o pretexto que o editor de Opinião utilizou para tapar o sol com a peneira, desta vez, foi de que eu publicara o artigo do Lungarzo no meu blogue e, provavelmente, o espalhara pela minha rede...

Esperei até hoje para ver se a ombudsman, em sua coluna dominical, cumpriria seu dever de abordar este caso. Também se omitiu.

Então, só me resta dividi-lo com vocês.

É hilário constatar que, da forma como o editor de Opinião da Folha colocou a questão, euzinho fui colocado em pé de igualdade com o autoproclamado maior jornal do País: o que sai no blogue do Lungaretti, a Folha não publica.

Foi a homenagem que o vício prestou à virtude, pois, modéstia à parte, nos meus espaços se pratica um jornalismo inexistente na Folha desde os idos dos '70, quando tinha um diretor de redação de verdade, Cláudio Abramo.

Da mesma forma que o Gabeira e o Serra abdicaram da própria identidade, tornando-se o avesso do que eram, a Folha hoje não passa de um ex-jornal que virou mero  house organ  da direita golpista, obcecado em fabricar factóides políticos, no afã de fornecer munição eleitoral para tais e quais candidaturas em detrimento de outras.

Seu compromisso não é mais com a informação, e sim com a manipulação.

17.9.10

PAUTA GOLPISTA: 'FOLHA' PEDE QUE SE DÊ "PARADEIRO" NO LULISMO

Quando surgiam as mais escabrosas revelações sobre o esquema de corrupção montado por PC Farias, meus colegas de trabalho no Palácio dos Bandeirantes, alguns com décadas de atuação na imprensa governamental, eram unânimes em afirmar que o tesoureiro de Fernando Collor apenas fizera, de forma mais amadoresca, o que todos faziam: "Onde já se viu passar cheques a torto e a direito? Deveria pagar tudo em dinheiro vivo, como o daqui..."

Por conhecer a História deste país e saber muito bem como  aquilo que todos fazem  foi trunfo importante para os conspiradores que causaram a morte de Getúlio Vargas e derrubaram o governo legítimo de João Goulart, eu reintroduzi no debate político uma velha máxima do Paulo Francis: combate à corrupção é bandeira da direita.

Agora, talvez, a ficha caia para os companheiros que não concordaram comigo quando a bola da vez era Daniel Dantas -- o qual, como PC Farias, apenas dera bandeira ao fazer o que fazem todos os banqueiros (parasitas supremos do capitalismo), pois o maior crime de todos é a própria fundação do banco, como falou e disse Bertold Brecht.

Agora, foi só ser exposto um dos infinitos esquemas de corrupção existentes no Brasil e a mídia golpista já começou a espalhar sugestões veladas de golpe de estado, como faz a Folha de S. Paulo em seu editorial desta 6ª feira:
"Nesta hora em que as pesquisas de intenção de voto apontam para uma vitória acachapante da candidata oficial, mais do que nunca é preciso estabelecer limites e encontrar um paradeiro à ação de um grupo político que se mostra disposto a afrontar garantias democráticas e princípios republicanos de forma recorrente".
Estando a candidata oficial prestes a ser eleita de forma acachapante, qual o  paradeiro  que se poderá dar à ação do grupo político que o editorialista da Folha qualifica de delinquente contumaz?

Ora, se a afronta à democracia e à república vem sendo recorrente, depreende-se que o Legislativo e o Judiciário não estejam conseguindo encontrar tal  paradeiro.

Então, quem será o verdadeiro destinatário da conclamação do jornal da  ditabranda? Os fardados, que não têm a missão constitucional de serem instrumento de   paradeiro  nenhum, mas a direita sempre tenta convencer a agirem como tal?

Os precedentes levam a crer que sim...

De resto, espero que os companheiros de esquerda façam uma rigorosa autocrítica por terem, como eu sempre adverti, levado água para o moinho da direita, ao estimularem as Operações Satiagrahas e Leis da Ficha Limpa da vida, como se fossem meros pequeno-burgueses moralistas.

A posição de revolucionários deve ser sempre inequívoca, incisiva e didática: a corrupção é inerente ao capitalismo, que coloca a ganância e a busca do privilégio acima de todos os outros valores da vida social, então só será extinta quando o próprio capitalismo for extinto.

Estimular ilusões reformistas pode render votos e proporcionar pequenos ganhos políticos, mas implica cumplicidade com o anestesiamento da consciência das massas, ao incutir-lhes a esperança de que meros retoques na fachada salvarão um edifício cujos alicerces estão podres.

"Que suas palavras sejam sempre sim, sim, ou não, não, pois tudo o mais será sugerido pelo demônio", disse um santo medieval.

15.9.10

RABO PRESO, A 'FOLHA' SÓ NÃO TEM COM O LEITOR...

A Folha de S. Paulo, como o leopardo, não perde as pintas. Usa sempre os mesmos subterfúgios para esquivar-se de seguir as boas práticas jornalísticas.

Em 1994, o escritor Marcelo Paiva me fez acusação gratuíta e gravíssima na capa da Ilustrada e tive de brigar muito, apelando inclusive ao próprio diretor de redação, para que respeitassem integralmente o direito que o próprio manual de procedimentos do jornal me concedia: o de que fosse publicada minha réplica e, havendo tréplica, também um pronunciamento final.

Quiseram escamotear o último, alegando falta de espaço por causa da Copa do Mundo. A redação e a própria ombudsman da época tentaram sair por essa tangente. Quando cobrei do Otavinho Frias Filho a observância das normas do manual por ele introduzido, muito a contragosto, o jornal aquiesceu.

Só que, àquela altura, nenhuma das partes tinha fontes ou evidências irrefutáveis para lastrear suas afirmações. Acabou ficando minha palavra contra a do Paiva.

Dez anos e alguns meses depois, encontrei a prova de que necessitava -- um relatório confidencial de operações do II Exército -- e apelei à Folha, no sentido de que fosse esclarecido definitivamente o episódio, em benefício dos leitores e da minha honra.

Enrolaram-me  durante umas três semanas, incumbindo o diretor da sucursal do RJ de receber a minha versão e preparar uma matéria... só que ele sempre alegava ter algo mais urgente para fazer.

Finalmente, o grande historiador Jacob Gorender enviou carta ao Painel do Leitor da Folha, fazendo a autocrítica dele, Gorender, por haver acreditado na versão que me dava como delator da área de treinamento guerrilheiro em Registro, quando escreveu seu clássico Combate nas Trevas.

A Folha aproveitou a oportunidade para se livrar de uma obrigação que relutava em cumprir: comunicou-me que considerava a publicação da carta do Gorender como suficiente para reposicionar a questão, inteirando os leitores da nova evolução do caso.

Ou seja, Gorender fez sua autocrítica. E quanto à Folha, que me havia lançado uma pecha infame em espaço dos mais nobres (a capa do seu caderno de Variedades)? Não se manifestou, simplesmente. Pois, ter oferecido espaço à carta do Gorender não significava sequer que concordasse com a conclusão a que ele chegou..

Consultei advogados. Poderia pleitear judicialmente direito de resposta, mas eu estava em péssima situação financeira e nenhum se propôs a me representar de graça.

Na eventualidade de uma ação por danos morais ou coisa que o valha, o advogado, pelo menos, poderia atuar na esperança de receber parte substancial da indenização pleiteada. Mas, como já se haviam passado dez anos, meu direito tinha prescrito.

A HISTÓRIA SE REPETE?

Por que evoco isto?

Porque, aparentemente, a Folha voltou a proceder da mesmíssima maneira.

Publicou na 2ª feira (13) um artigo medíocre, engrossando o lobby que pressiona o presidente Lula a entregar Cesare Battisti à Itália.

Recebeu, lá pela hora do almoço, uma refutação parágrafo a parágrafo do nosso bom Carlos Lungarzo. Exercício incontestável do direito de resposta, partido de um respeitado professor acadêmico e principal representante da Anistia Internacional no Brasil.

Iniciou os negaceios, a  enrolação. Ante a insistência do Lungarzo, prometeu resposta para a 5ª feira (16).

Hoje (15), no Painel do Leitor, publicou mensagem do advogado de Battisti, Luís Roberto Barroso:
"O artigo (...) apresenta uma crítica ao governo federal e à sua política externa.

"Nesse contexto, defende a entrega de Cesare Battisti à Itália mais de 30 anos após os fatos relevantes.

"O STF autorizou a extradição por 5 votos a 4, transferindo a decisão final ao presidente da República. A autorização foi dada em uma hipótese rara de voto de Minerva a favor da acusação e contra o parecer do procurador-geral da República, que era pela validade do refúgio.

"Foi a primeira vez que um ato de refúgio foi anulado, decisão criticada por alguns dos principais juristas do país em carta ao presidente Lula.

"Cesare Battisti é um escritor pacato, que há muitos anos vivia na França com sua família até que o governo Berlusconi passou a persegui-lo. Foi condenado à revelia em um segundo julgamento, com base apenas em delações premiadas. No primeiro, nem sequer foi acusado. Em sua crítica, a articulista faz uma opção política e diz preferir a Itália à Venezuela, Cuba e Irã.

"Essa não é uma razão para mandar alguém para a prisão pelo resto da vida".
Gato escaldado, eu adivinho que a resposta ao Lungarzo amanhã será a mesma que eu recebi em 2004: "A Folha considera que a publicação da carta do Barroso já foi suficiente...".

Só que não foi: artigo se responde com artigo, no mesmo espaço e com tamanho equivalente.

Então, ofereço aos meus leitores a oportunidade de conhecerem a brilhante refutação do Lungarzo.

Se a Folha não fizer o mesmo com seus leitores, é porque não está, como eu, comprometida com o verdadeiro jornalismo.
ACOLHER BATTISTI É UMA ESCOLHA ÉTICA

Carlos Alberto Lungarzo (*)
Como simples mortal, nunca consegui, apesar dos muitos esforços, aprender a refinada linguagem dos juristas. Entretanto, sei o que é uma escolha ética: é escolher pela verdade. Por causa disso, desejo indicar que nas acusações contra Battisti há numerosas inverdades. Vejamos algumas:

No relatório da ext 1085 (versão publicada pelo próprio STF), p. 53 (ad calcem) diz: “Homicídio de LINO SABBADIN, perpetrado em Mestre, em 16.2.1979. Battisti, no interior do estabelecimento comercial de propriedade da vítima, desfechou-Ihe diversos tiros a queima-roupa”. Entretanto, a sentença do Tribunal de Júri de Milão, de 13.12.88, RG 49/84, diz, na página 448 (embaixo): “É significativa a comparação entre o retrato falado [...] e a foto de Giacomini”. Na pág. 678, §2 diz-se que “[Giacomini] tem admitido totalmente sua responsabilidade [...] relativo ao homicídio Sabbadin”.
Em nenhum documento italiano se diz que Sabbadin tenha recebido tiros de duas armas diferentes. Sempre se afirma que Giacomini atirou e que Battisti era escolta. (A cumplicidade de Battisti não foi provada, nem afirmada por Giacomini, mas isto é outra história). Portanto, onde teve Peluso uma fonte tão boa que é melhor que a sentença italiana? Por que ele inventou este fato?

Na matéria em apreço se diz que houve “oportunidade de defesa e impugnação”. Foi? Onde estão as provas? As procurações que os advogados Pelazza e Fuga usaram como se fossem de Battisti, foram falsificadas, como provou a historiadora e arqueóloga Fred Vargas. Como entendi que era necessária uma prova muito detalhada, fiz uma animação de mais de 50 frames, onde se demonstra passo a passo a forma em que esta falsificação foi feita. Está em numerosos sites e em meu blog, onde estão também todas as cópias dos documentos carimbados na França:

http://ocasodecesarebattisti.blogspot.com/search/label/FALSIFICA%C3%87%C3%95ES

A autora diz que a delação premiada é usada no Brasil. Não diz, porém, que mereceu muitos reparos dos melhores juristas e magistrados, entre eles Marco Aurélio de Mello e Menezes Direito, de ideologias muito diversas. Aos que dizem que Battisti foi terrorista sugiro ler a proposta de definição de novembro de 2004, da ONU, um órgão que pode ser considerado conhecedor do assunto.

“No episódio de que ora se trata, a única soberania não observada foi a italiana.” A ideia atual é que a soberania vale dentro das fronteiras de um país, no mar territorial, nas embaixadas, etc. O Planalto não está dentro de soberania do estado italiano. A lei nº 9.474/97 veda refúgio a autores de crimes considerados hediondos, mas, como disse a ministra Carmen Lúcia, esse conceito não existia na Itália na época (nem no Brasil).

O que chama minha atenção é a referência à ditadura castrista, e as soberanias cubanas, venezuelana e iraniana. Nós, militantes de Direitos Humanos, temos defendido Zapata e, obviamente Sakinheh, e sob nenhuma hipótese aceitamos que esses direitos possam ser violados sob qualquer pretexto. Este assunto nada tem a ver com o caso Battisti. O fato de que a autora inclua estas observações me faz pensar que seu objetivo tampouco é jurídico.

Aliás, me pergunto o seguinte: se eu fosse conivente com crimes contra os Direitos Humanos em Cuba e no Irã, isso significa que também deveria ser conivente com os mesmos crimes na Itália? Ou seja, uma injustiça apagaria as outras?

* Carlos Lungarzo é professor titular aposentado da Unicamp e membro de Anistia Internacional

14.9.10

REFLEXÕES MELANCÓLICAS SOBRE CUBA E A DEMISSÃO EM MASSA

Furacão Sobre Cuba é o título de um livro escrito em 1960 por Jean-Paul Sartre, que li quando começava a me direcionar para a política revolucionária. Fez-me admirar muito a ilha.

O filósofo existencialista francês se referia, claro, ao furacão que varrera Cuba no ano anterior, quando os guerrilheiros de Fidel e Che derrubaram o governo despótico e corrupto de Fulgêncio Batista.

Cinco décadas depois, um novo furacão está se desencadeando sobre Cuba, segundo notícia da Folha.com:
"Cuba anunciou nesta segunda-feira que vai cortar ao menos meio milhão de funcionários públicos até o começo do ano que vem, e reduzir as restrições a empreendimentos privados para ajudá-los a encontrar novos empregos. É a medida mais dramática já anunciada no governo de Raúl Castro para atenuar a grave situação econômica que enfrenta a ilha".
Bota dramáticidade nisso. Sendo a força de trabalho cubana de 5,1 milhões de cidadãos, 4,2 milhões dos quais a serviço do Estado, significa que quase 10% dos trabalhadores e 12% dos funcionários do setor estatal serão atingidos pelo passaralho "até o primeiro trimestre de 2011".

O comunicado do sindicato oficial, a Central de Trabalhadores de Cuba, é taxativo:
"Nosso Estado não pode e não deve continuar apoiando negócios, entidades produtivas e serviços com folhas de pagamentos inflacionadas, e perdas que prejudicam nossa economia são, em última instância, contraprodutivas, criando hábitos ruins e distorcendo a conduta do trabalhador".
Qualquer semelhança com a retórica adotada pelos países capitalistas nos funestos tempos de Reagan e Thatcher não é mera coincidência. Os poderosos sempre apresentam como necessárias e salutares as medidas que infelicitam os coitadezas.

Os quais são mais coitadezas ainda quando não têm sequer um sindicato que os defenda da guilhotina, digo,  do  enxugamento de quadros (ah, os eufemismos!).

E, para quem ficou surpreso com a recente alusão de Fidel Castro à ineficiência do modelo econômico cubano, vale lembrar que já a reconhecera em discurso proferido na Páscoa, quando sugeriu que fossem demitidos até 1 milhão de trabalhadores. Raul deixou pela metade.

Não vou repetir a argumentação do meu artigo A frase de Fidel e o besteirol do PIG. Apenas destacar que ficou novamente comprovada a impossibilidade de se construir o socialismo em países isolados, atrasados e asfixiados pelos inimigos. c.q.d.

Triste sina, a de nações como Cuba. Sob o capitalismo, relegavam-na a cassino, cabaré e bordel de luxo para ricaços estrangeiros.

Depois da revolução, confinada como pestilenta pelo embargo estadunidense, não conseguiu construir uma economia próspera. E ainda serve como espantalho para a propaganda burguesa: "Vejam como o comunismo empobrece um país!"...

Certo está Hugo Chávez: precisamos reerguer o movimento revolucionário em escala planetária -- não necessariamente por meio da 5ª Internacional que ele está lançando.

Mas, o caminho é esse mesmo.

12.9.10

A FRASE DE FIDEL E O BESTEIROL DO PIG

A grande imprensa brasileira saudou efusivamente a afirmação de Fidel Castro, de que o modelo econômico cubano não funcionaria (mais tarde relativizada por ele, sob a alegação de não era exatamente isto que queria dizer).

troféu PIG  coube a Suely Caldas que, em O Estado de S. Paulo, deitou falação sobre o que está muito além dos seus conhecimentos:
"A esperança de um mundo igual e justo, lançada por Karl Marx e Friedrich Engels no século 19, não logrou sucesso em nenhuma das experiências socialistas vividas ao longo do século 20. Entre outras razões de ordem econômica, também porque nunca conseguiram se sustentar sem a imposição de uma ditadura a subjugar uma população que ansiava por liberdade".
Até quando será invocado o santo nome de Marx em vão?

Ele jamais pregou a construção do socialismo em países isolados e atrasados.

Acreditava que, como consequência de suas próprias contradições (principalmente a apropriação individual do produto do trabalho coletivo), o capitalismo passaria a frear o desenvolvimento das forças produtivas, ao invés de o alavancar.

Então, em sua marcha para o progresso, a humanidade seria obrigada a evoluir para uma forma de organização econômica, política e social que libertasse as forças produtivas do jugo do lucro.

Ou seja, em termos simplificados, o contínuo crescimento da produção era limitado pelo fato de que os produtores, ao serem espoliados de uma parcela do resultado do seu labor, não tinham meios para adquirir tantos produtos quanto geravam.

Então, essa produção que excedia o poder aquisitivo dos consumidores era destruída (queimas de café para evitar a queda do preço no mercado, p. ex.) ou, por mecanismos mais sutis,  remanejada: a economia se voltava para atividades parasitárias ou para a indústria de guerra.

Ou seja, o peso descomunal que o setor financeiro adquiriu no capitalismo do século 20 foi uma forma de manter pessoas trabalhando para nada produzirem de útil, necessário ou válido. É a condenação mais gritante de um sistema putrefato, que mantém os homens a labutarem em vão, quando poderiam estar trabalhando muito menos e vivendo muito melhor, livres do tacão da necessidade e do estresse da competição encarniçada.

As duas guerras mundiais e os muitos conflitos localizados, idem. Em vez de se direcionar o esforço dos seres humanos para melhorar a existência dos seres humanos, passou-se a empregá-lo no seu extermínio.

Como alternativa, as grandes recessões periódicas que assolam o capitalismo até hoje.

Antes, a superprodução desembocava automaticamente na crise.

Depois, para permitir que os consumidores adquirissem aquilo que não podiam pagar, criaram-se mecanismos de crédito que resolvem o problema imediato, mas, como bola de neve, acabam gerando dívidas impagáveis à frente.

Até que essa economia artificial, fictícia, estoura como bolha de sabão.

Exatamente como Marx dizia, a contradição insolúvel do capitalismo engendrará crises cíclicas até que ele seja superado pela racionalidade econômica.

Elas podem não ocorrer mais a cada dez anos, mas continuam tão inevitáveis quanto antes.

Face a tal mostrengo, como ousa e jornalista empertigada criticar o socialismo real? Quem tem algo a dizer sobre ele somos nós, não ela.

REVOLUÇÃO MUNDIAL x SOCIALISMO NUM SÓ PAÍS

No princípio, os  profetas  apregoavam uma maré revolucionária que uniria e imantaria os proletários de todos os países, varrendo o planeta. É o que lemos no mais inspirado panfleto político que a humanidade já produziu, o Manifesto do Partido Comunista de 1848.

Levando em conta não só que os trabalhadores do mundo inteiro estavam irmanados pela sina de terem uma substancial parcela da riqueza que geravam (a mais-valia) expropriada pelo patronato, como também que a exploração capitalista havia subjugado países e culturas, submetendo proletários de todos os quadrantes a uma mesma lógica de dominação, os papas do marxismo profetizaram que o socialismo seria igualmente implantado em escala global, começando pelas nações de economias mais avançadas e se estendendo a todas as outras.

O movimento revolucionário foi, pouco a pouco, conquistado pela premissa teórica do internacionalismo, ainda mais depois que a heróica Comuna de Paris foi esmagada em 1871 pela ação conjunta de tropas reacionárias francesas com o invasor alemão. Se as nações capitalistas conjugariam suas forças para sufocar qualquer governo operário que fosse instalado, então os movimentos revolucionários precisariam também transpor fronteiras, para terem alguma chance de êxito – foi a conclusão que se impôs.

Outra, de consequências trágicas: a tese de que, como era desigual o ritmo com que as nações amadureciam para a experiência socialista, poderia se recorrer a uma ditadura momentânea do proletariado (já que a Comuna de Paris parecera ter sido derrotada por excesso de brandura) naquelas que se libertassem primeiramente, para resistirem ao capitalismo agonizante até que a revolução vencesse no mundo inteiro.

No entanto, a ditadura do proletariado deveria se tornar cada vez menos ditadura, tendo a função de preparar as condições para seu desaparecimento, por obsolescência.

Em 1917, surgiu a primeira oportunidade de tomada de poder pelos revolucionários desde a Comuna de Paris. E os bolcheviques discutiram apaixonadamente se seria válida uma revolução em país tão atrasado como a Rússia – uma verdadeira heresia à luz dos ensinamentos marxistas.

Para Marx, o socialismo viria distribuir de forma equânime as riquezas geradas sob o capitalismo, de forma que beneficiassem o conjunto da população e não apenas uma minoria privilegiada. Então, ele sempre augurara que a revolução mundial começaria nos países capitalistas mais avançados, como a Inglaterra, a França e a Alemanha.

Um governo revolucionário na Rússia seria obrigado a cumprir tarefas características da fase da acumulação primitiva do capital, como a criação de infra-estrutura básica e a industrialização do país. O justificado temor de alguns dirigentes bolcheviques era de que, assumindo tais encargos, a revolução acabasse se desvirtuando irremediavelmente.

Prevaleceu, entretanto, a posição de que a revolução russa seria o estopim da revolução mundial, começando pela tomada de poder na Alemanha. Então, alavancada e apoiada pelos países socialistas mais prósperos, a construção do socialismo na Rússia se tornaria viável.

Os bolcheviques venceram, mas seus congêneres alemães foram derrotados em 1918. A maré revolucionária acabou sendo contida e, como se previa, várias nações capitalistas se coligaram para combater pelas armas o nascente governo revolucionário. Mesmo assim, o gênio militar de Trotsky acabou garantindo, apesar da enorme disparidade de forças, a sobrevivência da URSS.

Quando ficou evidente que a revolução mundial não ocorreria tão cedo, a União Soviética tratou de sair sozinha da armadilha em que se colocara. Devastada e isolada, precisou criar uma economia moderna a partir do nada.

Nenhum ardor revolucionário seria capaz de levar as massas a empreenderem esforços titânicos e a suportarem privações dia após dia, indefinidamente. Só mesmo a força bruta garantiria essa mobilização permanente, sobre-humana, de energias para o desenvolvimento econômico. A tirania stalinista cumpriu esse papel.

A revolução nunca mais voltou aos trilhos marxistas. Como único país dito socialista, a URSS passou a projetar mundialmente seu modelo despótico, que encontrou viva rejeição nas nações avançadas. Nestas, as únicas adesões não se deveram à atuação política dos trabalhadores, mas sim às baionetas do Exército Vermelho, quando da vitória sobre o nazismo.

Tomada autêntica de poder houve em outros países pobres e atrasados, como a China, Cuba, Vietnã e Camboja. E todos repetiram a trajetória para o modelo autoritário do socialismo num só país stalinista.

AVANÇO TECNOLÓGICO x LETARGIA ECONÔMICA

Mas, a arregimentação autoritária da mão-de-obra só funcionou a contento na etapa da industrialização pesada.

Na segunda metade do século 20, a economia capitalista avançou noutra direção, a da sofisticação tecnológica, da miniaturização, da gestação sôfrega de novas manias consumistas. Informática, biotecnologia, novos materiais, novos processos.

O avanço movido a ganância, com base no talento individual, na pesquisa e na tecnologia, derrotou a economia letárgica da URSS, tornada jurássica da noite para o dia, e sua  nomenklatura  arrogante que se reservava todos os privilégios.

Comprovava-se a máxima marxista segundo a qual são os países com forças produtivas mais desenvolvidas que determinam os rumos da humanidade.

O bloco soviético desabou como uma fruta apodrecida. Seus países voltaram ao capitalismo e à democracia burguesa.

A China conseguiu manter o sistema político autoritário, à custa de mesclar a economia estatizada com a iniciativa privada. Criou o pior dos mundos possíveis: algo assim como o milagre brasileiro, com a falta de liberdade sendo aceita em função das melhoras materiais proporcionadas pelo regime (e do espírito tradicionalmente submisso dos asiáticos).

Sobrou para os idealistas do século 21 a missão de recolocar a revolução nos trilhos, para que ainda seja cumprindo o sonho original de Marx: não apenas regimes híbridos em países isolados, mas sim o planeta inteiro transformado no “reino da liberdade, para além da necessidade”, em que:
  • cada cidadão contribua no limite de suas possibilidades para que todos os cidadãos tenham o suficiente para suprirem as suas necessidades e desenvolverem plenamente as suas potencialidades; e
  • o estado desapareça, com os cidadãos assumindo a administração das coisas como parte de sua rotina e a ninguém ocorra administrar os homens, já que eles serão, para sempre, sujeitos da sua própria História.
Engendrarmos uma onda revolucionária capaz de varrer o planeta é tarefa gigantesca? É.

Mas, em relação ao século 19, há uma mudança importante: ela se tornou muito mais necessária, como alternativa à regressão -- talvez, até, à própria aniquilação -- da humanidade.

Pois, salta aos olhos que, mantida a prioridade dos interesses individuais sobre os coletivos, a exaustão de recursos naturais e as catástrofes ecológicas reduzirão drasticamente os contingentes humanos, ou os exterminarão de vez.

A opção a fazermos, como disse Norman O. Brown, agora é entre a vida numa sociedade solidária e harmoniosa, ou a morte sob o capitalismo excludente e predatório.

11.9.10

COMPANHEIRO ALLENDE? PRESENTE! AGORA E SEMPRE!

Hoje é dia de reverenciarmos Salvador Allende, o  compañero presidente.

Que nunca pretendeu, no poder, ser nada além de outro militante revolucionário, como todos os seus companheiros de jornada na luta por um Chile com liberdade e justiça social.

E que, naquele terrível 11 de setembro de 1973, não aceitou curvar-se aos tiranos, preferindo a morte digna à fuga indigna que lhe ofereceram.

Então, as palavras que endereçou ao povo pelo rádio, na iminência do martírio, inspirarão para sempre os combatentes por um mundo redimido do pesadelo capitalista:
"Colocado numa transição histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E lhes digo: tenho certeza de que a semente que entregaremos à consciência de milhares e milhares de chilenos não poderá ser extirpada definitivamente. Trabalhadores de minha Pátria! Tenho fé no Chile e em seu destino. Outros homens se levantarão depois deste momento cinza e amargo em que a traição pretende se impor. Sigam vocês sabendo que, bem mais cedo do que tarde, vão abrir-se de novo as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor".

9.9.10

ALERTA: O BRASIL NÃO ESTÁ IMUNE AO GOLPISMO

Vamos falar sério.

A eleição de Dilma Rousseff está mais do que definida.

O escândalo da invasão de dados siligosos de pessoas próximas a José Serra não tem apelo eleitoral suficiente para alterar o resultado do pleito.

Nem mesmo para evitar que a eleição seja decidida no 1º turno.

Mas, dá combustível para tentativas golpistas. Dos mais inflamáveis.

O jogo não vai ser virado. A mesa, talvez.

Foi com que sonharam os articuladores do  Cansei!.  Quando o que seria sua  Marcha da Família com Deus Pela Liberdade só mobilizou 4 mil gatos pingados, decidiram recuar, à espera de oportunidade melhor.

Resignaram-se ao cumprimento integral do segundo mandato do presidente Lula.

Aceitarão, da mesma forma, o mandato da sucessora que Lula produziu, mais a perspectiva de que ele próprio conquiste outro (eu quase ia escrevendo  um quarto...) em 2014?

Têm oito anos de pão e água pela frente e um mote e tanto para tentarem reeditar 1964.

Daquela vez, o pretexto era a conspiração comunista internacional, o  ouro de Moscou, etc. Funcionou.

Em 2007, ergueram o espantalho do Fôro de São Paulo, Chávez, etc. Não funcionou.

Agora, o bicho-papão será o estado policial, tentacular, conforme proposto pela Veja em recente matéria de capa (foto acima) cujo texto e ilustração têm mais a ver com   sci-fi  do que com jornalismo...

Sejamos francos: existe organização popular suficiente para que a resistência a uma eventual quartelada seja mais eficaz do que em 1964?

Não. A ênfase do lulo-petismo tem sido a de ganhar eleições, não a de estruturar, fora e independentemente do Estado, o poder popular. Então, a tomada do governo pelas forças reacionárias o privaria da fonte principal de sua força e capacidade de reação.

Podemos confiar em que as Forças Armadas desta vez não cedam à tentação golpista?

O quadro é pior do que em 1964, quando a maioria dos militares queria respeitar a Constituição, um núcleo de conspiradores esforçava-se para assumir a liderança da caserna e havia remanescentes dos cabos e sargentos que heroicamente impediram a primeira tentativa de usurpação do poder, em 1961.

Agora, a maioria continua preferindo atuar profissionalmente, o núcleo de oficiais conspiradores existe (contando com expressivo contingente de nostálgicos da ditadura) e nada restou de espírito resistente nos escalões inferiores.

Então, o fiel da balança é o poder econômico.

A anemia do  Cansei!  se deveu à falta de apoio do grande capital, dos banqueiros, da agroindústria, da Rede Globo. Os senhores do Brasil consideravam que seus interesses estavam sendo bem servidos e não viam motivos para aventuras.

Nada indica que tenham mudado de opinião, haja vista a profusão de recursos com que abastecem a campanha de Dilma.

Mas, nada é definitivo na política e os cenários se modificam com muita rapidez.

Podemos dar como favas contadas que haverá cidadãos querendo derrubar o governo no início de 2011.

Não se produziu até agora o fato político capaz de alterar os humores dos verdadeiramente poderosos. 

Mas, tudo é possível. Há sempre um Gregório Fortunato para fazer uma monumental lambança, ou um Cabo Anselmo para incitar radicalização desmedida.

Então, seria sensato, talvez até providencial, se os dirigentes petistas tomassem duas providências:
  • apagarem o incêndio na Receita Federal, demitindo superiores que não zelaram como deveriam pelos dados sob sua guarda e apurando rigorosamente as responsabilidades desses aloprados que, com suas ações criminosas e estúpidas, acabaram servindo como inocentes úteis para a arregimentação das forças inimigas;
  • passarem a se preocupar um pouco menos com a eleição, que marcha a contento, e um pouco mais com a sustentação do resultado que sairá das urnas.
Outubro não é preocupante. A incógnita são os meses seguintes.

6.9.10

OU FICAR A PÁTRIA LIVRE OU MORRER PELO BRASIL

Hinos nacionais não são prioritários para quem quer construir um Brasil diferente, não representações simbólicas diferentes do Brasil atual.

Mas, a cada 7 de setembro, aumenta minha inveja dos franceses, que têm um eletrizante, enquanto somos obrigados a nos contentar com uma marcha mais apropriada para banda (sua destinação original), embalando versos rococós que mais da metade dos brasileiros não consegue decorar e, provavelmente, nem um décimo entende.

A Marselhesa foi composta por um oficial do exército francês e músico autodidata, para encorajar os soldados que combateriam os austríacos em 1792. Originalmente, era o Canto de Guerra para o Exército do Reno. Adotado pelas tropas revolucionárias e pelo povo, espalhou-se por todo o país e foi oficializada como hino nacional em 1795.

Imagens fortíssimas: o estandarte ensanguentado erguido contra a tirania, para evitar que déspotas vis se tornassem os mestres do destino dos franceses; os cidadãos chamados à luta para combater ferozes soldados estrangeiros que vinham degolar seus filhos e suas esposas.

E o refrão de arrepiar:
"Às armas, cidadãos,
Formai vossos batalhões!
Marchemos, marchemos!
Que um sangue impuro
Irrigue os nossos campos arados!"

Enquanto isso, por aqui o sol da liberdade teria brilhado como consequência do brado retumbante de um príncipe estrangeiro que resolveu mudar sua devoção sabe-se lá se por razões mais profundas ou por mero pragmatismo político; afinal, uma das cartas que o levaram a soltar o grito do Ipiranga foi a da esposa, Maria Leopoldina, advertindo-o de que "o pomo está maduro, colhe-o já, senão apodrece".

O chamado Hino da Independência é bem mais viril e altaneiro, não tanto pela música que D. Pedro I teria composto algumas horas depois do grito, mas em razão dos versos de Evaristo da Veiga, professor que simpatizava com os poetas da Inconfidência Mineira.

Não há nada, no Hino Nacional inteiro, com impacto remotamente equiparável ao deste refrão:
"Brava Gente Brasileira
Longe vá, temor servil;
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil!
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil!"
Traduzem o calor e as paixões do momento: Evaristo os compôs antes mesmo do grito, em agosto de 1822. Uma de suas mutações acabou se casando com a moldura sonora de D. Pedro I.

Já a letra de Osório Duque Estrada só foi acoplada ao Hino Nacional em 1909, depois de vencer um concurso realizado três anos antes. Do membro nº 2 da Academia Brasileira de Letras só poderia mesmo esperar-se algo tão artificial, rebuscado e flácido.

Idéia maluca: o Geraldo Vandré de outrora seria o nome ideal para compor um Hino Nacional que realmente fizesse jus ao povo brasileiro. Uma síntese de "Disparada", "Caminhando" e "Paixão Segundo Cristino".

Não sei se o Vandré atual daria conta do recado.

AS 'ELEIÇÕES TIRIRICA' E A CENSURA

Disse e repito: a propaganda eleitoral gratuíta é uma das piores pragas da democracia brasileira. Leva os eleitores a escolherem candidatos como quem opta entre uma marca e outra de sabão em pó.

Se já não bastasse a falsidade intrínseca das imagens que os marqueteiros impingem dos candidatos e da situação nacional, ainda existe uma burocracia tacanha a exercer a mais grotesca censura que este país presencia desde a ditadura militar.

A última das Donas Solanges (*) do Tribunal Superior Eleitoral foi vetar um vídeo em que a coligação demotucana criticava o apoio de Fernando Collor a Dilma Rousseff.

Ora, trata-se mesmo um  calcanhar de Aquiles  da Dilma e os adversários têm todo direito de jogar-lhe na cara que Collor não é companheiro de jornada aceitável para quem, nos  anos de chumbo, confrontou bravamente os cães de guarda do coronelismo político.

O pior de tudo foi o pretexto ridículo para impedirem que haja, enfim, algum debate político na propaganda gratuita: o de que a lei eleitoral, verdadeiro monstro de Frankenstein, veda "a utilização de gravações externas na veiculação de inserções".

Se a coligação governista reagisse exibindo as truculências da tropa de choque da PM no campus da USP durante o governo de Serra, provavelmente os advogados tucanos também descobririam qualquer pêlo em ovo para requisitarem os préstimos dos neocensores.

Assim, graças aos que criam leis com aberrante viés autoritário e aos que as aplicam obtusamente, estamos assistindo a eleições despolitizadas, desmobilizadoras, deseducadoras e tediosas ao extremo.

São as   eleições Tiririca, que rimam com titica.

* Solange Teixeira Hernandes, diretora do Departamento de Censura Federal no período1980/84, tornou-se símbolo dos censores do regime militar.

2.9.10

O RECEITAGATE E GREGÓRIO FORTUNATO

A comunicação empresarial é uma atividade que nunca me agradou, mas que fui obrigado a exercer durante muitos anos, por falta de opção melhor.

Tive de ajudar a se lançarem produtos duvidosos, colocar palavras inteligentes na boca de empresários tacanhos e administrar as crises que sua atuação irresponsável lhes acarretava.

Particularmente doloroso foi haver desempenhado papel de destaque na salvação de uma empresa ameaçada por uma onda de desconfiança no mercado (nossa agência ganhou até prêmio internacional por tal  proeza) e, um ano mais tarde, assistir à sua falência fraudulenta, que lesou milhares de investidores.

Acabei contribuindo para que tivesse esse ano de sobrevida, sem imaginar que o resultado concreto dos meus esforços seria dar-lhe condições para depenar mais otários ainda e preparar melhor o  pulo do gato. Ingenuidade mata.

Algo que eu aprendi na administração de crises -- tanto daquelas em que atuei como profissional, como das muitas que permearam minha militância -- é: empresa, partido ou governo que se coloca numa situação vulnerável, deve sair dela imediatamente e com transparência, caso contrário maximizará as perdas.

Eu apostaria que o vazamento de dados sigilosos da Receita Federal acerca de seus adversários políticos não teve a anuência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da candidata Dilma Rousseff, de ministro ou personagem do alto escalão.

Mas, aloprados cometeram esse asnático crime e têm de ser punidos. Como dizia o Paulo Francis, quem é burro pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue.

Se cauterizar a ferida o quanto antes, o Governo não sairá incólume, mas vai evitar que supure até a eleição, talvez mudando o resultado que se delineia neste instante, talvez fornecendo pretexto para  viradas de mesa.

Vale lembrar: a lambança de um guarda-costas mais realista do que o rei (Gregório Gortunato, que tentou matar o líder udenista Carlos Lacerda), capitalizada ao máximo pelos eternos  golpistas, quase levou à destituição de Vargas em 1954. Para frustrar-lhes os planos, teve de sacrificar a vida.

Não há solução indolor para o  Receitagate. E, a cada vacilo e negaceio, o custo político aumentará.

Quem avisa, amigo é.
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